No campo de estudos da Lingüística, podemos observar que a noção de acontecimento tem adquirido abordagens variadas. Acrescente-se a isso que, além de ser definida com certo dissenso na Lingüística, a noção torna-se, ainda, multidisciplinar, haja vista a “epistème moderna” (FOUCAULT, 2002), segundo a qual os conhecimentos tendem a ser analisados não mais separadamente, mas como que entrecruzados, resultando em uma rede de concepções para as quais não podemos determinar uma verdade, nem uma origem absoluta.
É com base nessa consideração que, assinalamos, no tópico anterior, a necessidade de se pensar um pouco sobre a relação entre acontecimento, definido no âmbito da Lingüística, e outras abordagens sobre essa noção.
Valemo-nos, para isso, da contribuição de Quéré (2005), que tenta vincular a noção à hermenêutica, entendida esta como uma dinâmica de sentidos, vale dizer, uma dinâmica de interpretações sociais que conferem uma identidade ao que o teórico chama de acontecimento. Como veremos, essa proposta de Quéré (2005) muito tem a questionar aquelas perspectivas teóricas que tratam o acontecimento numa lógica de causa e conseqüência.
Quéré (2005, p.1) inicia seu artigo fazendo menção às diferenciações que a noção de acontecimento costuma adquirir quando tomadas no percurso das experiências individuais e coletivas dos sujeitos que vivem em sociedade.
a) aqueles acontecimentos que ocorrem independentemente do nosso desejo individual ou coletivo, bem como de nossas expectativas. Nesse caso, Quéré (2005) refere-se àqueles acontecimentos de caráter inesperado, cuja ocorrência foge ao nosso controle e que, por essa e outras razões, tendem a repercutir amplamente na sociedade;
b) aqueles acontecimentos cuja ocorrência tem a ver com alguma ação de nossa parte, ou seja, acontecimentos cuja ocorrência está fortemente ligada a nossas atitudes, pelas quais podemos direcionar a ocorrência em maior ou menor grau; c) aqueles acontecimentos aos quais podemos ou não “(...) atribuir um valor particular e [também] aqueles que se revestem de especial importância”, podendo se tornar “(...) referências numa trajetória de vida, individual ou coletiva, na medida em que correspondam a experiências memoráveis e, até mesmo, a rupturas ou a inícios de uma nova etapa na vida social”, (QUÉRÉ, 2005, p.1).
Quadro 1: exemplos de categorias de acontecimento, segundo Quéré (2005, p.1)
Em todas essas formulações sobre a noção de acontecimento, Quéré (2005, p.1) se interessa, sobretudo, pela importância que um indivíduo – tomado isolada ou coletivamente – atribui a determinados acontecimentos como o de 11 de setembro de 2001. Apesar da ocorrência anterior de ataques terroristas em várias partes do mundo, o “11 de setembro” parece ter marcado a vida de cidadãos de todo mundo, sobretudo a de norte-americanos, já que esse ato configurou, pela primeira vez na História, um ataque contra os Estados Unidos no próprio território norte-americano, vitimando numerosos cidadãos, e destruindo bruscamente um dos principais símbolos do capitalismo, as torres gêmeas, situadas em Nova Yorque.
O “11 de setembro” é, pois, um exemplo que ilustra como a noção de acontecimento é inseparável da amplitude social que a noção adquire ao longo de sua constituição social. Algo repercute na sociedade, de forma ampla e/ou restritamente, brusca e/ou amenizadamente, lenta e/ou rapidamente, séria e/ou humoristicamente, o que torna a noção um objeto de estudos desenvolvidos em diversas áreas do saber.
Quéré (2005) salienta que, para as Ciências Sociais, ao ganhar visibilidade, ou seja, ao repercutir socialmente, o acontecimento é imediatamente pensado em relação às suas causas, vale dizer, às motivações e interesses de indivíduos. Em outras palavras, lembra-nos Quéré (2005, p.1) de que as Ciências Sociais, via de regra, costumam centrar suas análises
numa suposta causa que preceda o acontecimento. Resultado disso é que o presente de um acontecimento e suas conseqüências presentes e futuras, laboradas na experiência social ou coletiva de um indivíduo, deixam de ser objeto de reflexão das Ciências Sociais, visto que o fator causal é, para esse campo, componente majoritário.
Voltando ao “11 de setembro”, as ciências sociais procurariam saber das razões que teriam levado os terroristas a atacar o Word Trade Center. Ficariam em segundo plano as conseqüências que esse ataque provocou na vivência dos cidadãos, bem como nas repercussões futuras do ocorrido nos Estados Unidos e no mundo.
Com isso, Quéré (2005, p.2) conclui que pensar a noção de acontecimento para as Ciências Sociais é relacioná-lo “(...) ao esquema da causalidade, hesitando em tratá-lo com um fenômeno de ordem hermenêutica”. Essa afirmação de Quéré demonstra sua insatisfação com a proposta de olhar para o passado primeiramente, ou seja, para um exterior do acontecimento, ao invés de se considerar o acontecimento como ponto de partida para uma reflexão sobre um passado e sobre um futuro que lhe sejam relativos.
Esse presente do acontecimento, fulcro de outros acontecimentos que lhe precedem e que lhe sucederão, só pode ser pensado, afirma Quéré (2005, p.2), através de uma “(...) dinâmica em que a possibilidade do acontecimento e seu poder hermenêutico desempenhem um papel mais importante que a motivação dos sujeitos”.
Diante do exposto, consideramos oportuno o momento para tecer um adendo, a fim de sublinharmos que a Semântica Histórica da Enunciação, (GUIMARÃES, 2005 a,b) – perspectiva teórica que norteia o presente trabalho, a qual apresentaremos logo em breve – também não tem a pretensão de apontar a causa de um acontecimento, daí a razão de recorrermos a Quéré (2005), que, por sua vez, também não acredita ser possível pontuar a(s) causa(s) de um determinado acontecimento ou definir o que motivou um indivíduo ‘x’ a praticá-lo.
1.2 Entendendo um pouco mais a hermenêutica de um