Além das distinções de tratamento acima estudadas, relevante registrar a dissonância constante das estatísticas da população carcerária em relação aos delitos confrontados neste trabalho.
Conforme antes relatado, o DEPEN, em estudo do sistema penitenciário nacional realizado por meio de informações fornecidas pelo InfoPen, diagnosticou que o furto figurou entre os três delitos mais praticados pela população carcerária em 2008 e 2009. Isto significa que, em meio a uma população carcerária masculina de 422.565 presos em 2008, 60.003 (17%) estavam detidos em decorrência do cometimento de furto; dentre 442.225 em 2009, 62.852 (16%) encontravam-se presos por furto. Dentre uma população carcerária feminina de 28.654 presas em 2008, 2.047 (11%) cometeram furto; de 31.401 presas em 2009, 1.953 (9%) praticaram esse delito.239 Os relatórios estatísticos do Infopen relativos ao ano de 2010 demonstraram que, dentre uma população carcerária de 428.713 detentos, sendo 406.087 do sexo masculino e 22.626 do sexo feminino, o furto figurou em terceiro lugar como o delito mais cometido.240 Até meados de 2011, o furto permaneceu como o terceiro crime mais praticado nos registros oficiais: dentre 448.827 detentos do sexo masculino e 25.263 do sexo feminino, 66.456 homens e 2.190 mulheres cometeram tal infração.241
Nos dados do DEPEN também se constatou que o delito de estelionato foi praticado por 4.381 (1%) presos do sexo masculino em 2008, e por 5.340 (1%) em 2009; e por 226
238 LOPES, Mauricio Antonio Ribeiro. O furto das jóias da coroa ou impunidade x irrelevância. Boletim
IBCCrim, ano 6, n. 76, p. 10-11, mar. 1999, p. 10-11.
239
BRASIL. Ministério da Justiça, 2008, p. 32, 41-42.
240 BRASIL. Ministério da Justiça, 2010, p. 3-4. 241 BRASIL. Ministério da Justiça, 2011, p. 3-4.
(1%) presas do sexo feminino em 2008, e por 333 (2%) em 2009.242 Em 2010, 5.016 homens e 299 mulheres estavam presos por citada prática;243 em junho de 2011, 5.287 homens e 395 mulheres.244 A prática de apropriação indébita, a seu turno, apenas foi discriminada nos registros de 2010 e 2011, não alcançando 1% da população carcerária, nos dois anos.
Em contrapartida, não há qualquer registro de detentos cumprindo pena pela prática de crimes contra a ordem tributária — enquadrados na categoria de “outros” e que perfazem as cifras de 5% da população carcerária masculina, tanto em 2008 como em 2009, e de 5% e 6% dentre as detentas do sexo feminino, em 2008 e em 2009, respectivamente.245 Da mesma forma, nas estatísticas de 2010246 e 2011247, o grupo
denominado “Legislação Específica” não contém classificação para os crimes fiscais.248 A ausência de estatísticas quanto à criminalidade econômico-tributária revela a pouca importância conferida pelo Estado a esse tipo de delito. Poder-se-ia até mesmo deduzir a pouca prática do crime no país — o que se sabe não ser verdade.249
Há outra constatação importante: na classificação do DEPEN de 2008 e 2009, que inclui dez tipos de delitos (homicídio, crimes ligados a entorpecentes, furto, latrocínio, estelionato, crimes contra os costumes, crimes relacionados ao Estatuto do Desarmamento, roubo, receptação e outros), cinco referem-se a delitos patrimoniais e correspondem, no total, a 53% dos delitos cometidos pela população carcerária masculina, em 2008, e a 52% em 2009; em relação às detentas femininas, correspondem a 26%, em 2008, e a 25% em 2009.250 Os registros de 2010251 e 2011, 252 por sua vez, demonstraram que no grupo
denominado “crimes contra o patrimônio” estão incluídos os tipos de furto, roubo,
extorsão, apropriação indébita, estelionato e receptação, configurando cerca de 52% e 50%
242 BRASIL. Ministério da Justiça, 2008, p. 32, 41-42. 243 BRASIL. Ministério da Justiça, 2010, p. 3-4. 244
BRASIL. Ministério da Justiça, 2011, p. 3-4.
245 BRASIL. Ministério da Justiça, 2008, p. 32, 41-42. 246 BRASIL. Ministério da Justiça, 2010, p. 3-4. 247
BRASIL. Ministério da Justiça, 2011, p. 3-4.
248
Curiosamente, consta um item específico “apropriação indébita previdenciária” dentro do grupo “crimes contra o patrimônio”, que não alcançam 0,04% dos delitos totais praticados.
249 Lembra-se das cifras negras da criminalidade. 250
BRASIL. Ministério da Justiça, 2008, p. 32, 41-42.
251 BRASIL. Ministério da Justiça, 2010, p. 3-4. 252 BRASIL. Ministério da Justiça, 2011, p. 3-4.
dos crimes cometidos pelos detentos do sexo masculino e 22% e 24% pelas detentas femininas, respectivamente.
Por outro lado, proeminente a informação dada pelo referido censo quanto ao nível de escolaridade da população prisional: do total de 451.219 custodiados em 2008, 28.432 são analfabetos, 47.004 são alfabetizados, a maioria de 172.926 têm o ensino fundamental incompleto, 49.262 completaram o ensino fundamental, 41.701 alcançaram o nível médio incompleto e 28.972, o completo, 1.705 possuem grau superior completo e 68 possuem escolaridade acima desse grau. Dos 473.626 presos em 2009, 26.091 são analfabetos, 49.521 são alfabetizados, a maioria de 178.540 têm o ensino fundamental incompleto, 67.381 completaram o ensino fundamental, 44.104 alcançaram o nível médio incompleto e 31.017, o completo, 1.715 possuem grau superior completo e 60 possuem escolaridade acima desse grau.253
Em proporções, significa que a grande multidão de detentos do ano de 2008, ou seja, 81%, possuía escolaridade até o nível médio, sendo que, destes, 67% nem sequer completaram o ensino fundamental. Em compensação, 0,39% dos custodiados possuía escolaridade superior completa ou acima disto. Em 2009, 83% dos presos contavam com escolaridade até o nível médio, dentre os quais 64% não finalizaram o ensino fundamental, contra 0,37% com grau superior completo ou acima.
Em 2010, a pesquisa apontou que 5,6% do total de detentos são analfabetos, 12,5% são alfabetizados, 45% têm o ensino fundamental incompleto, 11,8%, o completo, 10% não concluíram o ensino médio, 7% concluíram-no, 0,7% possui ensino superior incompleto, 0,4% completou-o e 0,01% possui ensino acima do superior completo.254 No mês de junho de 2011, apurou-se que, dentre os reclusos, 5,6% são analfabetos, 13% são alfabetizados, 45% possuem o ensino fundamental incompleto, 12,5% o completo, 11% têm o ensino médio sem conclusão, 7,4% concluíram-no, 0,8% não completou o ensino superior, 0,3% completou-o e 0,1% possui ensino acima do completo. 255
253
BRASIL. Ministério da Justiça, 2008, p. 44.
254 BRASIL. Ministério da Justiça, 2010, p. 1-2. 255 BRASIL. Ministério da Justiça, 2011, p. 1-2.
Os números demonstram que a grande parte dos presos pertence às camadas sociais menos abastadas, sendo de conhecimento de todos que a pobreza está relacionada com o grau de escolaridade; e não se olvide que o perfil dos autores de crimes contra o patrimônio emoldura-se neste quadro. Os sonegadores, geralmente advindos de classes sociais privilegiadas (média ou alta), certamente detêm escolaridade superior ou acima e podem ser incluídos nos percentuais que não alcançam 1% da população carcerária.
Pertinente citar, ainda, que são os jovens que populam as prisões. Em 2008, 31% dos detentos ocupavam a faixa etária de 18 a 24 anos, 26% a faixa de 25 a 29 anos, 17% a de 30 a 34 anos, 15% a de 35 a 45 anos, 6% a de 46 a 60 anos, e 1% a faixa acima de 60 anos. Em 2009, 32% dos presos tinham entre 18 a 24 anos, 27% entre 25 e 29 anos, 18% entre 30 e 34 anos, 15% entre 35 e 45 anos, 6% entre 46 e 60 anos, e 1% tinha acima de 60 anos.256 Já em 2010, consta que 28% dos presos estavam na faixa etária entre 18 a 24 anos, 24% tinham entre 25 e 29 anos, 17% estavam entre 30 e 34 anos, 15% entre 35 e 45 anos, 6% entre 46 e 60 anos, e 0,9% possuía mais de 60 anos de idade.257 No ano seguinte, 28% dos presos tinham a idade entre 18 a 24 anos, 25% estavam na faixa entre 25 a 29 anos, 17% entre 30 a 34 anos, 16% entre 35 a 45 anos, 5% entre 46 a 60 anos, e 0,9% possuía mais de 60 anos.258
Vislumbra-se, portanto, ser destoante o quadro estatístico dos presos em relação aos crimes cotejados no trabalho, configurando-se mais uma “anomalia jurídica”, dentre as diversas outras apresentadas.
Nota-se uma enorme incongruência no sistema penal, reflexo de uma escancarada preferência das instâncias de controle social em penalizar os autores de delitos patrimoniais e em imunizar os agentes de crimes de sonegação fiscal. Não só há um tratamento mais rigoroso nos crimes patrimoniais, como também nestes, por se cuidar da criminalidade dos pobres, redobra-se a severidade da lei e de seus aplicadores.259
256 BRASIL. Ministério da Justiça, 2008, p. 43. 257 BRASIL. Ministério da Justiça, 2010, p. 4. 258
BRASIL. Ministério da Justiça, 2011, p. 4.
259 TORON, Alberto Zacharias. Crimes de colarinho branco: os novos perseguidos? Revista Brasileira de
Uma resposta para a diferenciação da aplicação da justiça penal em relação aos agentes de delitos patrimoniais e de crimes de sonegação fiscal é o que se busca na segunda parte deste trabalho — o que será feito sob a ótica da teoria crítica da Criminologia.
Ressalva-se que não se pretende discutir a eficácia ou ineficácia, certeza ou equívoco quanto ao rumo tomado pelo Direito Penal da atualidade em relação aos crimes contra a ordem tributária, mas tão somente os motivos pelos quais o tratamento benéfico despendido aos seus agentes em favor dos autores de delitos patrimoniais ainda não teve a atenção merecida por parte das diversas instâncias de controle social formal.