I. BÖLÜM
4. BULGULAR VE YORUM
4.1. AraĢtırmanın Birinci Alt Problemine Yönelik Bulgular
As considerações sobre extrafiscalidade são importantes porque a extrafiscalidade é o fundamento jurídico-político da concessão de incentivos fiscais. Qualquer que seja a finalidade almejada pelo Estado (criação de emprego, rearranjos industriais, desenvolvimento de determinadas regiões, etc.), percebe-se que a manipulação dos tributos se constitui como uma poderosa forma de estimular condutas. É por essa razão que estudos sobre incentivos fiscais devem considerar a dimensão subjetiva do Estado quando este estimula ou limita certas
iniciativas – assim, estudos sobre incentivos fiscais não podem deixar de lado qual a intenção da concessão do incentivo, qual o objetivo válido, e por que se trata de medida eficaz.
Nesse sentido, autores como Buffon (2010) e Torques e Boff (2011) entendem que a matéria relativa à concessão de benefícios e incentivos fiscais merece uma atenção especial acerca do tipo de Estado que o Brasil quer ser, do tamanho da intervenção e dos objetivos que ele deve perseguir. Complementa Buffon (2010), afirmando que quando certa benesse é concedida, não se trata de uma manifestação de generosidade vazia do Estado para determinado setor ou empreendimento, mas de uma transferência de recursos de toda a sociedade, razão pela qual é imperioso que haja uma substancial participação de toda a sociedade no processo de decisão acerca da concessão de benefícios.
Essa transferência pode ocorrer mediante certas condições, politicamente estabelecidas, para melhor atender aos anseios sociais. A condicionalidade, conforme a visão de Usul (2011) e Pridham (2005), é um instrumento que é muito utilizado na política externa para promover a democracia e o respeito aos direitos humanos através da junção destes ideais à maior parte das relações econômicas – ajudas, sanções ou quaisquer outros objetivos que envolvam valor. Nesse tipo de visão, percebe-se que a condicionalidade visa o uso das relações econômicas como meio para se chegar a fins políticos – assim como na extrafiscalidade –, pois de acordo com Kubiceck,
“a condicionalidade é a mais desenvolvida das abordagens relativas a aspectos internacionais
da democratização e também pode ser considerada a mais visível e proativa das políticas
desenhadas para promover a convergência democrática” (2003, p. 7)14.
Usul (2011) indica que a condicionalidade foi vastamente utilizada pelos Estados da União Europeia – ou ricos ocidentais, como menciona o autor, como meio para estimular os Estados que possuíam regimes não democráticos e com baixo desenvolvimento econômico a realizarem reformas democráticas e melhorar os seus indicadores de direitos humanos. Esse processo gradual de transferência de regimes políticos foi denominado por Scimmelfennig, Engert e Knobel (2006) como socialização internacional, definido pelos autores como um processo de indução para a adoção de regras constitutivas de uma comunidade internacional.
14 Tradução Livre. Versão Original: “conditionality is the most developed of all approaches relating to international aspects of democratization and can also be considered the most visible and pro-active of policies explicitly designed to promote democratic convergence”.
De acordo com Scimmelfennig, Engert e Knobel (2006), a socialização internacional é um processo porque não se trata de resultado. Em outras palavras, significa dizer que não se deve medir a eficácia da socialização por meio dos pontos de partida ou de chegada (como também define THIES, 2003), mas sim a partir de uma análise de adoção e aderência de uma determinada comunidade às novas regras constitutivas da comunidade internacional.
Esse processo é induzido porque abrange diferentes mecanismos de socialização que variam desde a coerção e negociação até a persuasão a imitação (SCIMMELFENNIG; ENGERT; KNOBEL, 2006). As regras constitutivas, ainda segundo Scimmelfennig, Engert e Knobel (2006), são o conteúdo ideacional e intersubjetivo dos processos de socialização e é variavelmente definido a partir das identidades, crenças, valores, funções, normas ou regras – estas últimas consideradas as mais eficazes por constituírem normas institucionalizadas ou de comportamento coletivo, que devem ser adotadas como o resultado de um processo bem sucedido de socialização. Por fim, comunidade internacional é tida a partir de três características principais: seu ethos (valores constitutivos de uma sociedade), a densidade da sua interação, ou capital social na perspectiva de Putnam (1993) e pelo nível de descentralização das decisões políticas (SCIMMELFENNIG; ENGERT; KNOBEL, 2006).
Conforme Hughes, Sasse e Gordon (2005), o fenômeno da condicionalidade traz certas características essenciais: o consenso sobre a sua substância, os critérios claros e verificáveis, o cumprimento da condicionalidade deve ser analisável com um benchmarking testável, os fluxos de energia no processo devem ser compreendidos por todos os interessados e os resultados devem ser explicitamente determinados. Segundo os autores, os fluxos de energia são demonstrados a partir do ciclo entre atores fortes e atores fracos (FIG.01).
FIGURA O1: Modelo Tradicional de Condicionalidade Fonte: Hughes, Sasse e Gordon, 2005, p. 4.
De acordo com Checkel (2005) e Scimmelfennig, Engert e Knobel (2006), a internalização e institucionalização das novas regras podem acontecer em nível individual, bem como em estruturas coletivas sem mudanças individuais – ou seja, a análise da internalização das normas deve ser feita considerando diferentes níveis sociais e lugares diferentes, análise que pode ser mais próxima à sociologia institucional (Dimaggio; Powell, 1991a).
O que se percebe, em linhas gerais, é que a condicionalidade é incorporada na entrega de uma ajuda externa ao desenvolvimento interno (PRIDHAM, 2000; 2005). A condicionalidade é vista
como envolvendo “atores doadores” que possuem interesses próprios ocultos e “atores destinatários”, que estão sujeitos à condicionalidade do doador e, por conseguinte, estão em
uma posição de dependência (HUGHES; SASSE e GORDON, 2005).
De acordo com Hughes, Sasse e Gordon (2005), apesar da condicionalidade ter grande importância durante o alargamento da União Europeia, existem poucos estudos empíricos ou teóricos do conceito – os estudos sobre condicionalidades na União Europeia é caracterizado por uma concentração na análise de sua correlação com a democratização de nível macro, mercantilização e resultados macroeconômicos, em vez de estudos que visem analisar relacionamentos causais e desenvolvimento institucional nas políticas que se utilizaram desse mecanismo. No Brasil, o estudo das condicionalidades é mais frequente no exemplo do Programa Bolsa Família e os resultados numéricos das suas condicionalidades relacionadas ao
resultado alcançado no ensino básico das crianças presentes nas famílias beneficiadas (MONNERAT et. al, 2007; KERSTENETZKY, 2009; PIRES, 2013).
De acordo com Usul (2011), os maiores exemplos atuais de condicionalidade envolvem os Estados Unidos da América com países não democráticos e, em particular, com as nações latino-americanas; as relações da União Europeia com o sul Europeu e da Europa Central e Oriental com um número de Estados Africanos. Os exemplos encontrados nestes casos indicam duas formas principais de condicionalidade: a positiva e a negativa. Na primeira, há um estímulo às condições da democracia e direitos humanos através do financiamento de certos projetos e ajudas claramente definidas, enquanto na segunda há sanções para os casos de violações de direitos humanos, ou como resultado de práticas antidemocráticas e autoritárias pelo governo (BAYLIES, 1995; CAROTHERS, 1997; USUL, 2011).
Hoje em dia, a maior parte dos empréstimos dos Bancos Mundiais são baseados em políticas e apoiam reformas institucionais na gestão do setor público e no setor financeiro e social, o que levou muitos países a reformas profundas, desde a correção de distorções econômicas à capacitação e desenvolvimento de infraestrutura institucional (KOEBERLE, 2005). Mas essas reformas não visam apenas ao aumento da governabilidade e fortalecimento da administração pública (CABAÇO, 2009), mas também à difusão de novas tecnologias, defesa dos direitos humanos e desenvolvimento das regiões (LEVITSKY; WAY, 2006).
De acordo com Koeberle (2005), diferentes estudos (COLLIER, 1997; EASTERLY, 2001) indicam que as avaliações relacionadas ao uso de condicionalidades apresentaram resultados diversos e que não traziam consistência acerca das vantagens e desvantagens do seu uso. A maior parte das críticas relacionadas ao uso mal sucedido das condicionalidades se enquadra em alguma das seguintes categorias propostas por Collier (1997) e Easterly (2001):
Problemas na eficácia: a conformidade em relação às condicionalidades muitas vezes é
difícil de se controlar – e a imprecisão dos dados e das avaliações gera certa desconfiança em relação à continuidade dos auxílios concedidos, visto que os investidores desejam maior segurança de que seus interesses estão sendo atendidos;
Problemas de sustentabilidade: outra crítica surge na sustentabilidade da proposição de
reformas externas sem a compreensão da realidade local – e a sua não-adequação aos propósitos locais pode muitas vezes levar a reformas e mudanças abandonadas;
Problemas de autonomia: a condicionalidade muitas vezes é vista como a violação da
soberania de alguns países-membros – assim, a legitimidade para a imposição de condicionalidades muitas vezes é questionada conforme os atores sociais envolvidos;
Problemas no conteúdo das condições: as condições podem não ser baseadas em práticas
recomendadas, ou podem ser realizadas sem nenhuma investigação objetiva acerca da sua real eficácia econômica, política, social, culturais, etc.
Problemas na quantidade de condições: muitos casos foram prejudicados pelo simples
fato de que a quantidade de condições era grande, e as condições eram detalhadas e intrusivas. Muitos críticos argumentaram que as condições muitas vezes eram alocadas em áreas políticas e que o foco central dos programas de reforma não foi atendido – melhor seria um número pequeno de condições efetivas. (KOEBERLE, 2005).
Na maior parte das vezes, a resistência em relação ao uso de condicionalidades é relacionada aos limites que as tornam viáveis (WOOD; LOCKWOOD, 1999). De acordo com Koeberle (2005), não existe um número de condições desejável ou um limite às condições impostas, até porque isso restringe o número de reformas que podem ser suportadas. Segundo o autor, a condicionalidade deve ser desenvolvida conforme as necessidades de reformas mais urgentes e devem ser passíveis de monitorização do seu impacto de desenvolvimento, através de indicadores específicos para julgar seu efeito sobre o ambiente no qual se faz a doação.
Os agentes locais, segundo Koeberle (2005), são os responsáveis pela internalização das condições e devem receber maior atenção e transparência no momento do planejamento das políticas – portanto devem receber voz ativa no planejamento no desenho da condicionalidade. Se o programa atende aos interesses dos doadores, mas não os daqueles que devem cumprir as condições, há grande risco de que os esforços sejam inúteis. Portanto, a eficácia da condicionalidade depende da ação dos agentes locais (KOEBERLE, 2005).
De acordo com Usul (2011), a natureza da condicionalidade está continuamente em transformação, e isso acontece conforme muda a estrutura normativa da política. Assim, conclui o autor que as mudanças históricas nas políticas externas, na democracia e nos direitos humanos permeiam alterações na forma como as condicionalidades são conduzidas.
Pode-se afirmar, em função do exposto, que a questão das condicionalidades apresenta elos de ligação junto à extrafiscalidade e à concessão de incentivos fiscais, por três razões: 1) por ser um tax expenditure, o incentivo fiscal consiste em uma contribuição financeira dada pelo Estado, com recursos públicos, para determinados grupos para o exercício da atividade econômica; 2) por se tratar de uma concessão do Estado, este pode impor determinadas regras para garantir que os propósitos extrafiscais planejados sejam cumpridos com vistas à dinamização da economia, e 3) uma vez estabelecidos objetivos para a concessão de incentivos fiscais, fazem-se necessários parâmetros para seu controle. Essas três razões dão indícios da necessidade de condicionalidades na política de incentivos fiscais como uma forma de implementação de políticas com objetivos bem definidos e planejados, passíveis de serem discutidas, planejadas e controladas pela sociedade.