• Sonuç bulunamadı

Şarta Bağlı Sermaye Artırımının Uygulanması

2.2. Paya Dönüştürülebilir Tahvillerin İtfası

3.1.1. Şarta Bağlı Sermaye Artırımı Suretiyle

3.1.1.2. TTK’ya Göre Şarta Bağlı Sermaye Artırımı

3.1.1.2.4. Şarta Bağlı Sermaye Artırımının Uygulanması

Nessa seção nos ocuparemos da figura de René Descartes, alertando de antemão o leitor de que uma compreensão mínima de seu pensamento se faz necessária para introduzirmos os pontos da teoria lacaniana convenientes ao respectivo manejo que ele, Lacan, faz dos teoremas de incompletude de Gödel. Uma questão estará em destaque: o Cogito.

René Descartes, filósofo do século XVII, introduziu a partir de suas Meditações Metafísicas os traços característicos do sujeito moderno. Em suas reflexões, Descartes se propõe lançar novos fundamentos ao pensamento de sua época já que, segundo ele, a estrutura do conhecimento de base aristotélica deveria ser revista. Seu ponto inicial é averiguar que o conhecimento sensível não pode ser a base para a certeza no saber de alguma coisa. Ele diria que os sentidos são enganosos e que o homem não possui, assim, uma ancoragem segura em que possa basear seu entendimento sobre

99 o mundo. O ser humano não teria a garantia de que o que conhece é, de fato, verdadeiro ou falso, pois, em último caso, os sentidos são enganosos.

Se não se pode basear a verdade neles, nos sentidos, então em que solo devemos nos apoiar? Para responder essa pergunta, Descartes abre mão de todas as suas certezas num processo sistemático que receberá o nome de dúvida metódica. Num primeiro momento, todo conhecimento baseado nos sentidos será posto em xeque, ou seja, desacreditado – assim alguém com um cesto cheio de frutas, tendo motivos para acreditar que algumas estão estragadas, não sabendo quais, com certa sabedoria, joga fora a todas 201. Num segundo momento, Descartes se questionará sobre a validade dos conhecimentos que, de certa forma, prescindem dos sentidos. Os conhecimentos matemáticos, e mesmo os lógicos, poderiam também apresentar um problema: por mais convincentes que estes sejam, ainda seria possível na mente do filósofo que existisse uma força maior que tudo já conhecido, e que atuasse de maneira perversa a fim de que sempre que alguma dessas operações fosse realizada, ele se utilizasse de sua onipotência para induzi-lo ao erro. Ele chamou essa entidade imaginária de Gênio Maligno. É neste grau de dúvida, que põe em descrédito as possibilidades de conhecimento, que devemos chamar de hiperbólica, que Descartes encontrará uma rocha de certeza no qual apoiará a estrutura daquilo cujo conhecimento para ele é seguro. É que no ato mesmo de duvidar de todas as coisas, de se desprender das certezas, de pensar sobre suas falhas, aquele que duvida tem certeza de algo, a saber, que existe. Portanto, por mais que esse personagem malévolo influenciador do erro exista e atue sobre a mente da pessoa, ainda assim, o fato de que alguém pensa, erroneamente ou não, é inegável. E se pensa, alguém que pensa existe. Descartes enunciou esta sentença chave com os seguintes termos em latim: Cogito, ergo sum (Penso, logo sou). Esta verdade, para o filósofo, seria aquela verdade apodítica, o ponto arquimediano, conforme suas palavras, em que basearia todo o edifício do saber. A dúvida metódica o havia conduzido até o Cogito.

201 Cf.: DESCARTES, Meditações metafísicas.

100 Qual o próximo passo? O princípio que conduzira Descartes em sua busca por uma certeza confiável é aquele que elege as verdades claras e distintas como a característica ideal, ou seja, as verdades devem ser tão elementares e auto-evidentes em sua natureza a ponto de não ser possível a dúvida sem o risco de contradição, ao mesmo tempo em que possa ser separável de outras verdades de maneira que a existência autônoma delas não seja confundível. Temos dito que, no nível em que essas verdades claras e distintas também podem ser colocadas em dúvida, é através da figura de um Gênio Maligno, que induz ao erro, que as certezas sobre o mundo ainda podem estar suspensas. É neste ponto que Descartes constrói seu argumento em prol da existência de um Deus com propriedade para garantir a existência do mundo, e de que o mesmo pode ser conhecido. Seu argumento de tipo ontológico gira em torno da ideia de que Deus, como um ser de perfeição, deve necessariamente existir, e deve necessariamente possuir um caráter não- enganador, o que coloca o sujeito engendrado na filosofia cartesiana como um espírito apto a discernir corretamente as verdades no, e sobre, o mundo. Portanto, o ser pensante, que é o sujeito cartesiano, existe, e pode efetivamente ter um saber sobre o mundo ao ser redor sem que a dúvida sistemática corroa suas certezas.

Ao longo de seu ensino, Lacan fará muitos comentários sobre a filosofia cartesiana. Como já dissemos, o Cogito cartesiano nos importa aqui. Lembremos que, enquanto característica especial da ciência moderna, a apreensão do universo contingente e sem qualidades há de supor também a existência de um sujeito igualmente contingente e sem qualidades. Lacan 202 supõe que é a partir do Cogito que devemos investigar de que se trata esse sujeito. Assim, fora ele quem “propiciou (...) o que o nascimento da ciência moderna requer do pensamento” 203. O raciocínio seria que através do Cogito o sujeito moderno é inventado, e não apenas isso, mas o próprio sujeito da ciência. Ora, “(...) a física moderna elimina todas as qualidades dos existentes (...); uma teoria do sujeito que pretenda responder a tal física deverá, ela também, despojar o sujeito de toda qualidade”. É isto que o Cogito representa,

202 Cf.: LACAN, A ciência e a verdade; A instância da letra no inconsciente ou a razão desde de Freud. 203 MILNER, Op. cit., p. 32, 33.

101 que para um certo existente “não lhe convirão as marcas qualitativas da individualidade empírica, seja ela psíquica ou somática; tampouco lhe convirão as propriedades qualitativas de uma alma (...)” 204.

Atentemos para um fato de grande importância, cuja originalidade é justamente o que a teoria lacaniana pretende resgatar neste sujeito engendrado na filosofia de Descartes: “(...) não lhe convirão nem mesmo as propriedades formais que durante muito tempo havíamos imaginado constitutivas da subjetividade como tal: ele não tem nem Si, nem reflexividade, nem consciência” 205 (grifo meu). Noutras palavras, observar esta última afirmação é estabelecer algo mais que o próprio Descartes e a tradição filosófica pretenderam. Na verdade, menos do que eles pretenderam, pois “Descartes (...) não se detém aí [na enunciação do Cogito]; ele passa sem esperar, e como que apressado, à consciência e ao pensamento qualificado” 206. Nesse ponto, a psicanálise teria motivos para se refrear. Embora a provisão do filósofo lhe seja importante, é antes de um cartesianismo radical que se tem de falar – é como Milner 207 chama a postura de Lacan. Por que isso? Porque a consciência não seria a última palavra no que diz respeito à existência do sujeito, nem sua condição necessária.

O gancho para com a psicanálise deveria ser aquele inaugurado por Freud diante a Traumdeutung, o livro da Interpretação dos sonhos de 1900: “o pivô do programa de Freud reside nessa constatação, que o fato do sonho (factum somnii) parece impor: existe pensamento no sonho. Daí o raciocínio: se existe pensamento no sonho (no chiste, nos tropeços da vida cotidiana etc.) então o pensamento não é o que dele diz a tradição filosófica; principalmente, ele não é um corolário da consciência de si” 208. A existência de uma coisa inconsciente na vida anímica, que não se depreende da apercepção do Eu, que, apesar de não funcionar segundo a razão que impõe o Eu para a relação com a realidade, ainda assim é regida por uma razão própria cujos mecanismos, não redutíveis às outras ciências, a psicanálise pretende 204 Ibidem, p. 33. 205 Ibidem, p. 33. 206 Ibidem, p. 34. 207 Ibidem, p. 33. 208 Ibidem, p. 34.

102 investigar. Isso faz toda a diferença. Por conta disto, o Eu não pode ser confundido com o sujeito que a psicanálise alega existir, sujeito esse que não se constitui pela tomada de consciência de si, mas se antecipa a esse processo, e sua emergência é a mesma do inconsciente.

O freudismo, segundo Lacan, repousa sobre a tripla afirmação de que existe inconsciente, que este não é estranho ao pensar e que, portanto, ele não é estranho ao sujeito de um pensar. Se o fosse, a psicanálise seria ilegítima de direito e provavelmente impossível como prática. Com efeito, um inconsciente estranho ao sujeito que pensa é o somático, mas o somático não lida nem com a verdade nem com a palavra; ora, a psicanálise lida com a verdade e com a palavra. O inconsciente, na medida em que a psicanálise lida com ele, não é portanto estranho nem ao sujeito, nem ao pensamento. Em contrapartida, nem o sujeito nem o pensamento exigem a consciência. 209

Logo, o que será feito do Cogito cartesiano, já que segundo essa idéia haveria um passo ilegítimo? Lacan “encerra o Cogito em sua enunciação estrita e, além disso, fecha esta enunciação em si mesma, fazendo da conclusão (“logo existo”) o puro pronuntiatum da premissa (“penso”): “escrever: penso, ‘logo existo’, com aspas em torno da segunda cláusula210”” 211. Essa estratégia daria conta de não incluir a consciência de si mesmo como condição de existir: a conclusão estaria resguardada como enunciação do sujeito, e não mais como forma de inferência. Em um primeiro nível, naquele da sentença, não existiria nada mais do que uma afirmação substituível por qualquer outra, pois o agente do verbo pensar pode pensar em qualquer frase, inclusive ‘logo, existo’. Acontece que, especificamente neste caso, é possível argumentar que, prescindindo de uma auto-referência ao nível do enunciado, uma verdade é estabelecida ao nível da enunciação, ou seja, ao nível do sujeito, e não necessariamente do Eu do verbo. É possível forjar um argumento de existência, de um alguém que é responsável pelo próprio argumento, onde esteja disjunto o agente do verbo e o sujeito por trás da sentença. Perceba o leitor que a atitude de Lacan pode ser definida como uma mudança de ênfase,

209

Ibidem, p. 35.

210 Essa última frase é de Lacan e foi citada por Milner a partir de A Ciência... 211 MILNER, Op. cit., p. 34.

103 de uma perspectiva onde o pensamento como o núcleo da questão cede espaço para a linguagem como algo de importância capital na construção do raciocínio. Isso faz todo o sentido do ponto de vista de sua virada lingüística na psicanálise. O sujeito do inconsciente é um sujeito que habita a linguagem.

Com a psicanálise, eis o que se propõe: ‘afirmar que existe inconsciente equivale a afirmar que isso pensa’(...) [e] ‘se existe pensar, existe algum sujeito’ 212. Esteja claro que, se existe um pensamento que antecede o Eu, é um isso que resta, enquanto termo, para estabelecer como o sujeito do inconsciente. Estamos falando de algo que está para além do Eu e que é estranho a ele. Esse sujeito, não possuindo nem mesmo a qualidade da consciência de si, deverá, segundo Milner 213, retificar a tradição filosófica, pois “à luz de Freud, a consciência de si torna-se somente uma marca da individualidade empírica (...) 214. A psicanálise estaria apta a fazer uma distinção entre duas entidades, um isso e um Eu: “para uma, a consciência de si pode sem contradição ser suposta não ser essencial; para outra, a consciência de si não pode sem contradição ser suposta não ser essencial. Só a primeira responde exatamente às exigências da ciência (...); vamos chamá- l[a], portanto, com toda legitimidade, de sujeito da ciência” 215.

Mas isso não encerra a questão. O Deus cartesiano, enquanto garante da verdade, receberá também um lugar de privilégio no raciocínio psicanalítico de Lacan. Esse Deus, a teoria lacaniana dirá se tratar de uma estrutura simbólica que sustenta aquilo sobre o que o sujeito pode ter ou não certeza. E, como estrutura simbólica, ela pode receber outros títulos, e ainda assim permanecer a mesma. A ciência moderna desenvolverá essa estrutura de diversas maneiras após Descartes, mas o que importa para Lacan é que chegará o ponto na qual ela, também chamada de o grande Outro, estará totalmente “apagada”, por assim dizer, o que não deixa de trazer conseqüências sobre o sujeito.

212 Idem. 213 Ibidem, p. 35. 214 Idem. 215 Idem.

104