B. SÜREKLİ İŞ GÖREMEZLİK TAZMİNATINDA İNDİRİM SEBEPLERİ
4. Zarar Görenin Kusuru
O imperativo social, a idade idealizada e desejada, do início do século XX até meados deste mesmo século, o padrão que dominava entre os jovens era a busca da aparência de "senhores", de uma idade mais avançada, de velhice. Dessa forma, o mercado colocava à disponibilidade um contingente de produtos possíveis para alcançar tal feito:
18 Importante destacar que, tal como apontamos em nosso texto, a concepção de juventude não prescinde de uma definição única. Sendo assim, a mesma premissa vale para analisarmos a juventude como ideal. Pois bem conhecemos as peculiaridades existentes com relação às distinções entre as próprias formas diferenciadas de juventude e as diferentes realidades em que se encontram. Isto é, não podemos naturalizar que todos os jovens se adéquam às dimensões simbólicas da juventude. Não podemos prescindir em nossas análises, conforme também já mencionamos, das determinações materiais, históricas e políticas que envolvem qualquer produção social. Portanto, a caracterização da juvenilização, do ideal social da juventude a todos não se objetiva, quando tratamos de jovens de camadas socioeconômicas baixas, dos quais muitos vivem a adultização precoce.
“Somente o creme Barbalho/ Tornará todo grisalho/ Vosso cabelo juvenil/ Garantindo-lhe o respeito/ De um ar sisudo e senil/ Em cargos de grande efeito!" [...] O mercado logo percebeu que o artigo em maior demanda era o pastiche do ar senhoril. Novas fortunas se fizeram, do dia para a noite, vendendo pacotes de velhice instantânea (SEVCENKO,1998, p. 5).
Esta foi uma época em que o projeto dos jovens era tornarem-se mais velhos logo que possível, a busca era pelo envelhecimento precoce, a idade da vida era a velhice, com sua aura de sabedoria, tradição e autoridade. Para os homens valorizava-se a produção e para as mulheres a reprodução, em contraposição aos que ainda se encontravam no limbo entre a infância e a idade adulta (KEHL, 2004), pois "o desejo não era de se conformar aos adultos, mas de não se diferenciar deles por ser infantis, adolescentes" (CALLIGARIS, 2000, p.71).
Kehl (2004) resgata os escritos do dramaturgo Nelson Rodrigues que tão bem esclarece esse período:
O Brasil de 1920 era uma passagem de velhos, escreveu Nelson Rodrigues em uma crônica sobre sua infância na rua Alegre. "Os moços não tinham função, nem destino. A época não suportava a mocidade". O escritor estava se referindo aos sinais de respeitabilidade e seriedade que todo moço tinha pressa em ostentar, na primeira metade do século XX. Um homem de 25 anos já portava o bigode, a roupa escura e o guarda-chuva necessários para identificá-lo entre os homens de 50, e não entre os rapazes de 18 (p.90).
Portanto, inserir-se logo na fase madura, no mundo dos adultos, tornou-se o imperativo ideológico dessa época. E ainda, retornando um pouco mais na história, Ribeiro (2004) resgata que, no século XVIII, a nobreza usava perucas empoadas, pois os cabelos brancos eram sinal de respeito e, então, desde cedo os jovens se faziam de velhos.
Enfim, o que podemos observar é que nestas épocas os adultos, ou melhor, a condição do "ser adulto" era valorizada. O ideal dos jovens e adolescentes era ser adulto, este era seu projeto. Para isso, apoiavam-se na estética e, principalmente, nos modos de ser e agir dos adultos ‒ responsável, maduro, sábio e experiente ‒ para atingir esta condição o mais rápido possível. Já em nosso momento histórico, marcado por inúmeras transformações, a adultez vem assumindo um sentido bastante diverso do que se compreendia há algumas décadas, um século atrás, fazendo com que muitos autores se perguntem: o que é ser adulto hoje? E, indo mais além, também nos perguntamos: será que o projeto dos jovens é o de ser adulto logo?
Importante observar que, para que possamos entender o jovem, também faz-se necessário que entendamos quem é o adulto hoje. Conforme já mencionamos, vivemos no
mundo do contemporâneo, desta maneira, enfatizamos valores, conceitos, objetos e experiências construídos socio-historicamente que se apresentam neste mundo. Ele afeta a tudo e a todos os que nele habitam, transformando-os. Podemos dizer que o adulto de hoje, tal como o jovem, é afetado pelas condições de incerteza de nossa sociedade. Assim, a ideia de estabilidade e segurança que outrora representava a vida adulta foi abalada. Sposito (2005) traz esta questão ao questionar a aludida instabilidade juvenil em contraposição ao status de estabilidade conferido à vida adulta. Para a referida autora, a compreensão da vida adulta como estática e rígida é um fato que não mais se sustenta hoje, pois parte significativa do que se denomina condições contemporâneas da vida se inscrevem na insegurança, na turbulência e na transitoriedade.
Neste cenário de instabilidade, a condição de adulto também se alterou. Cabe salientar que outros fatores, além da incerteza de nossa sociedade, contribuem para a indefinição de sua condição. Os estudos da UNESCO (2004) trazem importantes reflexões: "há uma perda das características que definem um adulto principalmente devido à tendência à ‘juvenilização’; em contraponto, os jovens vivem um processo de ‘adultização’ acelerado, decorrente das incertezas e desafios advindos da crescente globalização". Convém explicitar que a adultização precoce dos jovens refere-se, principalmente, aos jovens de camadas socioeconômicas desfavorecidas, que precisam trabalhar e assumir responsabilidades e compromissos preponderantemente conhecidos como aspectos da vida adulta. Este fato indica que o tornar-se adulto também é atravessado por questões socioeconômicas. No entanto, afirmar que a entrada no mundo adulto se faz única e automaticamente pela ascensão ao trabalho seria uma afirmação equivocada e simplista.
Pimenta (2007), em sua pesquisa "'Ser jovem' e 'Ser adulto': Identidades, representações e trajetórias", estuda a transição para a vida adulta. Uma das sínteses de sua pesquisa centra-se na constatação de que não existe uma representação única de adulto:
[...] a partir da passagem por uma sequência determinada de etapas, mas pelo acúmulo de um conjunto de experiências e condições que lhe permitem se afirmar enquanto tal. Desse modo, a identidade adulta pode ser mais ou menos frágil dependendo dos fatores internos e externos que atuam para consolidá-la (PIMENTA, p.178).
Prosseguindo com a autora, ela se refere, em sua pesquisa, a um conjunto de características definidoras que estabelecem aquilo que o adulto é e aquilo que ele faz. São
estas: autonomia e capacidade de autogestão, independência econômica e financeira em relação aos pais, liberdade para agir e capacidade para efetivar suas próprias decisões. Contudo, vale ressaltar que algumas das características definidoras de sua condição encontram-se mescladas com características da juventude. Isto reforça o questionamento do status da vida adulta na atualidade.
Alguns autores referem-se à noção de vaguidade do lugar do adulto na sociedade, pois se o lugar do adulto está "vazio", quem vai ocupá-lo na relação com os adolescentes? Estamos aqui nos referindo à condição de juvenilização que já apontamos acima.Faz-se necessário, ainda, indicar outros aspectos para esta indefinição do adulto. A falta de critérios claros que delimitam o período da juventude, especialmente no que diz respeito ao seu término; o prolongamento da juventude; as transformações na organização familiar e a mudança nos padrões de relacionamento entre as gerações ‒ uma certa horizontalidade nas relações dos pais e filhos ‒; a longevidade; a questão econômica: um mercado de trabalho retraído, que não oferece condições de emprego a todos, fazendo com que muitos não possam alcançar autonomia e independência; todos estes fatores que fundamentam a indefinição do lugar do adulto hoje.
Em suma, o que assistimos hoje são às variações de imagem de adulto, o que portanto impede a constituição de um modelo para os jovens. Por outro lado, se este mundo adulto não existe como uma expectativa futura para o jovem ‒ pois, de acordo com Imanishi (2008), um dos aspectos presentes na relação do adolescente com o mundo adulto se dá a partir de uma expectativa de um papel que, futuramente, ele será convocado a desempenhar ‒, é porque ele próprio também está sendo construído no presente, tal como o mundo dos jovens também. Ou seja, ambos os mundos estão sendo constituídos pelas mesmas leis que regem o mundo atual; a lógica do mercado, da incerteza e da velocidade das informações. Portanto, um adulto também exposto às incertezas, aos riscos inerentes à nossa vivência contemporânea, é impelido a constituir-se como um novo adulto, como um novo sujeito, abdicando da clareza que seu papel tinha para os jovens no passado.
Enfim, um adulto muito diferente do que foi preconizado pela psicologia tradicional:
O mundo adulto é visto como etapa final de um processo. O adulto está destinado à coerência, à conservação, à responsabilidade, ao trabalho e à autoridade (...) como
ponto final de um crescimento. A identidade tem sido concebida como algo que se é e não como processo de mudança permanente (BOCK ; LIEBESNY, 2003, p. 221).
Sposito (2005), ao apoiar-se nos estudos de Miguel Abad (2003), referenda essa questão, da perda do papel do adulto como referência para as novas gerações, pois de acordo com o referido autor: a desistitucionalização ou a crise das instituições tem sido “tradicionalmente consagrado à transmissão de uma cultura adulta hegemônica, cujo prestígio tem se debilitado pelo não cumprimento de suas promessas e pela perda de sua eficácia simbólica como ordenadoras da sociedade" (SPOSITO, 2005, p.91, apud ABAD, 2003, p.25). Desta forma, as instituições tradicionais, como a escola e a família passam a ser ocupadas por um maior desdobramento da subjetividade juvenil. Esta forma de viver a juventude é o que caracteriza viver esta etapa da vida de um modo distinto daquele experimentado por gerações anteriores (SPOSITO, 2005, p. 91).
Conforme temos visto até aqui, o momento da juventude ou das juventudes tem sido fundamental para compreender muitas das transformações, em curso, de nossa sociedade. Sendo assim, outro aspecto fundamental para compreendermos as juventudes neste momento diz respeito às mudanças que incidem no processo de suas transições para a vida adulta.
Camarano (2006) no livro "Transição para a vida adulta ou a vida adulta em transição" trata este processo considerando o jovem em suas inter-relações com as macrotransformações que afetam esse ciclo de vida: escola, trabalho, família e constituição de domicílio. A autora prossegue apontando que, paralelamente a estas transformações, outras ocorreram: grande demanda social de uma escolaridade mais elevada para competir no mercado de trabalho ‒ mais tempo passado na escola ‒, dificuldades de inserção no mercado e dificuldades financeiras para montar um novo lar, ocasionando um prolongamento da dependência da estrutura dos pais. Com isso, os jovens têm permanecido por mais tempo na casa dos pais, o que suscita outro debate: o prolongamento da juventude. Cabe observar que, além das razões econômicas, outro fator que também está em jogo é o desejo do jovem de estender sua condição juvenil. Este aspecto já mencionamos acima quando abordamos o ideal social da juventude.
A literatura aponta que hoje existe um novo cenário que atravessa a transição para a vida adulta. O paradigma da linearidade foi rompido e agora impera o da multiplicidade, das inúmeras possibilidades de trajetórias:
Os estudos recentes sobre transição para a vida adulta têm mostrado que as experiências de vida e as expectativas da atual geração são mais complexas e menos previsíveis que as de suas predecessoras, sugerindo que os modelos lineares de transição estão se tornando cada vez mais inapropriados para o contexto de mudança social e econômica das últimas décadas (WYN; DWYER, 1999 apud CAMARANO, 2006, p.15).
Neste sentido, se aponta para uma flexibilização na sucessão dos eventos, sugerindo que o processo de transição deixe de ter padronização (CAMARANO, 2006). Com base nisso, a autora destaca que, à luz destas mudanças, as distinções entre estudante e não estudante, trabalhador e não trabalhador, solteiro e casado estão se tornando ultrapassadas, pois as sequências dessas transições, conforme já mencionamos, não mais obedecem a uma lógica linear e uniforme. A delimitação das fases da vida variam no tempo e no espaço e, com tantas transformações, hoje está cada vez mais difícil precisar o início e o fim de cada fase. Assim, há de acordo com Abramo (2005, p.44), uma "descronologização do percurso das idades", ou segundo Castells (2009, p.538) ocorre "uma indeterminação dos ciclos de vida".
Um fato também relevante que está relacionado aos ciclos de vida é a grande mudança observada no prolongamento da vida. Este traz, ao mesmo tempo, consequências e modificações consideráveis tanto para a sociedade quanto para a constituição de nossas subjetividades:
No mundo desenvolvido, a Revolução Industrial, a constituição da ciência médica, o triunfo da razão e a afirmação dos direitos sociais alteraram esse padrão nos últimos dois séculos, prolongando a vida, superando doenças, controlando os nascimentos, diminuindo os óbitos, questionando a determinação biológica dos papéis sociais e construindo o ciclo vital em torno de categorias sociais, entre as quais a educação, o tempo de serviço, os padrões de carreiras e o direito à aposentadoria adquiriram extrema importância ( CASTELLS, 2009, p. 538).
Com os novos arranjos organizacionais, tecnológicos e culturais, como os recursos da ciência e da biotecnologia, passam a existir diferentes modos de vida, diferentes escolhas e hábitos de comportamento. Por exemplo, a escolha para se ter um filho nos dias de hoje não sofre um padrão determinado somente pelo biológico, diferentemente de muitas décadas atrás, em que o período fértil da mulher era mais restrito e improrrogável. É possível ser pai e avô,
avó e mãe em idade avançada, pois as tecnologias reprodutivas auxiliam neste processo. Neste contexto, há para as mulheres estágios variados em seu ciclo de vida para que decidam ter filhos. Tudo isso se modificou devido à emancipação da mulher em relação a sua carreira, sua formação e aos novos arranjos familiares. Junta-se a isso a baixa natalidade e o adiamento do casamento e da reprodução. Portanto, hoje os sujeitos escolhem cada vez mais de forma individualizada, "em que cada vez mais a nova regra é que haja poucas regras" (CASTELLS, 2009, p. 542).
E a consequência direta é outra forma de invalidação do tempo, do tempo biológico humano, do ritmo temporal mediante o qual nossa espécie tem sido regulada desde suas origens. [...] Um ritmo bilógico secular foi substituído por um momento de decisão existencial (CASTELLS, 2009, p.542).
A longevidade, o prolongamento da vida, não está associada somente à maternidade conforme exemplificamos acima, está fortemente ligada à saúde e à beleza, principalmente, quando se trata de vincular estes aspectos à mercadoria a ser consumida, ideia amplamente usada pela publicidade. Novamente voltamos ao ponto do ideal da juventude, pois o imperativo da saúde associado ao ideal estético da beleza está a serviço de vender a juventude para todas as idades. Assim, principalmente para as pessoas maduras, a venda da longevidade faz mais sentido. Diante disso, se observa que os sujeitos se diferenciam cada vez menos, vivenciando estilos de vida muito próximos.
Por fim, a despeito de nossas pesquisas efetuadas em livros, base de dados, artigos que se dedicam a compreender a juventude, o que pudemos apreender é que ainda há um campo vasto a ser explorado. Existem muitos estudos e pesquisas na área, entretanto, são muitas, e aceleradas, transformações pelas quais o nosso mundo passa, portanto, quanto mais estudos e mais pesquisas que tenham a pretensão de compreender os jovens, paralelamente a estes acontecimentos, melhor. Eles são apontados como ideal social, ou ainda como porta vozes de nosso momento atual, daí a importância também de revelarem seu presente momento e seus projetos (tanto os pessoais quanto os coletivos) que, inclusive, podem ter a capacidade de acelerar transformações relevantes na sociedade. Para tanto, passaremos ao terceiro capítulo desta tese que aborda a compreensão dos projetos de futuro e os questionamentos subjacentes a eles nos dias de hoje.
Capítulo 3 - O projeto e sua construção no tempo: muitas escolhas, vários caminhos