2.3. İDEOLOJİ-DİL-SÖYLEM VE ANLAM İLİŞKİSİ
2.3.2. Dil ve Söylem Yapılarının Gerçeklikle/Hakikatle İlişkisi
De acordo com Oliveira (2008), a violência é uma questão corriqueiramente discutida e vivenciada na realidade do nosso país, sendo esse fenômeno frequentemente
compreendido sob o estereótipo do desvio de conduta e corporificado na dualidade: criminalidade e maus-tratos. A primeira, de acordo com Peixoto, Lima e Durante (2008), já vem sendo legalmente combatida por ações de prevenção ao crime e promoção de segurança pública. Contudo, a violência, especificamente contra a pessoa idosa, ainda têm encontrado barreiras à sua compreensão e seu combate, em razão, por exemplo, da interdição da informação, medo da represália após a denúncia, grau de proximidade do agressor, entre outras (Sanches, Lebrão & Duarte, 2008).
Conforme explicita a Organização Mundial de Saúde (2002), a violência define- se por qualquer ação ou omissão, que pode ser tanto intencional como involuntário contra outrem, que pode lhe causar impacto de modo que venha a desrespeitar sua integridade física, psicológica e/ou social. A violência – ou abuso e maus tratos, que a literatura costuma indicar como sinônimos (Sanches, Lebrão & Duarte, 2008) – contra os idosos é compreendida por esta instituição em dimensões, sendo elas: física, verbal, psicológica ou emocional, sexual, econômica ou financeira, negligência e autonegligência (OMS, 2002).
Em termos de legislação e conceituação, no Brasil, em 2003, ao implementar-se a lei nº 17.741, que objetivava instituir o Estatuto do Idoso, foram elucidadas diretrizes de atenção ao idoso em sua plenitude que proporcionem o envelhecimento próspero (Teixeira & Neri, 2008; Brasil, 2004), e, para tanto, medidas de proteção, bem como punições aos que infrinjam os direitos da pessoa idosa, buscando combater, assim, a violência contra estes.
A lei em questão fundamenta-se também na proposição da Organização Mundial de Saúde para pensar a quebra de direito da pessoa idosa, acrescentando que a violência se trata de atos únicos ou repetidos que causam sofrimento, ou ainda a ausência de ações
que são devidas, que ocorrem numa relação em que haja expectativa de confiança, colocando em jogo que há a quebra de um vínculo na relação ali estabelecida.
Contudo, existem outras propostas que definem a violência contra o idoso, como por exemplo, a do International Network for the Prevention of Elder Abuse (INPEA), que isenta em sua definição as dimensões sexual e econômica/financeira, compreendendo-as como possíveis subdimensões de constructos maiores (Schofield & Mishra, 2003; Tatara et al., 1998). Também podemos destacar, como explicita Uchoa (2003), que há conceitos que ampliam a proposição anteriormente apresentada, como em um seminário sobre abuso contra idoso na África do Sul, no qual foram acrescentadas, para além da classificação indicada pela OMS, temas como abuso de sistemas provenientes de instituições de saúde e acolhimento para idoso, e acusações de bruxarias, estigma e/ou ostracismo.
Outros teóricos, como Zolotow (2005), acrescentam ainda conceitos como o de violência implícita, que se caracteriza por impedir o idoso de participar de determinadas atividades e situações, mesmo este tendo plenas condições comportamentais, cognitivas e emocionais de experienciá-las, fato atribuído ao fenômeno infantilização do idoso, o que acaba por gerar privação de direito a autonomia, participação e tomada de decisão. Há ainda aqueles, como Meza (2006) e Silva, Oliveira, Joventino e Moraes (2008), que acrescentaram, após estudos com idosos, referências a um tipo de violência definida como violência estrutural (urbana e institucional), exemplificada na acessibilidade prejudicada ao transporte público, à dificuldade do direito de ir e vir pelas péssimas condições de trânsito nas calçadas e ruas e demais descasos e desrespeitos ao direito social do idoso.
Diante dessas diferentes concepções, pode-se perceber que a definição de violência contra o idoso é multideterminada por fatores objetivos/materiais, bem como por elementos histórico-culturais e imateriais, seja por relações de gênero, pelos diferentes modos de subjetivação, raça, crença, dentre outros.
Destaca-se ainda que já existe produção científica na área de investigação da violência contra o idoso, sendo possível observar que a literatura debruça-se sobre esse fenômeno a partir da identificação de três grandes dimensões de análise. Sendo estas: estudos que apresentam contextos e relatos da ocorrência de episódios de violência contra o idoso, estudos que discorrem sobre a representação social da violência contra o idoso e, em terceiro, estudos do tipo análise documental, revisão de literatura e pesquisas sobre adaptação de instrumentos rastreadores acerca da violência contra o idoso (Maia et al., 2010).
No que tange a primeira dimensão de estudos, observa-se que os trabalhos trazem informações sobre contextos e episódios de violência contra idosos, nos quais os autores se utilizam de diversos procedimentos metodológicos para obtenção dos dados, seja através de entrevistas, relatos etnográficos, ou até mesmo a partir de dados documentais, como o Sistema de Informação Hospitalar, disponibilizado pelo Ministério da Saúde (Gawryszewski, Jorge & Koizumi, 2004). Os resultados dos estudos mostram que pode ser identificado um perfil do agressor do idoso.
Os artigos são específicos ao afirmar que a violência doméstica implica em uma relação de poder, comumente, cometida por familiares (Gaioli & Rodrigues, 2008; Debert & Oliveira, 2007; Melo, Cunha & Falbo Neto, 2006), destacando-se os filhos, netos e genros/noras entre os principais agressores. Ocorre quando há uma relação de dependência do idoso com um provável cuidador formal ou familiar (Abath, Leal &
Melo Filho,2012; Moraes, Apratto Jr. & Reichenheim, 2008; Ribeiro, Souza, Atie, Souza & Schilithz, 2008; Meira, Gonçalves & Xavier, 2007) e que há interdição da informação, o que demonstra, por sua vez, que habitualmente os idosos não denunciam o abuso.
Dentre os tipos de violência a que o idoso é submetido, percebe-se que os estudos identificam a prevalência de violência física e psicológica, essa especialmente caracterizada por ameaças e coerção (Correia, Leal, Marques, Salgado & Melo, 2012; Gaioli & Rodrigues, 2008; Moraes, Apratto Jr. & Reichenheim, 2008; Melo, Cunha & Falbo Neto, 2006).
Os estudos explicitam ainda que verificada a existência de uma possível situação de violência, é dever do profissional de saúde notificar o ocorrido para que o caso seja apurado, contudo, destacam que não existem muitas ferramentas que auxiliem essa verificação, bem como ainda são escassas as redes de proteção ao idoso que é vítima de violência (Oliveira, Gomes, Amaral & Santos, 2012; Souza, Ribeiro, Atie, Souza & Marques, 2008; Saliba, Garbin, Garbin & Dossi, 2007).
Indica-se ainda que na contemporaneidade ocorre uma ineficácia do Estado na elaboração de estratégias de prevenção e combate à violência. Acrescenta-se ainda que há de se levar em conta a inclusão e implantação de uma atenção ao fenômeno da violência de modo consistente no âmbito da Política Nacional do Idoso e especialmente na Política Nacional e Saúde da Pessoa Idosa (Brasil, 1998b; 2006a), uma vez que a Saúde assume papel imprescindível em ações de prevenção à violência. Esta instituição do Estado pode atuar como dispositivo de cuidado ao familiar, auxiliando-o na reavaliação da sua função no seio familiar e disponibilizando para esse a compreensão
da necessidade da vivência saudável a quem ele disponibiliza cuidado, combatendo, indiretamente, o ato da violência contra a pessoa idosa (Galheigos, 2008).
Quanto à segunda dimensão de estudos, percebe-se que os trabalhos discursam sobre a representação que a sociedade tem do fenômeno da violência contra o idoso. Quando se questiona sobre o que é a violência contra o idoso, percebe-se que há uma associação a questão da violência como referindo-se ao ato físico, rotineiramente relacionado ao bater, e aos psicológicos, comumente associados ao gritar, à falta de respeito por parte do familiar, dentre outros (Wanderbroocke & Moré, 2012a; Araújo & Lobo Filho, 2009; Kullok & Santos, 2009; Leite, Hildebrandt & Santos, 2008; Silva, Oliveira, Joventino & Moraes, 2008).
Quando a representação é questionada a outros grupos sociais, como familiares ou profissionais de saúde, o conteúdo é recorrentemente relacionado a temas já apontados, como maus tratos de natureza física, psicológica e/ou negligência, sendo este fenômeno comumente atribuído à rotina corrida e acelerada do dia a dia a qual as pessoas estão inseridas, que alicerça práticas coercitivas e abusivas, física, psicológica e moral (Wanderbroocke & Moré, 2012a; Wanderbroocke & Moré, 2012b; Kullok & Santos, 2009; Leite, Hildebrandt & Santos, 2008).
Todavia, destaca-se que essa justificativa não abona o desrespeito ao idoso realizado em âmbito intrafamiliar e doméstico ou mesmo no institucional, refletindo a necessidade de revisão das práticas voltadas a atenção e acolhimento ao idoso vítima de violência no contexto da saúde (Ribeiro, Souza & Valadares, 2012; Santos, Souza, Ribeiro, Souza & Lima, 2010).
Por fim, o terceiro conglomerado de estudos discorre sobre instrumentos de rastreamento da violência contra o idoso, análise de documentos oficiais, revisões
bibliográficas e de literatura. Identifica-se que, em se tratando de instrumentos de rastreamento da violência contra o idoso, os trabalhos trazem conteúdos acerca da existência de instrumentos, do tipo escalares, que avaliam, rastreiam e tentam predizer aspectos da ocorrência/prevalência da violência contra o idoso, que utilizam técnicas de autorrelato ou da ótica de outros relatores (Reichenheim, Paixão Júnior & Moraes, 2008; Paixão Júnior, Reichenheim, Moraes, Coutinho & Veras, 2007; Paixão Júnior & Reichenheim, 2006).
De acordo com Paixão Júnior e Reichenheim (2006), sinaliza-se que instrumentos desta natureza produzidos na realidade brasileira ou adaptados de uma cultura para a do país em questão são escassos, destacando a necessidade de operacionalização da criação ou adaptação destes. A literatura mostra que já existem protocolos adaptados que mostram equivalência conceitual e de itens, semântica e de mensuração, especialmente visualizada por bons índices de consistência interna, fidedignidade e validade à realidade brasileira (Reichenheim, Paixão Júnior & Moraes, 2008; Paixão Júnior, Reichenheim, Moraes, Coutinho & Veras, 2007).
Com relação ao segundo subtema, referente à análise documental e às revisões bibliográficas de literatura, vê-se que os trabalhos trazem visibilidade à questão da violência e indicam a necessidade de maior produção sobre a temática. Estes estudos indicam ainda a existência de mecanismos de denúncia, contudo, a identificação e verificação da veracidade do ato de violência, bem como ações a favor das pessoas desta faixa etária que sofrem alguma forma de violência, são escassas (Nogueira, Freitas & Almeida, 2011; Espíndola & Blay, 2007; Santos, Silva, Carvalho & Menezes, 2007; Souza, Freitas & Queiroz, 2007; Schraiber, D’Oliveira & Couto, 2006).
Os dados dessas produções científicas e de documentos oficiais exemplificam a materialização da violência contra o idoso sob a ótica pela qual o problema tem sido analisado, habitualmente da perspectiva sociocultural (Santos, Silva, Carvalho & Menezes, 2007). No entanto, outros estudos vão elencar que esse problema envolve outros fatores, dentre os quais, o modo como a sociedade olha para a velhice, o envelhecimento e para o idoso (Poli Neto & Caponi, 2007; Alcântara, 2001).
Pode-se perceber que os achados literários indicam que o fenômeno da violência contra o idoso já se encontram materializadas e engessadas na lógica social, caracterizando-se por uma epidemia. Se trata, portanto, de uma temática atual, que tem fatores potencialmente associados, mas ineficazmente aferidos, havendo a necessidade da formulação ou adaptação de estratégias, ferramentas e/ou instrumentais que deem conta de apreender a prevalência do fenômeno no conglomerado populacional em questão (Abath, Leal & Melo Filho,2012; Queiroz, Lemos & Ramos, 2010).
2.3) Adaptação transcultural de instrumentos para a população idosa no contexto