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TÜRKİYE’DE ULUS DEVLET VE KÜRESELLEŞME İLİŞKİSİ, 1980-2002

3.1. Küreselleşmenin Siyasal Kültürel Etkileri

3.1.1. Devletin Dönüşümü

O Florentino constantemente atribui ao homem a volubilidade, a traição e a violência; essas assertivas perpassam todo O Príncipe, o Discorsi e parte da História de Florença, e no Capítulo 17, d´O Principe (“Da crueldade e da piedade; e se é

melhor ser amado que temido”) Maquiavel afirma serem as características humanas da seguinte forma: os homens são ingratos, volúveis, fingidos e dissimulados,

avessos ao perigo, ávidos de ganhos237.

A partir dessa frase pode-se, a princípio, inferir que para Maquiavel o homem é mal por natureza o que foi um dos aspectos que permitiu o desenvolvimento da

235 Ibidem. pp. 66-69.

236 O trabalho que pontualmente analisa uma possível antropologia no pensamento de Maquiavel é: GUILLEMAIN, B. Machiavel: L’anthopologie politique. Genève: Droz, 1974. 237 Ibidem. p. 102

concepção do maquiavélico. Muito embora haja diversas passagens como estas238

deve-se verificar com maior rigor se é possível falar em uma antropologia e uma essência humana, no que se refere a Maquiavel.

Outro ponto a ser tido em conta é a passagem de uma vida contemplativa para uma vida ativa, o que denota uma emancipação de uma vida político-cristã, para uma vida política dissociada do pensamento cristão. Tanto no medievo quanto na passagem para o humanismo cívico houve influência do pensamento e das autoridades eclesiásticas, sobretudo na interpretação do poder conforme seus valores morais e sua concepção de virtude: o modelo de governante ideal era aquele que seguia os preceitos cristãos. Maquiavel, longe desta perspectiva política-cristã, fazia análises extremadas como por exemplo na questão proposta por ele de se era melhor ser temido que amado, afirmou que “é bem mais seguro ser temido que

amado”239. Assim, ele inverte um preceito agostiniano.240

Indo além, Bignotto (2005:198) entendia que “a Igreja era tida como a

responsável não só pela decadência dos costumes, mas, sobretudo, pela incapacidade de ação dos homens políticos”241 Não obstante, Maquiavel não critica

a religião em si e sim os valores cristãos influenciarem a política. A religião deve ser usada como instrumento e não como fim. As asserções do Florentino a respeito são claras: “o fundamento da vida de toda religião assenta em alguma ordenação

principal”242, “...como os romanos utilizavam a religião para reordenar a cidade”243 e

“...quanta confiança se pode ganhar usando bem a religião”244.

238 Ver Discorsi: I (27, 30, 37) II (Proêmio) III (9, 21, 28); O Príncipe (III, VI, IX, XVI, XVII, XVIII); História de Florença: III-23, VII-23.

239 O Príncipe. Cap. XVII. p. 102.

240 quem há de ser temido senão Deus, a cujo poder ninguém, porém, quem há de ser temido senão Deus, a cujo poder ninguém, em tempo algum ou lugar, nem por nenhum meio pode subtrair-se e fugir? VI, 3

Mas, Senhor, tu és o único que sabe mandar sem orgulho, porque és o único Senhor verdadeiro, que não tem senhor! Diga-me, terá cessado em mim, se isso pode acontecer nesta vida, esta terceira espécie de tentação, que consiste em querer ser temido e amado pelos homens, com o único fim de obter uma alegria que não é alegria? Que vida miserável, que arrogância indigna! Aí está o principal motivo porque não te amamos e tememos piamente. Por isso resistes aos soberbos, enquanto dás tua graça aos humildes. Trovejas contra as ambições do mundo, e faz abalar as montanhas até suas raízes. XXXVI, 2.

in: Agostinho de Hipona. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos, S.J., e A. Ambrósio de Pina. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

241 BIGNOTTO, N. Maquiavel Republicano. p. 198. 242 Discorsi. Livro I, Cap. 12. p. 53.

A crítica à influência do cristianismo em relação à política é parte do pensamento político maquiaveliano, mas não se pode, ainda, afirmar que faz parte de uma análise antropológica propriamente dita, neste sentido Pocock (2003:192) assevera que:

Mas se a religião é um pré-requisito da virtude cívica, porque pode mudar a natureza dos homens, não é a virtude em si, se essa pode existir apenas em uma estrutura cívica. Esse pensamento se tornará parte da subordinação maquiaveliana da religião em relação à política, bem como sua crítica ao cristianismo, alegando que dá aos homens valores que não são cívicos.245 (POCOCK, 2003:192)

Assim sendo, a dificuldade, na tarefa de desvendar a existência de uma antropologia maquiaveliana, é o fato de este pensamento não ter sido construído sob a forma de um sistema, de maneira linear ou com preocupações conceituais. Não obstante ele costuma fazer uso constantemente da conjunção “ou”, não sendo categórico ou definindo uma tese unívoca, a qual passaria a desenvolver. Como fator complicador para uma análise antropológica, Maquiavel faz uma divisão do corpo político, ao afirmar que “em toda república há dois humores diferentes, o do

povo, e o dos grandes, e que todas as leis que se fazem em favor da liberdade nascem da desunião deles...”246. N´O Príncipe o Florentino afirmara que nas cidades

há duas tendências opostas “de uma parte, o povo não quer ser comandado nem

oprimido pelos poderosos, de outra, os poderosos querem comandar e oprimir o povo”247. Para Lefort (2008: 385) uns e outros só existem a partir do confronto, o

qual se constitui pela opressão por uns e a recusa da opressão pelos outros248.

243 Ibidem Livro I, Cap. 12. p. 56. 244 Ibidem Livro I, Cap. 15. p. 64.

245 POCOCK. J.G.A. The Machiavellian moment. p. 192. (“But if religion is a prerequisite of civic virtue because it can change men´s natures, it is not virtue itself if that can exist only in a civic frame. This thought will become part of Machiavelli´s subordination of religion to politics, his critique of CHRISTIANITY on the grounds that it gives men other than civic values.”)

246 Discorsi. Livro I, Cap. 4. p. 22. 247 O Príncipe. Cap. IX. p.77.

248 LEFORT, C. Le Travail de l´oeuvre Machiavel. p. 385 (“elles n´existent que dans leur affrontement autour de cet enjeu que constitue pour les uns l´oppression, pour les autres le refus de l´oppression”)

Quanto ao governante, este deve agir com virtù249 e Maquiavel, a todo

momento, e em diversos textos exalta e elogia os governantes que agiram com virtù, levando o povo à liberdade. A virtù não traz como pressuposto a bondade do governante e sim a capacidade de bem conduzir seu governo, podendo usar para isso, inclusive, meios extraordinários (grandissimi straordinari). Infere-se, portanto, que não se pode determinar a priori uma antropologia maquiaveliana.