Duração
Quando a criança nasce, ela e o mundo são indiferenciados (PIAGET, 1970). Sua percepção é oceânica, como afirma Koellreutter (1984). Entretanto, suas experiências com o tempo se manifestam imediatamente.
Imaginemos uma criança recém-nascida sendo despertada pela fome. É provável que, ao chorar de fome, o bebê esteja tendo sua primeira experiência temporal: a sensação da duração de um desconforto. Essa sensação de duração talvez seja a experiência mais originária de tempo (PULASKI, 1980, p. 167).
Entretanto, parece existir algo que move, que impulsiona essa sensação. É “o transcorrer da vida em uma direção”, fenômeno definido por Minkowisky (1973) como “impulso vital”, o motor da vida desde sua origem. Esse impulso ou élan vital, “talvez seja a força que une os órgãos aos órgãos, os indivíduos aos indivíduos, as espécies às espécies, e que faz de toda a série dos seres vivos uma única onda que corre através da matéria” (BEGSON apud SILVA, 2006). A força do élan vital busca “ultrapassar as diversidades e as formas em direção ao porvir, o movimento de diferenciação do ser, o esforço do fazer” (SILVA, 2006).
De modo análogo, Winnicott diz que os bebês possuem uma “centelha vital e seu ímpeto para a vida, para o crescimento e o desenvolvimento é uma parcela do próprio bebê, algo que é inato na criança e que é impelido para frente de um modo que não temos de compreender” (WINNICOTT, 2005).
Esse impulso vital é nitidamente percebido nas formas de interação do bebê com outros seres humanos. Essa pré-disposição para a comunicação se manifesta nas vocalizações e na alta sofisticação de movimentos de cabeça, rosto e de membros dos bebês durante seus momentos de interação com os adultos (SHIFRES, 2007, p.15). As vocalizações e os balbucios serão estudados com detalhes nos próximos capítulos.
Paralelamente à sensação de duração, o bebê manifesta uma organização temporal rítmica em seu comportamento motor. Uma série enorme de movimentos rítmicos de cabeça, braços, peito e pernas surgem nos primeiros meses de vida do bebê e vão se consolidando como estereótipos rítmico- motores, que periodizam as experiências com a duração. Parodiando Thelen (1981), é como se o impulso vital dissesse ao bebê: ”Se você for se mover, mova-se ritmicamente”. Essa produção volitiva do ritmo (rítmico-motora) parece ser essencial para o desenvolvimento da capacidade cerebral de organizar a temporalidade (POUTHAS, 1996).
O desenvolvimento dessa habilidade de estruturar suas próprias ações motoras dentro de um certo período de tempo, é essencial ao desenvolvimento das habilidades motoras, perceptivas e cognitivas das crianças. A capacidade de
regulação temporal adquirida na infância inicial pode se constituir na base para aprendizados futuros mais complexos, relacionados ao tempo, inclusive o aprendizado da música (POUTHAS, 1996).
A sucção é também uma atividade motora de natureza rítmica que periodiza a experiência da duração. Pesquisas realizadas por DeCasper e Sigafoos (1983) e Provasi (apud POUTHAS, 1996) mostraram que bebês de poucos dias de vida já são capazes de modificar seus movimentos de sucção não nutricional na dependência dos estímulos que recebem o que sugere a capacidade precoce de modificar a organização temporal de uma atividade rítmica determinada biologicamente.
A sensação de duração, fracionada em intervalos regulares pelo comportamento rítmico-motor do bebê, parece ser a forma através da qual a criança consolida suas experiências iniciais com o tempo.
A duração, associada à sensação de expectativa e à construção da memória delineiam-se como essenciais para o desenvolvimento da percepção do tempo nas crianças.
Expectativa
Quando o bebê chupa seu polegar após “ter se esforçado para colocá-lo na boca”, é provável que tenha a impressão de que uma certa ação foi levada ao cabo, sem que saiba exatamente como. A causa e o efeito, até o terceiro mês de vida, são percebidos como “condensados em um só bloco”. A sensação de
duração puramente psicológica que interliga movimentos sucessivos de forma inconsciente de seu desenrolar, não permite que os eventos sejam percebidos individualmente. O bebê vai, aos poucos, “aprendendo” que os acontecimentos ocorrem em sequência: surge a “mãe” e, logo após, acontece a saciedade. Assim a criança “aprende” a esperar por uma série de eventos em sequência e passa a ser capaz de antever alguns fenômenos. Delineia-se assim, aos poucos e cada vez com maior nitidez, a experiência temporal da expectativa (PULASKI, 1980, p. 168). Segundo Piaget (1970, p. 212), “este complexo de esforços, tensões, expectativas e desejos está carregado de eficácia”, e será o motor das ações dos bebês até cerca dos quatro meses.
O tempo relativamente longo que o bebê leva para começar a andar tem também grande importância sobre o desenvolvimento de seu sentido de tempo, em decorrência da experiência de duração que acompanha a expectativa de agarrar o que não é capaz de alcançar, desta vez associada à sensação de um espaço que não pode ser transposto (WHITROW, 1993). Mesmo quando a criança começa a andar, o alcançar continua exigindo uma espera, o que alimenta a sensação de expectativa.
A possibilidade de antecipar eventos configura-se também como uma importante manifestação da sensação da expectativa. Desde muito cedo, bebês aparentam antecipar eventos, passíveis de previsão temporal. Alguns estudos revelam que recém nascidos são capazes de se adaptar à regularidade temporal de eventos (estímulos sonoros ou visuais) e podem
reagir à interrupção dessa regularidade, através da alteração de sua freqüência cardíaca (DONOHUE e BERG, 1991).
É provável, pois, que essa possibilidade de antecipação, gerada pela sensação de expectativa, possa ser interpretada como uma “insinuação” da percepção de futuro e esteja também na raiz da noção do transcorrer temporal e da causalidade.
Memória
A experiência com a duração e a sensação de expectativa parecem ser as formas com as quais o bebê inaugura sua experiência temporal. Os autores estudados (GAZZANIGA e HEATHERTON, 2005; WHITROW, 1993; PIAGET, 1970) afirmam que o sentido de expectativa se desenvolve antes da construção da memória. A infância inicial é dos poucos fenômenos na psicologia que todos experimentam, mas ninguém é capaz de se lembrar (GAZZANIGA e HEATHERTON, 2005, p. 344). Contudo, a construção das memórias é determinante e imprescindível para que a criança desenvolva, ao longo de seu crescimento, seus conceitos temporais.
O sentido da memória na criança envolve não apenas eventos de sua própria experiência, mas, no devido tempo, outros da memória de seus pais e, por fim, da história de seu grupo social. Mesmo quando a criança começa a relacionar o tempo com movimentos externos às suas próprias ações, ela não tem verdadeira consciência do tempo até que comece a se dar conta de que as
coisas têm relação não somente com ela própria, mas também entre si; isso só se torna possível com o desenvolvimento da memória (WHITROW, 1993).
A noção de tempo, segundo Piaget (1970), é um processo em construção, “num constante ir e vir de relações internas e externas, em que ação e pensamento vão constituindo juntos o real e a consciência”. Esse movimento coloca o homem numa perspectiva de passado e futuro, além do seu próprio tempo presente. E a memória surge, então, como algo imprescindível na “rememoração e reconstrução do passado”, contribuindo, para projetar ações futuras, como possibilidade, tanto do ponto de vista afetivo quanto intelectual (ZASLAVISLY, 2003, p. 42).
Tempo é movimento. Tempo é memória. A criança constrói o tempo “comparando, ordenando a sucessão de acontecimentos, avaliando suas durações, classificando as lembranças, apoiando-se nos dados da memória” (ZASLAVISKY, 2003, p. 42).
Até os dezoito meses, as crianças tendem a viver no presente. Por volta dessa idade o significado do agora parece ser adquirido (WHITROW, 1993). Sua capacidade de reter fatos e de formar imagens facilita a recordação de eventos vivenciados por ela. Já se pode dizer que há uma evocação da memória visando a organização ordenada de acontecimentos relacionados com suas ações próximas no tempo: ela se recorda do deslocamento sucessivo de objetos, recorda do local de um objeto deixado por ela, poucos minutos antes.
Segundo Piaget (1970, p.322), a elaboração de sequências temporais é fundamental para que “a criança consiga superar o presente, em proveito do passado e do futuro imediatos”. “É uma tentativa para libertar o espírito da percepção direta, em nome de uma atividade intelectual capaz de situar os dados dessa percepção num universo estável e coerente”. Mais ainda, a construção da percepção temporal exige o desenvolvimento das representações mentais.
Toda e qualquer tentativa de reconstituição do passado ou de dedução do futuro engendra a representação mental. A representação, como a evocação pela imagem ou por um sistema de sinais de objetos ausentes, só costuma aparecer a partir dos dezoito meses de idade, com a progressiva imersão no mundo dos símbolos e o com desenvolvimento da linguagem (PIAGET, 1970).
Sem a possibilidade das representações, o tempo ficaria reduzido ao presente, ou à recordação direta das ações. Assim, “a capacidade de representação coloca a criança em um mundo que cresce em extensão, pois não mais se restringe ao presente (ou ao passado imediato), inclui também o passado e o futuro”, e se caracteriza pela capacidade de evocar objetos e eventos que não estão sendo vividos ou presenciados naquele instante (ZASLAVISKY, 2003, p. 54).
A capacidade da representação, essencial para o desenvolvimento da criança, começa a se insinuar durante o segundo ano de vida e passa a ser uma das principais conquistas do estágio pré-operacional.