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E como não poderia deixar de ser, do quadrado e do retângulo, logo, da cruz, nasceu tanto a quadra (partido) quanto o pátio jesuítico. Ambos são as marcas de sua arquitetura não só no Brasil; e ao reclamarem essa tipologia já estavam cientes dos resultados de seus usos ao longo da história.

O pátio e a quadra é o centro de tudo, assim como no templo primitivo, nos peristylium clássicos, nos pátios mouros e claustros cristãos medievais, mudéjares e renascentistas. Oliveira (1988, p. 54 a 58) traz um significado da quadra e do pátio jesuíta:

o modelo para a estrutura da sociedade de Jesus deveria ser o da estrutura do universo segundo Aristóteles...a consciência de um mundo racionalmente organizado [...]; o traçado em quadra procura também essa harmonia [...]; a construção é ordenada como os astros que gira em torno de um centro que a organiza e comanda [...] as diversas funções que abriga o programa construtivo estão ligadas entre si, disciplinar e hierarquicamente[...] é a forma da disciplina dos astros racionalizada no ângulo em linha reta [...] espaço continuo, homogêneo, mensurável, como nos ideias renascentistas dos quais Maquiavel, Galileu, Kepler, Descartes e os jesuítas não lograram se separar [...] O recurso formal da quadra propõe a unidade do corpo arquitetônico apesar da diversidade de funções que abriga. Cada atividade vem a definir um lugar específico. A residência, aulas, oficina, serviços e igreja ocupam nesta planta homogênea espaços delimitados e determinados que obedecem a uma hierarquia posicional.

A Companhia de Jesus é uma congregação religiosa renascentista fundada sob os preceitos da escolástica, logo, indissociável da cultura greco-romana19.

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19 Ideias cristãs no período que compreende entre os séculos XII ao XVI em que tentam provar de forma científica

e racional a existência de deus que rege todo o universo. Tem suas origens no pensamento clássico de Platão e Aristóteles, sendo difundido no cristianismo por Agostinho de Hipona (354 - 430), Bernard de Claraval (1090 - 1153), Tomás de Aquino (1225 - 1274) e Inácio de Loyola (1491 - 1556).

A cruz da quadra e do pátio simboliza não só o uso do peristylium clássico, mas também a forma de conceber o universo e deus como sendo geometria racionalmente organizada, harmônica e perfeita tal como Vitruvius fazia. O pátio e a quadra é o centro de um espaço que acima de tudo é religioso, que se comunica com o céu, com deus, com o sol, com o vento, com as estrelas, que ilumina e aquece durante o inverno e resfriam durante o verão, um espaço de harmonia pois representa o paraíso terrestre tal como no templos primitivos, clássicos, medievais e renascentistas.

Por isso, nos seus primeiros colégios, como o de Coimbra (1542) em Portugal e o de Messina (1549) na Itália, os jesuítas mantêm o partido arquitetônico tradicionalmente empregado pelas ordens religiosas nos seus mosteiros e conventos, ou seja, o de dispor os vários corpos da construção em quadra com pátio central, porque oferece isolamento tal como nos tempos medievais, ideais para práticas de introspecção, meditação e aplicação dos Exercícios Espirituais, mas também como um peristylium clássico, um espaço multiuso e de “agremiação ativa” (COSTA, 1941, p.138). A quadra e o pátio, assim como a cruz, convergem para o centro, tal como o universo aristotélico-tomista. A cruz do homem em busca de seu interior.

Figura 21 - Collège de Messine: projet inscrit dans un quadrilatère - plan du rez-de-chaussée: dessin, plan P. Natale Masucci, 1615. Biblioteca Nacional da França. Disponível em <http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b8448060x> Acesso em 30 Mar.2015

Figura 22 - Planta do Real Colégio das Artes da Universidade de Coimbra – 1773. Biblioteca Geral da

Universidade de Coimbra, Portugal. Disponível em

<http://phi.geoimagine.es/biau/index.php/component/k2/item/68-o-col%C3%A9gio-das-artes-ii> Acesso em 30 Mar.2015

A quadra e o pátio simboliza a centralização do espaço e dos elementos arquitetônicos e por isso foram escolhidos como partido e programa da Arquitetura do Regimento de 1548, porque este simboliza e representa a primeira forma de centralização do Brasil.

O pátio proporciona um espaço múltiplo de sociabilidade, como descreve Menezes (2000, p.50):

Em São Paulo de Piratininga não se pode deixar de mencionar é a importância do pátio do colégio. Ele era o berço da cidade; ali se davam as festas religiosas que os índios e os moradores apreciavam muito. Era ali também que Antonio Rodrigues ensaiava os curumins para as festas e procissões, com suas aulas de flauta. Era do pátio do colégio que saiam as procissões; era ali que se batizava e casava; ali se ensinava e dali partia a extrema-unção.

Figura 23 – Espaço de transição e sociabilidade na cruz como traçado regulador na quadra e no pátio do Colégio de São Paulo – 1680 - SP – Fotografia de Rogério Entringer – 2012

O Aristotélico-tomismo serviu a igreja pelo aspecto da racionalidade, ou seja, São Tomás de Aquino voltou-se a Aristóteles para tentar provar de forma racional a existência de deus introduzindo o argumento racional ao cristianismo, e isso era vital para a Igreja em tempos de Reforma religiosa e consequentemente uma arma contra reformista, afinal, a razão, era evocada pelos protestantes seja para o crescimento do capitalismo e das novas tecnologias, seja

para o caráter racional de deus. Portanto, o Aristotélico-Tomismo contribuiu para a sobrevivência da Igreja. A geometria da cruz dos traçados reguladores da quadra e o do pátio são racionais, assim como a inteligência ordenadora aristotélica-tomista de que há um ser inteligente chamado de Deus que ordena a natureza e dirige cada indivíduo. Logo, a sagrada ordenadora linha reta da arquitetura jesuíta era o elo de ligação com o ideal de ordem divina.

Portanto, dos traçados reguladores nasce a arquitetura dos jesuítas, que no Brasil, entre 1549 e 1759, simboliza uma espécie de cruzamento de Aristóteles, Vitruvius, São Tomás de Aquino e Ignácio de Loyola representados e materializados por cruzamentos de ângulos e linhas retas, muito importantes, pois proporcionam a satisfação do espírito, logo, de deus.

3.2 De Ratione Aedifitiorum era a Ratio Studiorum: a cruz e a quadra nos pátios jesuíticos

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