5. TANGO MÜZİĞİNDE ORKESTRASYON STİLLERİ
5.3 Anibal Troilo Stili Orkestrasyon
5.3.1 Anibal Troilo Orkestrası’nın genel özellikleri
Até aqui temos visto que anúncio da morte de Deus é a representação sintética de uma nova maneira de se conceber o mundo, porém, antes que houvesse condição para esta abertura, para Nietzsche o homem manteve-se por séculos sob o domínio de uma nociva e desvitalizante maneira de viver.
Vimos no tópico anterior que Sócrates segundo Nietzsche, representou um marco na visão de mundo de nossa cultura ocidental. Com ele aprendemos a supervalorizar a razão e a combater os instintos. Nesta nova tendência gnosiológica, o filósofo alemão leu o declínio do homem forte e a consequente fixação de uma enfraquecedora vontade de nada que idealmente foi marcada como uma nobre “vontade de verdade”.
Na crítica do filósofo alemão, foi justamente com Sócrates que uma potente moral de rebanho começou a se solidificar em nossa civilização, em sua ótica, este foi o momento histórico que deu início ao declínio do vigoroso modo trágico de pensar dos gregos, a partir daí um longo processo de amansamento formou-se como base de surgimento de nossa cultura.
Escrevendo sobre os perigos desta moral da decadência, o filósofo alemão teceu os seguintes comentários sobre os nocivos efeitos desta desnatural consciência de rebanho:
– Uma moral “Altruísta”, uma moral em que o egoísmo se atrofia – é, em todas as circunstâncias, um mau indício. Isto vale para o indivíduo, isto vale especialmente para os povos. Falta o melhor, quando o egoísmo começa a faltar. Escolher instintivamente o que é prejudicial para si, ser atraído por motivos “desinteressados” é praticamente a fórmula da décadence. “não buscar sua própria vantagem” – isto é apenas a folha de parreira moral para cobrir um fato bem diferente, ou seja, fisiológico: “não sou mais capaz de encontrar minha vantagem”... desagregação dos instintos! O ser humano está no fim, quando se torna altruísta. Em lugar de dizer ingenuamente “eu não valho mais nada”, a mentira moral diz, na boca do décadent: nada tem valor – a vida não vale nada... (Nietzsche, 2006, p.83).
Uma moral que obriga o indivíduo a se posicionar como elemento secundário no jogo perpétuo de nossos variados interesses mundanos, para Nietzsche, é uma moral antinatural que se o põe á vida; dizer que só um “todo imaginário”, não
importa se o chamamos de “Deus” ou “civilização”, vale como meta maior de nossas ações, na lógica Nietzschiana é o mesmo que escolher o “nada” como valor maior da existência.
O Altruísmo iniciado por Sócrates em nossa cultura ocidental é encarado pelo filósofo alemão, como o momento em que a vitalidade grega começa se esvair, em seu ponto de vista, uma verdadeira “Desagregação dos Instintos” implante-se através desta nova maneira de se relacionar com o mundo, negar nossas naturais inclinações egoístas, em prol de um desinteressado humanitarismo existencial, nada mais seria que um sinal velado de decadência existencial. Afinal, a falta deste visceral egoísmo, segundo o pensamento Nietzschiano, já é um sintoma existencial de degeneração da espécie.
Analisando os escritos da juventude de Nietzsche, o pesquisador Alan Sampaio, em sua obra Origem do Ocidente: as antiguidades gregas no jovem Nietzsche, escreve o seguinte sobre a degeneração da vitalidade da Grécia arcaica:
Os “novos tempos” são decadentes, faz-se necessário retornar à Grécia para encontrar “iluminação”. O ocidente esqueceu-se das forças mais recônditas que impulsionam a cultura; é preciso regressar á origem dessa civilização para encontrá-las atuantes. [...] Nietzsche busca os vestígios da origem esquecida, encoberta pela racionalidade do homem teórico e pela religiosidade cristã. Ele pretende compreender a cultura a partir de sua forma arcaica, a cultura trágica dos gregos. A Grécia foi sempre, para ele, parâmetro de cultura e pensamento oposto aos modelos da tradição cristã. [...] há em Nietzsche uma postura arcaizante, na simpatia pela vitalidade dos gregos. (Sampaio, 2008, p. 53).
Como foi ressaltado por Sampaio, desde seus primeiros escritos Nietzsche percebeu no movimento histórico de criação do nosso mundo ocidental uma desvitalização dos instintos mais fortes, o ocidente, em linguagem Nietzschiana, vive desde sua origem uma “atrofia” das forças dinâmicas que devem atuar no sujeito.
A cultura trágica dos antigos gregos obrigava os mesmos a desenvolverem uma “consciência trágica” diante dos variados fenômenos da existência, esses arcaicos helenos não tentavam atenuar o peso esmagador de uma existência nuclearmente sem sentido, seus variados mitos trágicos, segundo o viés interpretativo Nietzschiano, manifestavam o derrisório fim anômico de todo ato humano.
A filosofia Socrática e, posteriormente sua continuadora ideológica, o cristianismo, colocaram fim a época luminosa da Grécia heróica, marcada pela ética expansionista do guerreiro; segundo essa nova ordenação cultural, o homem virtuoso não é aquele que arrisca sua vida em prol de uma meta de domínio, mas sim aquele que busca preservá-la a todo custo e, em estado superlativo, essa ânsia por preservação e simbolicamente tipificada pela crença consoladora da imortalidade da alma.
O espírito forte e nobre do guerreiro foi lentamente soterrado pela vontade escrava e covarde dos que buscavam o além como meta, para o filósofo alemão tal mudança de direção representou a criação de uma nova moral que privilegiava a fraqueza como destino último dos “escolhidos”, isto foi dito da seguinte forma pelo próprio Nietzsche:
- A rebelião escrava na moral começa quando o próprio ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e que apenas por uma vingança imaginaria obtêm reparação. (Nietzsche, 2004, pp. 28-29).
Para Nietzsche a moral escrava é sempre o disfarce da “covardia”; deixando de atuar como ser real, capaz de mudar sua história pela ação direta no mundo, o escravo busca covardemente uma reparação póstuma no além, seu desejo de vingança é transformado num cauteloso anseio por “verdade”, assim, se suas fracas mãos, são incapazes de lhe mudar o destino neste mundo, resta-lhe a crença em um destino glorioso reservado a todos os homens “bons” e “justos”.
Ainda falando sobre efeitos alienantes desta moral de escravo, Nietzsche escreveu:
Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante, Sim a si mesma, já de início a moral escrava diz Não a um “fora”, um “outro”, um “não- eu” – e este Não é seu ato criador. Esta inversão do olhar que estabelece valores – este necessário dirigir-se para fora, em vez de voltar-se para si – é algo próprio do ressentimento; a moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto – sua ação é no fundo reação. (Nietzsche, 2004, p.29).
Os valores invertidos da moral escrava são na realidade um levante contra tudo aquilo que afirma a vida, nesta moral pautada na mediocridade de espírito, desvalorizar a vida sensível dos instintos é um recurso que visa à suspensão da
vontade de potência, os que lançam mãos desta valoração degenerada, para Nietzsche, são os que reativamente buscam o “nada” como transcendência. Para estes a negação real da vida implicará em um ilusório galardão supraempírico.
A Lógica interna desta moral escrava é o “ressentimento”, sentimento este que revela o quão intenso é o desejo oculto por vingança; o ressentido não tendo coragem e nem vigor para lutar pela vida, resolve esse impasse às custas de uma fantasia prospectiva onde ele será agraciado pela sua inefável covardia e, ao mesmo tempo, todos seus inimigos, reais e imaginários, são excluídos das bem- aventuranças dos “pobres no espírito” (Bíblia, Mat. 5:3).
Historicamente, o filósofo alemão considerava o cristianismo uma continuidade imediata da moral socrático-platônica e, em certo sentido, a mensagem cristã era um aprimoramento desta moral envenenadora, não no sentido de requinte, mais sim em seu poder de difusão, afinal, segundo Nietzsche, o cristianismo era uma espécie de platonismo para as massas.
No entanto, para que possamos entender como o cristianismo tornou-se o núcleo difusor dos ideais ascéticos em nosso mundo ocidental, antes precisamos compreender as implicações ambíguas que recobrem tal termo.
Em primeiro lugar, devemos assinalar que, o cristianismo como arquitetura hierárquica de poder, é algo muito posterior ao “Cristo” histórico e, para Nietzsche, tal organização sacerdotal nunca foi ambicionada pela humilde personagem que ganhou status de messias.
A figura heróica de redentor, criada posteriormente pelas forças eclesiásticas que organizam o cristianismo, para o filósofo anticristão não passa de uma monstruosa impostura. Ao refutar o “cristo” criado pelo alemão Ernest Renan, em sua obra A Vida de Jesus, onde o carpinteiro é descrito como “gênio” e “herói” (Nietzsche, 2007, p. 35), o filósofo alemão argumenta dizendo que a real imagem aprendida nos evangelhos está bem longe destas duas tipificações, para ele, tanto a imagem de um vigoroso herói guerreiro, como também de um gênio planificador, totalmente cônscio de seu papel revolucionário, são imagens estranhas ao contexto evangélico original.
Nietzsche considera tais imagens inadequadas e um tanto falseadoras da real imagem que brota dos evangelhos, sobre isto escreveu:
Se existe algo não evangélico, é o conceito de herói. Justamente o contrário todo pelejar, de todo sentir-se-em-luta, tornou-se aí instinto: a incapacidade de resistência torna-se aí moral (“não resista ao mal [Mateus, 5, 39] a frase mais profunda dos evangelhos, sua chave, em certo sentido), a beatitude na paz, na brandura, no não poder ser inimigo. Que significa “boa nova”? A vida verdadeira, a vida eterna foi encontrada - não é prometida, está aqui, está em vocês como vida no amor, no amor sem subtração nem exclusão, sem distância. Cada um é filho de Deus - Jesus não reivindica nada apenas para si -, como filho de Deus cada um é igual ao outro... Fazer de Jesus um herói! - E que mal-entendido é, sobretudo a palavra “gênio”! nada de nosso conceito de “gênio”, um conceito de nossa cultura, tem algum sentido no mundo em que vive Jesus. Falando com rigor do fisiólogo, caberia uma outra palavra aqui – a palavra “idiota” (Nietzsche, 2007, pp. 35-36).
Muito diferente do vigor exigido de um real herói guerreiro, para Nietzsche a imagem de Jesus representava o oposto deste ideal, segundo o teor de suas palavras, o carpinteiro era a materialização da “não-violência”. Como foi muito bem indicado pelo filósofo alemão, a “não-resintência” como processo generalizado de elevação moral é uma das principais chaves para entendermos o espírito cristão original.
Ao dizer que as imagens de “herói” e de “gênio” não correspondiam à noção evangélica do Jesus histórico, Nietzsche queria apontar a evidente discrepância entre o “Jesus-homem” e o “Jesus-Deus”, criado posteriormente pelos cristãos; segundo sua visão interpretativa foram os discípulos que acabaram por criar o “grande mestre”, por isso, o cristianismo, em seu surgimento, dependeu mais de uma imagem criada “sob encomenda” do que, das reais qualidades do aclamado redentor.
Para Nietzsche, diferente de um poderoso “rei-guerreiro” como era esperado pela maioria de seus contemporâneos, Jesus tinha um comportamento brando e altamente infantilizado; não acreditava no poder da “espada”, mas sim da capacidade singular e transformadora do amor.
É por causa deste tipo pueril de personalidade que Nietzsche aplica o epíteto de “idiota” a Jesus. Embora tal termo tenha entre nós uma conotação pejorativa e, em certos contextos, seja até mesma uma maneira agressiva de se referir a uma pessoa, no contexto nietzschiano esta palavra parece ser um sinônimo de “ingênuo”, um sujeito sem habilidade política para lidar com os problemas da vida prática. Foi
isto que Fernando de Moraes Barros, ao tratar deste polêmico termo também conclui:
Longe de encerrar um sentido notoriamente agressivo, que pretende denotar um indivíduo lento, desprovido de atenção, sem iniciativa e imaginação, a palavra “idiota” quer atestar o caráter propriamente “extra-social” do tipo questão. Para Nietzsche, trata-se de mostrar que Jesus vivia apenas em unidade consigo mesmo e que o simbolismo em torno do qual ele orbitava estava, inevitavelmente, à margem de todo requinte político, artístico ou cientifico...
E, ainda ocupado em contextualizar o uso do termo no universo nietzschiano, numa nota de rodapé, o autor supracitado fala da forte influência que os escritos do autor russo Dostoievski tiveram sobre o filósofo alemão e, fazendo este apontamento literário, levanta uma interessante e razoável hipótese:
... apesar de o autor de O Anticristo não mencionar explicitamente o romance O Idiota, é inegável a afinidade de tal obra com a reconstituição do tipo em questão. Pode-se dizer, inclusive, e sem presumir demais, que boa parte da “reverência crítica” demonstrada pela figura de Jesus advém daquilo que Nietzsche “aprendeu” com Dostoievski. Com efeito, quando se tem diante dos olhos a preciosa exposição em Nietzsche faz Jesus e a singular caracterização feita pelo escritor russo do príncipe Míchkin, personagem que percorre e dá forma á trama de O Idiota, não é muito difícil perceber as compatibilidades tipológicas e as eminentes afinidades entre ambos. O príncipe fundamentalmente incapaz de compreender e adquirir domínio sobre as vicissitudes que o circundavam, já que “ora sua faculdade de observação parecia super-aguda, ora tornava-se incrivelmente distraída” (Dostoievski, Fiódor. O idiota.Tradução de Oscar Mendes. Rio de Janeiro: nova Aguilar, 1995, p. 664), parece, pois fornecer o exemplo mesmo de “idiota” que Nietzsche atribui ao tipo psicológico do redentor. (Barros, 2002, pp. 64-65).
Assim, bem ao modelo do personagem de Dostoievski, o príncipe Michkin, Jesus seria um indivíduo muito bem intencionado, porém, um tanto ingênuo. Alguns fragmentos nietzschianos parecem apoiar a hipótese defendida por Barros. Ainda em seu O Anticristo, Nietzsche falando sobre as contradições históricas no cristianismo escreveu:
... Já a palavra “cristianismo” é um mal-entendido – no fundo, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz. O “evangelho” morreu na cruz. O que desde então se chamou de “evangelho” já era o oposto daquilo que ele viveu: uma “má nova”, um disangelho. (Nietzsche, 2007, p. 45).
Para Nietzsche, a palavra cristianismo nada tinha haver com a prática cristã ensinada por Jesus, aliás, essa prática após a morte do pretenso fundador do cristianismo tornou-se pura “doutrina” ao invés de uma maneira de viver o mundo, o cristão criou um mundo a parte pra poder viver.
Certamente era essa aviltante mudança de atitude que Nietzsche queria demonstrar quando descreveu a postura original de Jesus:
Esse “portador de boa nova” morreu como viveu, como ensinou – não para “redimir os homens”, mas para mostrar como se deve viver. A prática foi o que ele deixou para humanidade: seu comportamento ante os juízes, antes os esbirros, ante os acusadores e todo tipo de calúnia e escárnio - seu comportamento na cruz. Ele não resiste, não defende seu direito, não dá um passo para evitar o pior, mais ainda, ele provoca o pior... E ele pede, ele sofre, ele ama com aqueles, naqueles que fazem mal [...] Não defender-se, não encolerizar-se, não atribuir responsabilidade... Mas tampouco resistir ao mal – amá- lo... (Nietzsche, 2002, p. 42)
Diferente de um ávido doutrinador, segundo a interpretação que Nietzsche faz do Jesus histórico ele era a personificação de uma atitude prática em relação à vida. O Jesus histórico não estava interessado em anunciar as “delícias” do “além”; para Nietzsche o mesmo queria introduzir uma prática que visava sempre o “agora”, não a vida eterna, mas sim a vida intensamente vivida com amor no “hoje” era a real mensagem ambicionada pelo ingênuo carpinteiro.
De certa maneira esta interpretação nietzschiana da figura de Jesus, nega originalmente o dualismo platônico que posteriormente seria inserido no cristianismo, por isso, a ruidosa antagonia entre corpo e alma, ou entre o espírito e a carne, são noções deturpadas do verdadeiro empenho prático do Jesus histórico.
A descrição que Nietzsche faz de Jesus, o coloca como um ser de forte posicionamento amoral, ele não buscava gerar o amor em seus ouvintes às custas do medo de pecar, o filósofo alemão recorrentemente apela ao lado não ressentido da mensagem de Jesus, o que o simples carpinteiro queria com sua ênfase na idéia do amor, era ensinar as pessoas serem honestas existencialmente como as crianças.
O filósofo alemão reconheceu o “arrebatador encanto” desta singela mensagem originalmente vivenciada da prática de vida de Jesus, isso fez com que
ele descrevesse paradoxalmente esse sedutor mensageiro de boas novas como uma “mistura de sublime, enfermo e infantil” (Nietzsche, 2007, p. 38)
Aquilo que existia de “enfermo e infantil” na personalidade de Jesus, o que corresponde ao idiotismo infantil do príncipe Michkin de Dostoievski, para Nietzsche foi verdadeira causa da morte do “salvador”. Sua mensagem apelava para uma superação visceral das variadas contradições humanas, porém, tal superação se daria pelo primado da não resistência, sem luta, só às expensas do amor.
Para Nietzsche, esta ideia de um mundo possível de ser conquistado sem violência é a essência da mensagem original de Jesus, por isso ele escreveu:
“‟A boa nova‟ é justamente que não mais existem oposições; o reino
do céu pertence às crianças; a fé que aí se exprime não é a fé conquistada - ela está aí, existe desde o começo, é como que o infantilismo recuado para o plano espiritual.” (Nietzsche, 2007, p. 38)
Um reino além do bem e no mal era essa a nova paisagem vislumbrada a partir do exemplo do próprio Jesus, um lugar onde não os “opostos”, mais sim a harmonia primaveril da infância perdida no núcleo de nosso ser é a regência maior da nova vida.
Nietzsche reconhece algo de grande e nobre nesta intenção de Jesus, no entanto, explica que o motivo da nobre altivez de Jesus é ao mesmo tempo o real motivo de sua mais vil franqueza. Isso foi dito da seguinte forma por Nietzsche:
[...] seria possível com alguma tolerância de expressão, chamar Jesus um “espírito livre” - ele não faz caso do que é fixo; a palavra mata tudo que é fixo mata. O conceito, a experiência “vida”, no único modo como ele a conhece, nele se opõe a toda espécie de palavra, fórmula, dogma fé, lei. Ele fala apenas do que é mais intimo; “vida”, “verdade”, luz é sua palavra para o que é mais intimo – todo o resto, a realidade inteira, toda natureza, a própria linguagem, tem para ele apenas o valor de um signo, de uma metáfora. [...] um tal simbolismo par excellence está fora de toda religião, de todos os conceitos do culto, toda historia, toda ciência natural, toda experiência do mundo, todos os conhecimentos, toda política, toda psicologia, todos os livros, toda arte – seu “saber” é justamente a pura tolice quanto ao fato de que algo assim existe. (Nietzsche, 2007, p.38).
Como “espírito livre” Jesus era avesso a todo tipo de “esquema”, não era homem de ficar preso a um “sistema”, como uma criança buscava constantemente o “novo”. Em sentido nietzschiano, Jesus era um redentor marginal, estava sempre
fora do padrão admitido como “oficial” e, foi exatamente esta postura “oficiosa” que começou a incomodar politicamente seus contemporâneos.
Por causa de sua imaturidade Jesus não conseguiu mensurar o alcance de sua mensagem e, sua prática de vida, pautada na tese da não-resistência, logo chamou a atenção do poder constitucional. Nenhum sistema legal pode assumir para si a regra geral de uma não-violência, afinal, a própria existência de leis já pressupõe violência em forma de sanções e castigos. Por isso, aquele que pratica a não-resistência e prega o desapego em relação ao mundo constitucional, torna-se automaticamente um inimigo da ordem dominante; na leitura que Nietzsche faz de Jesus, foi esta postura pouco prudente que levou o carpinteiro a sua morte prematura.
Sobre a imaturidade de Jesus, Nietzsche faz seu Zaratustra tecer o seguinte comentário:
Na verdade, morreu demasiado cedo aquele hebreu a quem honram os pregadores da morte lenta, e para muitos foi uma fatalidade que morresse tão cedo.
Esse Jesus hebreu não conhecia nada mais que as lágrimas e a tristeza do hebreu, e o ódio dos bons e dos justos; e assim lhe acometeu o desejo da morte.
Por que não permaneceu no deserto, longe dos bons e dos justos! Talvez tivesse aprendido viver e a amar a terra, e também o riso! Crede-me, meus irmãos! Morreu muito cedo; se tivesse se retratado de sua doutrina teria vivido até minha idade! Mas era bastante nobre pra retratar-se! (Nietzsche, 2007, p. 105).
Segundo o teor das palavras de Zaratustra, Jesus deveria ter permanecido