Como antes ressaltado, Karl Marx somente forneceu as linhas gerais para a elaboração de uma Criminologia marxista,304 por meio do método radical utilizado por ele, qual seja, o materialismo histórico.305 É isso o que os críticos proclamam da teoria radical: que esta apenas usou tal método.
Em suma, define-se o materialismo histórico como: “o método que revela a natureza social de qualquer conceito, a historicidade do pensamento, e a diferenciação de
períodos históricos em modos de produção determinados”.306
É um método concreto, social, totalizante e eminentemente prático, e procura conhecer o mundo e transformá-lo.307 Ao utilizá-lo, a Criminologia crítica consegue elucidar as funções exercidas pelas instituições legais em momentos particulares do progresso econômico da sociedade capitalista. É possível compreender a natureza e o conteúdo do crime e da lei, por meio de uma análise total de sua evolução histórica, constatando-se como as condições materiais são determinantes para as mudanças normativas em geral, inclusive das normas criminais.308
Na apresentação da coletânea mais famosa da escola, Juarez Cirino dos Santos e Sérgio Tancredo deixam claro que a base teórica comum dos críticos é definida pelas
categorias do materialismo histórico, centrada nos conceitos gerais de “modo de produção”, “classes sociais”, “ideologia”, etc., que permitem apreender o movimento
histórico como processo contraditório movido pela luta de classes. Os fenômenos históricos, como o crime, são pensados em sua inserção nessa luta de classes e em relação à base de produção econômica.309
De tal forma, o problema criminal não fica limitado ao sistema de justiça, entendido simplesmente como constituído por normas definidoras de comportamentos criminosos e
304 ANIYAR DE CASTRO, 1983b, p. 152. 305
TAYLOR; WALTON; YOUNG, 1980, p. 64. No mesmo prisma: DIAS; ANDRADE, 1997, p. 28.
306
TAYLOR; WALTON; YOUNG, op. cit., p. 64.
307 ANIYAR DE CASTRO, op. cit., p. 162-163. 308 TAYLOR; WALTON; YOUNG, op. cit., p. 59. 309
SANTOS, Juarez Cirino dos; TANCREDO, Sérgio. Apresentação. In: TAYLOR, Ian; WALTON, Paul; YOUNG, Jock (Org.). Criminologia crítica. Tradução Juarez Cirino dos Santos; Sergio Tancredo. Rio de Janeiro: Graal, 1980, p. IX-X.
pelos aparelhos e processos de repressão (polícia, Judiciário, prisão, etc.), mas compreende a política criminal vigente em formações sociais historicamente determinadas, em que predomina um modo de produção da vida social, com classes distintas, distribuídas em razão do lugar que ocupam no processo produtivo (proprietários dos meios de produção e possuidores da força de trabalho), articuladas em uma relação de exploração econômica e dominação ideológica. Neste contexto, desvenda-se o significado ideológico do sistema da justiça criminal e sua relação com o modo de produção dominante ao serem selecionados as condutas que devem ser consideradas crime e os sujeitos que devem ser considerados criminosos. A explicação desse fenômeno está no tipo de sociedade existente.310
Nota-se que o fato de o mencionado método compreender as relações jurídicas como originárias da produção material da sociedade não significa reduzir os conflitos legais a conflitos econômicos, como em um determinismo econômico, mas apenas posicioná-los e relacioná-los às transformações materiais na sociedade (das quais dependem), até porque, para Marx, não existem categorias econômicas, jurídicas ou
políticas “puras”, mas somente o método de compreender e analisar determinados
problemas, o que deve ser feito considerando-se os processos sociais em sua totalidade social.311
Sua relevância para o estudo das normas legais e do crime está no fato de que, com esse método, é possível analisar a natureza do sistema legal em termos de seu papel em relação a um modo de produção particular e investigar se tal sistema atua como um obstáculo ou como um estímulo para o desenvolvimento do homem; trata-se de um método singularmente radical, em que se levantam questões como: quais normas são necessárias, para quê, quando e sob que condições.312
É no sentido de “compreender as coisas pela raiz” que o vocábulo “radical” é
empregado. Se, para o homem, a raiz é o próprio homem, que, por sua vez, é inseparável da sociedade, para a análise do crime deve-se examinar a posição do homem na sociedade em determinado período histórico.313 Se a sociedade é dividida em classes, a raiz humana é inseparável da posição de classe, que, a seu turno, é determinada pelo papel ocupado nos
310 SANTOS; TANCREDO, 1980, p. IX-X. 311
TAYLOR; WALTON; YOUNG, 1980, p. 60-61.
312 Ibid., p. 64. 313 Ibid., p. 56-57.
processos produtivos fundados na separação trabalhador/meios de produção. O estudo do crime e do controle social, assim, em uma sociedade capitalista, deve-se embasar na divisão da sociedade em classes e na reprodução das condições de produção fundadas na separação capital/trabalho assalariado pelas instituições jurídicas e políticas do Estado, que proscrevem práticas contrárias às relações de produção.314
García-Pablos de Molina explica que, de acordo com a análise criminológica marxista, o delito é sempre um produto histórico e patológico da sociedade (modernamente, da sociedade capitalista). A ordem social é contemplada como uma confrontação de classes antagônicas, sendo que uma das classes se sobrepõe e explora a outra, servindo-se do Direito e da justiça penal para manter sua hegemonia e privilégios. O conflito inerente à sociedade capitalista, desta forma — no qual se inclui o problema criminal — nada mais é do que um conflito de classes enraizado no modo de produção e na infraestrutura econômica daquela.315
Em resposta às críticas lançadas por Paul Q. Hirst quanto à impossibilidade de se criar uma teoria radical do desvio a partir de Karl Marx,316 Taylor e Waltonafirmam que o Marxismo em que acreditam e que pode servir de base para uma teoria do desvio é preocupado em assumir e revelar a natureza ideológica da ciência social e, nesta batalha, convencer as pessoas a lutarem contra a opressão em vários aspectos.317 Ademais, os autores ressaltam que Marx apontou para processos sociais que dão origem à miséria e à opressão de milhares de pessoas sob o capitalismo, e rejeitar tais estudos reveladores da
314 SANTOS, 2006, p. 40. 315
GARCÍA-PABLOS DE MOLINA, Antonio. Criminologia: uma introdução a seus fundamentos teóricos. Tradução Luiz Flávio Gomes. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1992, p. 218.
316 Paul Q. Hirst nega que a Criminologia e seu objeto de estudo sejam compatíveis com o objeto e a
estrutura conceitual do Marxismo; ele afirma que o Marxismo tem uma visão bastante diferente do crime e do desvio daquela dos radicais. Segundo o autor, não existe teoria marxista do desvio, nem desenvolvida, nem que possa ser desenvolvida, pois crime e desvio desaparecem nas preocupações teóricas gerais e do objeto científico específico do Marxismo — que se dedica a conceitos como modo de produção, luta de classes, Estado, ideologia, etc. Qualquer tentativa de atrair o Marxismo para o campo da Sociologia transforma-se em uma atividade “revisionista” em relação ao Marxismo, na qual é preciso modificar e distorcer seus conceitos. Ele afirma, ainda, que o Marxismo teve muitas fases (a do “jovem” Marx, a livre de tendências monísticas ou totalitárias e a preocupada com a alienação do homem e com a emancipação humana), não sendo possível determinar o status de cada uma delas por meio de uma escolha arbitrária baseada na relevância contemporânea. Com isso, o autor quer dizer que não é possível escolher uma das fases ou textos de Marx e fazer uma interpretação isolada, como fizeram os críticos, mas se exige uma leitura completa e integrada de todo seu trabalho. (HIRST, 1980).
317 TAYLOR, Ian; WALTON, Paul. A Teoria radical do desvio e o Marxismo: uma réplica ao “Marx e
Engels: sobre direito, crime e moralidade” de Paul Q. Hirst. In: TAYLOR, Ian; WALTON, Paul; YOUNG, Jock (Org.). Criminologia crítica. Tradução Juarez Cirino dos Santos; Sergio Tancredo. Rio de Janeiro: Graal, 1980, p. 249-286, p. 288-289.
natureza e da gênese dessa opressão seria o mesmo que cancelar a possibilidade de demonstrar, abertamente, um aspecto da natureza criminosa da sociedade burguesa.318
Destarte, tratando-se o materialismo histórico marxista de uma epistemologia, de um método científico, com aplicação universal, aplicando-o à Criminologia, tem-se uma Criminologia marxista.319
318 TAYLOR; WALTON, 1980, p. 292. 319 ANIYAR DE CASTRO, 1983b, p. 152.