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Como visto, a mitologia edênica possuiu uma complexa história em sua constituição imaginária, que ultrapassou épocas e distâncias. Porém, além de toda a questão simbólica, imagética e mítica envolvendo a ideia do Paraíso Terreal, houve outro importante componente no engendramento dessa ideação projetada nas Américas: o interesse econômico que perpassou, sustentou, motivou e expandiu a potencialidade prática e discursiva do edenismo territorial americano e brasileiro.

É a partir desta prerrogativa, da motivação econômica para o desbravamento da irrealidade do mito pela concreção de suas riquezas, que o olhar deve analisar o período das grandes navegações, o uso máximo da funcionalidade do mito, com suas simbologias,

ideologias e abrangência em toda sociedade: “El objeto mitológico, de funcionalidad mínima

y de significación máxima, se refiere a la ancestralidad, o incluso a la anterioridad absoluta de

la naturaleza.” (BAUDRILLARD, 1969, p. 92).

O mito torna-se, conforme explana Baudrillard (1969), uma objetificação do seu próprio conteúdo, mas, neste caso, inverte-se sua máxima, para que sua funcionalidade ultrapasse em importância seu próprio substrato sígnico, a depender dos interesses que movem suas significações para diferentes situações, como os séculos de exploração das riquezas naturais no Paraíso Terreal.

Outro exemplo que demonstra bem a questão da objetificação do mito edênico é o processo de franco desenvolvimento da racionalidade técnica e das atividades econômicas nas paisagens elísias. Invariavelmente, tal processo de transformação do Éden encontrado coincide com a transgressão do seu sentido sagrado, já que a proporção e profundidade da narrativa edênica, calcada no imaginário da utopia bíblica, é colocada por terra no seguimento dos interesses econômicos, que moveram a esfera profana de toda a dinâmica da dialética dos descobrimentos e colonização, da qual o Brasil e toda a América fazem parte.

Essa objetificação do mito pode ser formulada, também, em outros termos, como o faz Baudrillard, em seu Simulacro e Simulação (1991). Em síntese, o autor elenca uma série de modalidades de dissuasão da realidade para que exista aproveitamento econômico. No limite de suas argumentações, o filósofo francês coloca em debate questões sobre a hiper- realidade, a mimese do real. Apesar de tais teorizações focarem a explosão dos meios de comunicação e da indústria cultural das últimas décadas, os conceitos são facilmente aplicados à maneira pela qual o discurso edênico foi utilizado no direcionamento dos

interesses econômicos para as terras americanas como receptáculo da carga mítica do jardim do Gênesis:

A hiper-realidade e a simulação, essas, são dissuasivas de todo o princípio e de todo o fim, viram contra o poder esta dissuasão que durante muito tempo ele tão bem utilizou. É que finalmente é o capital que se alimentou, no decurso da sua história, da desestruturação de todo o referencial, de todo o fim humano, que rompeu todas as distinções ideais do verdadeiro e do falso, do bem e do mal, para estabelecer uma lei radical de equivalências e de trocas, a lei de bronze do seu poder. Ele foi o primeiro a brincar à dissuasão, à abstração, à desconexão, à desterreitorialização, etc, e se foi ele que formentou a realidade, o princípio de realidade, foi também ele o primeiro a tê-la liquidado no extermínio de todo o valor de uso, de toda a equivalência real, da produção da riqueza, na própria sensação que nós temos da irrealidade das questões e da omnipotência da manipulação. (BAUDRILLARD, 1991, p. 33).

Há, porém, uma diferenciação de tratamento que deve ser levada em consideração a realidade e a hiper-realidade neste caso da projeção paradisíaca das Américas, pelo de ter como origem o arcabouço sagrado do Paraíso Terreal, na exploração da utopia terrena americana O ideário europeu estabelece uma seleção das ações exploratórias, utilizando, sim, o poderio simbólico do mito que subjaz as conquistas, mas colocando em primeiro plano o interesse sobre a materialidade, abdicando da carga imaterial logo que tal projeto entra em prática.

O real, neste caso, o continente americano, exerce o seu papel como fundação mítica do edenismo desde que esta figuração não interrompa o decurso de todo um projeto político e econômico maior, além do sagrado e do profano, do bem e do mal, das benesses e malefícios das ações; no limiar deste real e irreal, do mito e do material, o lucro e a permanência do capital imperam:

O que toda uma sociedade procura, ao continuar a produzir e a reproduzir, é ressuscitar o real que lhe escapa. É por isso que esta produção material é, hoje, ela

própria hiper-real. Ela conserva todas as características do discurso da produção

tradicional, mas não é mais que sua refração desmultiplicada (assim, os hiper- realistas fixam numa verossimilhança alucinante um real de onde fugiu todo o sentido e todo o charme, toda a profundidade e a energia da representação). Assim em toda a parte o hiper-realismo da simulação traduz-se pela alucinante semelhança do real consigo próprio. (BAUDRILLARD, 1991, p. 34).

Deste modo, e de maneira mais específica no caso do edenismo, o que vemos, ao longo dos séculos, é o seu aproveitamento como fonte lucrativa, através do mito que o

sustenta, gerando “mimeses” projetivas no mundo real – como no caso do continente

Ao mesmo tempo, porém, é preciso deter a atenção nos fenômenos e processos de reificação dessa projeção mimética do Paraíso Terreal na realidade objetiva,o que será feito na segunda metade desta Tese, focando o século XX brasileiro, no qual observa-se um resgate do discurso edênico e de sua prática exploradora em níveis mais profundos do que aqueles constatados seja em meio à realidade colonial ou a imperial, nos diferentes projetos estatais e representantes do governo, alinhados aos meios de comunicação, produção cultural, representatividade intelectual, magnitude econômica e poderio dos aparelhos do Estado para o aproveitamento do edenismo brasileiro por diferentes frentes e alcances.

Estes são alguns dos temas a serem tratados ao longo do trabalho, para o enriquecimento da análise, dialogando com algumas das principais situações, motivações e contradições da discursividade e práticas edênicas no continente americano. Para dar início ao debate do uso do Paraíso Terreal em sua funcionalização econômica, apresentamos, a seguir, duas imagens – uma pintura de Abraham Govaerts, e um mapa de Giácomo Gastaldi e Giovanni Battista Ramusio –, que vêm ao encontro dos argumentos expostos no início deste tópico do trabalho:

Figura 08: Abraham Govaerts, Boslandschap met zigeunerinnen ,1612

Figura 09: Delle Navigationi et Viaggi, 1556 de Giacomo Gastaldi e Giovanni Battista Ramusio

Fonte: http://www.mapashistoricos.usp.br/

Na imagem de Giacomo Gastaldi e Giovanni Battista Ramusio, de 1556, é possível perceber uma das práticas mais comuns em território colonial brasileiro nos primeiros anos de exploração lusitana: a retirada de madeiras de lei, como o pau-brasil, que era utilizado para extração de corantes que se destinavam, principalmente, à indústria de tecidos. Chama a atenção, também, a referência ao trabalho, inicialmente por escambo e depois por escravidão, dos nativos da região e, depois, dos negros africanos, desde a retirada das árvores, sua limpeza até o seu transporte para os portos do litoral.

Já no mapa de Abraham Govaerts, de 1612, há uma típica cena das campanhas interioranas expedidas pelos reis, governadores gerais e administradores das colônias. Os objetivos principais destas expedições eram desde a retirada de madeiramento para manutenção do aparato de navegação, de recursos destas árvores (como o pau-brasil), até especiarias, pedras preciosas e metais de grande valor comercial e simbólico para as coroas europeias, principalmente ouro e prata.

O que se pode interpretar destas imagens é a já objetificação do mito edênico, transformado em recurso e posto em imensurável escala de espoliação histórica das riquezas naturais das Américas. Neste ponto, a mitologia, assim como lembra Baudrillard (1969),

transformada em objeto do sujeito que elaborou seu conteúdo, torna-se reflexo das ações, posturas, pensamentos e práticas destes indivíduos e sociedade; por mais que a origem do mito esteja ligada ao conteúdo sagrado do Gênesis bíblico, sua descoberta no realismo mágico do Paraíso Terreal evidenciou o outro aspecto do impacto desta mitologia: sua profanidade presente nos séculos de exploração deste ambiente, tido antes na Geografia imaginária como inalcançável, ou irretornável:

Hagamos a un lado la mitología espontánea que pretende que el hombre se prolongue o sobreviva em sus objetos. El proceso–refugio no es de inmortalidad, de perpetuidad, de supervivencia en un objeto–reflejo (en esto el hombre nunca ha

creído de verdad) sino que es un juego complejo de “reciclaje” del nacimiento y de

la muerte en un sistema de objectos. Lo que el hombre encuentra en los objetos no es la seguridad de sobrevivir, sino la de vivir en lo sucesivo, continuamente, conforme a un modo cíclico y controlado, el proceso de su existencia y rebasar así, simbólicamente, esta existencia real en la que el acontecimiento irreversible se le escapa. (BAUDRILLARD, 1969, p. 110).

A presença do profano nas ações e posturas dos colonizadores foi e ainda é um ponto de acalorada discussão entre os especialistas deste período. Se a mitologia edênica exalta como referência simbólica os acontecimentos de uma localidade sacralizada por sua pureza moral e ética, como fonte de origem humana, porque, ao “encontrar” estas terras no além-mar, os europeus tiveram como prerrogativa a mais valia, as insanidades e a exploração máxima de seus potenciais bens provindos da natureza? Esta é uma das indagações feitas por Araújo (2001), que merece entrar na pauta de análise:

Do conjunto de recortes avulsos, apreendidos em testemunhos de diversa natureza, artísticos, religiosos e literários, ressalta a complexidade da questão inicialmente colocada: Até que ponto são exteriores à raiz do mito as minuciosas observações e impressões captadas pelos escritores portugueses nos primeiros contatos com os povos do Brasil? Na verdade, a vaga sensação de mistério que, sob o impulso divino do achamento, contamina a visão edênica da terra é adensada pela inquieta percepção que o gentio desde cedo suscita. Dito de outro modo, é em função do sobrenatural e da relação que com ele mantém que o homem europeu desvenda e nomeia as potencialidade do novo mundo. E de tal modo é assim que, mesmo depois do relato de Américo Vespúcio, a metáfora do Paraíso persiste como topos retórico adaptado a um universo, contraditoriamente marcado pela presença de uma humanidade diabólica e inviável. (ARAÚJO, 2001, p. 174).

Estas “potencialidades” constituíram a afirmação dos recursos naturais

interiorizados já na carga mítica do edenismo territorial transposto para as Américas. O funcionalismo mítico, aqui, compunha o seu papel de agregador de valor a estes recursos, bem como de fonte de motivação para o aprofundamento gradualmente maior da busca territorial

por maior abundância dos recursos minerais, vegetais e animais, em um processo que era, ao mesmo tempo, de exploração e também de ocupação do território:

Os metais, que a imaginação escaldante dos primeiros exploradores pensava encontrar em qualquer território novo, esperança reforçada pelos prematuros descobrimentos castelhanos, não se revelaram tão disseminados como se esperava. Na maior extensão da América ficou-se, a princípio, exclusivamente nas madeiras, nas peles, na pesca; e a ocupação de territórios, seus progressos e flutuações subordinam-se por muito tempo ao maior ou menor sucesso daquelas atividades. Viria depois, em substituição, uma base econômica mais estável, mais ampla: seria a agricultura. (PRADO JÚNIOR, 2006, p. 17).

A funcionalidade dos mitos, como no caso das racionalizações do Paraíso Terreal – por exemplo, a sua “localização” nos mapas, conforme se aumentavam as expedições além- mar –, servia como ponto de sustentação das empreitadas de busca por novas riquezas, expansão das fronteiras, domínio dos nativos, etc., características da historiografia colonial americana.

Estes mapas, assim como reitera Moreira (2007), compõem um esforço da potência desse imaginário do espaço fantástico em sua projeção no mundo real. Utilizando autores clássicos, Moreira afirma que é função e fim da cartografia esta busca pela diferenciação mais profunda e sígnica dos elementos espaciais. Neste sentido, a maneira como as informações eram apresentadas, como visto nos exemplos demonstrados, não fazem senão reafirmar essa relação entre o imaginário e o real:

O limite territorial de cada conjunto numa área de recorte comum não coincide normalmente, uns sendo mais extensos e outros mais restritos, forma-se um complexo entrecruzamento nessa superposição, que é a matéria-prima da espacialidade diferencial. A paisagem depende, assim, do ângulo do olhar de quem olha, que toma um dos conjuntos espaciais como referência do olhar, e vê, em conseqüência, a paisagem pelo olhar de referência. Daí que cada conjunto espacial resulta numa forma de paisagem, cada qual servindo como nível de representação e nível de conceituação. (MOREIRA, 2007, p. 69).

O autor ainda argumenta sobre o distanciamento entre a linguagem cartográfica e a totalidade paisagística, que era presente nas cartas de outrora e que, de certa forma, não mais ocorre nas novas formas de expressão geográfica contemporâneas, que primam pela precisão e abrangência, mas se afastam de uma dialogia entre o projetado, o observado e suas dualidades relacionais, tanto como representação ou interpretação geográfica:

É preciso, pois, reinventar a linguagem cartográfica como representação da realidade geográfica. E reiterar o pressuposto de a linguagem cartográfica ser a expressão da

linguagem conceitual da geografia. Afinal, olhando a legenda dos mapas, signos e realidade do espaço geográfico, vemos: formas de relevo, tipos de clima, densidade de população, tipos de bacia hidrográfica, formas de cidade, núcleos migratórios, coisas da paisagem, que simplesmente transportamos mediante uma linguagem própria para o papel. De modo que as nervuras do mapa são as categorias mais elementares do espaço: a localização, a distribuição, a extensão, a latitude, a longitude, a distância e a escala, palavras do fazer geográfico. (MOREIRA, 2007, p. 68).

Portanto, mapas como o de Giacomo Gastaldi e Giovanni Battista Ramusio, e de Pierre Descelliers e Diego Homem evidenciam, em um círculo específico que é o cartográfico/geográfico de infiltração mítica do edenismo epocal, advindo das grandes navegações. Essas projeções representavam elementos para além do real, eram a expressão mesma da essência de um ideário imaginativo dominante do período, assim como Moreira afirma (2007, p. 69): “No entanto, os parâmetros de uma cartografia geográfica já estão postos: estão presentes na linguagem semiológica das novas paisagens. Mapear o mundo é

antes de tudo adequar o mapa à essência ontológica do espaço.”

Ainda mais que isso, observa-se, nessas representações, até mesmo elementos da dialética colonizadora, ora mantendo o cânone idílico das terras recém-conquistadas, ora descrevendo os processos de exploração de todas estas riquezas, alinhados à força das

imagens e seus sentidos: “Representar sua tensão interna. Revelar os sentidos da coabitação

do diverso. Falar espacialmente da sociedade a partir da sua tensão dialética. Mas tudo é impossível, repita-se, sem uma semiologia da imagem.” (MOREIRA, 2007, p. 69).

Assim, o mito de origem, fundacional e de conquista do edenismo territorial das Américas, adaptou-se para além de sua transposição simbólica, sendo explorado com maior rigor e vigor em sua potencialidade econômica, com base nos recursos naturais encontrados no Paraíso Terreal. Ainda sobre esta funcionalidade e a racionalização da mitologia edênica, Bichalho (1999) sustenta que:

Assim, as descrições das viagens marítimas a partir do Atlântico vieram preencher novas funções e objetivos correspondentes a um modelo mental em mutação. Embora influenciadas por relatos de viajantes medievais, a literatura relativa aos descobrimentos foi sem dúvida portadora de uma certa ruptura com aquela visão. Revelou um olhar diferente, segundo o qual as maravilhas e singularidades foram descritas de par com os dados observados em primeira mão, solidarizando real e imaginário, casando gesta e fábula com fatos concretos, constituindo uma nova dialética nascida da intromissão de notícias e de realidades geográficas, astronômicas e etnográficas até então desconhecidas. Impunha-se um novo saber, cada vez mais baseado na experiência e apoiado na observação. (BICALHO, 1999, p. 74 – grifo nosso).

As realidades geográficas mencionadas por Bicalho (1999) fundamentaram a exploração econômica das novas colônias, uma vez que na geograficidades fantásticas de emulação do Éden estavam presentes as mais abundantes riquezas. Nas palavras de Alencastro (1998), houve uma “economia política dos descobrimentos” vigente durante todo o período das grandes expedições oceânicas, e recorrente nas reificações míticas contemporâneas, na atualização da intencionalidade econômica nos interiores do continente americano em busca de novas riquezas.

Por meio da expressão “expansionismo preemptivo”, aprofunda-se esta ideia da

funcionalização do mito edênico; antecipava-se o desvelamento mítico por meio do investimento na busca pelos elementos que compunham a estratificação mitológica do edenismo, e os espaços desconhecidos além do território da costa tornaram-se, assim, o principal foco de esta postura:

O "expansionismo preemptivo" se manifesta desde o começo das Descobertas. Terá sido a expedição franco-espanhola de1402 em direção a Madeira, que levou Portugal a ocupar preventivamente aquela ilha nos anos 1418-26, encetando, as travessias descobridoras das Canárias (1424) dos Açores (1431-39),e de Cabo Verde (1456) Da mesma forma avanço proporcionado à Espanha no oceano Pacífico pela primeira circunavegação de Fernão de Magalhães(1520-22)e, sobretudo, pela descoberta da rota Leste—Oeste, do México às Filipinas, por Álvaro de Saavedra (1527-28), leva os portugueses a se precaverem, ocupando portos e fixando feitorias ao longo da rota Goa—Macau, principal artéria do comércio asiático. Foi ainda o expansionismo preemptivo que soprou as velas portuguesas sobre toda a extensão do litoral atlântico sul-americano convertendo, desde a segunda metade do século XVI, o estuário do Prata num dos pontos críticos da tensão fronteiriça luso-espanhola que dividia o planeta. (ALENCASTRO, 1998, p. 194).

O espaço antes desconhecido e agora receptor das mais profundas referências míticas precisava ser destrinchado em novas racionalizações e em esforços de mapeamento de seus elementos e extensão com o maior rigor descritivo possível na localização dos potenciais pontos de exploração econômica de seus bens naturais. Como já mencionado, a presença simbólica do mito de origem, de conquista ou fundacional em relação às Américas, ao invés de barrar o desenvolvimento científico, técnico e tecnológico do período, provou-se, ao contrário, elemento de incentivo e motivação para o aprimoramento dos mesmos:

Ao contrário do que se pode pensar, no Renascimento não houve o predomínio da razão materialista, como uma espécie de precursor do Iluminismo na concepção geográfica do mundo. A retomada da Antiguidade Clássica foi feita pelo Cristianismo e a cosmovisão fechada num mundo de três continentes rompeu-se e uma nova estava sendo construída. A observação, a experimentação e a dedução ainda são coisas do futuro. [...] Embora o Purgatório fosse "oficialmente" reconhecido pela Igreja no século XIII e a literatura de Dante o tivesse descrito e

representado, faltava-lhe uma representação dentro do mundo, em termos cartográficos. (CARVALHO, 2001, p. 9).

A retomada da Antiguidade Clássica citada por Carvalho (2001) como componente fundamental para a moldagem das bases do pensamento moderno nos séculos XV e XVI (Classicismo) também é lembrada por Fonseca (1992), com espelhamento nas escrituras bíblicas, quando este fala do oceano como principal símbolo da “barreira” fantástica que cobria e até mesmo impedia o maior desenvolvimento técnico europeu:

Em si, o oceano é adverso, é violento, mas pode transformar-se no oposto ,por opção divina; ou seja, o mar aparece como elemento em cujo seio o milagre tem lugar. E o que ressalta do capítulo 14 do Êxodo, onde se descreve a passagem do Mar Vermelho, ou de várias passagens evangélicas, como a da pesca milagrosa ou a da calmaria da tempestade, ou mesmo a de textos hagiográfícos, como o milagre de Santo Antônio que, desgostoso da pouca audiência encontrada junto dos homens, resolve com êxito pregara os peixes. Aliás, o próprio pensamento geográfico e físico do tempo contribui para reforçar este estado de espírito. Embora gregos e romanos, em nível da astronomia, admitissem a esfericidade da Terra, de fato, a representação mental que estes últimos faziam do planeta era de algo semelhante a um disco. (FONSECA, 1992, p. 38).

Portanto, a racionalização do mito, e sua funcionalização econômica, constituíram um dos principais instrumentos de otimização do alcance dos interesses perante a grandeza das