Nesse estudo, a qualidade de vida se mostrou pior no grupo submetido à cirurgia de revascularização do miocárdio quando comparada à dos pacientes da angioplastia. Em contrapartida, o estudo de Szygula-Jurkiewicza, et al. (2005) demonstrou que existe uma diferença significativa na qualidade de vida após 12
Discussão –
74meses da intervenção. Essa diferença decorre da melhor função física (componente físico do SF-36) para pacientes submetidos a cirurgia de revascularização em comparação com pacientes que realizaram angioplastia percutânea. No presente estudo, a avalição tardia foi com 2 meses após a intevenção, e nessa fase a qualidade de vida dos doentes de angioplastia ainda foi melhor do que a do grupo cirúrgico. Entretanto, analisando a variação desde a fase pré intervenção, observamos que o ganho de qualidade de vida foi mais acentuada no grupo cirúrgico.
Antes da intervenção terapêutica o grupo da cirurgia apresentou menores
escores nos domínios “aspectos físicos” e “dor”, do componente físico do SF-36. Eram maiores as limitações físicas e a intensidade e/ou interferência da dor na realização do trabalho e nas atividades de vida diária. No componente mental, os
pacientes cirúrgicos obtiveram menores escores nos domínios “aspectos sociais” e “vitalidade”, ilustrando a pior integração nas atividades sociais e maior fadiga na
realização das atividades diárias. Na avaliação de sua saúde atual antes do procedimento, os pacientes do grupo da cirurgia acreditavam estar com a saúde pior se comparada à de há um ano.
Favarato et al. (2006) comparando a qualidade de vida em pacientes submetidos à diferentes tratamentos relataram nos que realizaram cirurgia de revascularização do miocárdio os piores resultados na avaliação inicial, fato também observado no presente estudo. Nogueira et al. (2008), avaliaram a qualidade de vida por meio do SF-36 em pacientes submetidos à cirurgia de revascularização com e sem circulação extracorpórea, e concluíram que houve melhora progressiva da qualidade de vida para ambos os procedimentos.
No momento da alta hospitalar, o grupo da cirurgia permaneceu com pior percepção da qualidade de vida. Houve aumento no número de domínios que apresentaram piores escores – “capacidade funcional”, “aspectos físicos”, “dor”, “vitalidade” e “aspectos sociais”, como também na questão da avaliação da saúde atual. A piora da capacidade funcional indica que a cirurgia de revascularização do miocárdio gerou mais limitações para realização de atividades que exigem maior esforço físico, como correr, vestir-se e tomar banho.
Quando os pacientes foram novamente avaliados, 60 dias após a intervenção, observou-se que a cirurgia apresentou pior percepção da qualidade de
Discussão –
75vida em apenas dois domínios: “aspectos físicos” e “aspectos sociais”. Isso sugere
redução da interferência da agressão cirúrgica.
Neste estudo, a comparação entre os momentos de avaliação, mostra
que o grupo da cirurgia apresentou melhora do domínio “capacidade funcional” após
60 dias da intervenção, apesar de contribuir com o pior escore desse domínio na alta hospitalar. O grupo da angioplastia também mostrou melhora após 60 dias do procedimento.
No domínio “aspectos físicos”, apenas o grupo da angioplastia apresentou
melhora. Talvez isso esteja relacionado com o prazo de avaliação após o procedimento, que foi de 60 dias, quando ainda podem não ter desaparecido totalmente a insegurança e comprometimento físico consequente à agressão do procedimento cirúrgico, pode-se também especular sobre a maior gravidade da DAC do grupo submetido à cirurgia, mas o presente estudo não possui dados que confirmem essa suposição.
Em relação ao domínio “dor”, o estudo mostrou que os dois grupos
obtiveram melhora 60 dias após a intervenção. No entanto, o grupo submetido à cirurgia de revascularização miocárdica teve piora da dor na alta hospitalar. A dor é evento frequente no pós-operatório da revascularização do miocárdio e sua ocorrência está relacionada a fatores inerentes ao procedimento cirúrgico e ao paciente (BAUMGARTEN et al., 2009; COUCEIRO, et al., 2009). Os fatores que influenciam a dor podem ser: incisão cirúrgica, retração e dissecção tecidual durante o procedimento cirúrgico, múltiplas canulações intravenosas, drenos torácicos e procedimentos invasivos a que esses pacientes são submetidos (MUELLER, et al., 2000).O quadro álgico interfere na evolução do pós-operatório, na medida em que o paciente evita executar diferentes atividades. Com dor o paciente reduz a movimentação, evita respiração profunda e interrompe o sono, provocando desgaste físico e menor motivação para o tratamento (LICHTENBERG, et al. 2000).
Os pacientes estudados, de ambos os grupos, relataram uma melhor percepção da saúde após a intervenção – houve aumento do domínio “estado geral da saúde”. Também foi encontrada uma melhor percepção na questão da avaliação da saúde anterior, pois eles acreditavam ter melhor saúde naquele momento do que há um ano.
No componente mental do SF-36, este estudo demonstrou que houve melhora da vitalidade e da saúde mental 60 dias após o procedimento em ambos os
Discussão –
76grupos. Os pacientes se sentiam com mais energia para realizar suas atividades, com menos depressão, ansiedade ou descontrole emocional e com melhor bem estar psicológico do que antes do procedimento.
Este estudo mostrou que os pacientes, quanto mais idosos, melhor se
sentiam em relação aos domínios “aspectos emocionais” e “saúde mental”. O
envelhecimento e a maturidade para os indivíduos estudados supostamente geraram menos limitações decorrentes de dificuldades e descontroles emocionais, ansiedade e depressão, havendo maior bem estar psicológico. O estudo de Góis et al. (2009) corrobora com esse achado, já que foi observada correlação moderada entre idade e o domínio “saúde mental”, ou seja, pacientes mais idosos apresentaram menos sintomas de nervosismo, depressão e desânimo, percebendo- se mais tranquilos e felizes.
Também foi encontrada correlação entre maior IMC e dificuldades emocionais que limitavam o trabalho e as atividades diárias. Alguns autores sugerem que, além da gravidade da DAC, a associação de comorbidades como a obesidade, poderia representar uma agravante no declínio da qualidade de vida (LEGRAND et al., 2004).