Neste trabalho, como já exposto, texto é concebido como atividade discursiva e lugar de interação entre sujeitos. Assim, produzir um texto envolve planejamento, verbalização, revisão e reescrita. A avaliação é considerada uma das etapas desse processo de ensino-aprendizado; o professor é visto como aquele que auxilia, orienta, sugere.
Na avaliação dos textos que compõem o corpus desta pesquisa, foi verificado se as condições de produção foram consideradas: quem escreve, sobre o quê, como, onde, com quais objetivos e para quem escreve. Foram analisadas também as escolhas dos alunos-autores quanto à estruturação conceitual (coerência) e formal de seus textos. Para isso, foi necessário adotar alguns critérios24 que dizem respeito ao plano semântico- conceitual e ao formal, que devem ser considerados na avaliação. Eles estão explicitados a seguir.
No plano semântico-conceitual:
• pertinência quanto à questão proposta ou adequação ao tema;
• consciência de registro (coerência com relação ao contexto de situação);
• adequação vocabular (propriedade de sentido; compatibilidade com o registro adotado);
• coerência interna: repetição ou continuidade (retomada de elementos no decorrer do discurso), progressão (ausência de redundâncias inexpressivas), relação ou articulação
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Este artigo foi publicado na revista Época em 25 de setembro de 2006. 24
Segundo Marinho (1997, p. 93), tais critérios foram utilizados e aprimorados à época pelas equipes de avaliação e correção de textos produzidos nos vestibulares da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade Federal de Ouro Preto, nos quais ela trabalhava.
(boa seqüenciação e bom encadeamento de idéias) e não-contradição (respeito aos princípios lógicos elementares);
• coerência externa: compatibilidade com o mundo de referência, com a realidade; consistência de argumentação (grau de informatividade: pertinência, suficiência e relevância de argumentos);
• paragrafação.
No plano formal:
• coesão textual: anáforas não-ambíguas/com antecedente expresso (recursos anafóricos: pronomes; advérbios; artigos; elipse; reiterações e substituições lexicais); articuladores bem empregados (conjunções, operadores discursivos); correlação de tempos e modos verbais; processos de coesão lexical (sinonímia, antonímia, paralelismo sintático e semântico; emprego adequado de conjunções);
• pontuação;
• ortografia e acentuação.
Os critérios apresentados por Marinho (1997, p.p. 93-94) dialogam25 com os critérios26 propostos por Costa Val et al. (2009, p. 113), destacados no quadro a seguir por se apresentarem de forma mais resumida.
1 – Adequação Discursiva e Conceitual 1.1 – Adequação ao tema proposto 1.2 – Coerência (unidade temática) 1.2.1 – Relação título-texto
1.2.2 – Continuidade
1.2.3 – Progressão (não circularidade) 1.2.4 – Articulação
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No entanto, Marinho (1997) apresenta a paragrafação no plano semântico-conceitual, enquanto Costa Val et al. (2009) consideram-na no plano formal.
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Esses critérios foram utilizados por pesquisadores do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), da Faculdade de Educação/UFMG, em 1993, em um trabalho de avaliação de textos escritos
1.3 – Consistência argumentativa (pertinência, suficiência e relevância de argumentos)
2 – Adequação Formal
2.1 – Coesão [recursos anafóricos, articuladores, correlação de tempos verbais, processos de coesão lexical (sinonímia, antonímia, hiperonímia, hiponímia, associação semântica), modalizadores, operadores argumentativos.] 2.2 – Morfossintaxe [estruturação de períodos (presença de oração principal e subordinadas necessárias e de termos essenciais e integrantes); concordância; regência; emprego de crase; colocação.]
2.3 - Paragrafação e pontuação 2.4 – Ortografia e acentuação
A respeito dos critérios de Marinho (1997, p.p. 93-94) e dos critérios de Costa Val et al. (2009, p. 113), é possível observar que, ao adotá-los, estou assumindo um conceito de avaliação a qual considera que um texto envolve a integração das dimensões discursiva, semântica e formal.
É importante destacar que busquei não associar esses critérios a um “instrumento” para a identificação de “erros” em um “produto final”. Ao longo do processo de avaliação dos textos produzidos pelos sujeitos envolvidos nesta pesquisa, tais aspectos foram considerados uma possibilidade de avaliar as dificuldades encontradas no processo de aprendizado da escrita e, dessa maneira, buscar meios para contribuir para o desenvolvimento das habilidades textuais dos alunos-autores.
Além disso, o texto apresenta uma materialidade lingüística, que pode permitir ou impedir, por exemplo, que o leitor construa coerência. A respeito disso, Dias (2004, p. 211) afirma:
Se por um lado o leitor ativa conhecimentos prévios para atribuir significados ao texto que lê, por outro, o autor colabora para manter pontos de contato (entre ele e seu leitor) por meio de pistas verbais e não-verbais, fornecidas implícita ou explicitamente, de modo a permitir a reconstrução de sua intenção comunicativa.
A adoção dos critérios para a avaliação dos textos que compõem o corpus desta investigação também pode ser justificada com base em Koch (2001). A autora destaca
que os princípios de textualidade abordados por Beaugrande & Dressler (1981), contemplados nos critérios adotados nesta pesquisa, não são mais concebidos como padrões “que permitem identificar as fronteiras entre um texto e um não texto, mas sim as condições para uma ação lingüística, cognitiva e social na qual eles operam como modos de conectividade em níveis diversos, mas inter-relacionados” (KOCH, 2001, p. 16).
A escolha dos critérios apresentados nesta pesquisa tem fundamento também no fato de que o estabelecimento prévio de critérios de avaliação de textos é importante para que o professor possa acompanhar os avanços do aluno ao longo do processo de apropriação da escrita, bem como detectar os aspectos que precisam ser reforçados por meio de exercícios ou atividades.
Por fim, deixar claro para o discente os aspectos que serão considerados na avaliação de sua produção textual pode facilitar sua compreensão das intervenções feitas pelo docente ou pelo colega e, provavelmente, interferir na reelaboração de seu texto. Sendo assim, sua explicitação contribui para o processo de ensino-aprendizado da escrita. Enfim, os critérios de avaliação por mim adotados expõem os aspectos que defendo que devem ser considerados na produção textual.