Interessa-me, aqui, discorrer sobre a noção de estilo no bojo do pensamento bakhtiniano. Ao desenvolver suas ideias acerca do tema, Bakhtin dialogou, fortemente, com as correntes tradicionais da estilística, desenvolvidas, principalmente, pelos linguistas europeus Charles Bally e Karl Vossler, ainda nas primeiras décadas do século XX. Cumpre registrar que até o final do século XIX não havia uma concepção de estilística como campo de
investigação autônomo, ou seja, é com esses últimos dois estudiosos que a estilística ganha o status de disciplina independente. Bally e Vossler são considerados, portanto, os fundadores da estilística moderna.
Mormente a importância histórica da aludida paternidade, não interessam, propriamente, as discussões travadas entre Bakhtin e a dupla Bally e Vossler, em que o primeiro se contrapôs às ideias dos segundos, propondo uma nova maneira de enxergar a estilística, que batizou de sociológica. Se, num passado, elas foram importantes, aqui, opto por partir das já assentadas ideias bakhtinianas acerca do estilo e da estilística, algo que considero mais producente frente aos desafios postos nesta dissertação, o que não significa dizer que, eventualmente, não sejam evocados resquícios das aludidas discussões.
Inicialmente, urge dizer que não é tão simples estabelecer um conceito de estilo ou de estilística sociológica, na perspectiva dos estudos bakhtinianos. Como todos os conceitos propostos pelo filósofo e seus congêneres, esse é mais um que se encontra diluído nas suas obras, de sorte que, para se chegar a algo concreto, é preciso um esforço de interpretação sistemática, empreendimento que pretendo, aqui, materializar.
Levando-se em conta as bases sobre as quais se assentam os pensamentos de Bally e Vossler3, no âmbito da corrente da estilística tradicional, o estilo é considerado, geralmente, uma questão de idiossincrasia, de expressividade particularizada, o que aponta para uma íntima relação entre estilo, personalidade, afetividade e individualidade. Em outras palavras, a discussão gira em torno do mesmo cerne – “as harmônicas individuais e orientadoras do estilo, ignorando-se o seu tom social básico” (BAKHTIN, 2010b, p. 71).
Partindo dessa nuance, Bakhtin (2010b), com base em estudos sobre corpora literários, lança as bases da sua estilística sociológica. Na esteira dessa concepção, o estilo é pensado de modo bem mais abrangente, considerando-se não somente os aspectos composicionais do texto, mas também (e principalmente) as inter-relações, dentro de uma escala avaliativa, entre autor, herói e ouvinte da enunciação, numa perspectiva multidimensional (ou pelo menos, tridimensional – autor, herói e destinatário). Nessa perspectiva, grosso modo, importa considerar que a construção do estilo, em determinada obra e por determinado autor, não é simplesmente uma questão isolada de escolhas individuais,
3 Para Vossler e Bally (apud ARAÚJO, 2001), a noção de estilo é pensada tão-somente como particularidade e
recorrência, ou seja, a caracterização estilística de um autor reside na forma como sua linguagem se diferencia da dos demais autores e como tal atitude se torna recorrente em sua obra.
mas está ligada, intrinsecamente, à vida social do discurso, às relações dialógicas que o discurso do referido autor estabelece com outros discursos (seus e de autores outros).
Bakhtin (2010b), em sua famosa discussão sobre a teoria do romance, vai dizer que a estilística tradicional não é capaz de dar conta do estilo nesse gênero literário, uma vez que parte de uma concepção de língua e linguagem abstratas, desprovidas de uma abordagem filosófica e sociológica. Na visão desse autor, “a própria concepção de discurso poético, que se encontrava em sua base, eram inaplicáveis ao discurso romanesco” (BAKHTIN, 2010b, p. 73). Isso porque a prosa romanesca é entendida, essencialmente, como uma realidade pluridiscursiva, plurivocal e plurilinguística, ao passo que a estilística tradicional só conhece o discurso monologizante, monovocal.
É com base nessa inconsistência teórica, portanto, que Bakhtin concebe sua forma de pensar o estilo, para além daquela de vertente saussuriana, segundo a qual a compreensão do fenômeno passa, exclusiva e necessariamente, pela noção de individualização da língua geral. De forma muito elucidativa, Bakhtin (2010b, p. 76) dirá que “a verdadeira premissa da prosa romanesca está na estratificação interna da linguagem, na sua diversidade social de linguagens e na divergência de vozes sociais que ela encerra”. Por esses motivos, a insuficiência da estilística tradicional em dar conta do fenômeno romanesco, uma vez que fora forjada no curso das tendências centralizadoras da vida linguística, ignorando o evidente plurilinguismo da vida.
Para essa concepção sociológica de estilística, o estilo é necessariamente dialogizado. Ora, a obra literária (seja ela romanesca ou não) concebida como um enunciado concreto, como a materialização de um discurso, que, por sua vez, já é constitutivamente dialogizado, não pode ser estudada senão a partir de uma concepção que a tome como um todo orgânico, em que se considerem os aspectos filosóficos e sociológicos de sua criação, ou seja, seu tom social básico e não, simplesmente, suas “harmônicas individuais”, sua forma composicional, sua individualização puramente.
Confrontando aqueles que disseram que a pluridiscursividade do romance retira- lhe o caráter literário, Bakhtin diz que:
A orientação do discurso por entre enunciações e linguagens alheias e todos os fenômenos e possibilidades específicas ligadas a esta orientação, recebem, no estilo romanesco, uma significação literária. A pluridiscursividade e a dissonância
penetram no romance e organizam-se nele em um sistema literário harmonioso. Nisto reside a particularidade específica do gênero romanesco. (BAKHTIN, 2010b, p. 105 – 106).
Ainda segundo esse autor, “a única estilística adequada para esta particularidade do gênero romanesco é a estilística sociológica” (BAKHTIN, 2010b, p. 106). Nesse sentido, a estrutura estilística do romance, sua forma e seu conteúdo são todos determinados pelo contexto social concreto, sendo que tal determinação não ocorre a partir de fora, mas sim de dentro, pois o diálogo social ressoa no próprio discurso e em todos os seus elementos, sejam eles de “forma” ou de “conteúdo”. Introduzidos no romance, o plurilinguismo e o diálogo chegam a profundidades moleculares e todas as palavras e formas que povoam a linguagem são vozes sociais e históricas organizadas no romance em um “sistema estilístico harmonioso”, o qual expressa “a posição sócio-ideológica diferenciada do autor no seio dos diferentes discursos de sua época” (BAKHTIN, 2010b, p. 106).
Trazendo-se a discussão, especificamente, para a seara da prosa romanesca, pode- se afirmar que o estilo está, intimamente, ligado ao modo como o autor, em sua obra, gerencia as diversas vozes sociais ali presentes. Para além disso, está, intrinsecamente, ligado à própria evocação de vozes, promovida pelo autor, e, ainda, ao tratamento que é dado, na obra, por esse mesmo autor, a essas diversas vozes presentes. Como dito por Bakhtin (2010b), a obra romanesca é, por excelência, pluridiscursiva. Nesse sentido, algum acabamento precisa ser dado às tantas vozes que ali dialogam e se embatem. Cumpre ao criador da obra imprimir seu tom, dar esse acabamento, de modo que, nisso, possa-se vislumbrar algo como estilo na perspectiva sociológica. Estilo, muito mais que uma questão de idiossincrasia, é, portanto, uma posição sócio-ideológica assumida pelo criador do enunciado concreto, na qual ele reflete e refrata suas particularidades, mas sem olvidar da natureza social de suas escolhas. É, assim, a partir dessas ponderações e sob essa perspectiva, que se forjam as noções de estilo e estilística no interior do pensamento bakhtiniano.
3.5 RELAÇÕES DIALÓGICAS E DISCURSO BIVOCAL: UM ASSUNTO PARA A