2.3. YEREL SĠYASETĠN MEġRUĠYETĠNĠN ġEKLĠ OLMAYAN UNSURLARI
2.3.7. YönetiĢimin Güçlendirilmesi
O escritor chileno Roberto Bolaño, amigo de Juan Villoro, que viveu vários anos no México e se ocupou desse país em muitos de seus textos, apresenta em sua obra 2666 (2004) personagens travando uma discussão sobre a relação entre os intelectuais e o poder na América Latina, principalmente no México, destacando que, cada vez que o Estado quer calar um intelectual, dá a ele um emprego, como se observa no trecho:
–Bueno, es el típico intelectual mexicano preocupado básicamente en sobrevivir –dijo Amalfitano. –Todos los intelectuales latinoamericanos (grifo do autor) están preocupados básicamente en sobrevivir, ¿no? –dijo Pelletier. –Yo no lo expresaría con esas palabras, hay algunos que están más interesados en escribir, por ejemplo –dijo Amalfitano. –A ver, explícanos eso –dijo Espinoza. –En realidad no sé cómo explicarlo –dijo Amalfitano–. La relación con el poder de los intelectuales mexicanos viene de lejos. No digo que todos sean así. Hay excepciones notables. Tampoco digo que los que se entregan lo hagan de mala fe. Ni siquiera que esa entrega sea una entrega en toda regla. Digamos que sólo es un empleo. Pero es un empleo con el Estado. En Europa los intelectuales trabajan en editoriales o en la prensa o los mantienen sus mujeres o sus padres tienen buena posición y les dan una mensualidad o son obreros y delincuentes y viven honestamente de sus trabajos. En México, y puede que el ejemplo sea extensible a toda Latinoamérica, salvo Argentina, los intelectuales trabajan para el Estado. Esto era así con el PRI y sigue siendo así con el PAN. El intelectual, por su parte, puede ser un fervoroso defensor del Estado o un crítico del Estado. Al Estado no le importa. El Estado lo alimenta y lo observa en silencio. (BOLAÑO, 2004, p.109)
A situação discutida por esses personagens não é recente e, como pôde ser observado ao longo dessa pesquisa, principalmente no segundo capítulo, a relação entre os intelectuais e o poder é ambígua desde o porfiriato. Nesse período, a estreita relação de Porfirio Díaz com os Científicos demonstra essa situação, pois, desde o século XIX, escritores foram recrutados para os serviços diplomáticos, refletindo um costume extendido a toda América Latina. A prática cumpria uma dupla função: “El hombre de letras prestigiaba al país en el exterior y el Estado ejercía una
especie de mecenazgo, como también lo hicieron algunos grandes diarios, al proporcionarle al escritor sus medios de vida”. (ALTAMIRANO, 2010, p. 18)
As gerações seguintes, os ateneístas (1910) e os siete sabios (1915), apesar de apenas cinco anos de separação, apresentam características bem diferentes, pois: “ sus diferencias fueron determinadas por el contexto histórico: si los primeros fueron humanistas diletantes, los segundos fueron intelectuales íntimamente comprometidos con la reconstrucción y la transformación del país: eran intelectuales “de pico y pala””. (GARCIADIEGO, 2010, p. 34), ou seja, enquanto os porfiristas e os ateneístas atuaram em âmbitos políticos, os siete sabios se dedicaram majoritariamente às atividades acadêmicas e culturais. No entanto, nenhum desses fatores os afastou do poder estatal.
Nesse contexto, José Vasconcelos é uma figura representativa do período, pois, com uma ampla política educativa e cultural, obteve muitos logros e, até meados do século XX, seu projeto foi exemplo e herança sem precedente. A relação do Estado mexicano pós-revolucionário com os intelectuais tem características únicas:
Para comenzar, dicho Estado asumió como propia, imprescindible e impostergable la función de fomentar una identidad nacional que definiera a México como un país nacionalista, justiciero y progresista. Esto facilitó el establecimiento de relaciones fluidas y abiertas con los intelectuales, y hasta meados del siglo XX apenas hubo quienes fueron críticos radicales del gobierno. En la medida que el Estado posrevolucionario mexicano no fue totalitario, los intelectuales pudieron mantener relaciones con los sucesivos gobiernos, de los que fueron ideólogos, funcionarios y representantes diplomáticos, o simplemente beneficiarios de sus numerosos proyectos educativos y culturales”. (GARCIADIEGO, 2010, pp. 36-37)
Assim como os científicos, os ateneístas, os siete sabios e outros grupos de intelectuais, entre eles os estridentistas e os contemporáneos, todos ocuparam não apenas cargos diplomáticos, mas também políticos, econômicos e administrativos. Esse fato é relatado por Villoro em El testigo, referindo-se ao escritor, diplomata,
ensaísta, poeta e Diretor Geral da Unesco entre 1948-1952, Jaime Torres Bodet, como se oberva: “Nada tan decisivo como el fin de los poetas, la firma de su vida. Torres Bodet existió como burócrata, pero murió como poeta, de un tiro en su escritorio”. (VILLORO, 2004a, p.184)
Conforme já foi mencionado, os estridentistas tiveram um envolvimento maior com a política, ocupando cargos públicos, inclusive, a nomeação de Maples Arce, seu líder, para deputado. No entanto, cabe ressaltar que, mesmo um grupo apolítico como os contemporáneos, cuja prioridade era a literatura e que rejeitaram o nacionalismo exacerbado do México revolucionário, o uso da injustiça social e da violência rural como únicos temas literários, assumiram, também responsabilidades públicas junto ao governo. Entretanto, a atitude predominante desse grupo foi o ofício literário, como menciona Javier Garciadiego em seu artigo “Los intelectuales y la Revolución Mexicana” (2010) que:
sin compromisos mayores con el proceso político y sociocultural de la Revolución, puede asegurar que se dio entonces el primer deslinde entre los principales intelectuales del momento y el Estado mexicano posrevolucionario. De cualquier modo, sólo un puñado de jóvenes leyó a los escritores del grupo Contemporáneos. Su literatura fue criticada por elitista y carente de nacionalismo. Su impacto inmediato fue menor. Además, dado que para sobrevivir varios de los “Contemporáneos” mantuvieron empleos menores en el aparato gubernamental, el deslinde nunca llegó a ser confrontación. (GARCIADIEGO, 2010, pp. 36-37)
Na década de 1940, o projeto filosófico de Hiperión, do qual Luis Villoro (pai de Juan Villoro) era um de seus líderes, toma conta do pensamento acadêmico, e a discussão a respeito da tipicidade do mexicano é utilizada pelo Estado com o apoio de intelectuais, principalmente desse grupo, para fomentar o nacionalismo no país. Bartra, ao criticar esse período, diz:
«Mexicano típico»: es un problema completamente falso, que sólo tiene interés como parte del proceso de constitución de la cultura política dominante. La idea de que existe un sujeto único de la
historia nacional - «el mexicano» - es una poderosa ilusión cohesionadora; su versión estructuralista o funcionalista, que piensa menos en el mexicano como sujeto y más en una textura específica - «mexicano» - , forma parte igualmente de los procesos culturales de legitimación política del estado moderno. La definición de «mexicano» es más bien una descripción de la forma como es dominado y, sobre todo de la manera en que legitimada la explotación. (BARTRA, 2009, p. 20)
A geração da década seguinte, conhecida como a Generación del Medio del Siglo, pode ser definida por uma postura contrária às tendências nacionalistas dos anos 40, sustentada no questionamento da Revolução e na denúncia das promessas revolucionárias não cumpridas por parte do governo mexicano. Muitos membros dessa geração fizeram parte do Centro Mexicano de Escritores, fundado em 1951 com um amplo sistema de bolsas através do apoio da Fundação Rockefeller. Esse Centro recebeu financiamento: “de destacados hombres de negocios y empresas mexicanas, tanto públicas como privadas” (ALBARRÁN, 1998, p. 3).
Para se demonstrar o que significou o Centro para esta geração na promoção da literatura mexicana desde a década de 50, destaca-se: a Poesía en Voz Alta (que iniciou em 1956), a Casa del Lago (fundada em 1959) e alguns livros que vieram à luz graças ao sistema de bolsas: “Pedro Páramo, La región más transparente, Balún Canán, Farabeuf, Morirás lejos y La señal, entre muchos otros”. (ALBARRÁN, 1998, p. 5, grifo nosso)
Considerando o domínio do Tratado de Livre Comércio, o aumento da pobreza e do narcotráfico, na crescente fuga de mexicanos para os Estados Unidos em busca de sustento, no excessivo poder dos meios de comunicação em seu fomento à democracia, na vídeo-democracia comandada por grandes consórcios comunicativos, como está representado os intelectuais em El testigo? Essa íntima relação entre os intelectuais e o poder intervém em sua principal função: “o principal
dever do intelectual é a busca de uma relativa independência em face de tais pressões.” (SAID, 2005, p.15) Assim, percebem-se os signos visíveis do fracasso da Revolução Mexicana num contexto que engloba partidos políticos marcados por escândalos de corrupção, um sistema parlamentar corrupto desde suas estruturas, a influência do Estado através de um enorme sistema de bolsas, apoios e empregos, uma sociedade de classes, com um elitismo excludente e com baixo desenvolvimento econômico e consequentemente educativo. Esse fato pode ser observado nos empregados da família do protagonista, nas condições desumanas em que vive o capataz Eleno e também no filho de Ignacia, que não frequenta a escola e está aprendendo com ela as primeiras lições em um pedaço de papel.
Não é nenhuma novidade que, atualmente, vive-se em tempos de incerteza, pois a situação se radicaliza à medida que valores universais como liberdade, justiça, razão, objetividade e verdade, matérias do intelectual, estão perdendo legitimidade e valor. Tempos pós-apocalípticos – Carlos Monsiváis, Hipermodernos – Gilles Lipovetsky, Modernidade líquida – Bauman ou Pós-modernos para Terry Eagleton, que diferencia pós-modernismo de pós-modernidade, sendo que o primeiro, para Eagleton (1998), refere-se em geral a uma forma de cultura contemporânea, enquanto que o termo pós-modernidade: “é uma linha de pensamento que questiona as noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, os sistemas únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação. (EAGLETON, 1998, p. 7)
Vale reforçar que o termo pós-modernidade é complexo, principalmente no que se refere à dificuldade para tentar denominar o momento em que se vive, já que não abarca claramente o que vem acontecendo no âmbito cultural, histórico, político, social e econômico. No entanto, essa é a expressão mais popular utilizada nas
últimas décadas. Momento em que está inserida a figura do intelectual, fruto de seu tempo e das relações nele estabelecidas. Tempos conflituosos, fluidos, onde não há mais espaço para o intelectual universal, se é que, em algum momento, houve tal categoria, pois qualquer definição é sempre decorrente do período em que se vive. Na verdade, o termo intelectual vem sendo discutido ao longo do século XX por inúmeros autores, destacando-se Antonio Gramsci, Julien Benda, Jean Paul Sartre, Carlos Monsiváis, Edward Said, Francisco Oliveira, entre outros. São inúmeras, entretanto, as questões levantadas, principalmente no que se refere às críticas ao seu engajamento, comprometimento e participação na sociedade.
A partir dos anos de 1960, percebe-se no contexto latino-americano um deslocamento do clássico homme de lettres, escritores, críticos e expositores de cátedra, sendo substituídos gradativamente por profissionais universitários cada vez mais especializados e sem o brilho dos generalistas do passado, numa tendência que afeta claramente os intelectuais de inclinações esquerdistas e revolucionárias. É preciso frisar que, antes desse período, não existiam muitas dúvidas em relação à “essência” e à função dos intelectuais, uma vez que se percebia claramente o seu compromisso com a verdade, a justiça e a democracia. No entanto, em algumas gerações, os intelectuais passaram de uma consciência crítica de nação a meros especialistas em legitimação.
Ao longo do tempo, o termo foi ganhando contribuições importantes, destacando-se Jean Paul Sartre e Edward Said. Quanto a Sartre, trata-se do incisivo Em defesa os intelectuais, cuja publicação francesa é datada de 1972, na qual foram reunidas três conferências proferidas no Japão em 1965. Acerca de Said, considera- se fundamental a obra Representações do intelectual, conjunto de seis conferências pronunciadas na BBC em 1993.
Para Sartre, “o intelectual é alguém que se mete no que não é de sua conta” (SARTRE, 1994, p.14), o que demonstra uma inquietude diante da vida e da sociedade. Pensamento compartilhado por Said, que trata o papel público do intelectual como “um outsider, um “amador” e um perturbador do status quo” (SAID, 2003, p.12). Ao advogar o papel de amador para o intelectual, Said destaca o sentido de que somente assim poderia agir e lutar por causas maiores e alheias as suas, e não está tratando o termo como sinônimo de amadorismo ou desconhecimento, mas como forma de manter uma relativa independência no que se refere à esfera pública, contra a qual ele intervém criticamente.
“Intelectual engajado: uma figura em extinção?” Esse é o título do artigo de Marilena Chauí publicado no livro O silêncio dos intelectuais (2006), um questionamento que propõe três causas possíveis para a extinção desse engajamento. A primeira delas é o abandono das utopias revolucionárias, a rejeição à política e um ceticismo desencantado. A segunda é, sob os imperativos do neoliberalismo, o encolhimento do espaço público e o alargamento do privado. Já a última refere-se à nova forma de inserção do saber e da tecnologia no modo de produção capitalista. (CHAUI, 2006, pp. 29-30) Ao levantar as possíveis causas, Chauí (2006) traz à discussão o retraimento do engajamento, a ausência de pensamento e o silêncio dos intelectuais.
Nesse contexto, a partir de Sartre e do modelo do intelectual engajado, percebe-se que esse intelectual não pretende mais abarcar o todo, aproximando-se criticamente de fenômenos que o cercam, como a globalização, a violência, a política e a mídia. Em outras palavras, o intelectual transformou-se numa testemunha atenta de seu tempo, conseguindo perceber que tudo a sua volta está em profunda convulsão.
Pode-se considerar que a relevância dos intelectuais no panorama político e cultural latino-americano, apesar de estar em claro declínio, ainda é altamente elevado em países nos quais amplas camadas da população apresentam dificuldades para acessar a palavra escrita. Esse fato acaba por converter o intelectual numa espécie de intérprete de emergência e guru acidental. (VILLORO y VOLPI, 2000, p.3)
É possível afirmar que o intelectual clássico sartreano, proclive do ensaio literário e nutrido de conhecimentos teóricos e históricos, encontra-se agora em decadência, mas não em extinção. Deslocado pelo especialista de tendências tecnocratas, com formação acadêmica delimitada pelo mercado laboral, não dispõe de uma renda financeira própria das antigas elites, mas de salários obtidos no âmbito universitário, na administração de bens culturais e, ocasionalmente, na investigação científica. Entretanto, como destaca o filósofo argentino Hugo Celso Felipe Mansilla:
no hay duda de que los intelectuales todavía exhiben un peso relativamente importante a la hora de formular políticas públicas, de enunciar alabanzas o críticas importantes a las acciones gubernamentales, de desarrollar temáticas relevantes en el seno de los masivos de comunicación y esbozar fragmentos de una futura consciencia nacional. (MANSILLA, 2002, p. 435)
No entanto, não se pode desconsiderar que, diante do inegável processo de modernização na atualidade, o intelectual se transforme, desaparecendo quase que completamente a sua função clássica de espírito crítico. E, mesmo com o processo democrático, pode-se constatar uma atmosfera de desencanto, relativismo e pessimismo, que pode ser percebida no âmbito sociocultural. Tal fato se deve, em última instância, ao desempenho nada promissor das variáveis econômicas e político-institucionais e, em menor grau, ao afastamento da intelectualidade de seu
posicionamento crítico e até contestatório para se integrar com surpreendente facilidade às estruturas de poder dos regimes neoliberais.
Os intelectuais de El testigo, na maior parte dos casos, apresentam essa particularidade pós-moderna mencionada anteriormente, no sentido de que perderam a fé nas grandes estruturas de pensamento e paradigmas, estando ligados a centros de poder e procurando de todas as formas uma reatualização da história e da memória histórica a partir de determinado ângulo.
Em relação a essas mudanças, já em 1995, em seu artigo “Neoliberalismo à brasileira” (2010b), o professor Francisco Oliveira destacava a situação dos intelectuais diante das mudanças neoliberais, tratando particularmente da “tirania neoliberal, cujas consequências sociais já veremos; mas, principalmente, seu risco maior é o de legitimar uma enorme onda conservadora” (OLIVEIRA, 2010b, p. 28), mencionando, certamente, a situação do Brasil, servindo, no entanto, para pensar também a América Latina. Já em outro artigo publicado também em 1995, intitulado “Balanço do neoliberalismo” (2010), Perry Anderson afirma que:
a virada continental em direção ao neoliberalismo não começou antes da presidência de Salinas, no México, em 88, seguida da chegada ao poder por Menem, na Argentina, em 89, da segunda presidência de Carlos Andrés Perez no mesmo ano, na Venezuela e de Fujimori, no Peru, em 90.[...] E Salinas, notoriamente, não foi sequer eleito, mas roubou as eleições com fraudes. (ANDERSON, 2010, p. 20)
Após uma série de levantamentos sobre a situação do intelectual nesse contexto, Francisco Oliveira diz: “Eu não queria passar a impressão de um Apocalypse Now. Mas que já sentimos o cheiro ou a catinga de enxofre no ar, ah!, basta ter olfato”. (OLIVEIRA, 2010b, p. 28, grifo nosso)
Cabe ressaltar que o fracasso retratado no romance não é apenas desse momento, mais de uma geração, fruto dos intelectuais engajados, descendentes de 1968, momento histórico, não só para os intelectuais franceses, mas também para o
México e para grande parte da América Latina. Pode-se dizer que esse período foi o auge do intelectual, enquanto hoje é apenas o do testemunho. Afinal, ele é convocado a testemunhar a miséria e a exclusão, que não vive, pois é, ao mesmo tempo, burguês e não-burguês, ou seja, beneficiário de um sistema social injusto, mas também defensor de uma ordem social que busca a eliminação de privilégios.
Desta forma, hoje, quem poderia ser considerado intelectual? Pela impossibilidade de abarcar o todo, pois o todo, assim como as respostas cabais e universais, é, na maioria das vezes, falso. Sendo assim, é mais adequado pensar que:
Produto de sociedades despedaçadas, o intelectual é sua testemunha porque interiorizou seu despedaçamento. É, portanto, um produto histórico. Nesse sentido, nenhuma sociedade pode se queixar de seus intelectuais sem acusar a si mesma, pois ela só tem os que faz. (SARTRE, 1994, p. 31)
Para Sartre, o intelectual moderno é, antes de tudo “um homem de contradição, que se define no campo da esquerda, e aí, sobretudo os revolucionários” (SARTRE, 1994, p.7-8). Assim como Said para quem “todo intelectual tem de ser um homem ou uma mulher de esquerda” (SAID, 2003, p.12).
Mas o que significa ser de esquerda, num país em que a esquerda jamais chegou ao poder? Tomando o caso específico do México, observa-se que a via política escolhida pelo PAN assemelha-se àquela que estava no poder, com fidelidade às instituições financeiras internacionais, manobra política amoral, rigor orçamentário, ou seja, a mesma política com a qual afirmava romper assim que chegasse ao poder.
Vale reforçar que a íntima relação entre os intelectuais e o poder no México não é recente, nem se remonta à última década. Como já foi mencionado ao longo deste trabalho, estudos históricos baseados em amplo material documental
mencionam que, desde antes da independência, a maior parte daqueles que hoje são chamados de intelectuais já estava envolvida estreitamente com o poder estatal.
Sergio Gutiérrez Negrón em seu artigo intitulado “El intelectual en pedazos: representaciones de la intelectualidad mexicana posrevolucionaria en El testigo de Juan Villoro” (2011), indaga sobre a figura do intelectual mexicano no período pós- revolucionário, acentuando um questionamento a respeito da posição de mediador entre o poder e os cidadãos ocupada por essa figura. Esse autor classifica os personagens que ocupam a posição de intelectual como “una intelligentsia coaptada, patológica [...], una masa cancerosa de fracasos” (GUTIÉRREZ NEGRÓN, 2011, p.2), pois parece não haver dúvidas de que eles estão desesperados para manter-se próximos ao poder, lugar que sempre ocuparam, seja na ditadura, na revolução, ou no momento pós-revolucionário, conforme retratado na obra. E essa luta continua nesse contexto de persistente corrupção política e de desigualdade social, apesar de o país ter sido tomado pelos poderes da igreja, da mídia e do narcotráfico.
Nota-se que os personagens desse romance estão em crise de definição, fundidos num pessimismo latente, e, em vez da alternância política impulsioná-los na direção de uma mudança, com o intuito de construir uma nova cultura política e democrática, eles preferem retroceder. Tal não ocorre, entretanto, quando se pensa numa maneira de aprender com o passado, uma vez que, nesse caso, surge um olhar de desesperança, pois sabem que nada mudou, e isso impossibilita a comunicação com as novas gerações do México pós-revolucionário.
Para Agamben (2008), a testemunha radical é a que não sobreviveu, a que