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Interessa-nos, de modo particular, o conceito de gestão democrática da educação, em virtude de constituir o campo de aprofundamento desta pesquisa. Sob a óptica da gestão democrática, especialmente no caso da educação, faz-se importante uma reflexão acerca do processo de democratização, participação e também da representatividade que essa gestão tem frente aos diversos órgãos públicos e sua autonomia, algo que envolve discussões sobre cidadania.

A democracia, em linhas gerais, pode ser entendida como uma maneira de exercer o poder político para governar. Para Bobbio (1995), democracia é o tipo de governo em que o povo exerce o poder político. O autor ainda ressalta que desde a Antiguidade, existiram discussões sobre a democracia, tanto para defendê-la quanto para refutá-la.

Apesar de concordar com a democracia, Platão temia que a mesma pudesse resultar em um governo de pobres contra ricos e que a liberdade fosse confundida com permissividade.

Rousseau (1999) é considerado o pai da democracia moderna, apesar de manifestar sua descrença no sistema representativo, defendia uma democracia direta, onde todo o povo, sem mediadores ou representantes, pudesse participar do processo. Como sabemos, nos tempos atuais não nos oferecem tais moldes democráticos, no entanto temos a possibilidade da democracia representativa, no modelo, “cada um, unindo-se a todos, só obedece a si mesmo, permanecendo assim tão livre quanto antes” (ROUSSEAU, 1999, p. 69).

A afirmação de Rousseau demonstra o poder da coletividade e a vontade geral como a única capaz de dirigir as forças do Estado na direção do bem comum:

Só a vontade geral pode dirigir as forças do Estado de acordo com a finalidade de sua instituição, que é o bem comum [...]. O que existe de comum nesses vários interesses forma o liame social e, se não houvesse um ponto em que todos os interesses concordassem, nenhuma sociedade poderia existir. Ora, somente com base nesse interesse comum é que a sociedade deve ser governada (ROUSSEAU, 1999, p. 85).

Assim, em um governo democrático em que há representação popular, o poder, mesmo que indiretamente, está repartido com a sociedade. Tendo em vista não podermos vivenciar a democracia direta, fazemos uso de instâncias de representação combinando diversos mecanismos de democracia direta com mecanismos de democracia representativa, como uma forma de soberania popular.

Esta soberania, segundo Tocqueville, e suas preocupações em conciliar democracia e liberdade, considera que “acima de todas as instituições, e para além de todas as formas, existe um poder soberano, o povo, que as destrói ou as modifica a seu grado” (Tocqueville, 1977, p. 17).

Nesta perspectiva, fica evidente a importância e o papel do povo na construção e na manutenção da democracia. A esta época, o povo norte-americano já nomeava seus representantes e direcionava os caminhos a serem trilhados pela sociedade. Ainda de acordo com Tocqueville (1977, p. 95):

a democracia não dá ao povo um governo mais hábil, mas é capaz de fazer aquilo que o mais hábil governo é incapaz de realizar; espalha em todo o corpo social uma atividade febril, uma força superabundante, uma energia que não pode existir sem ela, e basta que circunstâncias lhe sejam um pouco mais favoráveis para criar verdadeiras maravilhas (TOCQUEVILLE, 1977, p. 95).

Deve-se, portanto, levar em consideração o caráter educativo que o exercício destas funções em órgãos públicos e organizações populares pode propiciar. Para Bobbio (1995), a democracia avança quando se garante e se efetiva a participação, pois o povo dificilmente abusaria do poder adquirido, na medida em que seria ele mesmo a sofrer as conseqüências deste ato.

Em se tratando da gestão democrática na área educacional, o mesmo tem sido tema de debates, reflexões e propostas. Inicialmente ela é constituída por um princípio constitucionalmente posto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 9.394/96). A gestão se reporta a um ou mais interlocutores que dialogam na busca por respostas ou possíveis caminhos que possam auxiliar na condução da educação e solução dos conflitos.

Sob esse olhar, a gestão democrática se apresenta como um novo modo de administrar uma realidade social por meio da comunicação e do envolvimento coletivo, afastando do campo educacional a presença de ações autoritárias com o surgimento de uma nova era constitucional no ano de 1988:

Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: VI - gestão democrática do ensino público, na forma da lei.

A inserção desse princípio se justifica tanto por ser um direito inerente do cidadão quanto um dever do Estado. Na LDB, há um reforço ao que fora colocado na Constituição:

Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

VIII - gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino;

Ela também está presente nas metas da Lei nº 10.127, de 9 de janeiro de 2001, que constitui o antigo PNE – Plano Nacional de Educação:

Meta 22: Definir, em cada sistema de ensino, normas de gestão democrática do ensino público, com a participação da comunidade.

A gestão democrática é um princípio do regime democrático do Estado que está inserido nas políticas de educação com a finalidade de construir uma nova consciência e, ao mesmo tempo, uma autonomia dos indivíduos que compõem a comunidade escolar.

A gestão democrática conduz, portanto, à necessidade da cultura de participação, da coletividade, da ação colegiada para a concretização das ações que

atendam o bem comum. No Brasil, tanto a Constituição Federal quanto a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, determinam a participação de pais para a efetivação do processo da gestão democrática.

Assim, a gestão democrática da escola deve ser responsabilidade conjunta não exclusivamente de uma pessoa, mas de uma equipe gestora, que envolva Direção, Coordenadores, Professores, Funcionários e, principalmente, representantes dos diversos segmentos sociais. Barroso (1996) destaca que “a autonomia da escola não é autonomia dos professores, ou a autonomia dos pais, ou a autonomia dos gestores”. A autonomia, neste caso, é o resultado do equilíbrio de forças.

Ainda na LDB, o seu Artigo 14 explicita a Gestão Democrática na escola pública, deixando claro que esta deve condicionar à melhoria e eficiência da qualidade do sistema educacional, aliando a proposta de ensino às necessidades do aluno. Em uma pratica pedagógica, capaz de educar o aluno conduzindo-o a reflexão, a saber, e saber fazer de forma crítica, consciente e participativa.

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