BÖLÜM 2: İNOVASYON VE KÜMELENME
2.7. Kümelenmenin Tipolojileri
2.7.2. Dörtlü Ayrım
Os pescadores da “cachoeira” do lado de Pirapora foram contatados apenas em fevereiro de 2001, após várias tentativas frustradas. A desconfiança deste grupo de pescadores com pessoas “de fora” é extremamente grande e já na primeira entrevista, foi possível entender o porque. Toda a repressão policial que os pescadores de Buritizeiro não sofrem, pela sua atividade clandestina, é concentrada nos pescadores de Pirapora. A causa disto é simplesmente a maior facilidade de acesso da polícia florestal à corredeira no lado de Pirapora, devido à possibilidade de navegação com barco a motor, o que não ocorre em Buritizeiro. Para chegar em Buritizeiro, a polícia florestal tem, obrigatoriamente, que ir por terra e por isso é avistada a grande distância, o que permite a fácil dispersão dos pescadores.
O histórico inicial sobre a pesca nas corredeiras no lado de Pirapora foi dado pelo presidente da colônia de Pirapora (Z 1), que apesar de nunca ter pescado na cachoeira, conhece o histórico da pesca de toda região. Segundo este pescador, os índios foram os primeiros a pescar no local. Depois, com a vinda de nordestinos para Pirapora, provenientes da Bahia, surgiu o primeiro pescador da cachoeira conhecido como seu
Domingos, que hoje dá o nome a uma ilha em frente à praia de Pirapora, a Ilha do Pai Domingos. Outros pescadores vieram, como seu Dilú, seu Antônio Barros e seu Antônio Cazemiro, que pescavam, principalmente com o colfo, em pontos fixos da cachoeira.
Após a vinda destes pescadores, houve um aumento crescente de interessados em pescar nos sítios da corredeira; a partir de então além do colfo, passou-se a usar também a tarrafa, que naquela época era feita da casca de uma árvore chamada de "caruá". Com o aumento de pescadores, iniciou-se a “marcação” dos pontos e horários no trecho de
corredeira, do lado de Pirapora. Isto se deu, provavelmente, para controlar o esforço de pesca e minorar os conflitos devido ao aumento da competição pelos recursos; dessa forma, criaram-se condições para o estabelecimento de um sistema de propriedade comum.
Após várias tentativas, foi possível entrevistar dois pescadores que participam da pesca neste trecho do rio. Segundo eles, o rodízio na pesca da “cachoeira” do lado de Pirapora ocorre em três sítios: 1) “Ilha do Caixão”; 2) “Ilha do Inferno”; 3) “Pedras do
Meio” (Fig. 3.7).
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Figura 3.7 – Sítios de pesca no trecho da “cachoeira” de Pirapora: 1) Ilha do Caixão; 2)
Ilha do Inferno; 3) Pedras do Meio.
Nas Ilhas do Caixão e do Inferno há, em cada uma delas, cinco duplas de pescadores que se apropriam dos sítios de pesca, exercendo o direito de acesso e uso durante 24h. O rodízio entre as duplas de cada sítio ocorre a cada 24h. A dupla da vez tem o direito assegurado a partir das 7 horas da manhã, estendendo-se até às 7 horas da manhã seguinte. As duplas pescam uma hora e deixam a cachoeira em descanso durante as duas horas seguintes. Portanto, se entram às 7 horas da manhã, pescam até às 8 horas e deixam o sítio vazio até às 10 horas, quando entram novamente para pescar, podendo repetir a sequência até às 7h da manhã do dia seguinte. Segundo os pescadores, apesar do direito de acesso e uso ser de 24h, esses sítios são mais frequentados durante a noite,
período de relaxamento da fiscalização. As técnicas de pesca utilizadas são sempre a tarrafa e o colfo fixo.
Na ilha Pedras do Meio não existe uma propriedade definida, qualquer dupla pode entrar para pescar, mas existe uma regra de acesso e uso, já que vários pescadores disputam pela pesca neste sítio. A regra é chamada de fazer ou marcar a hora e consiste na organização de uma ordem de entrada para a pesca por ordem de chegada. A dupla que chegar primeiro entra no sítio, pesca durante uma hora e deixa o ponto descansar durante duas horas; dá-se então a sequência do rodízio, com as duplas seguintes ingressando no sítio e procedendo da mesma maneira. Existem outros pontos na corredeira denominados de Cozinheiro e Quebrada, onde não há o sistema de propriedade ou regras que definam o direito ao acesso e ao uso. Estes sítios são de acesso aberto, como ocorre nos sítios de fora, no lado de Buritizeiro. Segundo os pescadores, os freqüentadores destes pontos são os agueros, meninos na faixa etária dos 10 aos 15 anos, que pescam usando a tarrafa e o anzol de pinda.
Antigamente havia posse dos pontos de colocação dos colfos nos sítios da corredeira. Atualmente os pescadores podem utilizar os colfos armadilhados em quaisquer pontos do sítio para os quais eles têm o direito de acesso e uso; o custo de fabricação e manutenção dos colfos é repartido entre todos os pescadores. Alguns pontos de colocação de colfos mantém os nomes do seu antigo dono, tais como o Ponto do
Chiquinho e o Ponto do João do Pinto, que ficam na Ilha do Caixão. Existia também o Ponto do Dilú, que situava-se numa pedra, próximo das ilhas, e que segundo relato de
pescadores, era muito bom e um local onde se capturavam grandes exemplares de peixes. Ainda conforme relatos obtidos, Seu Dilú ganhava muito dinheiro e esbanjava muito,
sendo castigado por Deus, que mudou a pedra de lugar, deixando o acesso ao ponto tão
difícil que hoje não é possível mais a colocação do colfo.
Esta referência ao ponto de Seu Dilú, associada ao poder Divino, demonstra, na realidade, a percepção sobre as mudanças do rio durante o passar dos anos. Tanto os antigos pescadores de Pirapora como os de Buritizeiro relatam que as Ilhas, que hoje são os sítios de pesca, não existiam antes da construção da represa de Três Marias. Eles percebem mudanças na configuração e no tamanho das ilhas e as relacionam com o crescente assoreamento provocado pelo represamento das águas.
3.4.3- O sistema de propriedade comum na “praia” de Januária.
Na pesca realizada na "praia" de Januária (Fig. 3.8) os pescadores que possuem o direito exclusivo de pescar nesta região se dividem em torno de doze duplas. Cada dupla pode pescar durante uma hora do dia e uma hora da noite, direito que parece estar relacionado ao parentesco, pois existem apenas duas famílias que compõem a maior parte das duplas.
Figura 3.8 – Pescadores se preparam para a pesca na “praia”de Januária.
Atualmente são vinte os pescadores que pescam na praia, oito deles exclusivamente, enquanto os demais, também pescam acampados nas margens do rio, próximo ao município de Januária. Novos pescadores podem adquirir o direito ao acesso e ao uso do recurso na região de praia, mas para isso precisam participar da limpeza do lanço, ou limpeza do
arrasto, que acontece no início de cada ano. Limpar o lanço significa mergulhar no fundo
do rio para retirar pedaços de paus, galhos de árvores, que descem o rio com as chuvas e se depositam nos locais onde serão lançadas as redes de caceia. É um trabalho pesado e de grande risco, feito principalmente pelos mais jovens, utilizando o sarí (um pauzão comprido
com uma cordona grossa para arrancar as pauzadas). Portanto, para todos os pescadores
jovens, o acesso e o uso do recurso na região da praia só é garantido se os mesmos participarem da limpeza do “lanço”, recebendo assim o direito de marcar sua hora para
pescar, durante o dia e à noite. A preferência da pesca na praia está relacionada, assim como nas corredeiras de Buritizeiro e Pirapora, à maior produtividade, uma vez que os pescadores percebem esta região como passagem obrigatória dos peixes no rio.
É porque na praia tem condições da gente soltar a rede. Na época das cheias não tem condições da gente solta a rede não, tá fundo. No tempo da praia não, tá raso. O peixe tem que passar beirando a praia, ele vem viajando, subindo o rio acima, aí a gente solta a rede e topa ele... começa a subir, vem viajando e a gente pega...
Os pescadores da “praia” têm a vantagem, em relação aos que acampam nas margens do rio, de poder voltar todos os dias para casa. A venda do peixe é feita na própria “praia” ou comercializado na rua pelo próprio pescador ou por meio de atravessadores.
Quadro 3.6 - Condições de uso com base nas relações comportamentais sancionadas pelos pescadores da praia de Januária -MG.
ORIGEM DOS