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Dijital Öyküleme ve Öğrenci

2.2. Dijital Öyküleme

2.2.4. Eğitimde Dijital Öyküleme Kullanımı

2.2.4.2. Dijital Öyküleme ve Öğrenci

A solução encontrada por John Milton foi se aproximar ainda mais do perigo que intensificava o núcleo da crise de hierarquia (Degree) vivida na Inglaterra – no caso, o seu crescente fascínio pela figura de Oliver Cromwell. Na Segunda defesa, que, de acordo com Blair Worden, teria sido inicialmente escrita em meados de 1652, mas depois reelaborada durante 165397

, justamente o período no qual Cromwell teria fechado o Rabo após um tumulto político sobre se este se comportava como uma oligarquia que perverteria os ideais republicanos. Milton se identifica com o então Lorde General, colocando-se como uma espécie de duplo, atitude que teria sido uma resposta a

95 Cf. HOBBES, Thomas. Behemoth, ou o longo parlamento, tradução de Eunice Ostrensky, revisão técnica de Renato Janine Ribeiro, Belo Horizonte, Editora UFMG, 2001, pág. 262.

96 Cf. BENNETT, Joan J. Reviving Liberty – Radical Christian Humanism in Milton´s Great Poems, EUA, Harvard University Press, 1989, págs. 6-33.

97 Cf. WORDEN, Blair. Literature and politics in cromewellian England. Inglaterra, Oxford University Press, 2007, págs. 262-288.

177 Alexander More quando o poeta afirma a este último que “tu me tornas o seu igual, senão o seu superior” [you make me his equal, if not his superior]98

.

A defesa é apaixonada, mas contém nuances de alerta, em um aconselhamento no qual a euforia é lentamente substituída pela cautela. Para Milton, Cromwell nunca deu amostras de arrogância ou de ameaçar as instituições que permaneceram após as Guerras Civis; por isso, as facções que dilaceravam o país eram mais do que meras inconveniências; eram obstáculos para que o Lorde General conseguisse realizar o que todos queriam para a commonwealth. Entre os sediciosos, estavam os presbiterianos que, com a pusilanimidade costumeira já registrada na época do regicídio, transferiram o desgosto que tinham por Carlos I para Cromwell. Mas ele era muito superior ao tirano morto e também aos seus opositores: sua excelência de caráter era algo marcante e comprovado, já que fazia parte de uma linha de ancestrais que sempre defenderam a liberdade inglesa e, tal como Milton, sempre fez questão de cumprir suas funções civis com o máximo de sobriedade religiosa. Era sem dúvida um perfeito soldado – e mais do que isso: era um estadista que encarnava completamente os movimentos de uma vida interior que era muito difícil de encontrar nos habitantes da commonwealth. Eles eram contrabalançados por uma disciplina que o levou à perfeição do conhecimento das suas próprias limitações [for he was a soldier disciplined to perfection in the knowledge of

himself]; ele extinguiu todo o acúmulo de esperanças vãs, medos e paixões que infestam

a alma [He has extinguished (...) the whole host of vain hopes, fears, and passions,

which infest the soul] – e enfim conquistou, antes de tudo, o governo de si mesmo [the

government of himself] que o fez ser, muito antes de lutar contra o inimigo externo, um

veterano experiente nos achaques e nas exigências da guerra99

.

A identificação de Milton com Cromwell não era aleatória. Ambos acreditavam, cada um a seu modo, na fusão da dureza na ação com a riqueza espiritual. Apesar de não existirem documentos que relatem um encontro efetivo entre os dois – Milton foi uma espécie de amanuense de luxo, que escrevia ou traduzia correspondências diplomáticas para o latim e que tinha acesso às informações dos bastidores políticos por meio de terceiros – é fato de que o poeta esperava muito desse soldado “renascido”,

98 Cf. MILTON, John. The complete poetry and essential prose of John Milton, Nova York, Modern Library, 2007, págs. 1073-1110.

178 responsável pelas incríveis vitórias de Dunbar e Worcester100. Afinal, os dois tinham sido vítimas do dilaceramento moral que sempre surge quando o convertido se depara com aquilo que Cromwell afirmava aos seus próximos como “a escuridão da alma”. Antonia Fraser relata que trata-se da escuridão que envolve o espírito antes da conversão, um conceito importante no pensamento puritano da época10 1

. Para um calvinista, a conversão, o chamado de Deus, era fundamental. Em seus Fundamentos, Calvino diz que “a promessa divina da vida” não atinge “todos os homens da mesma forma”; mais adiante, ele afirma que “(Deus) dá a alguns o que recusa a outros”. No entanto, sem a graça ninguém pode ser salvo. “O Eleito, como esses afortunados possuidores da graça se chamavam a si mesmos, ou “os santos” não nascem com a graça”. E, diferentemente dos católicos, não acreditam na possibilidade de obtê-la mediante um sacramento, como o batismo, por exemplo – que redime os católicos do pecado original. “Os calvinistas e seus descendentes, pelo contrário, supunham que a graça vital provinha apenas da escolha do indivíduo por Deus – levando-o a crer em Cristo, através de um certo tipo de introspecção”. Pois Deus dera Seu filho aos eleitos para apoiá-los, como dizia John Preston em sermão mais ou menos contemporâneo à época de Cromwell: “Quando Deus te chama para vir a Cristo, Ele te promete que a virtude da morte de Cristo vai matar o pecado dentro de ti, e que a virtude da ressurreição de Cristo te elevará a uma nova vida”. “Uma vez concedida, a graça não pode ser mais retirada. Escrevendo sobre o próprio Cromwell, um de seus biógrafos disse: ‘a noção que ele mais prezava era – uma vez filho de Deus, para sempre filho de Deus’”. Os santos não podiam perder a graça divina. “A conversão ou a aceitação do papel da dádiva, por ambas as razões, permitiria o surgimento de um evento espiritual marcante”1 02

.

Tanto Milton como Cromwell tinham a certeza de que eles eram os representantes máximos desse evento – o momento em que a Inglaterra enfim se

100 Sobre as relações entre Milton e Cromwell, além da sua participação na commonwealth e no Protetorado, ver: WORDEN, Blair. WORDEN, Blair. Literature and politics in cromewellian England, Inglaterra, Oxford University Press, 2007, 455 págs; WORDEN, Blair. The Rump Parliament 1648-1653. Inglaterra, Cambridge University Press, 1974, 439 págs; SMITH, David L. (org.) Cromwell and the

interregnum. Inglaterra, Blackwell Publishing, 2003, 235 págs.; GENTLES, Ian, MORRILL, John & WORDEN, Blair (orgs.). Soldiers, writers and statesmen of the English Revolution. Inglaterra, Cambridge University Press, 1998, 355 págs. e FALLON, Robert Thomas. Milton in Government. EUA, Pennsylvania University State Press, 288 págs.

101 FRASER, Antonia. Oliver Cromwell – Uma vida, tradução de Marco Aarão Reis, Rio de Janeiro, Editora Record, 2000, págs. 56-58. Grifos nossos.

179 libertava do jugo [yoke] da tirania real e se transformava em uma commonwealth livre. Se, para o primeiro, o dilaceramento moral era refletido em longos períodos de melancolia que eram acentuados ainda mais pelo surgimento da cegueira, para o segundo o mesmo era acumulado entre momentos de hesitação e de explosões súbitas, em um comportamento que ficou imortalizado por outro grande poeta da época, Andrew Marvell, que, em sua Uma ode horatiana sobre o retorno de Cromwell da Irlanda [An Horatian Ode upon Cromwell´s return from Ireland, 1650], o descreveu da seguinte forma: “Então o inquieto Cromwell não podia parar/ nas artes da paz que não trazem nenhuma glória,/ mas pela guerra aventureira/ que impeliu a sua estrela ativa” [So restless Cromwell could not cease/ in the inglorious arts of peace,/ but through

adventurous war/ urgèd his active star]1 03

.

Contudo, podemos perceber no mesmo texto da Segunda defesa que Milton muda o louvor para aquilo que sempre se achou apto a fazer: o aconselhamento do profeta do intelecto e das letras dirigido ao soldado que se revela um profeta da guerra justa. Trata-se de uma das inúmeras variações da pleonexia: ao supor que tem um diagnóstico correto – no caso, as lutas internas no Parlamento que provocariam o seu fechamento por Cromwell e a criação do período que ficou conhecido como Protetorado –, o poeta também acredita que tem a profilaxia necessária para remediar a situação. Mas, como já vimos quando analisamos Aeropagítica, resolver os problemas práticos e políticos de uma commonwealth não somente envolve a defesa encarniçada da liberdade, seja lá qual for o seu tipo específico, em especial algo tão intangível como o “domínio das virtudes”. O aconselhamento se torna algo mais parecido com uma identificação que pode ou não pode tomar o rumo da rivalidade – o que não seria muito incomum no ambiente que deflagrou as Guerras Civis inglesas. Cromwell tem de perseverar no seu combate com os sediciosos porque é sua obrigação moral salvar o país da desunião – e o ideal de liberdade o havia escolhido como a flor preferida de onde surgiria seus talentos e suas virtudes. Este mesmo ideal esperava de Cromwell que fosse preservado a qualquer custo – desde que, claro, Milton fosse considerado o primeiro a perceber que, se não fosse dessa forma, a Inglaterra retornaria ao pior dos estados: o da servidão que já tinha sido rompida com a destruição de um tirano1 04

.

103 MARVELL, Andrew. The complete poems, Inglaterra, Penguin Classics, 1996, pág. 55.

104 Cf. MILTON, John. The complete poetry and essential prose of John Milton. Nova York, Modern Library, 2007, págs. 1073-1110.

180 A volta de tal situação de jugo [yoke] era impensável. Seria a morte das esperanças mais profundas no pensamento político de John Milton. Blair Worden afirma que ele não estava preocupado com a influência de instituições consideradas provisórias, como o Parlamento ou o exército, nas decisões políticas de Cromwell, mas sim no efeito de que elas poderiam provocar na constituição de sua alma105

. E, dessa forma, o principal problema não eram negociações passageiras sobre assuntos de Estado que não envolvesse a redenção de uma nação inteira; para Milton, a verdadeira questão sempre foi a corrupção do clero, sob quaisquer formas que ainda não reforçassem a verdadeira religião reformada de qualquer aspecto “papista”.

Em um argumento que comprova a coerência de posição já mostrada em Da

razão e A tenência dos reis e magistrados, o texto da Segunda defesa reforça que a

igreja dividida por membros incapazes de compreender a disciplina das virtudes encarnada nas ações de Cromwell é justamente a razão principal para a efetiva separação entre o poder secular do governo e o poder espiritual dos “santos” que comprovariam que a Inglaterra é uma nova Israel. Milton pede para que o Lorde Protetor faça a união entre essas duas esferas, mas de um modo que não prejudique a liberdade de consciência do fiel protestante – e que mantenha a unidade e a autonomia da commonwealth. É desnecessário dizer que colocar uma tarefa dessa envergadura nos ombros de um único homem só faz aumentar o risco de um inevitável fracasso – o que de fato aconteceu.

A desilusão de Milton com Cromwell já tinha sido prevista pelo próprio poeta em um soneto escrito dois anos antes da publicação da Segunda defesa – o que confirma as observações de Blair Worden que talvez o texto do tratado tenha sido bastante reformulado, principalmente após o golpe dado ao Rabo em 1653106

. Talvez por intuir que o tom ambíguo dos versos poderia lhe causar problemas até mesmo no tempo do Protetorado, o poema só foi publicado postumamente em 1694, quando Edward Philips lançou a sua biografia Vida de Milton [Life of Milton]:

105 Cf. WORDEN, Blair. Literature and politics in cromewellian England. Inglaterra, Oxford University Press, 2007, págs. 262-288.

181

Cromwell, nosso líder que, em uma nuvem De guerra e de áspera cisão, guiado Pela fé e por uma força ímpar, trouxe paz E verdade em um caminho glorioso, colhido E carregado de troféus divinos pelo pescoço Da orgulhosa Fortuna, o sangue dos escoceses Correndo pelo rio Darwen e no campo de Dunbar, Louvaremos o que fez em altos brados nos louros De Worschester: ainda assim, há muito o que fazer E conquistar; a paz tem suas vitórias,

E são tão reconhecidas quanto as da guerra: surgem novos Inimigos que ameaçam escravizar as almas em

Algemas seculares. Ajude-nos a salvar a consciência Livre dos lobos que devoram o nosso Evangelho.107

Assim como Andrew Marvell, Milton capta o temperamento vulcânico de Cromwell por meio de ações implacáveis cujo único fim é a manutenção da ordem e o restabelecimento da paz – mesmo que tenha de usar da força da violência e da guerra. Ao mesmo tempo, é interessante observar que ele se movimenta “através de uma nuvem”, não apenas a da guerra, mas também dos seus detratores que, implicitamente, não são guiados pela fé e pela coragem ímpares que orientam as decisões do general. É a partir do nono verso que o elogio transforma-se em conselho: “yet much remains/ to

conquer still” – ainda assim, há muito o que conquistar. A república não é uma garantia,

em especial a sua tão sonhada estabilidade. A guerra deve ser empregada para manter a paz. Os novos inimigos surgem, como lobos, prontos para destruir o pouco que resta de uma consciência livre e que usam o evangelho como uma armadilha para envenenar as entranhas da commonwealth.

Por que essa mudança de atitude em relação ao seu líder? O que teria provocado em Milton tamanha desconfiança nas expectativas surgidas em torno de Cromwell?

107 Cromwell, our chief of men, who through a cloud,

Not of war only, but detractions rude, Guided by faith and matchless fortitude,

To peace and truth thy glorious way hast ploughed, And on the neck of crownèd Fortune proud

Hast reared God’s trophies, and His work pursued, While Darwen stream, with blood of Scots imbrued, And Dunbar field, resounds thy praises loud, And Worchester’s laureate wreath: yet much remains To conquer still; peace hath her victories No less renowned than war: new foes arise, Threatening to bind our souls with secular chains. Help us to save free conscience from the paw Of hireling wolves, whose gospel is their maw.

Cf. MILTON, John. The complete poetry and essential prose of John Milton. Nova York, Modern Library, 2007, pág.153.

182 Worden nos explica que toda essa apreensão girava a respeito de um assunto candente aos interesses do poeta – e dos quais ele considerava fundamentais para a saúde moral da commonwealth: a separação entre a igreja e o estado108

. Como já sabemos, Milton era a favor de que o poder secular e o poder espiritual permanecessem em lados distantes, mesmo que fossem iluminados por uma única luz, a da liberdade de consciência, tal como, por exemplo, Richard Hooker havia retratado em seus escritos na sua intenção de unir a razão e a vontade na sua luta contra a “bibliolatria”. Entretanto, Cromwell não pensava da mesma forma – para o Lorde General, o estado deveria interferir na igreja justamente para manter a pureza e a integridade da religião reformada. Obviamente, haviam outros que pensavam da mesma forma, como John Owen, o capelão de Cromwell nas suas batalhas militares de 1650-51, e que foi incumbido pelo general para ser o seu representante no Parlamento naquilo que depois foi chamado de “divulgação do Evangelho” entre o povo inglês. Alegando serem defensores da “tolerância religiosa”, Cromwell e Owen não queriam que certas opiniões muito caras aos independentes – entre elas, a crença ao anti-trinitarismo, doutrina considerada herética, que negava a trindade de Jesus Cristo, mas da qual Milton era um fervoroso defensor, como fica claro no seu póstumo Da doutrina cristã – se tornassem a maioria na sociedade. Para Milton, isso atentava à sua concepção de “liberdade de consciência” – já que não deixava o fiel protestante discutir outras ideias que fossem além dos vícios “papistas” e que infectavam o Cristianismo há séculos109

.

Deve-se observar que a expressão “liberdade de consciência” empregada por Milton, especialmente nos seus escritos políticos tardios, está intimamente relacionada com o uso da razão e da liberdade que o homem descobriu no curso de uma História que sai da escravidão moral para a redenção plena, sob quaisquer meios, mesmo que estes sejam às vezes violentos. A consciência, para Milton, é o julgamento prático entre o certo e o errado, entre o Bem e o Mal, mas em um espaço igualmente moral e

igualmente indeterminado, que, por isso mesmo, necessita de limites para ser exercida

de forma plena a fim de não ser corrompida pelos “novos inimigos” [new foes],

108 Cf. WORDEN, Blair. Literature and politics in cromewellian England. Inglaterra, Oxford University Press, 2007, págs. 262-288.

183 especialmente os que desejam a volta da tirania real, sejam eles realistas, bispos, presbiterianos, católicos e até mesmo independentes110

.

Talvez já antevendo a decepção que Cromwell iria causar naquilo que ele acreditava como o fundamento de uma commonwealth que se pretenda livre, Milton procurou louvar alguém com quem compartilhava as mesmas ideias: Henry Vane, outro ilustre membro do Parlamento e um sujeito fascinado pela doutrina do anti-trinitarismo, portanto defensor da separação entre os dois poderes. Dois meses depois de ter escrito o soneto a Cromwell, Milton escreveu outro, desta vez dedicado ao companheiro de luta:

Vane, jovem na idade, mas sábio no conselho, Era melhor que qualquer senador romano Quando as vestes e não as armas repeliram O feroz Epiro e o audaz Africano, seja para Manter a paz ou para desdobrar as províncias ocas Jamais persuadidas; ao aconselhar que a guerra Seria melhor, movida pelo ferro e ouro que a constitui Sua armadura; e, além disso, saber tanto

Sobre o poder espiritual como o terreno, o que significa Cada um, o que os separa, tu aprendeste o que poucos Conseguiram. Os limites de cada espada

Devemos a ti: portanto, em tua firme mão, A Religião se rende em paz e

Agradece sempre a teu filho mais velho111

.

Apesar deste poema ser simétrico ao soneto a Cromwell, há uma diferença crucial: Milton não ousa fazer nenhum conselho a Vane. E é também no nono verso que

110 Cf. GEISST, Charles R. The political thought of John Milton. Inglaterra, Macmillan Press Ltd., 1984, págs. 21-39.

111 VANE, young in years, but in sage counsel old,

Than whom a better senator ne’er held

The helm of Rome, when gowns, not arms, repelled The fierce Epirot and the African bold,

Whether to settle peace, or to unfold The drift of hollow states hard to be spelled; Then to advise how war may best, upheld, Move by her two main nerves, iron and gold, In all her equipage; besides, to know

Both spiritual power and civil, what each means, What severs each, thou hast learned, which few have done. The bounds of either sword to thee we owe:

Therefore on thy firm hand Religion leans In peace, and reckons thee her eldest son.

Cf. MILTON, John. The complete poetry and essential prose of John Milton. Nova York, Modern Library, 2007, pág. 155.

184 ele explicita a diferença entre os dois: no primeiro poema, Milton quer guiar Cromwell, mesmo com toda a sua forte personalidade, nos rumos corretos da verdadeira natureza dos poderes civis e espirituais; já no segundo, Vane não precisa nada disso porque ele tem plena ciência da origem desses mesmos poderes e o que acontece com a

commonwealth quando as lâminas de ambas as espadas não estão separadas

adequadamente – e, no caso, é a mão firme de Vane (um adjetivo similar foi usado para identificar o caráter de Lorde Fairfax, o superior de Cromwell no Exército do Novo Tipo, antes deste se tornar o famoso general) que saberá conquistar a religião verdadeira e reformada nas decisões entre o governo e o Parlamento.

Cromwell e Owen usaram de todos os recursos políticos disponíveis para que a sua “divulgação do evangelho” e a sua perspectiva de “tolerância religiosa” fossem aprovadas no Parlamento. É de se supor que Milton não tenha gostado nada disso; mesmo permanecendo como Secretário de Latim na época do Protetorado, é sintomático que, após os elogios a Cromwell na parte final da Segunda defesa, ele tenha ficado em silêncio sobre o assunto durante os cinco anos seguintes. Dessa forma, não sabemos o que o poeta pensava a respeito da, por exemplo, a morte de Cromwell em 1658 – pelo menos explicitamente112

. Mas a decepção é evidente; afinal, para Milton, como se não bastassem os constantes cismas que ameaçavam a integridade da commonwealth inglesa, a mesma que teve que matar um rei tirano para garantir a substância da liberdade real, havia agora o perigo do único sujeito que poderia restaurar a ordem – Oliver Cromwell – cair na mesma artimanha, justamente porque não estava bem aconselhado na visão correta do que deveria ser a separação entre o poder secular e o poder espiritual. Não é difícil perceber, quando se lê os dois sonetos mencionados e o terço final da Segunda defesa, que a pleonexia do poeta se revela de forma assustadora – e podemos entrever nesses textos o íntimo do poeta de tal maneira que finalmente, como