2. BÖLÜM
2.6. Antik Çağ’ın Şifacılarından Orta Çağ’ın Cadılarına
Chizzotti (2006) reconhece que, no âmbito das Ciências Humanas e Sociais, as pesquisas atuais se encaminham por dois direcionamentos básicos, cada qual com práticas de pesquisa, pressupostos teóricos, modos de abordar a realidade e coletar os dados que lhes são específicos. Genericamente denominadas de pesquisas quantitativas e qualitativas, elas representam, sobretudo, dois posicionamentos epistemológicos diferenciados a serem assumidos pelo pesquisador de modo coerente ao seu problema de pesquisa e à concepção da realidade expressa por suas bases teóricas.
Se o pesquisador identifica a natureza como uniforme e logicamente organizada, ou se sua pesquisa privilegia a necessidade de encontrar frequências e constâncias de determinados eventos, é certo que ele recorrerá a meios que lhe permitirão mensurar a ocorrência dos fenômenos em estudo, possibilitando-o formular leis que os expliquem. Nessa perspectiva de pesquisa, definida como quantitativa, o comportamento humano é apreendido em termos de variáveis dependentes e independentes e os dados que proporcionam seu estudo provém, especialmente, de condições laboratoriais de controle e verificação, levantamentos amostrais ou outras práticas de contagem.
Entretanto, se o pesquisador pressupõe a realidade como resultante da interpretação que as pessoas constroem para o seu mundo, levando em conta o fato de que o homem não é um ser passivo, mas que se modifica e transforma a realidade nas diversas interações sociais das quais participa, ele toma um posicionamento epistemológico em que a análise e a interpretação dos fatos e fenômenos devem ser reveladas pelas significações construídas por aqueles que os vivenciam.
Neste último caso, em que o pesquisador concentra sua atenção na dinâmica das relações sociais e no modo como elas são interpretadas pelos sujeitos, ele se orienta por outro tipo de pesquisa, a denominada qualitativa. A principal característica deste tipo de pesquisa se concentra no fato de que elas “pretendem interpretar o sentido do evento a partir do significado que as pessoas atribuem ao que falam e fazem” (CHIZZOTTI, 2006, p. 28).
Moreira (2002) complementa a caracterização da pesquisa qualitativa, apresentando um sumário com seis de seus traços básicos, sem pretender, contudo, esgotar o rol de suas particularidades. Para o autor, a pesquisa qualitativa implica:
- a interpretação como foco, ou seja, o interesse da pesquisa está em interpretar a situação em estudo a partir do ponto de vista de seus participantes;
- o reconhecimento e a valorização da subjetividade dos participantes como dados de pesquisa;
- a flexibilização da conduta do estudo, uma vez que não há uma definição a priori das situações;
- o interesse maior no processo e não no resultado como caminho a se obter a compreensão da situação em estudo;
- o contexto como intimamente relacionado ao comportamento das pessoas e à formação de suas experiências;
- o reconhecimento da inter-relação entre o pesquisador e a situação pesquisada, na qual ambos sofrem uma influência mútua.
Observadas as características acima descritas, consoantes com os interesses e bases sócio-histórico-culturais que fundamentam essa investigação, recorreu-se por desenvolvê-la à luz do modelo qualitativo de pesquisa. Os sentidos e significados que os professores coordenadores pedagógicos iniciantes atribuem a suas vivências no contexto escolar, assim como a constituição de sua identidade profissional, representam objetos de estudo para os quais a abordagem de investigação de natureza qualitativa se apresenta mais apropriada. Por meio da lógica e dos recursos metodológicos que lhes são particulares, é possível alcançar a compreensão sobre o que pensam esses profissionais, o modo como se sentem, suas vivências, expectativas e práticas, reconhecendo-os como sujeitos únicos e singulares, cuja consciência, atividade e identidade ganham forma dentro do espaço social, ao mesmo tempo em que, dialeticamente, ajudam a delinear esse espaço.
Convém assinalar que o papel do pesquisador, nesta pesquisa de orientação sócio- histórica, transcende o de simples observador e descritor da realidade, cabendo-lhe a tarefa de explicá-la em sua complexidade; produzindo, por meio das falas e expressões dos sujeitos, conhecimentos que venham desvelar o sistema dinâmico que articula a realidade social com a subjetividade singular a cada ser.
Aguiar (2002) avalia que, dada a complexidade da subjetividade como objeto de estudo, o pesquisador se depara com a tarefa de “observar o não-observável, o lado escuro da lua” (p. 129). Compreendida como a capacidade humana de converter as experiências cotidianas em sentidos, a subjetividade não representa uma dimensão facilmente penetrável a partir de uma observação e análise que não contemplem de maneira conjunta a história do
indivíduo, o contexto sócio-cultural no qual desenrolam suas ações e a dialética afetivo/cognitivo que engendra suas possibilidades de ação e criação.
Assim sendo, as palavras se tornam o elemento fundamental para a análise da subjetividade, uma vez que correspondem à materialização do pensamento, capazes de manifestar, por meio dos significados e sentidos expressos, tanto os aspectos cognitivos quanto os afetivos e volitivos que a constituem. Contudo, a autora alerta para o fato de que, em oposição aos significados, que correspondem a conteúdos socialmente instituídos e, portanto, mais estáveis; os sentidos não representam dados abertamente revelados por meio da linguagem.
Assim, a fala, construída na relação com a história e a cultura, e expressa pelo sujeito, corresponde à maneira como este é capaz de expressar/codificar, neste momento específico, as vivências que se processam em sua subjetividade; cabe ao pesquisador o esforço analítico de ultrapassar essa aparência (essas formas de significação) e ir em busca das determinações (históricas e sociais), que se configuram no plano do sujeito como motivações, necessidades, interesses (que são, portanto, individuais e históricos), para chegar ao sentido atribuído/constituído pelo sujeito (AGUIAR, 2002, p. 131).
À vista do complexo processo de apreensão dos sentidos, os significados tornam- se necessariamente o ponto de partida para o trabalho de análise e interpretação a ser empreendido pelo pesquisador a fim de que ele possa alcançar os aspectos constitutivos da subjetividade, orientando-se em direção ao processo dinâmico que encadeia significados, necessidades, motivos e afetos e produz os sentidos. Ao pesquisador, entretanto, torna-se possível apenas se aproximar das zonas de sentido que, pela fluidez e imprecisão de seus contornos, não permitem uma representação única e definitiva de sua cartografia.
A apreensão dos sentidos não significa apreender uma resposta única, coerente, absolutamente definida, completa, mas expressões do sujeito muitas vezes contraditórias, parciais, que nos apresentam indicadores das formas de ser do sujeito, de processos vividos por ele (AGUIAR, 2006, p. 17).
Definida, portanto, a base teórico-metodológica sobre a qual se apoia este trabalho, os itens que se seguem nesta seção buscam descrever os procedimentos metodológicos adotados no processo de obtenção dos dados, assim como aqueles que sustentam sua análise.