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Juan Goytisolo é um importante autor para a literatura espanhola contemporânea. O escritor catalão foi um dos autores que criticou com mais afinco os horrores produzidos durante os confrontos armados. Grande opositor ao regime franquista (justificado pela perda de sua mãe em um dos confrontos armados durante a guerra civil), Goytisolo tece críticas ao governo do General Franco.
Na década de 50 ocorreram alguns confrontos entre a população (classe operária e estudantes) e o governo franquista. O enfrentamento só reforçava e aumentava o poder do regime cívico-militar. O âmbito universitário foi um dos afetados por tais enfrentamentos, com o fechamento de algumas universidades devido aos protestos. O final dos anos de 1950 foi produtivo para a Espanha, pois através do Plano de Estabilização – liberação econômica – o país dará início ao processo de crescimento econômico instaurado na década de 1960.
Nesse período Juan Goytisolo publica obras na tendência do realismo crítico, tais como Juegos de manos e Duelo en el Paraíso. Em Duelo en el Paraíso (1955), o autor faz uma crítica aos confrontos armados e seus resultados pelo país. Uma das questões de grande importância percebida nos romances do autor se refere à diluição e perda da centralidade da figura do herói. O personagem que em Duelo en
el Paraíso se apresenta como figura importante no início, se esvanece ao transcorrer
da obra, estabelecendo apenas sua função de protagonista.
A literatura de romance de Juan Goytisolo muda devido a sua autoexigência. Sua importância para o romance social dos anos de 1950 se deve a particularidades novas para a literatura, como por exemplo, “el descuido de la prosa y la deficiencia
de organización” (MARTÍNEZ CACHERO, 2004, p. 336) percebidos em romances
como Duelo en el Paraíso.
As décadas de 1960 e de 1970 foram consideradas como uma época de desenvolvimentismo. Entre as principais circunstâncias para que se produzisse diversas mudanças, temos o desenvolvimento econômico, abertura de fronteiras – dando início a um processo de expansão do turismo de massa, maior flexibilidade da censuras. A emigração, o turismo e a indústria foram os parâmetros de assentamento do crescimento econômico espanhol.
Nesse período, Goytisolo publica romances como Reivindicación del Conde
Don Julián e Señas de identidad. Tais obras rompem com a tradição literária
espanhola – fazendo uso de uma linguagem enérgica e crítica à literatura acadêmica (Reivindicación del Conde Don Julián) ou buscando uma identidade esquecida devido ao exílio na figura de um alter-ego (Señas de identidad).
As décadas de 1960 e de 1970 foram marcadas pelo denominado “boom” da literatura hispanoamericana, movimento literário surgido na América Latina e largamente divulgado na Europa por autores como Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e Carlos Fuentes. Tal movimento consistia na exposição de ações político-sociais, e na construção de uma nova narrativa manifestada no conto fantástico, no conto metafísico, no realismo mágico e na crítica à realidade social. As referidas características obtiveram reflexos na literatura 73
espanhola. Em uma conferência realizada em Madri, em 2012, denominada “El
canon del boom”,, o escritor espanhol Fernando Savater abordou a questão a
influência do “boom” na literatura espanhola, como podemos perceber em:
Fernando Savater, espanhol, comentou sobre a influência que o boom exerceu sobre literatura espanhola por “alargar os horizontes narrativos de nossos trabalhos”, em uma situação que foi “sufocante como resultado da repressão franquista”. Ele também enfatizou a importância da imaginação e do humor, tanto na escrita, quanto no cotidiano, com frases como “A imaginação possibilita a realidade ir mais além. Imaginação é o que existe por trás da realidade” (SACOMAN, 2013)
Fernando Savater explicita que o “boom” influenciou a literatura espanhola ampliando os horizontes da narrativa atribuindo o importante papel do imaginário e do humor na construção de novas realidades pautadas na imaginação.
Goytisolo estabeleceu profundos contatos com escritores hispano-americanos do período. Percebe-se em romances do autor, no período do “boom”, a presença de aspectos relevantes ao citado movimento, tais como a fragmentação de cenas, as reflexões para compreender a vida em seu país, uma preocupação e uma audaz crítica social. Um artigo de Michał Naziemiec, intitulado “Le huele España: los rasgos
que distinguen la obra literaria de Juan Goytisolo de la nueva narrativa hispanoamericana”, apresenta a relação de Juan Goytisolo com a literatura do
“boom”:
Lo que vincula la mayor parte de la producción literaria de Goytisolo con la de los grandes escritores de América Latina, es sobre todo la técnica narrativa, o sea, la forma en la que Goytisolo encuadra sus mejores y más conocidas novelas. Con sus tendencias renovadoras hacia la narración y el lenguaje nuestro autor se inscribe profundamente en la larga y bien documentada tradición literaria del experimentalismo formal, ejecutado por varios autores europeos, norteamericanos y, por supuesto, escritores de la nueva narrativa hispanoamericana (NAZIEMIEC, 2013).
A trilogia Álvaro Mendiola – tríade de romances em que a citada figura é ressaltada como protagonista (Señas de identidad [1966], Reivindicación del Conde
Don Julián [1970] e Juan sin tierra [1975]) é exemplo da influência da literatura do
“boom” na narrativa de Juan Goytisolo. Na referida trilogia são observadas características relevantes ao explicitado movimento, tais como o rompimento do autor com determinados aspectos da cultura e história da Espanha e a busca por novas formas estéticas e técnicas expressivas renovadoras na literatura. No prólogo da trilogia Mendiola, sintetizada em um volume único, Santos Sanz Villanueva explicita sua interpretação sobre as obras que a compõem:
Trilogía de Álvaro Mendiola son la demostración de esta voluntad
innovadora y a la vez crítica con la sociedad y la cultura de su tiempo. En la primera de ellas, Señas de identidad, Álvaro Mendiola va reconstruyendo desde un presente muy preciso sus experiencias pasadas en Barcelona y París buscando sus señas personales, familiares y culturales. Don Julián, en cambio, simboliza la desvinculación definitiva del personaje protagonista con España, con su cultura y con sus valores más tradicionales y represores. Por último, Juan sin Tierra es una vanguardista bomba de relojería contra las convenciones del arte narrativo y una metamorfosis del personaje que le lleva a un estadio primitivo liberador. Este experimental viaje en el espacio y en el tiempo, en el que se plantean tanto cuestiones personales como problemas de mayor calado cultural y social, propicia que la Trilogía de Álvaro Mendiola sea una obra de lectura y relectura inagotables (SANZ VILLANUEVA apud GOYTISOLO, 2012, p. 6).
Observamos que em tais obras o referido autor demonstra uma vontade inovadora e crítica com a sociedade e a cultura de seu tempo. Ademais, ele enfoca questões pessoais, culturais e sociais, proporcionando, ao leitor, variadas leituras sobre os romances que a constituem.
Percebe-se nas obras de Juan Goytisolo uma influência de variadas formas, tais como o contato com culturas distintas e a proximidade do escritor espanhol com outros autores. A narrativa do escritor espanhol foi se transformando a partir do 75
estabelecimento dessas relações, o que pode ser percebido ao analisarmos as várias fases do autor (realismo socialista, crítica social ou autobiográfica). O momento histórico-político espanhol (guerra civil, ditadura e pós-ditadura) também é evidenciado pelo autor em suas obras através de críticas (implícitas ou explicitas). A questão do herói e seu processo de diluição merecem especial atenção. Nesse sentido, o autor se assimila ao trabalho de diversos autores, tais como Enrique Villa- Matas (com Bartleby y Companía, obra que tem como foco autores que em determinado momento de suas vidas abandonaram a escritura), Manuel Vázquez Montalbán (com seus romances policiais, tais como La soledad del manager e Los
mares del sur) e Eduardo Mendoza (também com foco no romance policial, como,
por exemplo, El laberinto de las aceitunas e La verdad sobre el caso Savolta).
Em 1975, com a morte do general Franco tem-se como consequência a extinção do regime ditatorial. Nesse ano Don Juan Carlos I é declarado rei, deixando de ocupar o título provisório de príncipe dado por Franco. Em 1976, a Espanha realiza suas primeiras eleições democráticas e, em 1977, Adolfo Suárez inicia seu governo. Em sua gestão se estabelece uma nova Constituição (1978) tornando a Espanha um país de monarquia parlamentarista (em consonância com os demais Estados democráticos europeus). Nessa constituição é apresentada a autonomia das regiões.
Em 1981, a Espanha sofreu um golpe de Estado, que terminou por fracassar. No ano seguinte, o PSOE (Partido Social Obreiro Espanhol) venceu as eleições. Seu primeiro ano de governo foi marcado pela crise econômica, pelos resquícios do frustrado golpe de estado e pela violência terrorista herdada ainda do franquismo.
Entre os anos 1982 e 1985, o país enfrentava um duplo desafio: a grave crise econômica, que se arrastava desde a década de 1970, e as negociações para
ingressar na Comunidade Europeia (CE). A modernização da economia espanhola foi um longo processo, que permitiu o crescimento do país na segunda metade dos anos de 1980. Vinculado ao programa econômico, esteve a política social, consolidando o Estado do Bem Estar, as reformas na saúde, educação e prestação de serviços (BAHAMONDE MAGRO; OTERO CARVAJAL, 2004).
Como anteriormente explicitado, na década de 1980 o escritor catalão iniciava seu processo de escritura de caráter autobiográfico (Coto vedado, En los reinos de taifa) em que tomaria especial lugar a temática da sexualidade. O movimento “destape” – fenômeno surgido no período da “Transição Espanhola” (fim da censura franquista, final da década de 1970) e que consistia no aparecimento de corpos desnudos em filmes, principalmente em comédias – influi em sua narrativa no que concerne à estética do corpo e da sensualidade.
Desencontros com os sindicatos, no que tange à política econômica do país, desembocam em uma greve geral em 1988. Tal evento foi um alerta de que o governo socialista não atendia suficientemente à população. Com o advento de políticas sociais para o desenvolvimento – estado de bem-estar, as reformas da saúde e educação e as prestações sociais – elevam-se os gastos públicos, culminando em uma nova crise no país em 1992-1993. Porém, ao final da década de 1990, inicia-se um processo de crescimento econômico no país, como podemos observar em:
La gestión económica, favorecida por la expansiva coyuntura de la economía mundial, permitió cumplir el Programa de Convergencia de la Unión Europea y participar en la creación del euro. En esta primera legislatura las privatizaciones de las empresas públicas con el objetivo declarado de liberalizar los mercados fueron uno de los pilares de la acción del Gobierno (BAHAMONDE MAGRO; OTERO CARVAJAL, 2004, p. 226).
Nesse período Goytisolo desenvolve um modelo de literatura voltado para a crítica à cultura ocidental, ao capitalismo e à sociedade de consumo. Através do contato com a cultura oriental (norte da África), o autor descobre uma nova perspectiva de observar o mundo e, neste momento, inicia um processo de valorização de questões relacionadas à práticas, valores, religião, etc, de dado grupo.
Com o passar dos anos, Juan Goytisolo foi abandonando a utilização da figura do herói como centro da narrativa do romance, dando ênfase a outras questões, muitas vezes relacionados com a sua identidade e sua realidade. A crítica social percebida em suas primeiras obras torna-se, portanto, sem efeito com o passar dos anos.
O autor que na década de 1950 tecera duras críticas à guerra civil e seu entorno, passava em seguida a ser crítico da sociedade pós-guerra, chegando ao momento de libertação estética através do estilo autobiográfico, da crítica do mundo ocidental e da sociedade de consumo. Torna-se evidente a influência social e política nas obras de Goytisolo. O escritor espanhol se converte em um crítico feroz da sociedade ocidental, capitalista, de consumo.