BÖLÜM 1: KURUM KAVRAMI
1.5. Eşbiçimliliğin Örgüt Yapılanmalarına Etkileri
“Grota” Tucunaré, curimatá, piranha “Remansos, banzeiros, água parada” Corvina, piranha “Cabeceiras de água, córregos”
Surubim, pacamã “Cachoeiras, corredeiras, água
corrente”
Carí ou cascudo, pacu, surubim, dourado, piranha
“Espraiados” Traíra, piaba “Barranco, beiradão” Matrinchã, mandím, traíra
“Raseira, beirada Traíra, pirambeba, Piaba
“Croa ou coroas” Curimatá3, pacamã
“Embocadura” Corvina “Canal do rio” Surubim, dourado
“Ponta de água” Traíra, piaba “Perto da margem, baixio, razeira”
Mandím, matrinchã
“Represa, lagoa , lagos”
Tucunaré
Quadro 2.2 – Categorias de habitats de peixes, baseadas em diferentes tipos de fundo no Alto-Médio São Francisco, de acordo com o conhecimento local.
REPRESA RIO
ETNOHABITATS PEIXES ETNOHABITATS PEIXES
“Lugar de areia” Pacamã “Lugar de areia” Pacamã
“Lugar de loca” Surubim, cascudo “Lugar de loca” Bagre
“Lugar de pedra” Traíra, cascudo “Lugar de pedra, Corvina, dourado,
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pedreiras, cascalho” surubim, curimatá, pirá, pacu, bagre, cari
(cascudo), mandim, piau.
“Lugar de capim” Piau “Lugar de capim,
moita”
Piau, matrinchã, pacu
“Lugar de pau, madeira, toco” Traíra, tucunaré, curimatá “Lugar de pau, pauzada, coivara” Matrinchã, piau
“Lugar de terra” Corvina, curimatá, pacamã
“Lugar de barro, lodo, lama”
Curimatá
“Lugar limpo” Piaba _____ _____
“Lugar sujo” Tucunaré _____ _____
Quadro 2.3 – Zoneamento vertical de Etnohabitats no Alto-Médio São Francisco.
REPRESA ETNOHABITATS RIO
Piaba Superfície ou tona d’água _____
Traíra Raso ou água rasa Traíra, pacamã
Tucunaré Da meia água para cima _____
Corvina Da meia água para o fundo _____
Piau, surubim, curimatá, cascudo
Fundo Bagre, surubim, corvina, mandi, piau, pirá, cari
(cascudo), tucunaré
Na represa de Três Marias, a classificação etnoecológica de etnohabitats horizontais está relacionada à percepção pelos pescadores da ocorrência de determinados fenômenos e/ou às diferentes características geomorfológicas identificadas por eles ao longo das margens. Os
córregos correspondem aos tributários que desembocam a partir da represa. A categoria cabeceira de água, provavelmente, também corresponda aos tributários. As grotas são
aberturas entre rochas nas margens da represa com razoável profundidade e praias,
espraiados ou raseiras são zonas das margens sem vegetação muito planas e largas A
denominação ponta de água refere-se à região de encontro do córrego com a represa, onde há água corrente, e embocadura corresponde às regiões de paredão alto nas margens da represa.
A nominação de habitas de fundo na represa, promovida pelos pescadores, apresenta, como na classificação anterior, categorias mais objetivas, tais como lugar de pau, madeira,
toco; lugar de pedra; lugar de capim; lugar de loca e categorias menos objetivas, tais como, lugar sujo; lugar limpo; lugar de terra; lugar de barro; lugar de areia. A aparente falta de
objetividade e/ou sobreposição de algumas classificações, prontamente notada pelo pesquisador, não é problema para os pescadores, que têm, em sua grande maioria, muita vivência e experiência do seu ambiente efetivo de pesca.
No rio também são definidas categorias de etnohabitats horizontais como lagoas,
lago, remansos, banzeiros, classificações das áreas inundáveis à margem do rio durante as
cheias; cachoeiras e corredeiras (trecho de rio com muitas pedras e águas rápidas), coroas
ou croas (semelhantes às praias da represa); canal do rio correspondente à área mais funda; lugar de barranco, beiradão, nas margens do rio, entre outras. Em relação às categorias de
diferenciação de fundo no rio, tem-se como na represa, lugar de lama, lodo, barro, lugar de
loca, lugar de pedra, pedreiras, lugar de areia, lugar de pau, pauzadas, coivaras
(aglomerado de madeira no rio).
A classificação ecológica de etnohabitas baseada na diferenciação de fundos também foi encontrada junto aos pescadores de estuário de Complexo Mundaú-Manguaba, no Baixo São Francisco (MARQUES,1991). Eles classificam os peixes em etnohabitas como “lama”,
“areiado”, “pedra”, “cascão”, “aterro” e “capim”. De acordo com o autor, os conjuntos
ictiofaunísticos estão associados aos referidos etnohabitats, segundo características ecológicas como fidelidade (“peixes que vivem na lama”), preferência (“peixes que gostam
da lama”), peculiaridade (“peixes da pedra do rio”) e comportamento (“peixes que se enterram na lama”). As manchas de “capim” são percebidas pelos pescadores estudados por
MARQUES, acima citado, como de grande importância para a produção de peixes, e também
como habitas concentradores de biomassa (“lá o peixe se cria e não pode tirar”).
A bacia do Rio Uaupés possui uma variedade de habitas reconhecida e explorada desde sempre pelos índios Wanâna, dentre os quais, pode-se citar floresta sazonalmente inundada, cachoeira, margens do rio, pontos em ilhas, praias de areia, terrenos elevados em terra firme, e um outro não especificamente nominado, onde se encontram espalhados 80 pontos de pesca (CHERNELA,1985).
A distribuição dos peixes pelas ecozonas descritas acima é feita segundo as suas características comportamentais percebidas pelos pescadores. É o caso do comportamento de predador do tucunaré. Na opinião dos pescadores eles são encontrados principalmente em
grotas e córregos, ou em lugares sujos, de pedras ou de paus e tocos, porque é nestes locais
que capturam suas presas mais facilmente (...o tucunaré fica em lugar de pedra e madeira,
onde as presas são mais fáceis de serem encontradas...). Além disso, numa alusão ao seu
comportamento reprodutivo, os pescadores afirmam que ...o tucunaré, dentro dos córregos,
nas pedras, nos tocos, ele solta as ovas. A percepção de outros comportamentos alimentares,
reprodutivos, migratórios e de defesa, fica implícita nas categorizações dos pescadores da represa de Três Marias. A curimba é em lugar que tiver mais toco, madeira, prá chupar
aquele lodinho... (comportamento trófico, habitat); o piau come capim (comportamento
trófico); o cascudo come lodo na pedra (comportamento trófico, habitat); o pacamã fica na
areia, ele faz um ninho, só dá pra ver o olhinho e a cabeça chata... (comportamento
reprodutivo, habitat); o surubim, pega ele mais na água corrente (comportamento migratório); a piaba fica mais na água rasa, por medo de outro peixe pegar ela, (comportamento de defesa , habitat).
A discriminação de ecozonas em ambientes aquáticos como unidades verticais, tem
sido encontrada em outros trabalhos de etnoecologia. POSEY (1987) apresenta a classificação do ambiente ecológico aquático em cinco níveis verticais, utilizada pelos índios Kayapó e PARKER et al (1983), a obtém para os caboclos da Amazônia. Segundo POSEY, acima citado, estas classificações em níveis verticais de microambientes se baseiam num componente funcional: o “locus” de determinados recursos naturais. Assim, cada nível aquático distingue-se segundo as espécies de peixes e outros organismos que abriga.
Na represa de Três Marias, seis níveis verticais foram encontrados, sendo estes a
do peixe enterrado. No rio, não foram obtidas todas estas classificações, tendo sido diferenciados apenas três níveis: o raso, o fundo e a do peixe enterrado (Quadro 2.3).
2.4.2. O Conhecimento Ecológico Local sobre o comportamento reprodutivo das espécies de peixes no Alto-Médio São Francisco.
Os pescadores do Alto-Médio São Francisco detêm um conhecimento sobre a reprodução das espécies de peixes do rio São Francisco que se refere ao período e local de desova, ao comportamento durante o período reprodutivo, ao comportamento migratório, ao cuidado parental e ao dimorfismo sexual.
O comportamento reprodutivo das espécies de peixes é chamado de carujo, que significa
namorar ou namoro, época do cruzamento, época das enchentes. O peixe sobe e fica na flor d’água, cada peixe tem seu jeito de fazer o carujo;
O surubim, por exemplo, no carujo, a fêmea fica na correnteza de barriga para cima e
os machos passando em cima dela; já o dourado, ...fica pulando para fora da água, fica aquele reboliço na água.... Outro peixe que segundo os pescadores tem um carujo marcante
é a curimatá que nas águas, sobe turrando em cardumes para desovar e dá para escutar o
barulho até de fora da água... depois da desova, volta na correnteza.
Os pescadores do ambiente de represa devidem os peixes em dois grupos, relativos à compreensão de seus eventos reprodutivos (Quadro 2.4). Há os peixes que desovam em toda a passagem de lua nova e os que desovam na época das águas. No primeiro caso, trata-se da percepção do evento reprodutivo de espécies não migradoras, e no segundo, de espécies migradoras, ou de piracema. Algumas destas constatações podem ser verificadas no Quadro 2.5 para o tucunaré (não migrador) e para o curimba/curimatá (migrador).
Quadro 2.4 - Sistema classificatório etnoecológico baseado na frequência dos períodos reprodutivos das espécies de peixes do Alto-Médio São Francisco.
REPRESA RIO