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Podemos agora destacar alguns pontos em comum entre os escritos dos intelectuais do Partido e os documentos oficiais, que resumem a teoria educacional do PT até 1996. Faremos isso em tópicos, para facilitar a organização dos temas. Assim, fizeram parte dessa teoria educacional as seguintes propostas:

1) Uma educação como prática de uma “radicalidade democrática”. A educação como

prática de uma radicalidade democrática garante a todos oportunidades iguais de acesso à educação única, pública e gratuita e condições de permanência na escola. Como denominou o texto do PT: uma educação de “gratuidade ativa”, mesmo entendendo ser difícil igualdade de oportunidades em uma sociedade classista, pois a sua essência é a falta dessas oportunidades iguais. Uma “radicalidade democrática” também na gestão do ensino, para que legitime, por exemplo, uma eleição direta para diretor e a formação de um colegiado paritário, escolhido entre os membros da comunidade escolar.

2) Uma educação para atender às necessidades reais da população. Não pode haver uma

verdadeira educação sem que sejam sentidas as reais necessidades da população, necessidades que podem ser atendidas por meio de pequenos projetos dentro da própria escola, que envolvam toda a comunidade escolar em um sistema de gestão democrática. Aos poucos, as massas populares seriam preparadas para o exercício do poder e da nova hegemonia, por meio da aquisição de um conhecimento técnico e científico e de uma profunda formação cultural, política, social e econômica.

3) Uma educação que promova a união entre a teoria e a prática. É preciso estar sempre

alerta para o perigo da dicotomização dentro dos sistemas de ensino: a dicotomização entre teoria e prática, entre trabalho intelectual e trabalho manual. Não há uma conscientização sem uma ação prática e, como já dizia Lênin, não há uma revolução sem uma teoria revolucionária. Essa dicotomização não atende à concepção socialista de educação.

4) Uma educação que não desvincule pedagogia e política. Na teoria socialista, a educação é

um momento de luta de classes. Cada classe tem a sua ideologia e a sua teoria pedagógica: há a pedagogia da classe dominante e a pedagogia da classe dominada. Por isso, é preciso fazer uma escolha entre teorias. E essa escolha, para além da técnica, é política. Além disso, um sistema educacional é um prolongamento do sistema social e político de um determinado período histórico.

5) Uma educação voltada para a conscientização.A conscientização pode substituir o senso

comum – marcado por uma visão mais mágica, amorfa e fragmentada da realidade – por uma visão crítica e social. Missão difícil: “decifrar o mundo” diante do encanto das ideologias que são absorvidas pelas classes dominadas, que, na verdade, não lhes dizem respeito. A educação precisa ir “além das aparências”, das ilusões, buscando sempre a crítica, a “desobediência”, a libertação do pensamento único. Conscientização também combina com cidadania, no que se refere ao conhecimento e ao respeito pelos seus direitos e deveres.

6) Uma educação que seja responsabilidade do Estado. Mesmo que as comunidades se

organizem para promover a educação comunitária, não podemos perder de vista a luta política para pressionar o Estado no sentido de cumprir o seu dever constitucional de financiar e prover uma educação pública, gratuita e de qualidade, uma luta que, além disso, acabe com a indústria do ensino que conquistou um enorme espaço diante do absenteísmo do Estado.

7) Uma educação em um sistema aberto, único e descentralizado. Essa é uma forma ideal de

educação: uma educação que trabalhe com a tensão e o conflito, destacando a escola e a sala de aula como os locus por excelência da ação educativa, permitindo que as decisões sejam tomadas pela comunidade escolar; um sistema embasado em uma gestão democrática, que promova a comunicação direta das escolas com a comunidade escolar e com os órgãos institucionais, bem como a autonomia das escolas, de modo que cada uma delas possa construir o seu projeto político-pedagógico.

8) Uma educação pública popular.

mobilização, organização e capacitação das classes populares. Além disso, deve ajudar as classes dominadas na superação do senso comum em busca de um conhecimento mais crítico.

9) Uma educação que diga não à municipalização. No que se refere à descentralização, ao peso

maior da comunidade escolar e à diminuição da burocracia estatal, a municipalização não vai ao encontro dos interesses das classes trabalhadoras, como alguns pensavam. Ao contrário, a municipalização abre espaço para a privatização da educação fundamental, garante o clientelismo e piora a qualidade do ensino, pois muitos municípios possuem limites econômico-financeiros que inviabilizam a manutenção do ensino fundamental.

10) Uma educação que garanta uma nova qualidade de ensino. Um ensino de qualidade

prioriza a construção da solidariedade humana e a formação de uma nova consciência, visa a uma autonomia humana e social e à construção de outras formas de relação existentes. Para isso, ela deve estar fundada nos princípios da igualdade, da justiça e da democracia.

CAPÍTULO 4

O DITO FOI FEITO?

Este capítulo trata de estudo de caso concernente ao desempenho de vereadores petistas do município de Vila Velha, em contraponto com o de outros vereadores, especialmente com o dos professores João Pedro (Vitória) e Helder Salomão (Cariacica). Tem como objetivo estabelecer uma correlação entre as concepções (o dito) e ações (o feito) relacionadas à educação, nas respectivas legislaturas municipais.

O dito compreende entrevistas realizadas, mediante roteiros com algumas adaptações, aplicadas aos vereadores Ana Rita e Domingos Taufner, de Vila Velha, Helder Salomão, de Cariacica, e à senhora Arlete Pereira, assessora do vereador João Pedro, de Vitória, falecido em 1998.

O feito compreende as análises dos diversos tipos de leis e suas variáveis: projetos de lei aprovados ou não, processos de tramitação, boletins de votação e atas das sessões de votações das principais matérias educacionais. Também inclui a análise dos documentos produzidos pelas Câmaras e pelos vereadores petistas. De modo complementar, fizemos um contraponto entre o cumprimento das funções legislativas (iniciativa de leis) e o das funções fiscalizadoras (fiscalização e controle dos atos do executivo).

Subdividimos o capítulo em três partes: na primeira parte, tratamos das legislaturas municipais emVila Velha, tendo como parâmetro, na primeira legislatura (1989-1992), o primeiro mandato do vereador Domingos Taufner, e, na segunda legislatura (1993-1996), o segundo mandato desse vereador e o primeiro da vereadora Ana Rita Esgário; na segunda parte fizemos o mesmo trabalho descritivo anterior, mas em relação às atuações dos vereadores João Pedro (Vitória) e Helder Salomão (Cariacica), ambos na legislatura de 1993-1996; a terceira parte consiste da

análise comparativa das quatro legislaturas, destacando a sintonia ou não do vereador com o Partido, com os movimentos sociais e com o contexto histórico.