1.4. Neoliberalizmin Teorik Temelleri
1.4.1. Devlet Müdahalesi, Mülkiyet ve Liberteryenizm
Dados sobre a ocorrência de violência nas escolas públicas paulistas podem ser encontrados desde 1982, quando 66% das escolas estaduais relatavam situações de depredação, invasão ou roubo (INSTITUTO LATINO-AMERICANO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA PREVENÇÃO DO DELITO E TRATAMENTO DO DELINQUENTE, 2001). Corroborando as pesquisas e análises nacionais sobre o tema, essas parecem ser de fato as ocorrências predominantes no estado de São Paulo nas décadas de 1980 e 1990, conforme estudos realizados também em 1995 e 1996 (INSTITUTO LATINO-AMERICANO..., 2001, p. 21). Já no final dos anos 1990, as brigas e agressões entre alunos começam a ser relatadas de forma mais significativa, sendo mencionadas por 62,2% dos diretores de escola em pesquisa realizada em 1999 pelo Sindicato de Especialistas de Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo (Udemo), e admitida por 13,2% dos alunos em pesquisa de vitimização/autorrelato feita no mesmo ano pelo Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinquente (2001).43
Em nova pesquisa realizada pela Udemo em 2003,44 as brigas internas e as situações
de desacato a professores foram indicadas como as principais violências sofridas pelas escolas públicas estaduais no referido ano, e foram relatadas por 78% e 73% dos diretores respondentes, respectivamente. As situações de depredação dos prédios foram mencionadas
43 O Ilanud e outros centros especializados, escritórios internacionais e institutos regionais compõem a Rede do Programa de Prevenção do Crime e Justiça Criminal das Nações Unidas. A pesquisa “O Dia a Dia na Vida das Escolas” foi realizada em 1999 pelo órgão em parceria com o Instituto Sou da Paz. A pesquisa obteve uma amostra de 7 escolas do município de São Paulo, sendo 4 públicas e 3 particulares, e envolveu um universo de 710 alunos. Sendo ao mesmo tempo uma pesquisa de vitimização e de autorrelato (violações autoassumidas), o estudo tratou de temas como sentimento de insegurança, armas, drogas, álcool e fumo, além de investigar a opinião dos alunos sobre os principais problemas enfrentados pela escola, sobre as causas da violência e sobre o que poderia ser feito para resolver os problemas de segurança da escola (INSTITUTO LATINO-
AMERICANO..., 2001)
44 A pesquisa foi realizada no primeiro semestre de 2003 e se refere a situações vivenciadas em 2002. Um questionário estruturado foi enviado para 3.000 escolas estaduais de 60 municípios do estado de São Paulo, e foram obtidas 300 respostas. O Ibope foi responsável pelo processamento dos resultados (SINDICATO DE ESPECIALISTAS..., 2003).
por 63% das escolas e constituíam a principal inquietação dos diretores em relação aos bens materiais (52% consideravam esta como a violência mais preocupante neste quesito). No mesmo ano, 61% dos diretores relataram ter realizado Boletim de Ocorrência (BO) na polícia em função das situações de violência. Segundo a pesquisa, o número médio de BOs feitos pelos diretores sobre casos de violência contra pessoas é maior do que aqueles que se referem ao patrimônio da escola (2,56 em comparação a 1,86).
É interessante notar que, em 2003, 76% das escolas estaduais mencionaram que haviam realizado algum projeto ou ação para melhorar a indisciplina. Destas, 41% apontaram a realização de palestras ou oficinas para conscientização de valores morais e 38%, a realização de atividades artísticas, esportivas ou de lazer.45 Ações para integração com pais e
ações com a comunidade foram indicadas por poucas destas escolas (14% e 5%, respectivamente), bem como a realização de projetos específicos sobre a violência (7%). No entanto, 56% consideravam o desenvolvimento de projetos de conscientização e valorização da escola envolvendo pais, alunos e comunidade em geral como a principal sugestão para solucionar o problema de violência no meio escolar.
Em 2006, a Apeoesp realizou uma pesquisa com os professores-delegados participantes de seu XXI Congresso Estadual, buscando analisar sua opinião em relação à violência nas escolas a partir de suas experiências naquele ano letivo.46 Os resultados dessa pesquisa, publicados em 2007, revelaram que 86,8% dos professores das escolas públicas estaduais relatavam casos de violência na escola em que trabalhavam, e os principais tipos de violência apontados foram: violência verbal (96,0%), vandalismo (88,5%), agressão física (82,0%), furto (76,0%), roubos ou assalto a mão armada (18,0%), violência sexual (9,0%) e assassinato (7,0%).
A maior parte das situações de violência nas escolas foi apontada pelos professores como protagonizada pelos alunos (93,3% dos casos). Em segundo lugar, apareceram como responsáveis pessoas desconhecidas da escola (31,6%), seguidas dos pais ou responsáveis
45 Termo utilizado pela própria pesquisa, em que se perguntava: “Na sua escola já foi feito algum projeto / ação para melhorar o problema da indisciplina? (se sim) O quê? (descreva)”.
46 Pesquisa realizada a partir de parceria entre o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos
Socioeconômicos e a Apeoesp, por meio de aplicação de questionário, com 672 professores respondentes. Os professores-delegados são eleitos nos termos do Art. 23 do Estatuto da Apeoesp para participar dos Congressos Estaduais, instância máxima de deliberação da entidade. Segundo o sindicato, a eleição destes professores- delegados é feita de forma proporcional, garantindo a representatividade da categoria e permitindo ampliar as conclusões da pesquisa para o universo mais amplo do quadro do magistério (SINDICATO DOS
(25,2%). A equipe escolar foi indicada como protagonista de violência em um percentual bastante mais reduzido: professores (15,9% dos casos), diretores (11,2%) e funcionários (9,7%). Em relação às principais causas da violência nas escolas, os professores paulistas apontaram sobretudo fatores individuais e estruturais, como os conflitos entre alunos (66,4%), o uso de drogas e álcool (63,0%) e a falta de funcionários na escola (59,9%), ao passo que aspectos ligados diretamente à segurança foram mencionados por menos de um terço dos professores, como falta de estrutura de segurança (28,7%) e falta de policiamento (28,5%).
Outro dado relevante refere-se ao encaminhamento conferido pelas escolas às situações de violência. Conversar com os responsáveis foi a medida mais apontada (58,6%), mas – reiterando informações do levantamento da Udemo –em percentual bem próximo ao de casos em que foi registrado Boletim de Ocorrência em delegacia (57,4%). Novamente, os BOs foram registrados principalmente nas situações de violência pessoal (61,7% em casos de agressão física), mas também houve proporção significativa de registros por causa de violências contra o patrimônio (49,0%) e – o que chama atenção – de casos de agressão verbal (44,6%).47
A existência de projetos de combate à violência na escola48 foi apontada por apenas 40,8% dos respondentes – proporção menor do que a encontrada em 2003 pelo Udemo –, os quais mencionaram sobretudo a realização de atividades pedagógicas dentro do currículo escolar (63,3%), além de palestras e debates com alunos (60,6%). Por fim, a maior parte dos professores respondentes dessa pesquisa revelou-se insatisfeita com as políticas de segurança nas escolas desenvolvidas naquele momento pelo governo estadual, de modo que 75,2% dos professores consideravam-nas péssimas ou ruins. Mesmo o programa Escola da Família – uma das principais bandeiras do governo à época, como será apresentado mais adiante – foi apontada como iniciativa sem impacto na redução da violência nas escolas (71,8%).
Em 2007, a Udemo apresentou nova pesquisa sobre o tema a partir da visão dos diretores das escolas públicas estaduais.49 Segundo os resultados dessa pesquisa, 86% dos diretores indicaram que suas escolas haviam sofrido algum tipo de violência naquele ano, e os relatos de violência contra pessoas foram novamente os mais mencionados: 88% relataram
47 A pergunta realizada pela pesquisa foi “Em que casos houve registro de boletim de ocorrência?”, podendo ser assinalada mais de uma alternativa.
48 O termo “combate à violência” foi o empregado no relatório da pesquisa.
49 Segundo o Udemo, foram enviados questionários para os diretores de todas as escolas públicas estaduais (cerca de 5.300), obtendo-se 683 respostas (SINDICATO DE ESPECIALISTAS..., 2007).
situações de desacato a professores, funcionários ou direção, e 85% referiram-se a brigas, definidas como situações de agressões físicas envolvendo alunos. A seguir, apareceram as violências contra os bens materiais, tendo sido relatadas situações de depredação (65%), pichação (62%) e danos a veículos (62%). Quanto ao registro de Boletins de Ocorrência, a medida foi apontada por 70% dos diretores – proporção ainda mais elevada do que a apresentada na pesquisa da Apeoesp –, indicando uma média de 2,18 boletins por escola em 2007.
Contribuindo para a construção de uma série histórica, nova pesquisa sobre violência nas escolas da rede pública estadual foi realizada em 2010 pela Udemo, ocasião em que 84% das escolas relataram ter sofrido algum tipo de violência, patamar semelhante ao encontrado em pesquisas anteriores.50 Novamente, o desacato a professores, funcionários ou direção
constituíram as reclamações mais frequentes (87,8%), seguido das agressões físicas entre alunos (86,3%), em percentuais bem próximos aos encontrados em 2007. Já as ocorrências relacionadas a bens materiais apareceram neste ano em percentual bastante mais elevado: 81,5% dos diretores relataram depredações, 82,0%, pichações e 62,5%, arrombamentos (a portas, janelas, cadeados, etc.). Nesse mesmo ano, 72% das escolas registraram algum boletim de ocorrência na polícia, e 14,4% das escolas o fizeram mais de sete vezes no ano. Cabe destacar que – como será descrito mais adiante – os anos de 2008 e 2009 foram marcados pela ocorrência de dois importantes episódios de depredação em escolas públicas paulistas, bastante noticiados pela mídia, o que pode ter influenciado a percepção dos diretores de escola no momento de resposta a essa pesquisa e, em alguma medida, explicar percentuais tão elevados no período.
2.2 Políticas de prevenção à violência nas escolas da rede pública do Estado de São