O presente trabalho se propôs a investigar as possíveis associações entre desenvolvimento da linguagem e comportamentos sociais e ambientes familiar e escolar em crianças das Unidades Municipais de Educação Infantil, na faixa etária de quatro anos a seis anos de idade. Nessa faixa etária, as crianças estão frequentando os dois últimos anos da educação infantil. A partir dos seis anos é dado início a uma nova fase: o aprendizado da linguagem escrita. Para que isso ocorra é preciso que a criança já tenha avançado no desenvolvimento da linguagem oral, com qualidade. Assim, torna- se relevante averiguar o desenvolvimento da linguagem nessa faixa etária e seus possíveis fatores associados, para que problemas futuros no desenvolvimento infantil possam ser evitados ou amenizados.
Partiu-se da premissa que ambiente familiar e escolar desfavoráveis, com contextos pouco estimulantes, estrutura familiar frágil, interações sociais prejudicadas e alterações no comportamento social das crianças podem estar associados a alterações no desenvolvimento da linguagem. Na revisão sistemática de literatura pode-se observar escassez de estudos quando considerada a relação entre desenvolvimento da linguagem e os ambientes familiar, escolar e o comportamento social, principalmente quanto a esses dois últimos aspectos. Neste estudo, pode-se concluir que 22,5% das crianças apresentaram alterações quanto à Avaliação do Desenvolvimento da Linguagem (ADL), que crianças cujas famílias recebiam bolsa família apresentaram maiores chances de ter alteração de linguagem e que o aumento de um ano na idade das crianças diminuiu a chance de ter o resultado da ADL alterado.
Acredita-se que os contextos familiar, escolar e os aspectos comportamentais e socioeconômico/demográficos sejam muito importantes para o desenvolvimento da linguagem. Contudo, nesta pesquisa não foram encontradas associações entre todas essas variáveis e linguagem. Esse fato pode ser explicado pela homogeneidade da amostra, visto que: a maioria das famílias pertencia à classe econômica C; o estudo foi realizado na mesma regional de uma capital brasileira; as crianças avaliadas frequentavam escolas infantis da rede pública municipal (UMEI); as famílias que compareceram à escola eram, provavelmente, as mais envolvidas com as propostas da escola ou preocupadas com o desenvolvimento saudável do filho e; as instituições de
educação infantil (UMEI) possuíam estruturas físicas bem semelhantes e equipe educacional seguindo as mesmas diretrizes e metodologias repassadas pela Secretaria Municipal de Educação. Desta maneira, sugere-se que os resultados podem estar relacionados ao delineamento deste estudo e à homogeneidade da amostra e faz-se necessária a realização de estudos longitudinais, com padronização de métodos, faixa etária, técnicas e instrumentos utilizados para comparação dos resultados e melhor entendimento da relação desses fatores com o desenvolvimento da linguagem.
A considerável prevalência de alterações de linguagem (22,5%) nas crianças estudadas aponta para a necessidade de maior atenção à população da educação infantil. O fato da idade da criança mostrar-se como fator protetor para a alteração de linguagem não elimina a preocupação da detecção e intervenção precoce. Neste estudo constatou-se maior número de alterações de linguagem entre as crianças de quatro anos. Visto que na literatura as idades entre quatro e seis anos são consideradas como fazendo parte de uma fase crítica para distúrbios idiopáticos da comunicação faz-se necessário que o diagnóstico e o acompanhamento das crianças ocorra o mais cedo possível, a fim de que a intervenção aconteça em tempo oportuno e assim, possa ser evitado o agravamento dessas alterações com possível comprometimento da socialização, da vida escolar e do comportamento dessas crianças.
Sugere-se que as escolas e profissionais da saúde fiquem atentos às crianças cujas famílias recebam bolsa família. A atenção dada ao recebimento desse benefício pode auxiliar na identificação de outros problemas que podem estar relacionados a alterações de linguagem, já que o benefício bolsa família pode ser tomado como um indicador de vulnerabilidade socioeconômica. Assim, é fundamental destacar a relevância do trabalho interprofissional e que exista consonância com os indicadores sociais no planejamento e nas ações de saúde e educação. Cabe salientar que neste estudo foi identificado um dos indicadores sociais (bolsa família), mas outros, também devem ser levados em consideração no processo de avaliação do desenvolvimento infantil.
Não seria ousadia afirmar que é fundamental a participação e o envolvimento da família na vida escolar do filho para o desenvolvimento, não só da linguagem, mas de todas as áreas do desenvolvimento infantil. Contudo, neste estudo observou-se que
muitas famílias pareceram ter um vínculo fragilizado com a escola, diante da evidência dos seguintes fatos: o grande número de recusas ao convite de comparecer à escola para participarem desta pesquisa; dentre aqueles que participaram deste estudo, poucos estiveram presentes na escola para receber a devolutiva da avaliação fonoaudiológica da criança; e as equipes pedagógicas das UMEI relataram pouca adesão das famílias às reuniões propostas para participarem do processo pedagógico/educativo das crianças, sendo constatada maior adesão das famílias nas festas comemorativas e na entrega de materiais escolares. O resgate desse vínculo entre escola e família faz-se necessário e torna-se relevante para potencializar o desenvolvimento integral e saudável das crianças e para que cada sujeito educativo (família e escola) possa ter claro o papel que cada um exerce na vida da criança, sem se esquecer da beleza e riqueza de estarem juntos.
Foi verificado também que em todas as UMEI, a direção e coordenação pedagógica receberam bem o projeto, fornecendo as listas das crianças matriculadas e o espaço e materiais necessários para realização e efetivação deste estudo. Contudo, em algumas UMEI foi observada maior abertura e menos resistência por parte de toda a comunidade escolar. Nesse caso constatou-se que o trabalho fluiu com mais facilidade e as pessoas participaram de forma mais efetiva no processo de devolutiva dos resultados das avaliações das crianças, que incluiu tanto a forma proposta, pela direção e coordenação, de como ocorrer a devolutiva na UMEI, quanto o envolvimento e interesse dos profissionais no momento da devolutiva. Esses fatos reforçam a importância de saúde e educação trabalharem em parceria a fim de oferecer melhor qualidade e resolutividade no atendimento e cuidado das crianças. É nítido o quanto os professores/ educadores, coordenação, direção, enfim todos os atores envolvidos desejam o bem das crianças. Mas, muitas vezes, ficam presos às suas limitações (esgotamento, cansaço), aos limites psicossociais e dificuldades escolares das crianças e perde-se de vista a grandeza que existe em realizar um trabalho em parceira, em busca de uma educação e saúde de qualidade, que satisfaça não só às necessidades das crianças, mas que corresponda às exigências de todos os envolvidos nesse processo.
Vale ressaltar o papel crucial que a comunicação e a linguagem exercem na vida das pessoas e o quanto o entendimento de fatores associados a alterações de linguagem ainda é um desafio para a fonoaudiologia e áreas afins.
Este estudo contribuiu para a identificação de fatores associados ao desenvolvimento da linguagem. Entretanto, outros aspectos foram observados, mas não medidos e mensurados, como por exemplo: os relacionamentos que nasceram e se fortaleceram no decorrer deste percurso, proporcionando o trabalho em parceria; os encontros de experiências; a alegria das crianças nas brincadeiras, na hora do lanche, durante a contação de história; a vivacidade de algumas crianças no relacionamento com seus colegas e professores; as preocupações de alguns pais com a vida e o desenvolvimento dos filhos; as frustrações diante das dificuldades; o cansaço e desânimo de alguns professores interferindo na sua dinâmica de trabalho; dentre tantos outros detalhes preciosos. Não foi possível afirmar estatisticamente se esses aspectos estão associados ao desenvolvimento da linguagem, mas abre-se espaço para se perguntar o quanto a comunicação vai além das habilidades linguísticas e qual caminho pode ser traçado para o estudo dos aspectos supracitados.
Assim, espera-se que mais pesquisas sejam realizadas com esse tema (desenvolvimento da linguagem e fatores associados) e que os setores da educação, saúde e assistência social possam trabalhar conjuntamente no planejamento tanto de ações individuais quanto coletivas para a detecção, acompanhamento, prevenção e promoção do desenvolvimento infantil.
6. ANEXOS