BÖLÜM 2: ŞEHZADE ÖLÜMLERİ
2.2. Katledilen Şehzadeler
2.2.10. Şehzade Bayezid
Ao tratar da questão da dicotomia teoria/prática, Coracini (1998) analisa algumas conseqüências desse processo histórico de constituição das relações de poder-saber que perpassam os conflitos gerados pela emergência de um novo paradigma nos estudos de linguagem:
Nos estudos da ciência lingüística, a oposição teoria vs prática se confunde com a oposição pesquisa básica vs pesquisa aplicada, a primeira superior à segunda por lhe ser imputado caráter científico, e, portanto, neutro e objetivo. [...] É importante lembrar que, em nome dessa mesma oposição - teoria vs. prática ou pesquisa básica vs. pesquisa aplicada - a Lingüística Aplicada tem sido vista como a aplicação de teorias lingüísticas desenvolvidas por eminentes lingüistas que, a partir das análises e descrições, fornecem matéria-prima para pedagogos, lingüistas aplicados, professores, a quem, afinal, é atribuída tarefa secundária e, portanto, de menor prestígio. [...] É ainda em nome dessa mesma dicotomia que se tem presenciado, no meio acadêmico, uma certa crítica ao caráter reducionista da aplicação de uma teoria lingüística à sala de aula ou até mesmo à tradução. Fica evidente que a relação entre Lingüística "pura" e Lingüística Aplicada (portanto, "impura") é uma relação de mão única: não cabe a esta, secundária, subordinada à primeira, de quem é o suplemento imperfeito, a reprodução, teorizar e influir sobre aquela, o que deixa, evidentemente, emergir uma certa tendência ideológica. (CORACINI, 1998).
Tendo em vista essas considerações, podemos compreender um dos efeitos político-ideológicos presentes nas condições de produção do discurso fundador da LA: a exaltação da teoria em relação à prática. Esse efeito ideológico remete a um espaço de regularidades de sentidos que, por sua vez, regem os processos de constituição das áreas do conhecimento. Esse espaço mais ou menos estável de produção e reprodução de enunciados constitui a formação discursiva da cientificidade, que
coloca a ciência e o discurso científico fora (ou acima) de qualquer contexto social, argumentando que a garantia do conhecimento está exatamente aí, no fato de o conhecimento estar fora ou à parte do objeto a ser conhecido e, principalmente, fora do sujeito cognoscente, fora de toda atividade que leva ao conhecimento [...]. É isso que garante à ciência um caráter objetivo e, como decorrência, lhe confere confiabilidade inquestionável. (CORACINI, 2003a, p. 320)
Essa “confiabilidade inquestionável” foi conquistada pela Lingüística Teórica porque esta se ajustou ao modelo científico, o que lhe garantiu a objetividade legitimadora e, ao mesmo tempo, sacrificou seu papel social e político. Lembramos que a divisão langue/parole (formalismo/sociologismo) proposta por Saussure é evocada por Pêcheux (cf. MALDIDIER, 1990/2003; PÊCHEUX; GADET, 1981/2004) como um corte que marcou de modo irreversível a fundação da Lingüística como ciência, por meio da qual a língua transformou-se em um objeto de estudo: uma língua lógica, uma língua passível de observação científica, interpretada como um sistema de signos. A exclusão do sujeito desse objeto de estudo13 fez com que a
“fala [se tornasse] o outro da língua” (PÊCHEUX; GADET, 1981/2004, p. 56), instaurando uma nova relação entre a língua e o sentido, por um lado, e entre a língua e a sociedade, por outro, e apagando os equívocos, as falhas, os conflitos, as relações de poder e a historicidade – elementos constitutivos do funcionamento da linguagem.
13 Ao falarmos em “exclusão do sujeito” não nos referimos aqui apenas ao sentido de “ausência do
sujeito”, mas também à construção do “sujeito ideal” nos estudos lingüísticos, como argumenta Rajagopalan: “Quando dizemos que a lingüística carrega ainda hoje vestígios claros de suas origens no século XIX, aludimos ao fato (entre outros) de que a linguagem é – com raras exceções – pensada, tendo como fulcro um indivíduo auto-suficiente e completo em si. É o caso, por exemplo, do falante-ouvinte ideal da concepção chomskiana. Na figura do falante-ouvinte ideal, Chomsky consegue a proeza de fundir num só personagem as duas ‘cabeças falantes’ de Saussure. Não lhe falta nada. O fato de pertencer a uma sociedade, a uma comunidade de fala, é tratado como simplesmente um detalhe, um fato contingente.” (RAJAGOPALAN, 2006, p. 157)
Sendo classificada como uma “subárea da Lingüística”, a LA foi afetada por esse mesmo processo de cientificização. Seus esforços para se estabelecer como área do conhecimento resultaram numa adequação ao discurso da cientificidade, o que trouxe conseqüências sociais importantes para a manutenção desse regime de verdade, como aponta Pennycook:
[A] Lingüística Aplicada parece ter mantido, de forma descompromissada, sua fé na objetividade, nos modelos e nos métodos, no positivismo e na concepção apolítica e a-histórica de linguagem, na divisão clara entre sujeito e objeto, no pensamento e na experiência como sendo anteriores à linguagem, e na aplicabilidade das suas teorias para o resto do mundo. (PENNYCOOK, 1998, p. 39).
Seguindo os passos da “disciplina-mãe” (RAJAGOPALAN, 2003, p. 79) rumo ao prestígio e à legitimidade oferecidos pela cientificidade, a LA filiou-se ao discurso positivista, relegando as questões sociais, políticas e históricas a segundo plano. Portanto, temos na LA uma busca constante pela homogeneização, gerando o apagamento/silenciamento de conflitos e contradições inerentes às práticas discursivas nas quais os sujeitos sociais estão engajados.
Voltemos à questão da dicotomia “teoria/prática” que julgamos ser o fio condutor desse eterno retorno da LA aos braços da ciência e da Lingüística. Concordamos com Coracini, que critica a atitude dos lingüistas aplicados nas duas principais acepções da área:
[...] a lingüística aplicada, tanto na acepção de aplicação de teorias
lingüísticas quanto de ciência autônoma, marcada pela
transdisciplinaridade, trabalha com a dicotomia teoria/prática, embora de modos diferentes; a primeira, de forma explícita: em posição secundária com relação aos lingüistas, os lingüistas aplicados estudam os modos de aplicação dessa mesma teoria; e a segunda, de forma camuflada: os lingüistas aplicados buscam transitar livremente de uma a outra. Em ambos os casos, o professor constitui um intermediário (por vezes, mero "aplicador") entre as reflexões teóricas dos pesquisadores e os alunos, em quem recaem as "soluções" encontradas ou as ditas inovações pedagógicas. (CORACINI, 1998).
Ressaltamos a questão levantada por Coracini sobre o papel dado aos sujeitos envolvidos nas pesquisas: os professores são concebidos como “aplicadores” e os alunos, como “receptores” das “descobertas” ou das “soluções”.
Resta-nos refletir sobre as conseqüências dessas concepções para esses sujeitos e problematizar a determinação de certas posições para serem assumidas nos contextos de ensino e aprendizagem.
Poderíamos constatar que há uma tendência da LA para levantar e observar as questões sociais – na maioria das vezes tomando pontos de vista de outras áreas do conhecimento –, mas não para compreendê-las em suas complexas relações com as condições históricas, políticas e ideológicas que fazem parte dos processos de constituição dos sujeitos sociais.
Finalizamos nosso argumento evocando as palavras de Coracini, que fala sobre o discurso da homogeneização que predomina nos estudos da LA, a despeito de suas tendências humanistas:
Apesar de lingüistas aplicados declararem explicitamente preocupações com a diversidade, predomina, em ambos os discursos [da lingüística aplicada e da sala de aula], a homogeneidade, a unicidade, como forma de camuflar a heterogeneidade constitutiva de todo discurso, enquanto manifestação de relações de poder. (CORACINI, 1997a, p. 39).
Acreditamos que essas considerações possam contribuir para a proposta deste capítulo se pensarmos as relações entre as concepções de língua e de sujeito presentes nas teorias/metodologias a serem estudadas na seção 1.214 e o espaço
do interdiscurso ideologicamente delineado pelos processos históricos envolvidos no estabelecimento da LA como área do conhecimento.
Pensando especificamente na questão que nos instiga nesta pesquisa, podemos refletir sobre as conseqüências desse apagamento de conflitos pelo discurso da LA no que tange ao tratamento dado ao “erro” nos processos de aprendizagem de LE. A homogeneização caracterizou, por muito tempo, a interpretação dos “erros” cometidos pelos sujeitos-aprendizes, nivelando-os a aspectos formais da língua, tais como a gramática normativa, a sintaxe e o léxico.
Desse modo, criou-se uma tradição de identificação e correção de “erros” sem levar em conta a natureza desses “erros”, nem as especificidades de contextos sociais em que os sujeitos-aprendizes se encontram. Embora muitos estudos na área de LA (principalmente a partir da década de 70) tenham priorizado um estudo mais detalhado da ocorrência de “erros” no processo de aprendizagem de LE, ainda
ecoa, no dizer dos sujeitos-professores, uma concepção nivelada de “erro”, ou seja, o significante “erro” evoca sentidos que remetem a um lugar de constrangimento e de não-aprendizagem, devendo, portanto, ser invariavelmente corrigido e, sempre que possível, evitado.
Assim, acreditamos que esse complexo espaço de memória nos ajudará a compreender como o discurso de cientificização da LA ecoa no dizer dos sujeitos- professores e de que modo sua relação com a língua e com o ensino é afetada pela história e pelas ideologias desse funcionamento discursivo.
1.1.2 Discursos de divulgação científica e ressignificação de conceitos da LA