2.3. YEREL SĠYASETĠN MEġRUĠYETĠNĠN ġEKLĠ OLMAYAN UNSURLARI
2.3.2. GüçlendirilmiĢ Yerel Özerklik
2.3.2.3. Ġdari Özerklik ve Siyasal Özerklik Arasında Kıyaslama
A constelação de personagens de El testigo apresenta como protagonista Julio Valdivieso, que compartilha as iniciais do nome e a idade com Juan Villoro. É professor de Literatura Hispano-americana, especialista nos poetas do grupo Contemporáneos, trabalhando na Universidade de Nanterre-França, cenário da explosão estudantil de 1968. Valdivieso deixou seu país natal num exílio voluntário
em meados dos anos 70, período de grande conflito no México após o massacre de Tlatelolco. Regressa, em seu ano sabático, com uma bolsa de estudos da Casa del Poeta – uma instituição cultural patrocinada pelo governo, dedicada à obra de Ramón López Velarde. Ter como protagonista esse personagem é, sem dúvida, um bom caminho para falar de literatura, o que permite a introdução de diferentes recursos.
Valdivieso, que vaga como um sonâmbulo, tem o olhar perplexo para sua própria pátria, uma vez que não pode enfrentar a realidade como tal, pois, para ele, trata-se do realismo mágico, havendo, neste caso, muita dificuldade para diferenciar a ficção da realidade.
Jean Pierre Leiris, o companheiro francês da Faculdade onde Valdivieso leciona, funciona como uma espécie de consciência crítica do protagonista que, desde o início do romance, faz reclamos revolucionários ao protagonista, conclamando-o à responsabilidade para com a nação nesses novos tempos democráticos.
O narrador de El testigo está sempre refletindo sobre o que acontece ao seu redor, um raisonneur. O próprio Villoro já declarou em entrevista que sua narração costuma ter esse formato: “En todo lo que escribo la narración ocurre en dos velocidades: la acción y el comentario sobre la acción”. (VILLORO apud BRADU, 2005, p.1)
A narrativa está composta de maneira tradicional e contemporânea ao mesmo tempo, pois tem um narrador onisciente em terceira pessoa, uma divisão em capítulos, não apresentando, portanto, uma ruptura abrupta com a narrativa do boom, ao contrário da narrativa de testemunho tradicional, quando ocorre a narração em primeira pessoa, com um discurso mediado por um intelectual para dar voz ao
discurso do subalterno. No entanto, é, ao mesmo tempo, contemporânea, pois aparece claramente no romance uma eliminação de fronteiras entre o erudito e o popular, remetendo a um hibridismo de culturas causado, principalmente, pela interferência da comunicação de massa, representada pela telenovela “Por el amor de Dios” e da erudição com a introdução dos textos do poeta mexicano Ramón López Velarde. Tudo isso, numa clara combinação de poetas malditos e estrelas de televisão, misturando a alta e a baixa cultura, com cenários que vão desde palácios na embaixada a ranchos paupérrimos no deserto.
É importante perceber que aparece uma cuidadosa linguagem genuinamente mexicana, “cheia de gírias”, reforçando a caracterização dos personagens e do ambiente a que pertencem, dentro de uma narrativa que mistura diálogos, intertextualidades, reflexões e, principalmente, personagens que não podem ser classificados como heróis ou vilões, pois estão todos encharcados de todos os males, e não há certeza de nada. Tudo isso reforça essa não ruptura de Juan Villoro, que é grande admirador de Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, como se pode observar desde as primeiras páginas do romance, fato também declarado recentemente em entrevista a uma revista argentina:
Cortázar fue un autor al que yo leí como libro de autoayuda, con una idolatría absoluta, sin distanciarme de él, queriendo enamorarme de La Maga, irme a vivir a París, fumar tabaco oscuro, oír discos de jazz... Yo quería ser un personaje de Cortázar. Nunca pensé que estaba distanciándome de su escritura. (VILLORO apud ARIAS, 2008, p.1)
Partindo, então, de Valdivieso, um escritor fracassado, cuja carreira terminou antes de começar, pode-se confirmar a predileção de Villoro pelos personagens derrotados, os quais perpassam sua obra, já que o fracasso é “ uma das chaves de sua escritura ao longo de sua carreira.” (PATÁN, 2011, p. 177) Esse fato determina o ângulo da narração, uma vez que se percebe a presença do fracasso em todos os
personagens. Afinal, eles não têm princípios, nem moral e, muito menos valores. O protagonista, viciado em drogas, torna-se um respeitado especialista em poetas esquecidos através do roubo de uma tese e passa a participar de um perigoso jogo duplo, prometendo para grupos rivais o que não pretende cumprir. Diante desses fatos envolvendo um professor, é natural que se pergunte onde está sua ética e o que ocorreu com seus valores e princípios.
Em seu artigo A crise da ética (2001), Emmanuel Carneiro Leão destaca que “Não vivemos apenas uma crise de ética. Vivemos a radicalidade da crise.” (LEÃO, 2001, p.5) Há uma crise de regras, de valores, de parâmetros e de princípios, com a economia se configurando como o valor preponderante no lugar da ética. Como resultante disso, é evidente que o dinheiro tornou-se o elemento capaz de fazer esquecer os princípios mais importantes para a formação do ser humano. Mas adiante, Leão destaca: “Não é difícil perceber que nenhuma ética poderá sobreviver a esta atropelada do valor econômico.” (LEÃO, 2001, p.7)
O protagonista sofre, tenta entender quem realmente é, procura suas raízes e chega a estranhar seu próprio nome, refletindo:
“En cambio, su propio nombre, escrito en la tarjeta de registro del hotel, le produjo repentina extrañeza: «Julio Valdivieso», leyó en silencio, como si tuviera que cerciorarse de que regresaba en representación de sí mismo.”(VILLORO, 2004a, p. 15).
Julio Valdivieso é apaixonado por sua prima Nieves, um amor extraviado que o consome em segredo: “Durante su primera década en Europa recibió pocas noticias de Nieves, hasta que ella murió en la carretera. La noticia lo devastó, pero ni así habló de ella” (VILLORO, 2004a, p. 42). Esse amor percorre toda a narrativa, e era com ela que pretendia fugir para se casar na Itália. No entanto, no dia marcado, ele confundiu o local e nunca soube se sua prima havia ido ou não ao encontro. Quando o romance se inicia, ele já é casado com a filha de seu antigo orientador,
Paola, italiana, tradutora de Best sellers, figura que ajuda a divulgar no exterior a imagem de um país exótico, uma vez que os escritos vão desde as Cartas de relação de Hernán Cortés, passando pela presença dos surrealistas (André Breton e Antonin Artaud), pelas gravuras de José Guadalupe Posada, por El laberinto de la soledad, de Octavio Paz, até a presença do tráfico. Essas imagens, no entanto, pelo que sugere a constelação de personagens criada no romance de Villoro, pouco contribuem para o debate sobre o país.
É relevante destacar também que, além de Nieves e Paola, Valdivieso, durante a obra, relaciona-se com várias prostitutas. E no final do romance, através de um telefonema, termina sua relação de doze anos com a esposa, mantendo um relacionamento amoroso com Ignacia, uma jovem muito pobre. Ela vive numa tapera no deserto do México com seus três filhos, não tem marido, e a cidade suspeita que os filhos dela sejam fruto do relacionamento com o Padre Monteverde.
Outro personagem importante é o pai do protagonista, Salvador Valdivieso. Ele era o principal especialista do país na figura jurídica da testemunha, fato que o filho somente toma ciência durante a homenagem póstuma recebida em um discurso na Faculdade de Direito da UNAM, na qual Salvador lecionava. Julio Valdivieso fica sabendo também que, depois da tese de licenciatura, seu pai havia ocupado a vida inteira para tentar responder esta pergunta: “¿Qué requisitos legales se necesitan para que alguien rinda confiable testimonio de los hechos?” (VILLORO, 2004a, p.249)
Salvador Valdivieso era um desconhecido para o filho, e fatos muito importantes de sua vida somente vieram à tona após sua morte repentina por um aneurisma. De todos eles, o que mais perturbou Julio foi o de ter descoberto que seu
pai também havia tido um amor extraviado com Teresa, a mulher com quem seu pai havia passado toda a vida como se fosse um vizinho invisível.
Julio Valdivieso é um personagem eticamente ambíguo, pois se compromete com o padre Monteverde, dizendo que o apoiará no processo de canonização de López Velarde. Entretanto, promete o oposto para os companheiros da Casa do Poeta, visto serem estes radicalmente contra tal ideia. É também uma figura de moral duvidosa, que põe em xeque a fidedignidade da testemunha, pois sua convocação está baseada em documentos de sua família, visto esses poderem comprovar o milagre do qual o padre necessita. Entretanto, não há nada consistente em relação a esse fato, e seu saber não é suficiente para que se possa extrair algum valor capaz de, no México posterior ao ano 2000, conduzir uma discussão a respeito de tal assunto.
Valdivieso é um protagonista notavelmente passivo, com um olhar sempre sério e melancólico. E isso é utilizado pelo autor como pretexto para denunciar a dor que um exilado sente ao voltar às suas origens e constatar que tudo permanecia igual, ou pior do que quando havia partido, ou seja, um país dividido por diferenças econômicas, por convicções políticas e religiosas e por cartéis de drogas. Além disso, ele descobre que atrás da telenovela (e de seu financiamento) estão os narcotraficantes. Como diz o personagem Vikingo: “cualquier dinero tiene que ver con el narco. Así funciona este pinche país. La droga mueve tanta lana como el petróleo en un buen año”. (VILLORO, 2004a, p. 163)
Juan Villoro, no artigo intitulado “Carnaval y apocalipsis” (2010), menciona que o dinheiro que circula no México vem geralmente de três fontes que complicam a ideia de patrimônio: do narcotráfico, das remessas de imigrantes e do petróleo. É sabido que essas fontes não são duradouras, como comenta o autor de El testigo:
El petróleo no es renovable y a falta de una política a largo plazo se discute su privatización; los paisanos que mandan dinero son la prueba del fracaso de una nación que no pudo retenerlos (llegará el momento en que todos sus parientes estén del otro lado y no tengan a quién mandarle dólares, o sólo mandarán los que sirvan para mantener las tumbas de sus antepasados); el crimen organizado controla más pistas de aterrizaje que la aviación civil (no sólo está al margen de la fiscalización, sino que se ha apoderado del cielo que los mayas escrutaban para planear sus siembras). El dinero no es resultado del desarrollo; sigue rutas evanescentes, transitorias o secretas, determinadas por el petróleo, la emigración y el narco. (VILLORO, 2010, p. 27)
Villoro apresenta em El testigo uma visão crua e desesperançada do México atual, o qual, após décadas com o PRI no poder, sonha conseguir se aproximar do modelo democrático do ocidente. Com muita precisão, o olhar do autor abarca uma sociedade que vai desde os empregados mais comuns de uma fazenda, os chamados domésticos, a magnatas do mundo da comunicação.
O olhar dos protagonistas nas obras de Villoro aparece desde seu primeiro romance, El disparo de argón (1991). Ele já declarou em entrevista que lhe interessa muito a literatura como registro óptico: “Cuando la literatura está funcionando verdaderamente, no vemos las letras ni las palabras, sino las imágenes. Lo verbal viene como consecuencia” (VILLORO, 1997, p. 122).
Nesse contexto, observa-se que Valdivieso dialoga com a definição de testis presente na obra de Agamben (2008), respeitando a devida distância, pois o filósofo italiano fala da testemunha no caso limite, a Shoah. Nesse caso, conforme já mencionado, a testemunha é alguém fora dos fatos, mas que deve narrá-los. Essa distância, por si mesma, já comporta uma limitação e, ao mesmo tempo, supõe uma obrigação. Villoro, em entrevista a Fabienne Bradu, comenta:
un testigo de interés cuestiona su propia fiabilidad, en qué medida podemos rendir testimonio genuino de lo que vemos, puesto que son nuestros anhelos, nuestros nervios, nuestros prejuicios los que nos hacen ver determinada manera. [...] Cualquier testigo mínimamente honesto cuestiona si las cosas ocurrieron realmente como las vio. [...]
es difícil que alguien diga: “soy el testigo certero” (VILLORO apud BRADU, 2005, p. 1)
A figura da testemunha ganha relevada importância dentro desse contexto, pois os personagens que ficaram exigem que Julio Valdivieso, a quem consideram a testemunha perfeita – um testis –, dê testemunho de algo que não viveu, uma vez que não estava em seu país. Eles acreditam que, devido ao fato de ser um experto, um perito, tem uma posição privilegiada diante de quem ficou, enquanto que, para Valdivieso, as testemunhas perfeitas são aquelas que permaneceram em seu país, os sobreviventes – superstes –, pois somente eles viram no que o país se havia transformado. Em meio a tudo isso, quem pode ser a testemunha perfeita? É preciso ter visto, ter vivido, ter passado por um evento traumático para testemunhar? Nas últimas páginas do romance, Valdivieso reflete sobre o posicionamento dos que saíram e dos que permaneceram:
la gente se divide entre los que se van y los que se quedan, los que viven para una constancia y una repetición y los que necesitan un aire siempre extranjero, un idioma en el que encajan palabras inseguras, la falta de pertenencia como mayor seguridad. (VILLORO, 2004a, p. 434)
Valdivieso é testemunha desse tempo de conflito, porém não é uma testemunha de primeira hora, nem uma vítima pessoal dos problemas econômicos e políticos que aconteceram no México enquanto esteve fora: ele é uma testemunha distanciada, um “testis tardio” (RODRIGUES, 2006, p. 112), que assiste como espectador e participa como especialista. Na verdade, ele é uma testemunha num contexto ficcional, que dá seu testemunho num momento posterior, contribuindo para criar uma reflexão a respeito das sequelas deixadas pelos eventos traumáticos de seu país. Ele é aquele que chega atrasado à cena, aquele que tem a oportunidade de exercitar um olhar retrospectivo e analítico, mas também
prospectivo, pois pode lançar perguntas ao passado com vistas às perguntas abertas pelo presente.
Mesmo o romance propondo, desde o começo, um rompimento na história dos últimos oitenta anos, a partir da perda nas eleições por parte do PRI, percebe-se que tudo está ancorado no passado e que o futuro é apenas uma reatualização do que já ocorreu. A história pessoal e familiar de Valdivieso se confunde com a nacional, num híbrido de realidade, ficção e metaliteratura, estabelecendo um processo que questiona e incomoda a História do país. Ele é um personagem complexo, cheio de incertezas e dúvidas, assim como o romance, pois: “Su nombre no venía de un mártir sino de alguien que miraba el mundo como si sobrara”. (VILLORO, 2004a, p. 209)
Julio Valdivieso não voltou ao México para julgar, já que não tem autoridade para isso, e muito menos para ser julgado: “parece que lhe interessa apenas o que torna impossível o julgamento, a zona cinzenta na qual as vítimas se tornam carrascos, e os carrascos, vítimas.” (AGAMBEN, 2008, p.27). Ele vive há muitos anos na Europa, tendo reduzido voluntariamente seu campo de estudo para se esconder. Por um amor extraviado, pelo escritor que não foi e por ausências e frustrações, define-se como um perdedor. É então convocado por todos os outros personagens para ser a testemunha perfeita: “Eres el testigo perfecto; ni siquiera eres creyente” (VILLORO, 2004a, p. 270), comenta o personagem Félix Rovirosa, se é que a testemunha perfeita realmente existe.
Valdivieso é convocado por ser um especialista, um perito, não em López Velarde, mas no grupo que o rodeava, os Contemporáneos. Ele se tornou um experto através do roubo da tese de um estudante uruguaio morto durante a ditadura militar naquele país e a utilizou para conseguir uma bolsa de doutorado na
Itália. Escreveu um único conto bom em toda sua vida, Rubias de sombra, e foi justamente a desconfiança de Félix Rovirosa em relação a esse prodígio que o levou à tese roubada.
No entanto, não há posição privilegiada, pois todos são convocados a testemunhar. E num país onde a corrupção domina importantes grupos de poder, não há a auratização de classes ou grupos. Deste modo, se Valdivieso é considerado por todos um testis e, portanto, a testemunha mais importante, todos seriam considerados superstes, sobreviventes, e, por isso mesmo, aptos a testemunhar. Retomando Seligmann-Silva (2005), não se deve valorizar um paradigma sobre o outro, deve-se entender o testemunho “na sua complexidade enquanto um misto entre visão, oralidade narrativa e capacidade de julgar: um elemento complementa o outro, mas eles se relacionam também de modo conflitivo”. (SELIGMANN-SILVA, 2005, pp.81-82)
Com exceção de Valdivieso, todos os outros personagens são figuras comprometidas ideologicamente e estão vinculadas a um saber institucionalizado, como, por exemplo: Padre Monteverde (Igreja); Vikingo e Felix Rovirosa (mídia); e Constantino Portella (narcoliteratura). Grupos que no México pós TLCAN, logo depois da queda do PRI, reivindicam com mais força o poder de representação.