OTURUM BAŞKANI:
3.BULGULAR VE YORUM
Classificamos como epitáficos os gêneros que têm em comum a característica geral de serem gravados em suportes cemiteriais, tais como: lápide tumular, parede de jazigo e portão de cemitério.
No Brasil, na esfera funerária, encontramos, com muita frequência, três gêneros epitáficos distintos de tradição milenar: o epitáfio memorial, o epitáfio-colóquio e o epitáfio de consolação.
O gênero que denominamos epitáfio memorial – que tem entre suas características específicas a função enunciativa de preservar a memória do falecido, destacando geralmente sua filiação, seus feitos heroicos ou louváveis e os cargos políticos que exerceu – já era usado
na Roma Antiga. São exemplos desse gênero os Epitáfios dos Cipiões (sobrenome romano dos descendentes da gens Cornelia), que, em número de cinco, foram escritos em latim arcaico, quatro em versos saturninos e um em dístico elegíaco. O primeiro destes (transcrito em caracteres modernos a seguir), em saturnino, data de 272 a.C.: CORNELIVS LVCIVS SCIPIO BARBATVS GNAIVOD PATRE PROGNATVS FORTIS VIR SAPIENSQVE QVOIVS FORMA VIRTVTEI PARISVMA FVIT CONSOL CENSOR AIDILIS QVEI FVIT APVD VOS TAVRASIA CISAVNA SAMNIO CEPIT SVBIGIT OMNE LOVCANAM OPSIDESQVE ABDOVCIT, que em português pode ser traduzido como: Cornélio Lúcio Cipião Barbado, nascido de um pai valente, homem forte e sábio, cuja beleza foi igualada à virtude. Foi, entre nós, cônsul, censor e edil. Tomou a Taurásia e a Cisana, em Sâmnio. Submeteu toda a Lucânia e trouxe reféns (BARBOSA, 2013, não paginado).
Figura 1 – Sarcófago de Lúcio Cornélio Cipião Barbado.
Fonte: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/54/Cornelii-scipiois-vatikan-f.JPG>. Acesso em: 29 jan. 2013.
A inscrição INRI – acrossemia de IESVS NAZARENVS REX IVDAEORVM, ou seja, Jesus Nazareno, rei dos judeus –, tradicionalmente tida como colocada pelos soldados romanos sobre a cruz de Jesus Cristo, era, na verdade, uma espécie de paródia de epitáfios memoriais dos túmulos de pessoas nobres e ilustres.
No contexto brasileiro, o epitáfio memorial figura comumente em lápides de pessoas ilustres que deixaram obras à posteridade, como na lápide do túmulo de D. Marcos Antonio de Souza, que foi o XIII bispo do Maranhão, em que parte da inscrição está em latim: SOL(L)ICITUS PASTOR FUIT, AC SEMINARIUM URBIS, INSTITUIT MAGNIS OPIBUS,
AERE SUO, conforme encontramos no trabalho de Santana (2008a, p. 715). Uma tradução para o português dessa inscrição é: Ele foi um pastor cuidadoso e construiu o seminário da cidade com muitos esforços e à sua custa (com seu dinheiro).
Figura 2 – Detalhe da lápide do túmulo de D. Marcos Antonio de Souza. Fonte: Santana (2008a, p. 715).
Nos nossos dias, é comum encontrarmos este gênero de epitáfio em túmulos de religiosos localizados dentro de mosteiros, seminários e igrejas, pois até meados do século XX era muito comum serem realizados sepultamentos nesses locais (hoje isso só acontece em casos raros). No Mosteiro de São Bento em Olinda-PE, por exemplo, encontramos este epitáfio memorial: PAX / Fr. FIDELIS IKAS / QUI FIDELITER DOMINO SERVIVIT / NATUS IN MARKELSHEIM / DIE 4 DEC. 1891 / OBIIT OLINDAE DIE 28 NOV. 1969, isto é, Paz / Fr. Fidelis Ikas / que fielmente serviu ao Senhor / nascido em Markelsheim / no dia 4 de dezembro de 1891 / morreu em Olinda no dia 28 de novembro de 1969.
Outro gênero epitáfico, porém, é o que denominamos epitáfio-colóquio. Consideremo-lo a partir de sua história.
Na Roma antiga, acreditava-se que a atividade vital do morto continuava de certa forma debaixo da terra – Sit tibi terra levis (em português: Que a terra te seja leve), costumavam dizer os romanos nos rituais e cerimônias fúnebres –, por isso também as tumbas muitas vezes eram construídas em lugares movimentados, onde fosse fácil serem feitas oblações e para que os mortos não ficassem tão distantes dos vivos. O passo seguinte revela que era comum nessas tumbas existir um epitáfio-colóquio em que se simulava a comunicação entre mortos e vivos:
El que enterraran a los muertos en las orillas de sus concurridas calzadas, en lugar de en cementerios tranquilos, no era por parte de los romanos una muestra de falta de respeto hacia aquéllos. Al contrario, creían que, si los muertos no eran debidamente enterrados y cuidados, sus espíritus se les aparecerían y les llegarían a causar daños. Era muy importante proporcionar al difunto una tumba o un sepulcro, donde su espíritu pudiera tener una morada. Pero también se pensaba que el muerto quería estar cerca de los vivos. Hay una tumba que tiene una inscripción: “Veo y contemplo a todo el que va e viene de la ciudad”, y otra que dice: “Lolio (Lollius) ha sido colocado al borde del camino para que todos los transeúntes puedan decirle „Buenos días, Lolio‟”. (CAMBRIDGE UNIVERSITY, 1990, p. 113).21 Outros exemplos de enunciados do gênero epitáfio-colóquio da Roma Antiga são estes: “„Siste, viator‟ ou „Aspice, viator‟, que significam: „Detém-te, viajante‟ ou „Olha, viajante‟” (SANTANA, 2008b, p. 92), construídos, muitas vezes, à semelhança de uma admoestação do morto para os vivos.
No Brasil, em túmulos de pessoas sem grande notabilidade (ou de pessoas a cujos feitos, por algum motivo, não foram dados destaque), é muito comum o uso do epitáfio- colóquio, em que a concepção cristã da morte entendida não como um fim, mas como uma passagem para outra vida, mistura-se a um elemento da archaica do gênero, a sugestão de uma comunicação (interação) entre mortos e vivos, constituindo sua função enunciativa característica: tratar o morto como alguém que não desapareceu definitivamente. Os textos desses enunciados citam, muitas vezes, fragmentos da Vulgata22 ou de obras clássicas (ou se inspiram nelas), como podemos observar nestes exemplos encontrados em cemitérios do Rio Grande do Sul e registrados por Diniz (1999, p. 2):
De influência eclesiástica:
21 Enterrar os mortos nas margens de suas concorridas estradas pavimentadas, em vez de nos cemitérios
tranquilos, não era por parte dos romanos uma mostra de desrespeito para com aqueles. Ao contrário, eles acreditavam que se os mortos não eram devidamente enterrados e cuidados, seus espíritos lhes apareceriam e chegariam a lhes causar danos. Era muito importante proporcionar ao defunto um túmulo ou um sepulcro, onde o seu espírito poderia ter uma moradia. Mas também se pensava que o morto queria estar perto dos vivos. Há um túmulo que tem uma inscrição: “Eu vejo e contemplo a todo aquele que vai e vem da cidade”, e outra que diz: “Lólio (Lollius) foi colocado à beira do caminho para que todos os transeuntes possam dizer-lhe „Bom dia, Lólio‟” (tradução nossa).
22 Usamos, nesta nossa pesquisa, a Vulgata – a tradução latina da Bíblia que existe desde o séc. IV e que foi
reafirmada como autêntica e declarada como de uso comum para a Igreja Católica pelo Concílio de Trento (1545-1563) – na sua nova versão (chamada Nova Vulgata e que, desde 1979, é a nova Bíblia oficial da Igreja Católica) que se encontra disponível em: <http://www.vatican.va/archive/bible/nova_vulgata/documents/nova- vulgata_index_lt.html>; quando, porém, precisamos apresentar uma tradução para o português de algum trecho da Vulgata, fizemo-lo primeiramente consultando uma versão on-line da Bíblica Católica disponível em: <http://www.bibliacatolica.com.br/>.
Pater mi si possibile est; transeat a me calix iste – 1986 – Esta é uma passagem de Matheus – 26:39, significando: Meu Pai, se é possível, que este cálice se afaste de mim.
Non contristamur sicut et ceteri qui spem non habet; si enim credimus quod Jesus mortuus est et ressurrexit ita et Deus eos qui dormierunt per Jesum doucet cum eo.23 – 1912 – Significando: Não somos infelizes como os demais que não têm esperança se de fato cremos que Jesus morreu e ressuscitou. Assim Deus ensina através de Jesus e com eles àqueles que dormiram.
Deus meumque jus24– 1989 – Significando: Deus é minha riqueza e justiça. De influência clássica:
Exemplum dedi vobis – 1941 – Significando: Dei exemplo a vós.
O terceiro gênero epitáfico que encontramos na esfera funerária no Brasil é o que denominamos de epitáfio de consolação. Este gênero de longa tradição em nossa cultura ocidental, cujos enunciados aparecem gravados em lajes tumulares e comumente também em portões ou pórticos de cemitérios, tem entre suas características específicas a função enunciativa de externar uma espécie de consolo (algumas vezes quase que como uma expressão de condolências) a familiares e amigos dos mortos, geralmente, aludindo à ressureição e à condição de igualdade de todos perante a morte, no mais das vezes, em diálogos com textos bíblicos.
Em nossa pesquisa, encontramos exemplos desse gênero na entrada dos seguintes cemitérios: no Cemitério da Saudade, em Sorocaba-SP, em cujo portal lemos: EGO SUM RESURRECTIO ET VITA, que cita um excerto da Vulgata, Evangelium Secundum Ioannem 11, 25-26: “Dixit ei Iesus: „Ego sum resurrectio et vita. Qui credit in me, etsi mortuus fuerit, vivet; et omnis, qui vivit et credit in me, non morietur in aeternum. Credis hoc?‟” (em português: Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá. Crês nisto?); no Cemitério da Saudade de Guaratinguetá-SP: LUX AETERNA LUCEAT EIS, DOMINE (que pode significar em português: Que a luz eterna os ilumine, Senhor); no Cemitério Municipal de Monte Alto-SP: REVERTERE AD LOCUM TUUM (que em português pode significar: Volta para o teu lugar); e no Cemitério da Saudade de Piracicaba-SP, em cujo portal encontramos gravado: OMNES SIMILES SUMUS (geralmente traduzido para o português como: Somos todos iguais). Nestes dois últimos exemplos, compreendemos haver o
23 O texto-fonte da citação é a Vulgata, Ad Thessalonicenses Epistula I Sancti Pauli Apostoli 4, 13-14: “Nolumus
autem vos ignorare, fratres, de dormientibus, ut non contristemini sicut et ceteri, qui spem non habent. Si enim credimus quod Iesus mortuus est et resurrexit, ita et Deus eos, qui dormierunt, per Iesum adducet cum eo”. Em
português: Irmãos, não queremos que ignoreis coisa alguma a respeito dos mortos, para que não vos entristeçais, como os outros homens que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, cremos também que Deus levará com Jesus os que nele morreram.
estabelecimento de diálogo com a passagem da Vulgata, Liber Genesis 3, 19: “Pulvis es et in pulverem reverteris” (em português: És pó, e pó te hás de tornar).
Figura 3 – Epitáfio de consolação no portal do Cemitério da Saudade, em Piracicaba-SP. Fonte:
<http://www.trekearth.com/gallery/South_America/Brazil/Southeast/Sao_Paulo/Piracicaba/photo3401 35.htm>. Acesso: 02 fev. 2013.
Apesar de os enunciados desses três gêneros convergirem em semelhança em termos de tema, composição e estilo, por normalmente configurarem unidades de sentido atravessadas (de uma forma ou de outra mais ou menos explícita) pela concepção de que a vida não se acaba no túmulo, esses três gêneros epitáficos se diferenciam não só pelas características específicas que cada um tem quanto à função enunciativa, mas também pelas relações interlocutivas a que recorrem os locutores dos enunciados dos três gêneros: no gênero epitáfio memorial, é comum um tipo de relação interlocutiva com ênfase sobre o morto e a memória de seus feitos; no gênero epitáfio-colóquio, a relação interlocutiva típica apresenta ênfase sobre uma sugerida interação verbal entre mortos e vivos; e, no gênero epitáfio de consolação, a relação interlocutiva típica é marcada pela ênfase sobre um consolo ao pesar de familiares e amigos dos mortos, geralmente tratando a morte com um sentimento cristão e/ou como algo natural (a que todos estão sujeitos).