Os dispositivos são os lugares materiais ou imateriais nos quais se inscrevem (necessariamente) os textos; eles possuem uma forma que é sua especificidade, um modo de estruturação do espaço e do tempo, e, se encaixam uns nos outros; por exemplo: o jornal se inscreve no dispositivo geral de informação e, ele próprio contém dispositivos que lhe são subordinados, como o sistema de títulos. Além disso, podemos considerar que os dispositivos pertencem a lugares institucionais, sendo o dispositivo e o lugar indissociáveis do sentido – um se atualiza pelo outro, e que, do ponto de vista genético, o dispositivo e o texto se precedem e se determinam mutuamente (MOUILLAUD, 2002, p. 34-35). Nesse sentido, os jornais marianenses O Germinal e O Cruzeiro constituem-se como componentes do dispositivo de informação da cidade em determinado período de tempo no século XX14: o primeiro tem início em 03 de janeiro de 1905 (em substituição ao Rio Carmo, que circulou entre 25 de dezembro de 1900 e dezembro de 1904) e foi editado até 1955, enquanto o segundo circulou entre 02 de julho de 1929 e 23 de março de 1935. Quais eram as características gerais e específicas destes dispositivos de informação?
14 Uma descrição pormenorizada da imprensa marianense, no período de 1830 a 1989, encontra-se em artigo de Rafael Arcanjo Santos. (Acervo Particular Rafael Arcanjo dos Santos, disponível no CPLMT – Centro de Pesquisa sobre Linguagem, Memória e Tradução, no ICHS-UFOP).
Figura 4 - Jornal O Germinal, 28/02/1930 Figura 5 - Jornal O Cruzeiro, 19/02/1930
Fonte: O GERMINAL, 1930.
Fonte: O CRUZEIRO, 1930.
Como pode ser visto nas figuras 4 e 5, ambos os jornais se concretizam em formato escritural, com palavras e, quase sempre, imagens fixas (fotografias), gravadas em um suporte de papel (a medida predominante nas edições é 48x33cm, com alguma variação na coleção). Formalmente, a edição de O Germinal no período de análise é quinzenal e a de O Cruzeiro é mensal, embora, na prática, isso não se concretize em relação a O Germinal. Este manteve uma periodicidade irregular, com: 1 edição em fevereiro de 1930, 1 edição em outubro de 1930, 1 edição em dezembro e 1 edição em janeiro de 1931. Já O Cruzeiro manteve periodicidade quase mensal. Ambos destinavam-se à venda aos assinantes e colaboradores, mas também ao grande público – o que os colocava como jornais de massa15.
15Expressões como “massa”, “povo” e “cidadãos” aparecem, por vezes, como designação do público destinatário.
A característica locutiva se dá numa escrita individual (através da figura do redator, de cartas e colaboradores) ou assumida por um coletivo (o Jornal). Cada veículo possui o seu redator. No caso de O Germinal, as figuras de “Colaboradores diversos” e de “Correspondente” (nos distritos) participam da sua edição, sendo o processo articulado por um “Gerente” (J. Queiroz de Almeida). Já O Cruzeiro reserva um espaço de “Expediente” do Jornal, em que comunica o nome do seu redator (o jornalista Waldemar Moura Santos) e conta com a participação de “colaboradores” ocasionais, que assinam suas contribuições e cartas.
Como tudo passa pela figura de um editor, que desaparece no interior do jornal, podemos afirmar que a instância de produção tem como sujeito comunicante o próprio jornal. Este é o sujeito (jurídico e) de papel social, no qual se atualiza a participação empírica dos colaboradores de cada veículo de informação. O seu correlato, ou sujeito interpretante, na instância de recepção, é o sujeito leitor, que, pelo papel social que exerce na esfera pública em formação se define como um leitor-cidadão. Em ambos os casos, pode-se dizer que há numa relação distanciada entre aquele que lê e aquele que escreve, porém, como se trata de veículos de informação que circulavam em uma cidade de médio porte, deveria ser comum que os editores, leitores e colaboradores se conhecessem, ou pelo menos que havia possibilidade de se tornarem conhecidos em algum momento da vida. Assim, é possível que os acontecimentos construídos pela imprensa, bem como os personagens que ela evidencia sejam plenamente identificados no cotidiano da cidade.
Figura 6 – Expediente do Jornal O Cruzeiro, 28/01/1931
Quantos exemplares eram produzidos por cada um dos Jornais? Qual era o público leitor? Adiantemos que o formato, a diagramação e investimento gráfico (tipos e fotografias) indicam que ambos os jornais circulavam entre os “assinantes e admiradores”16 e que buscavam atingir, como alvo, um público amplo (a massa). No
entanto, não dispomos de dados sobre o número de exemplares de cada edição, mesmo que possamos fazer alguma conjectura. No tempo de circulação dos jornais, o número de habitantes da cidade seria em torno de 40 mil indivíduos17, porém qual seria o número de leitores e o de não leitores? Qual teria sido o perfil do leitor efetivo? Temos, é certo, alguns comentários de leitores (espécie de “Carta do Leitor”), mas estas são dúvidas que permaneceram na pesquisa. Sabemos, por outro lado, que havia três escolas regulares na região urbana da cidade: o Seminário de Nossa Senhora da Boa Morte, escola religiosa, dirigida ao público masculino; o Colégio Providência, também escola religiosa, exclusiva para o público feminino e o Grupo Escolar Gomes Freire, que, constituído em 1914, seria a única escola pública no período – o que estava longe de significar uma ampla possibilidade da prática de leitura.18.
Figura 7 – Jornal O Germinal, 05/12/1930 Figura 8 – Jornal O Germinal, 28/02/1930
Fonte: O GERMINAL, 1930.
Fonte: O GERMINAL, 1930.
16 Esta referência se encontra no O Germinal, 03/01/1931, p. 01. No caso de O Cruzeiro, o “Expediente” registra o valor da assinatura anual, de 5$000, 28/01/1931, p. 01.
17 De acordo com Manuela Areias Costa (2012b), o recenceamento de 1920 indica que Mariana possuía, à época, 40.563 habitantes. (Annuário Estatístico de Minas Gerais de 1921, citado por COSTA, 2012b). 18 Não se pode descartar a prática de leitura em voz alta para um grande público e outras experiências de oralização da escrita. Contudo, não conhecemos dados a este respeito.
Em segundo lugar, tanto o jornal O Germinal quanto o jornal O Cruzeiro poderiam ser caracterizados como enunciadores do tipo jornal-tribuna. Ou seja, jornais que se colocavam na condição de porta-vozes de determinados setores ou doutrinas. O Germinal era um jornal-tribuna do partido republicano mineiro, enquanto o O Cruzeiro era o jornal-tribuna da União dos Moços Católicos. Tais caracterizações se faziam explícitas nos cabeçalhos dos respectivos dispositivos. Isso colocava também, de maneira explícita, qual seria o recorte dentre o leitorado para o possível sujeito destinatário. Para o O Germinal, o interlocutor privilegiado ou destinatário era, sobretudo, um correligionário ou cidadão engajado nas questões do Partido no município; já para o O Cruzeiro, o sujeito destinatário do discurso jornalístico era um membro da mocidade católica e de outros movimentos de associação religiosa vinculados à arquidiocese. Entretanto, naquele momento a distinção empírica entre estas duas categorias de sujeitos na cidade de Mariana era bastante sutil, pois o Partido Republicano era o único partido e tinha uma orientação de manutenção de um ativismo político constante na sociedade marianense, ao ponto de se poder dizer que: afinal, somos todos republicanos em Mariana. Da mesma maneira, quem, afinal, não seria um “moço católico” na “cidade dos bispos”? Voltaremos a estas questões gerais no capítulo seguinte, mas vejamos algumas características específicas de cada um dos jornais.