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1.3. Üniversite ve Sanayi Kavramları

1.3.1. Üniversite Kavramı

Orlando Villas Bôas Filho

É uma satisfação estar neste evento que possibilita não apenas um diálogo aberto acerca de um tema importante, mas também um encontro com uma pessoa que desperta, em todos nós, grande afeto e admiração, como é o caso do professor Tercio Sampaio Fer- raz Jr. Entre os vários aspectos importantes e originais de sua obra, a questão da análise histórica acerca da dogmática jurídica pare- ce-me muito relevante e é isso que eu gostaria de abordar hoje. Em livros como Função social da dogmática jurídica48 e Introdução ao estudo do direito,49o professor Tercio Sampaio Ferraz Jr. traça um

panorama histórico da formação da dogmática tal como entendi- da atualmente. Isso me parece muito relevante para que se possa, inclusive, definir qual dogmática nós demandamos, qual a função a ser cumprida por ela e em qual sociedade essa dogmática deve exercer essa função.

Ao analisar o panorama histórico traçado por Tercio Sampaio Ferraz Jr., me ocorreu a seguinte indagação: o autor sustenta que a dogmática foi delineada, tal como a conhecemos e internaliza- mos hoje, como saber tecnológico, no século XIX. Porém, sua análise histórica é muito mais ampla uma vez que procura indicar a interface desse saber tecnológico – que constitui um modo espe- cífico de lidar com o direito – com um saber prudencial. Assim, a análise proposta por Tercio Sampaio Ferraz Jr. fornece a possibi- lidade de encontrar continuidade em meio a descontinuidades conceituais, o que é muito relevante para pensar a possibilidade de superação de uma dogmática que, eventualmente, não esteja mais em compasso com a realidade social.

Essa questão da dimensão histórica da dogmática jurídica pode ser abordada, no âmbito da historiografia, basicamente a partir de duas perspectivas: de um lado, a chamada “Escola de Cambridge” ou “enfoque collingwoodiano” e, de outro, a “história dos conceitos” (Begriffsgeschichte)50. Trata-se de duas vertentes da historiografia que

trabalham com conceitos e, ao utilizá-las, evidentemente, estou supondo que a “dogmática jurídica” possa ser tratada como um

conceito. Adiante, tentarei mostrar, a partir do referencial teórico da historia dos conceitos elaborada por Reinhart Koselleck, em que medida isso é possível.

O enfoque collingwoodiano ou “escola de Cambridge” tem vários autores expressivos tais como James Tully, Richard Tuck e John A. G. Pocock, entretanto minha abordagem estará centrada no pen- samento de Quentin Skinner, um de seus mais expressivos representantes. No Brasil, Skinner é conhecido, não por seus estu- dos de metodologia da história mas, sobretudo, por clássicos como

Fundações do pensamento político moderno,51 Liberdade antes do libera- lismo,52 Razão e retórica na filosofia de Hobbes,53 Maquiavel54 entre

outros. Há uma série de estudos que se baseiam no pensamento político e social desse historiador, mas a obra de Skinner sobre metodologia, apresenta limitações para análise da questão que pre- tendo abordar hoje, a partir do pensamento do professor Tercio Sampaio Feraz Jr.

As análises de Quentin Skinner preocupam-se essencialmente com a questão do anacronismo, ou seja, de como evitar, na análi- se histórica do pensamento, a problemática da projeção, para o passado, de conceitos próprios da nossa época e, também, de como evitar a projeção de questões que nós imputamos como perenes, mas que, de fato, não o são, uma vez que são perpassadas pela his- toricidade. Para formular isso, Skinner se baseou na “teoria dos atos de fala” de [John Langshaw]Austin e tentou mostrar que, na aná-

lise histórica do pensamento político, é preciso tomar cuidado com o contexto no qual um determinado pensamento se formou e no qual ocorreu o seu proferimento. Segundo Skinner, isso é neces- sário porque, ao se utilizar a ideia do ato ilocucionário de [John Langshaw]Austin, a análise do mero texto só seria capaz de captar a

sua mensagem; já o conteúdo ilocucional do mesmo somente seria captado analisando-se o contexto em que se deu seu proferimen- to, pois somente a partir de tal contexto seria possível identificar a intencionalidade autoral.

Entretanto, uma história metodologicamente fundada nessa premissa, no limite, tornaria impossível, de acordo com uma série de críticos, uma análise diacrônica dos conceitos, pois, se uma ideia somente é passível de ser captada em seu próprio contexto de pro- ferimento, não seria possível captá-la diacronicamente. Isso,

evidentemente, acarreta limitações conceituais a essa perspectiva e, por essa razão, utilizarei a proposta desenvolvida por Reinhart Koselleck, no âmbito da história dos conceitos, pois, embora este partilhe com Skinner a preocupação referente aos horizontes de sentido historicamente determinados dos conceitos, procura, a partir de uma fundamentação hermenêutica, apreender a mudan- ça conceitual.

Essa opção se justifica, pois me parece que, ao fazer um pano- rama histórico da dogmática jurídica, o professor Tercio Sampaio Ferraz Jr. tentou mostrar que a compreensão do que possa vir a ser a dogmática, tal como a operacionalizamos atualmente, implica que abordemos as condensações de sentido prévias à configuração que ela toma na modernidade. Não se trata, portanto, de imaginar um conceito de dogmática que surja no vácuo histórico. Ele surge e se desenvolve, obviamente, em oposição a um pensar preexistente, mas não surgiria sem esse modo de pensar preexistente.

Considero um dado importante, em relação à contribuição da análise do professor Tercio Sampaio Ferraz Jr., a recuperação dessa premissa, das condensações de sentido, da semântica, tal como o professor [Reinhart] Koselleck aponta. Não vejo isso em outros estudos que tratam da questão da dogmática. Em geral, essas análi- ses já tomam a dogmática como um dado e não como um conceito “construído historicamente”.

Antes de abordar essa questão, pretendo fazer uma breve recons- trução das premissas com as quais trabalha a história dos conceitos e me basearei em dois pontos: o primeiro consiste na possibilida- de de tratar a ideia de dogmática com um conceito. O segundo visa mapear, no pensamento do professor Tercio Sampaio Ferraz Jr., a análise da continuidade conceitual em meio a descontinuidades que ocorrem ao longo do tempo.

No que concerne ao primeiro ponto, cabe ressaltar que [Rei- nhart] Koselleck distingue palavra e conceito, pois, segundo ele, todo e qualquer conceito é polissêmico ao passo que nem toda palavra o é. A partir dessa diferença fundamental, é possível notar que a dogmática jurídica é, em si mesma, polissêmica. Esse, tal- vez, seja um forte indício de que se trate de um conceito que tem uma história. A ideia de construto, portanto, carrega consi- go essa historicidade.

O segundo ponto baseia-se na distinção apontada por [Rei- nhart] Koselleck entre uso pragmático e uso semântico da língua. Em um primeiro momento, [Reinhart] Koselleck concordou com o Skinner e admitiu que a dimensão pragmática do uso da língua seria captada somente no contexto, exaurindo nele. Porém, se ela se exaurisse apenas no contexto, a análise seria sempre sincrôni- ca. Entretanto, para que a sincronia da dimensão pragmática da linguagem seja possível, é necessário que haja uma diacronia semântica. Em outras palavras, é preciso que haja um substrato de fundo, uma condensação de sentido. Aliás, nesse ponto, a influên- cia do [Reinhart] Koselleck sobre Niklas Luhmann é muito significativa. Nesse sentido, em razão da interlocução que o pro- fessor Tercio [Sampaio Ferraz Jr.] mantém com o pensamento de [Niklas] Luhmann, é possível afirmar que, de algum modo, essa questão se incorpora à sua reconstrução do panorama histórico da dogmática jurídica, uma vez que o mesmo parece apontar para a ideia de que nós podemos captar a semântica, ou seja, vislumbrar a continuidade em meio à descontinuidade.

O interessante na colocação do professor Tercio Sampaio Fer- raz Jr. é que a dogmática surge como um saber tecnológico e não como uma simples reverberação do saber prudencial. Assim, a dog- mática não é uma simples projeção do pensamento dogmático dos glosadores do século XIX, não é mera sistematização – que o pro- fessor alude ser própria do jusnaturalismo –, nem o formalismo que aparece a partir do século XIX. Contudo, a dogmática não seria o que é sem tudo isso. Portanto, a análise da construção con- ceitual da dogmática jurídica implica que se perceba como ela evolui historicamente como conceito no ocidente.

Há uma colocação à qual considero interessante aludir, pois expressa um paralelo entre as posições de [Reinhart] Koselleck e do professor Tercio [Sampaio Ferraz Jr.]. O primeiro, ao analisar a questão da evolução conceitual, dá como um exemplo, recorren- te em suas próprias análises, o modo pelo qual o conceito de história se alterou ao longo do tempo. [Reinhart] Koselleck – é bom lembrar que o referencial de seu pensamento é a Alemanha – mostrou que, por volta do século XIX, na passagem de 1800, teria havido uma mudança fundamental da concepção de história. A história, concebida como múltiplos relatos, e, daí, a ideia de que

seria historia magistra vitae, ou seja, uma história exemplar, trans- forma-se num conceito de história como “coletivo singular” (Kollektivsingular)55 que desembocará nas grandes filosofias da his-

tória que chegam até nós por meio de autores como [Wilhelm Von] Humboldt. O próprio historicismo, apesar das críticas, car- rega um pouco essa ideia.

Entretanto, esse conceito de história talvez tenha sido posto em xeque diante do advento de uma sociedade plural e diferenciada, marcada por uma enorme complexidade, na qual, segundo Gérard Raulet, o grand récit teria cedido lugar ao petit récit. Porém, ao ser indagado acerca a compatibilidade do conceito de história como “coletivo singular”, na atualidade, com a sociedade moderna plu- ralista e multicultural, na qual os diversos grupos passam a postular o direito de escreverem suas “histórias”, [Reinhart] Koselleck afir- mou que essa pluralização de histórias apenas reafirmaria a necessidade de um instrumento analítico tal como “história”, entendida como um “coletivo singular”. Seria o caso de verificar se isso é efetivamente factível ou não.

Tendo essa questão como premissa, cabe perguntar se, no sécu- lo XIX, também não teria havido uma mudança no âmbito da dogmática semelhante à que ocorreu com o conceito de história. Não seria possível dizer, acerca da dogmática, que a mesma teria passado de um saber articulado em condensações de sentido dife- rentes para um saber tecnológico?

Nesse sentido eu, talvez, caminhasse na direção daquilo que colocou José Rodrigo [Rodriguez]. Essa questão me parece rele- vante uma vez que a dogmática jurídica, tal como o professor Tercio [Sampaio Ferraz Jr.] a aborda em seu livro, é fundamental para a manutenção de um direito autônomo, em uma sociedade complexa, na qual, se utilizarmos a ideia de modernidade de [Rei- nhart] Koselleck, houve uma fratura entre “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa”. Ora, em uma sociedade em que não temos mais a ancoragem das expectativas na experiên- cia é muito importante que haja um mecanismo de controle de consistência que, entretanto, não seja simplesmente de controle, mas, como apontam Tercio [Sampaio Ferraz Jr.] e [Niklas] Luh- mann, que forneça também a liberdade no trato das questões em termos jurídicos.

Nesse sentido, cabe perguntar se o grau de complexidade da sociedade atual não estaria demandando que a dogmática jurídi- ca, que constitui o nível mais alto de abstração do sistema jurídico, também se reconfigurasse, a exemplo do que ocorreu com os dis- cursos acerca da história.

Portanto, considero importante o panorama histórico proposto pelo professor Tercio [Sampaio Ferraz Jr.] acerca da dogmática jurí- dica, pois o mesmo aponta a ideia de um construto que, por ser histórico, não é perene nas configurações que assume. Além disso, sua análise permite compreender que a configuração que esse cons- truto pode vir a assumir também não implica indagar apenas em termos de ruptura. Trata-se de verificar como a eventual mudança que ele possa vir a sofrer está enraizada em condensações de sen- tido prévias e, portanto, numa semântica de longa duração.

NOTAS SOBRE O PROBLEMA DA ACUMULAÇÃO LITERÁRIA E A