Em trabalhos posteriores conduzidos no quadro do modelo modular, a proposta de Roulet (1991) para o tratamento da heterogeneidade composicional foi alvo de reformulações. Nesses trabalhos (FILLIETTAZ, 1999; FILLIETTAZ; GROBET, 1999), discute-se a pertinência de três pontos centrais da proposta de Roulet:
• As marcas linguísticas são critérios adequados para a definição das sequências discursivas.
66 • As sequências discursivas são estanques em relação ao contexto (ao gênero do
discurso).
Sobre o primeiro ponto, Filliettaz e Grobet (1999) observam que utilizar as marcas linguísticas como critério para a definição das sequências discursivas é pressupor que essas marcas se encontram em todos os discursos e que seu emprego não varia com as diferenças culturais e com o passar do tempo. Mas, como apontam os autores, inúmeros trabalhos dedicados ao estudo da língua em uso mostram que o emprego das marcas linguísticas é sensível ao contexto de produção dos discursos. Por exemplo, sequências narrativas produzidas em situação de comunicação oral e com reciprocidade entre os interlocutores podem apresentar de forma recorrente verbos flexionados no presente e no passado composto, tempos que seriam típicos apenas das sequências deliberativas.
Além disso, segundo Filliettaz (1999), Roulet exclui as sequências descritivas de sua tipologia, por considerar que a extrema diversidade da marcação linguística das descrições impede o estabelecimento de um tipo de sequências descritivas com base em marcas aspecto-temporais. Entretanto, Filliettaz, recorrendo aos trabalhos de Adam (1987, 1992), sustenta que as sequências descritivas têm como característica comum a atualização de uma organização referencial particular que torna justificável a existência de um tipo descritivo.
Porque a marcação linguística sofre o impacto do contexto de produção dos discursos e impede a caracterização de tipos sequenciais bem descritos em outras abordagens, Filliettaz (1999) e Filliettaz e Grobet (1999) propõem, então, que o estudo da heterogeneidade composicional no modelo modular abandone essa marcação como o critério único ou principal para se elaborar uma tipologia de sequências.
Quanto ao tratamento do diálogo como tipo de sequência discursiva, Filliettaz e Grobet (1999) questionam a pertinência desse tipo, com base em problemas colocados pelo estudo do diálogo representado. Segundo os autores (1999, p. 233),
diferentemente de uma sequência deliberativa encaixada numa sequência narrativa, um diálogo romanesco é estreitamente articulado à sequência narrativa encaixante pela noção de atividade de enunciação, que (...) pode ser explicitada por meio de verbos de atividade linguageira.
Dada essa estreita articulação do diálogo representado na sequência narrativa que o subsume, os autores observam que “o diálogo romanesco não possui estrutura dialógica
67 intrínseca” (FILLIETTAZ; GROBET, 1999, p. 234). Por esse motivo, rejeitam a hipótese defendida por Roulet, segundo a qual o diálogo representado se caracterizaria por uma estrutura, ao mesmo tempo, dialógica (descrevendo as relações ilocutórias entre as réplicas da troca) e monológica (descrevendo as relações interativas entre os verbos de ação linguageira ou verbos de fala).
Para Filliettaz e Grobet (1999, p. 235), “só o diálogo independente, que depende de uma interação efetiva, se caracteriza por uma estrutura de troca”. O diálogo representado constitui “um caso particular de sequência narrativa (narração de ações linguageiras)” (1999, p. 234), tendo em vista a sua natureza fundamentalmente monológica e as relações temporais e/ou causais existentes entre os eventuais verbos de fala28.
Quanto às vozes dos diferentes personagens implicados no diálogo representado, Filliettaz e Grobet (1999) propõem que sejam tratadas na forma de organização polifônica, cujo objetivo maior é analisar as formas e as funções das vozes das instâncias enunciativas mobilizadas no discurso (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001).
Como consequência da discussão levantada, Filliettaz e Grobet defendem que a noção problemática de “sequência dialógica” seja descartada do estudo da heterogeneidade composicional, porque, de um lado, os diálogos representados são realizados por uma estrutura de intervenção e constituem narrativas de ações linguageiras e porque, de outro, os diálogos efetivos são realizados por uma estrutura de troca e, por isso, podem ser tratados no módulo hierárquico.
O terceiro e último ponto da proposta de Roulet (1991) examinada por Filliettaz e Grobet (1999) diz respeito à presumida estanqueidade das sequências discursivas em relação ao contexto ou gênero do discurso29. Na proposta de Roulet, a noção de gêneros
do discurso é descartada do estudo da heterogeneidade composicional, por se considerar
que o estudo das regularidades transfrásticas poderia ser realizado independentemente
28 A mesma posição é assumida por Kuyumcuyan (1999, p. 378): “A inserção de um diálogo num
discurso monológico modifica (...) a natureza das relações entre os atos discursivos, que passam da ordem ilocutória que é a sua no texto dialógico para as relações interativas características de uma estrutura de intervenção”.
29 Em Filliettaz e Grobet (1999) e Filliettaz (1999), não se estabelece uma distinção nítida entre as noções
68 do contexto de produção dos discursos30. Nessa proposta, apenas as influências cotextuais são objeto de um tratamento explícito, por meio do estudo dos processos de coordenação e de subordinação intersequenciais.
Porém, Filliettaz e Grobet (1999, p. 231) defendem que os gêneros constituem “um aspecto incontornável do estudo da heterogeneidade discursiva” e apresentam alguns argumentos em favor dessa posição. Em primeiro lugar, o gênero influencia a seleção dos tipos de sequências que serão dominantes em uma produção discursiva. Enquanto as sequências deliberativas predominam num artigo científico, as sequências narrativas predominam nos contos populares.
Em segundo lugar, o gênero tem influência sobre a organização interna das sequências. As sequências narrativas produzidas em conversações espontâneas não costumam apresentar as propriedades características das sequências narrativas produzidas em fábulas, como, por exemplo, a sucessão cronológica de eventos.
Em terceiro lugar, o gênero permite caracterizar a finalidade externa ou interna das sequências. Na conversação familiar, as sequências narrativas costumam apresentar uma finalidade interna, porque têm como função única ou principal reforçar ou ampliar os laços sociais. Já nas transações comerciais, as sequências narrativas costumam exibir uma finalidade externa, já que são rotineiramente empregadas com a função de justificar a própria transação comercial, como, por exemplo, a compra de um livro (FILLIETTAZ, 1999, 2001).
Por essas razões, Filliettaz e Grobet (1999) defendem uma abordagem menos estanque das sequências discursivas, que, além das influências cotextuais, investigue ainda as relações entre os gêneros do discurso e as propriedades formais e funcionais das sequências.
A discussão das três questões levantadas pelo exame da proposta de Roulet (1991) foi o ponto de partida para a proposição de outra versão do estudo da heterogeneidade composicional no modelo modular. Como será mostrado no próximo item, essa versão é, ao mesmo tempo, próxima da versão anterior, por manter alguns de seus postulados, e distante dela, por buscar soluções para os problemas discutidos acima.
69 2.3 Versão atual do estudo da heterogeneidade composicional no modelo modular
Em Filliettaz (1999), Roulet (1999b) e Roulet, Filliettaz e Grobet (2001), o estudo da heterogeneidade composicional passa a ser feito no interior de duas formas de organização: a sequencial e a composicional. A distinção do estudo em duas formas de organização se explica pelas dificuldades que poderia trazer para esse estudo a consideração simultânea de todas as informações linguísticas, textuais e situacionais implicadas na heterogeneidade composicional. Com a abordagem modular, torna-se possível, então, a adoção de uma metodologia de análise cumulativa, que possibilita recompor em diferentes etapas a complexidade da heterogeneidade composicional do discurso. Na continuação deste item, será feita a descrição de cada uma dessas etapas. Inicialmente, descreve-se a forma de organização elementar sequencial. Em seguida, descreve-se a forma de organização complexa composicional.