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Classificamos como epigráficos os gêneros que têm em comum a característica geral de se encontrarem gravados (com diversas técnicas e em vários materiais) em monumento, estátua, edificação e em uma diversidade de objetos (não cemiteriais).
São gêneros que encontramos na esfera institucional e também na religiosa. As distintas relações que se estabelecem entre gênero e cada uma dessas esferas, porém, determinam tipos diferentes de gêneros epigráficos. Passemos a distingui-los por suas características específicas.
Chamamos de epígrafe doutrinária um gênero próprio da esfera religiosa que é usado em diversas igrejas como parte de suas pinturas e decorações interiores e exteriores, bem como compondo a estética de estátuas de santos. É um gênero cujos enunciados recorrentemente são constituídos de diálogos com orações, hinos, hagiografias e passagens da Vulgata, com tema, estilo e composição que configuram unidades de sentido místicas e com a função enunciativa de divulgar preceitos religiosos e/ou identificar a filiação doutrinária de uma igreja, sendo comum uma forma de interlocução com ênfase na fé cristã.
Vejamos alguns exemplos desse gênero.
DOMUS MEA / DOMUS ORATIONIS EST (em português: A minha casa é casa de oração) é um enunciado com forma de inscrição em latim que cita um versículo da Vulgata – Evangelium Secundum Lucam 19, 46: “Et erit domus mea domus orationis” – e que pertencente ao gênero epígrafe doutrinária. Ele está localizado em uma parede lateral exterior da Basílica de Nossa Senhora da Penha, em Recife-PE.
No forro da Igreja do Convento de Santo Antônio, em João Pessoa-PB, encontramos outros exemplos de epígrafes doutrinárias com forma textual de inscrição em latim: IESU DULCIS MEMORIA (Doce lembrança de Jesus), ET MACULA NON EST IN TE (E não há mácula em ti), STIGMATA DNI25
IESU IN CORPORE MEO PORTO (Trago os estigmas do Senhor Jesus em meu corpo) e TERRA IN QUA HAEC RELIGIO STAT, TERRA SANCTA EST (A terra em que esta religião conserva-se é santa), nas quais entrevemos projetos enunciativos de aproximação da imagem de São Francisco de Assis à imagem de Jesus Cristo.
Figura 4 – Epígrafe doutrinária no forro da Igreja do Convento de Santo Antônio, em João Pessoa-PB. Fonte: Acervo particular de Francisco de Freitas Leite.
Pertence também ao gênero epígrafe doutrinária o enunciado gravado no forro da igreja de São Francisco de Ouro Preto (MG), que encontramos a partir do estudo realizado por Assis Sobral (2013, não paginado): EGO MATER PULCHRAE DICTIONIS, & TIMORIS, & AGNITIONIS, & SANCTAE SPEI. DEO GRATIAS (em português: Eu sou a mãe do belo amor, do temor, do conhecimento e da santa esperança. Graças a Deus), cuja forma textual (a inscrição em latim, na qual, a nosso ver, a palavra dilectionis, por um lapsus calami, foi gravada dictionis) cita a Vulgata, Liber Ecclesiasticus 24, 24: “Ego mater pulchrae dilectionis et timoris et agnitionis et sanctae spei”.
Quando, porém, na esfera religiosa, a inscrição em latim encontra-se na fachada principal da igreja, é muito comum que ela textualize os gêneros que denominamos: epígrafe nuncupatória (gênero marcado pela característica específica de ser usado com a função de dedicar a igreja ao orago, ou seja, ao santo padroeiro), epígrafe de gratidão (gênero cuja característica específica marcante é a função de externar um agradecimento a alguém ou alguma instituição) ou epígrafe de datação (gênero cuja função de registrar a data da construção da edificação é a sua principal característica específica).
Uma epígrafe nuncupatória com forma de inscrição em latim é, por exemplo, a que encontramos na fachada da igreja de São Luís Gonzaga, na cidade de São Paulo-SP: DEO IN HONOREM SANCTI ALOISII – que pode ser traduzida para o português como: A Deus em honra de Santo Aloísio (São Luís Gonzaga) –, através da qual se diz ao povo em louvor de que santo aquela igreja foi erigida.
Figura 5 – Epígrafe nuncupatória na igreja de São Luís Gonzaga, em São Paulo-SP. Fonte: Acervo particular de Francisco de Freitas Leite.
Em Recife-PE, na Basílica de Nossa Senhora da Penha, encontramos um exemplo de epígrafe de gratidão: EX MUNIFICENTIA SENATUS POPULIQUE BRASILIENSIS, que podemos traduzir para o português como: Da generosidade do senado e do povo brasileiro.
Figura 6 – Epígrafe de gratidão na fachada principal da Basílica de Nossa Senhora da Penha, em Recife-PE.
Fonte: Acervo particular de Francisco de Freitas Leite.
Na Igreja Matriz de Oeiras-PI, encontramos um exemplo de epígrafe de datação: HAEC EST DOMUS DOMINI FIRMITER AEDIFICATA ANNO DOMINI 1733, que traduzimos para o português como: Esta casa do Senhor foi firmemente edificada no ano (do Senhor) de 1733.
Figura 7 – Epígrafe de datação na fachada da Igreja Matriz de Oeiras-PI. Fonte: Acervo particular de Francisco de Freitas Leite.
Vejamos agora dois objetos da Roma pré-clássica que revelam uma antiga prática dos artífices que consistia em gravar uma inscrição em que se lê o nome do artesão que produziu um manufato e o da pessoa para quem este foi produzido, em um estilo de linguagem anímico – uma construção em que o objeto como que fala, dizendo: tal artesão me fez para tal proprietário – que caracterizará muitos enunciados do gênero que, pela característica específica de ter a função enunciativa de marcar (ou registrar) o artífice e/ou o proprietário de um objeto, chamaremos de epígrafe-marca.
A Fíbula Prenestina – que Bassetto (2005, p. 89) aponta como sendo datada aproximadamente do ano 600 a.C., mas cuja autenticidade é contestada por Desbordes (1995, p. 29) – é uma espécie de broche de ouro encontrada em uma escavação arqueológica no século XIX perto da antiga cidade de Preneste (atualmente Palestrina) na região do Lácio. Esse broche traz a inscrição MANIOS MED FHEFHAKED NVMASIOI (adaptada com caracteres modernos), que em latim clássico corresponderia a MANIVS ME FECIT NVMERIO, cuja tradução aproximada para o português seria: Mânio me fez para Numério.
Figura 8 – A Fíbula Prenestina.
Fonte: <http://www.imperio-numismatico.com/t6698-italia-y-la-fibula-preneste>. Acesso em: 14 jun. 2012.
O Vaso de Quirinal, espécie de jarro composto de três vasilhas de terracota com uma vasilha menor no centro, descoberto em 1880 no Monte Quirinal em Roma, que Desbordes (1995, p. 21) data como sendo do início do século V a.C., possui uma inscrição em latim arcaico com três linhas, cuja tradução ainda é motivo de controvérsia. Na terceira linha, está gravado o seguinte: DVENOSMEDFECEDENMANOMEINOMDVENOI (adaptado com caracteres modernos), em que entendemos estar dito algo em torno de: Um homem bom me fez para outro homem bom.
Figura 9 – O Vaso de Quirinal.
Encontramos um exemplo do gênero epígrafe-marca com forma textual de inscrição em latim em um sino que, segundo Carvalho Jr. (2010, p. 79), foi trazido de Portugal na década de 1810. Tal epígrafe-marca é esta: JOANNES FERREIRA LIMA ME FECIT BRACHARAE, que pode ser interpretada como: João Ferreira Lima me fez para Braga; ou então: João Ferreira Lima me fez em Braga (neste caso, sendo indicado apenas o nome do artesão e, em seguida, o do lugar, Braga – antiga Bracara Augusta, onde o sino foi produzido).
Figura 10 – Epígrafe-marca em um sino, em Oeiras-PI. Fonte: Acervo particular de Francisco de Freitas Leite.
Outro gênero epigráfico é a epígrafe de afinidade religiosa. Típico da esfera institucional, este gênero aparece comumente gravado em monumentos públicos; suas características específicas são: (i) a função enunciativa de identificar a afinidade religiosa a que se liga um governo ou uma administração pública e (ii) um tipo de relação interlocutiva em que tal função enunciativa é escamoteada na forma de uma homenagem a um santo, da comemoração de um milagre etc. São exemplos de epígrafe de afinidade religiosa: AVE GRATIA PLENA (Ave [Maria], cheia de graça), localizada no Arco de Nossa Senhora de Fátima, em Sobral-CE, e PANIS ANGELICUS FIT PANIS HOMINUM / MANDUCAT DOMINUM PAUPER SERVUS ET HUMILIS / O SALUTARIS HOSTIA QUAE COELI PANDIS OSTIUM (que traduzimos para o português como: O pão angélico torna-se o pão dos homens / O pobre e humilde servo comunga o Senhor / Ó salutar hóstia, tu que mostras a porta do céu), três epígrafes do monumento erigido em comemoração ao Congresso
Eucarístico de 1935, na Praça Dom João da Mata, em Cajazeiras-PB, cujos textos em latim citam trechos de dois hinos, Sacris solemniis e Verbum supernum, escritos por São Tomás de Aquino.
Figura 11 – Epígrafe de afinidade religiosa na Praça Dom João da Mata, em Cajazeiras-PB. Fonte: Acervo particular de Francisco de Freitas Leite.
Além desses gêneros epigráficos com forma textual de inscrição em latim que compõem diversas paisagens discursivas urbanas do Brasil, consideramos relevante (principalmente para o propósito de nosso estudo no contexto do Cariri cearense) tratar de outros gêneros epigráficos que encontramos em nossa cultura ocidental.
Um deles é a epígrafe honorífica, um gênero próprio da esfera institucional que tem entre suas características específicas a função de honrar, memorar, comemorar ou solenizar alguém ou alguma causa. Seu uso remonta a Antiguidade romana. Um exemplo deste gênero está gravado no Panteão (construído em 27 a.C, destruído por um incêndio em 80 d.C., mas reconstruído em 125 d.C.), que traz em sua fachada a inscrição: M.AGRIPPA.L.F.COS.TERTIVM.FECIT, que significa em português: Construído por Marco Agripa, filho de Lúcio, cônsul pela terceira vez.
Figura 12 – O Panteão.
Fonte: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/especial/1427_adriano/page3.shtml>. Acesso em: 18 dez. 2012.
Em Évora (Portugal), há um monumento em memória dos combatentes daquela cidade que morreram durante a I Guerra Mundial. Nele há uma epígrafe honorífica com forma textual de inscrição em latim: FILIIS / PRO PATRIA / CAESIS / EBORA, que em português pode ser traduzida por: De Évora, aos filhos mortos pela pátria.
Outros dois gêneros epigráficos tradicionais em nossa cultura ocidental, são os que denominamos epígrafe de lugar sagrado e epígrafe votiva. Consideremo-los, inclusive, buscando elementos de sua história.
No Cipo do Fórum (um sítio arqueológico descoberto em 1899 no Fórum de Roma), também chamado Lapis Niger (Pedra negra), estão preservadas inscrições datadas aproximadamente do final do século VI a.C., época em que a língua latina apresentava muitas características que a aproximavam da língua etrusca e da grega, como demonstram os caracteres alfabéticos arcaicos e o sistema de escrita bustrofédon com que tais inscrições foram feitas.
Figura 13 – Dois lados da Lapis Niger.
Fonte: <http://www.veja.it/2011/02/04/il-lapis-niger-pietra-tombale-di-romolo/>. Acesso em: 29 jan. 2013.
Uma das possíveis transcrições (adaptada com caracteres e sistema de escrita modernos) é esta: QVOI HON [...] / [...] SAKROS ES / ED SORD [...] / [...] OKA FHAS / RECEI IO [...] / [...] EVAM / QVOS RE[...] / [...]KALATO / REM HAB[...] / [...]TOD IOVXMEN / TA KAPIAD OTAV[...] / [...]M ITER PE[...] / [...]M QVOI HA / VELOD NEQV[...] /[...]IOD IOVESTOD / LOVQVIOD QO[...]. São inscrições de natureza religiosa pertencentes ao gênero discursivo que identificamos como epígrafe de lugar sagrado (na falta de denominação mais apropriada), já que uma das suas características específicas é a função de destacar o caráter sagrado de um lugar. Neste caso específico das inscrições da Lapis Niger, seu autor também parece estar proibindo a violação do lugar ou amaldiçoando a sua profanação, talvez porque ali estivesse enterrado um monarca, quem sabe o próprio Rômulo, fundador de Roma; observemos que o trecho SAKROS ES / ED, por exemplo, pode ser interpretado em latim clássico como SACER SIT, que em português pode significar: Que seja inviolável ou Que seja amaldiçoado.
Em nossos dias, este gênero discursivo, típico da esfera religiosa e comumente usado dentro de igrejas, além da função enunciativa de destacar o caráter sagrado de lugares, tais como altares e sacrários, tem como característica específica um tipo de relação interlocutiva em que o sujeito locutor se constitui como autoridade.
Em nossa cultura ocidental, muito extenso é o legado de inscrições votivas que encontramos em diversos suportes, tais como altares, colunas, tábuas, quadros e pedras. Identificamos tais inscrições como formas textuais do gênero que, pela característica específica de ter a função enunciativa de ofertar um voto ou pagar uma promessa a um deus (ou a um santo, no caso das mais recentes), denominamos de epígrafe votiva. Dessas inscrições em latim, existem preservadas várias ainda da época da Roma republicana, outras do período imperial e muitas datadas da Idade Média espalhadas pela Europa. Nesta ara, datada do século II d.C., encontrada em 1944 durante as obras de abertura da Avenida Marechal Gomes da Costa, em Lisboa (Portugal), um certo Marco Cecílio mandou fazer a inscrição por um voto a um certo deus Kassaecus26:
Figura 14 – Epígrafe votiva do século II d.C.
Fonte: <http://www.museudacidade.pt/Coleccoes/Epigrafia/Paginas/Ara-votiva-II.aspx>. Acesso em: 22 dez. 2012.
Nela lemos: KASSAECO / VOTVM ANIMO LVBENS / M·CAECILIVS / CAENO·S, que assim traduzimos para o português (considerando o M como abreviatura de Marcus e o S como de solvit): Marco Cecílio Cenão cumpre de bom grado o voto (a promessa) a Kasseco.
No contexto brasileiro, na esfera religiosa, é muito comum ainda, em nossos dias, ser usado esse gênero discursivo gravado em ex-votos, como, por exemplo, em tábuas votivas27; porém nenhuma das que encontramos era textualizada em latim.