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III. Tezler

III.3. Doktora Tezleri

2.6. Geyik

2.6.1. Efsanelerde Geyik

propiciou a emergência de um renovado protagonista político no seio da sociedade boliviana. Esse sujeito possui um perfil diferenciado daquele que predominou dentro da esquerda boliviana desde os antecedentes da Revolução Nacionalista de 1952, e que manteve tal condição de vanguarda política dos movimentos sociais até o período de transição entre o Estado de exceção e o dito Estado democrático de Direito – o operariado mineiro. Sua composição engloba os cocaleros do Trópico de Cochabamba, primordialmente, relacionando-se também com os cocaleros dos Yungas e com os indígenas do altiplano andino. E, com o passar do tempo, como parte de seu projeto de construção de uma alternativa anti-hegemônica viável na disputa política de seu país, obtiveram êxito em ampliar a base social de sustentação de seu projeto político, através de iniciativas que serão abordadas no decorrer do trabalho.

Esse projeto político nasce a partir da realidade de confronto com as instituições oficiais bolivianas, que se intensificaram a partir de meados da década de 1980, ganhando

peso político por toda a década de 1990. Ainda nos anos oitenta, os cocaleros passam a se organizar no intuito de garantirem sua compensadora atividade econômica, em enfrentamento direto contra as iniciativas de erradicação dos cultivos. Valendo-se de suas experiências cotidianas e da experiência sindical advinda dos mineiros e de outros setores sociais, que migraram rumo ao Chapare motivados pelas transformações econômicas nacionais, os camponeses plantadores de coca organizaram sindicatos – a fim de preservarem seus ganhos econômicos com as atividades relacionadas à folha. Mantiveram, assim, a tradição sindicalista da esquerda boliviana e deram novos sentidos à organização sindical preexistente. É importante frisar o aspecto peculiar que o termo “sindicato” pode assumir na Bolívia, segundo o cientista político Pablo Stefanoni:

En el caso de los campesinos, detrás del nombre "sindicato’ se ‘ocultan’ instituciones en que muchos casos se superponen con las instituciones originarias (ayllus) y corrientemente constituyen organismos de poder con funciones estatales en las comunidades, maquinarias territoriales, sociales y ahora electorales. (STEFANONI, 2003, p. 61)

É a partir dessa reorganização dos movimentos sociais e de suas organizações político- sindicais que surge a necessidade de constituição e ampliação das alianças políticas em torno de um projeto político, tendo em vista que os conflitos sociais bolivianos – os embates entre, de um lado, cocaleros e indígenas e, do outro, as forças oficiais de segurança – aumentavam, conforme se intensificavam as pressões internacionais e a repressão ao tráfico e à própria produção da folha de coca. A necessidade de um projeto político emerge à medida em que os conflitos cresciam e, com eles, sua dimensão política e ideológica: assim, os cocaleros foram paulatinamente transformando suas demandas sindicalistas, articulando-as a novas estratégias e planos de ação. Passaram a emitir um discurso valorizador da identidade cultural dos povos originários, das características, usos e importância tradicionais da folha de coca – detentora de usos medicinais, cerimoniais, religiosos alimentares, entre outros, oriundos da herança cultural dos povos andinos.

Dessa maneira, através da defesa da coca, o movimento afirmava sua condição de defensor da soberania nacional, em oposição direta ao Estado repressor neoliberal e às formas de imperialismo, tanto o interno quanto o externo – cujo fiador principal era – e ainda o é – os Estados Unidos da América. Essas novas estratégias apoiam-se, também, em outro elemento crucial, que é a defesa dos recursos naturais bolivianos e doseu controle pelo e para o povo boliviano. Por conseguinte, ao vincular suas pautas à defesa das culturas tradicionais originárias e à solidariedade entre os povos, a retórica adotada pelo movimento cocalero

passa, a partir de então, a assumir um forte conteúdo étnico, utilizando-o a fim de legitimar suas ações políticas e reivindicações, referentes à conquista de direitos e a uma maior participação popular na gestão da sociedade.

Para que alcançasse a concretização de seu projeto político mudancista, o movimento

cocalero passou a discutir em suas bases a necessidade da formação de um instrumento

político. Assim, após algumas iniciativas malogradas, foi fundada, em 1995, a Asamblea por

la Soberanía de los Pueblos, ou ASP, embrião do futuro MAS-IPSP. Essa Assembleia foi

fruto da busca, da parte do movimento cocalero, por um instrumento político que potencializasse suas lutas para além da esfera sindicalista, buscando, assim, disputar a hegemonia política contra o governo e a direita neoliberal também na esfera eleitoral.

Antes da ASP, por exemplo, outros setores sociais étnico-originários aliados do movimento cocalero do trópico de Cochabamba ensaiaram a criação de um instrumento de representação política: a Asamblea de Unidad de las Naciones Originarias, de 1992, uma tentativa de construção de um organismo de duplo poder – uma organização à parte das instituições tradicionais, constituída com o objetivo de consolidar seu desenvolvimento e condição de alternativa de autogoverno popular, visando suplantar as prerrogativas do Estado burguês. O projeto da Asamblea de Unidad de las Naciones Originarias baseava-se nas perspectivas de poder indígena e de autogoverno originário, realizando uma dicotomia social radical baseada, grosso modo, em uma oposição de caráter étnico. Tal proposta se desdobrou na fundação do instrumento político denominado MIP, ou Movimiento Indígena Pachakuti, no mês de novembro do ano 2000 (STEFANONI, 2002, p. 44) pela ala indianista mais radical da CSTUCB, sob a liderança de El Mallku, Felipe Quispe.

Durante um congresso que reuniu as principais confederações e federações sindicais

cocaleras bolivianas – tais como a CSUTCB, a CSCB (a Confederación Sindical de Colonizadores de Bolivia), a CIDOB (a Confederación de Indígenas del Oriente Boliviano), a

FNMCB-BS (a Federación Nacional de Mujeres Campesinas - Bartolina Sisa), e as federações sindicais do Trópico de Cochabamba –, o Primer Congreso Tierra y Territorio,

cocaleros, indígenas e suas organizações sindicais discutiram e aprovaram a necessidade da

construção do referido instrumento político. Desse modo, inicialmente, os cocaleros buscaram apoio e abrigo político em uma aliança com uma frente partidária previamente existente, a

Izquierda Unida26, que utilizava a sigla IU, visando à participação nas disputas eleitorais e à construção de sua própria representação nas esferas políticas oficiais.

26 A aliança entre a Izquierda Unida – cujo partido de maior influência era o Partido Comunista Boliviano – e a

Nesse sentido, as diferenças entre a proposta dos cocaleros e as já existentes na esquerda boliviana tornar-se-iam evidentes. Os segmentos sociais que compunham a ASP não visualizavam um partido, ou instrumento político, da mesma forma que o conjunto da esquerda: sua concepção partidária em muito se afastava da concepção marxista-leninista de partido como vanguarda do processo social, e do partido operário como direção natural do proletariado e do conjunto dos trabalhadores durante a revolução socialista, estando esse organismo político acima de quaisquer organizações de caráter sindical e corporativo. Já os

cocaleros do Chapare possuem sua forma organizativa diretamente ligada às entidades

sindicais: na verdade, eles enxergavam seu instrumento político como um movimento organizado de extensão das instâncias sindicais campesinas, que vinham protagonizando grandes manifestações em defesa de sua terra e território, bem como contra a erradicação dos cultivos de coca27.

Eles também se diferenciaram de outros movimentos sociais indianistas, entre eles, os remanescentes mais radicais do katarismo, futuros integrantes do Movimiento Indígena

Pachakuti (MIP), que se autodenominaria, segundo Filipe Quispe Huanca, de instrumento

político-ideológico do Estado-nação originário de Qullasuyana28 ou Collasuyu. O MIP defende o retorno às antigas formas socioeconômicas pré-conquista espanhola; e seus ideais fundamentalistas expressam a perspectiva da luta entre nações, para além da luta de classes: entre aquelas nações indígenas nativas submetidas ao controle externo e a dominadora, a sociedade construída pelo elemento branco pelo viés da conquista e da espoliação – a qual os indígenas não deveriam se enquadrar. O território boliviano pertenceria legitimamente, segundo o MIP, aos indígenas, que devem retomar seu controle sobre ele e construir seu autogoverno. O MIP é adversário político do MAS-IPSP, criticando-o por sua postura, considerada conciliadora e submissa.

Devido a problemas burocráticos com a justiça eleitoral, os cocaleros e demais integrantes da ASP nunca puderam registrar sua sigla junto à Corte Nacional Eleitoral

entre seus dirigentes, em 1998. Graças a essa aliança, os cocaleros conseguiram conquistar algumas prefeituras (alcaldías) e, durante o pleito de 1997, quatro cadeiras no Parlamento, sendo uma dessas conquistada por Evo Morales em votação uninominal, no qual obteve 61,8% dos votos em sua região, um recorde nacional, à época.

27 Essa ideia de Instrumento Político está contida na Tesis del Instrumento Político, aprovada no dito congresso,

o Primer Congreso Tierra y Territorio.

28 “Nosotros vemos en el MIP el instrumento político ideológico de otro estado, de la nación Qullasuyana. No

podemos tener relaciones con la otra Bolivia. Se que vamos a tener problemas porque si entramos al juego estaríamos obligados a reconocer las leyes bolivianas y tener personería jurídica extendida por la Corte Nacional Electoral”. Em entrevista concedida a Felipe Guaman por Felipe Quispe. Preparando la revolución indígena en Bolivia. Disponível em: <http://www.rebelion.org/sociales/entrev_quispe080201.htm> [acesso em

(ALBÓ, 2002, p. 77-78). Por esta razão, os cocaleros liderados por Evo Morales, após uma série de divisões internas à IUe à própria ASP, em 1998, resolveram utilizar a pessoa jurídica do MAS-U, Movimiento al Socialismo - Unzaguista, originalmente uma fração que rompera pela esquerda com a Falange Socialista Boliviana (FSB) – partido fundado em 1937 e que tinha como posicionamento ideológico a defesa de um nacionalismo revolucionário, dentro da tese de um novo Estado boliviano. Então, da unificação entre o Movimiento al Socialismo e o

Instrumento Político por la Soberanía de los Pueblos, surge o MAS-IPSP, fundado em 23 de

julho de 1997, a fim de já garantir sua participação nas eleições nacionais daquele mesmo ano. O MAS-IPSP, portanto, emerge no fim da década de 1990, e se consolida como alternativa política aos grupos e partidos tradicionais durante os anos seguintes, principalmente pelo papel que desempenhou nos ciclos de mobilizações e revolta dos movimentos sociais bolivianos cujos ápices ocorreram no ano 2000, durante a chamada Guerra da Água, e em 2003, durante o episódio conhecido como a Guerra do Gás; além das lutas e dos ascensos referentes à defesa da folha de coca e das plantações no Chapare, que foram assumindo uma conotação de defesa da folha de coca não apenas por ser o principal meio de subsistência dos cocaleros, mas por suas características simbólicas ancestrais – por ser uma folha sagrada para os povos andinos originários e símbolo de sua cultura ancestral. Sua característica simbólica é costumeiramente ressaltada pelo movimento cocalero, chegando a folha a ser usada até mesmo como ornamento pessoal: é o que ocorreu com Evo Morales e García Linera, durante um comício em Shinahota (IMAGEM 2).

IMAGEM 2 – La milenaria hoja de coca, símbolo da cultura originária andina. (PRONZATO, ¡Jallalla

A repercussão de todos esses enfrentamentos acabaram fortalecendo o capital político do MAS-IPSP e de seu principal dirigente, Evo Morales, frente à opinião pública. Aqui, mostra-se pertinente informar que a Guerra da Água supracitada refere-se ao conjunto de intensos protestos populares – entre greves, passeatas e bloqueios de estradas – ocorridos no departamento de Cochabamba contra a privatização da empresa pública responsável pela administração e distribuição da água naquela região, o Servicio Autónomo Municipal de Agua

Potable y Alcantarillado, SEMAPA, em favor da empresa estrangeira Water U.K. Durante

esse episódio, formou-se a Coordinadora de Defensa del Agua y de la Vida, composta pela população cochabambina, por juntas vicinais, organizações sindicais e indígenas. Ao fim do processo, os manifestantes conseguiram reverter o processo de privatização da SEMAPA, derrotando o Governo de Hugo Bánzer Suárez e fortalecendo os movimentos sociais em geral, bem como o movimento indigenista e o MAS-IPSP em particular. Já a Guerra do Gás teve como estopim a decisão do Governo boliviano em exportar gás natural através do Chile29, por intermédio de um consórcio, o Pacific LNG, estabelecido entre empresas estrangeiras, entre as quais, a espanhola Repsol. Os protestos surgem também das demandas dos movimentos sociais pela nacionalização dos recursos naturais, e pela revisão da Ley de Hidrocarburos do presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, que estabelecia em 18% a taxação do gás por parte do Estado. Os manifestos pediam, também, a realização de uma Assembleia Nacional Constituinte, e obtiveram êxito em sua intenção de depor o presidente Sánchez de Lozada. Tais experiências serão tratadas de maneira melhor no capítulo seguinte.

29 O antagonismo boliviano frente ao Chile possui razões históricas concretas, advindas da Guerra do Pacífico

(1879-1884), ocasião em que a Bolívia perdeu parte de seu território – especificamente, sua saída para o Oceano Pacífico – em favor dos chilenos.

3. VISÕES DE MUNDOS EM COLISÃO: