2. BÖLÜM
2.1. Yerleşim ve Sanayi Alanları
“[...] do ponto de vista da antropologia, todas as identidades são constituídas, daí o verdadeiro problema de saber como, a partir de que, e porque” (MUNANGA, [s.d.], p. 03)
Tendo em vista as análises desenvolvidas e as polêmicas pontuadas durante todo o texto na situação atual do Veiga, as que merecem um destaque maior são referentes às tensões entre as mudanças ocorridas no ritual e o sentimento de permanência, apresentadas nas narrativas dos “mais velhos”. Assim, havia o interesse em manter aquilo que se narra como era “antigamente”, em contraste com as novas formas de dançar o São Gonçalo que vêm sendo assumidas nos últimos anos.
Como meu foco é entender a participação do rito na construção da identidade quilombola, percebo, diante disso, que na localidade a assunção do rito enquanto marca identitária assume duas faces. De um lado, aqueles que recorrem a elementos do passado na tentativa de se sentirem os mesmos (HALBWACHS, 1990), do outro lado, uma alusão
conveniente a aspectos deste mesmo passado, mas assumindo as mudanças na ação e reforçando a identidade na narrativa. O aspecto recorrente nessas perspectivas é a ligação do rito com o “tempo dos antigos”, remetendo a uma suposta origem difícil de definir, mas fácil de ser incorporada pela coletividade.
Assim, as transformações e mudanças tanto no ritual quanto em sua forma de apresentação são realizadas não somente como pagamento de promessa, mas também apresentadas fora da comunidade, como uma manifestação cultural. Essa trajetória das inovações permitiu promover o rito a uma ampliação de sua visibilidade, que não mais se restringe a Quixadá, e à valorização enquanto integrante de uma cultura popular. Esta nova faceta influenciou a forma do grupo de se ver, de elaborar uma imagem de si. Barth considera esta situação uma oportunidade para examinar a forma como a identidade étnica se relaciona com a organização do grupo:
[...] os inovadores podem optar por enfatizar um nível de identidade entre os vários fornecidos pela organização social tradicional. Tribo, casta, grupo linguístico, região ou Estado, todos têm traços que os tornam uma identidade étnica primariamente adequada para a referência de grupo, e o resultado final irá depender do modo como os outros podem ser conduzidos a acatar tais identidades e também da fria realidade dos fatos táticos (BARTH, 1998, p. 221)
Desta forma, a identidade étnica tronou-se pertinente para a organização social do grupo, além do que o modo de organização do grupo varia “do mesmo modo que a articulação interétnica que é procurada” (POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 1998, p. 221). Sendo assim, a situação em que essas populações estão inseridas e as relações estabelecidas com agentes externos contribuíram para definir a qual passado recorrer, em uma ou outra situação, para legitimar suas demandas e reafirmar sua identidade, percebendo a identidade como uma coisa a ser construída, e não acabada, definida.
Como apresentei na seção anterior, as relações estabelecidas com as CEBs e ONGs foram importantes na mobilização da coletividade para a afirmação de uma identidade quilombola. Através destes agentes e dos projetos implantados, conseguiram melhorar sua infraestrutura e os problemas em relação à falta d’água. É evidente que as aquisições materiais se fazem presentes nas intenções deste grupo ao reivindicar seu território, mas o que surge nesse processo, e o que me parece interessante observar, é a tentativa de se organizar socialmente por meio das novas relações que vão sendo estabelecidas. Assim, assumir a identidade “quilombola”, além de representar um novo arranjo interno, requer outras formas de diálogo e
a atuação de outros atores sociais que, até então, não estavam presentes na localidade. Ademais, como defende Barth (1998, p. 195), de fato a identidade étnica é relacional e situacional:
Apenas os fatores socialmente relevantes tornam-se próprios para diagnosticar a pertença, e não as diferenças ‘objetivas’ manifesta que são geradas por outros fatores. Pouco importa quão dessemelhantes possam ser os membros em seus comportamentos manifestos – se eles dizem que são A, em oposição a outra categoria B da mesma ordem, eles estão querendo ser tratados e querem ver seus próprios comportamentos serem interpretados e julgados como de As e não de Bs.
Nessa interação com os agentes externos, o grupo foi consolidando sua identidade, percebendo-se diferente das outras comunidades e acionando suas diferenças, “aqui, nós dançamos o São Gonçalo”. Em relação aos agentes externos, outros projetos não puderam ser implantados devido à falta de regularização do território, que tem sido o entrave para o desenvolvimento de políticas públicas nas comunidades quilombolas do Ceará, além da difícil relação dessa coletividade com os fazendeiros, os “donos das terras”, para realizar suas atividades produtivas e os problemas de água, que, apesar de melhorados, não foram resolvidos. Todas essas dificuldades, por si só, já sugerem uma articulação dessa coletividade para realizar mudanças. E assim, esse grupo social começou a se valer do São Gonçalo e da sua notoriedade como uma estratégia para se fazer presente no cenário da sociedade mais geral, pontuando suas necessidades e demandas nesse cenário. Certamente, existem outros fatores que podem ser acrescentados a esta situação.
Considero que todo esse processo de autoidentificação e consolidação de uma identidade quilombola foi desencadeado pelas apresentações do grupo fora da comunidade, pelas divulgações no rádio, apresentações dentro da comunidade, e também pela mobilização política que ocorreu dentro da comunidade, como vimos na seção anterior. E aquilo que era apenas um ato de fé e devoção para pagamento de promessa, passa a representar aquela coletividade onde estivesse.
Quando Seu Joaquim reforça que é o “São Gonçalo do Veiga”, “que o nosso é mais difícil”, o que entra em jogo não é qualquer São Gonçalo, mas o do Veiga, elaborando uma ideia de fronteira que os separa de outros grupos. Logo, a fronteira fica estabelecida e demarcada pelas suas especificidades defendidas como singulares, únicas, que foram possíveis perante as características dos outros. Essa defesa do singular, definida em termos de pertencimento étnico, são os critérios que o grupo seleciona para produzir e reproduzir seus modos de vida, sua identidade.
Essas características que marcam as diferenças, como vimos ao longo do texto, perpassam a forma como é executada a dança, os cantos, o culto em geral. A associação do rito ao “tempo dos antigos”, que eram filhos ou netos de escravos, evocando um passado longínquo, tornou-se marca identitária dessa coletividade.