Com o tema Nossas raízes indígenas na edição n. 24, identifica- mos e analisamos sete artigos que refletem a questão dos povos indígenas e suas tradições. Além dos artigos, ilustrados com desenhos, a revista também apresenta pequenos textos que podem ser trabalhados interdisciplinarmente, como por exemplo a história do Brasil recontada em rimas175 e a etimologia de alguns nomes de origem indígena176. E também
traz indicações de leituras e notícias pertinentes ao Ensino Religioso.
O primeiro artigo177, Direito à diferença, tem como articulista o
doutorando em Ciências da Religião Antonio Boeing. Abordagem: Fenome- nológica. O texto apresenta uma perspectiva histórica a respeito dos povos indígenas que habitavam o Brasil antes da colonização. Esses povos nem sempre foram respeitados em sua cultura e modo de viver, pois “deveriam entrar na lógica civilizatória, por ‘bem’ ou à força”178. O articulista aponta que
a violência praticada contra os povos indígenas é resultado de um conceito de civilização/evangelização que combate o diferente e o extermina. Eixo
175 Consta nos créditos da revista que esse texto foi extraído de MAIA, Germano. Um povo
sem rosto. São Paulo: Edições Paulinas, 1983. In: Diálogo – Revista de Ensino Religioso, ano VI, outubro, no 24, p. 22-25.
176 Esse texto também é uma reprodução, cuja referência a revista Diálogo apenas indica
Jornal Porantim/Cimi.
177 BOEING, A., Direito à diferença. In: Diálogo – Revista de Ensino Religioso, op. cit., p. 07-
12.
temático: Ethos, por sua perspectiva que aponta para a constatação do
massacre histórico contra os povos indígenas.
O segundo artigo179, O desafiante encontro com o outro, traz no- vamente como articulista a graduada em letras Therezinha Motta Lima da Cruz, que escreveu na edição n. 18. Abordagem: Fenomenológica. Um dos principais elementos que o texto ressalta é a contribuição da Campanha da Fraternidade (CF) 2002 para a reflexão acerca da importância dos povos indígenas. A autora apenas cita esse evento, não o desenvolve em seu artigo. O texto evidencia as “variadas contribuições indígenas que fazem parte da nossa cultura”180. Eixo temático: Culturas e Tradições Religiosas,
pois o texto trata de questões religiosas e culturais.
O terceiro artigo181, O canto dos Guarani, é desenvolvido pelo graduado em história Maurício Fonseca. Abordagem: Fenomenológica. O artigo trata especificamente dos povos Guarani e seus esforços para preser- var a sua cultura e suas tradições através do canto “que ocupa um papel fundamental em sua relação com os deuses que criam e regem a vida hu- mana e a de todos os seres vivos”182. Eixo temático: Culturas e Tradições
Religiosas, pois o texto evidencia elementos do ritual Guarani Xondaro, tais como os instrumentos que acompanham esse ritual.
O quarto artigo183, Guarani, um povo místico, tem como articulista o mestre em comunicação Benedito Prezia. Abordagem: Religiosa. Este artigo também trata dos Guarani e difere do anterior no enfoque de sua abordagem, que apresenta alguns mitos, crenças e festas desse povo. Segundo o autor, os Guarani são os místicos da floresta, pois não “se começa nenhuma atividade sem rezar, isto é, sem pedir a proteção
179 CRUZ, T. M. L., O desafiante encontro com o outro. In: Diálogo – Revista de Ensino
Religioso, n. 24, p. 15-20.
180 Ibid., p. 18. 181
FONSECA, M., O canto dos Guarani. In: Diálogo – Revista de Ensino Religioso, n. 24, p. 26-31.
182
Ibid., p. 28.
183
de Deus para aquela atividade”184. Eixo temático: Teologias, por apresentar
os elementos essenciais da espiritualidade dos povos Guarani.
O quinto artigo185, Xamã, sacerdote e curador, traz como articu- lista o xamã Sthan Xannia, cuja formação se desenvolveu não em faculdade, mas na convivência com índios de várias aldeias do Brasil e dos Estados Unidos. Abordagem: Fenomenológica. O artigo propõe a reflexão acerca das práticas do xamã, que “é geralmente visto como alguém que pode curar as doenças e dirigir as cerimônias e rituais da comunidade”186. O artigo se
concentra na pessoa do xamã e discute de modo tênue o xamanismo. Eixo
temático: Culturas e Tradições Religiosas, por dissertar acerca de algumas
características do xamã e do xamanismo.
O sexto artigo187, Nossas raízes indígenas, traz novamente o mestre em comunicação Benedito Prezia, que escreveu o artigo quatro desta edição. Abordagem: Fenomenológica. Este texto complementa as informações apresentadas pelo articulista em seu artigo anterior. O texto evidencia “a influência dos povos indígenas em quatro níveis: na cultura diária, no artístico-cultural, no linguístico e na religiosidade brasileira”188. Eixo temático: Culturas e Tradições Religiosas, por destacar as influências
da matriz indígena na cultura brasileira.
O sétimo artigo189, Povos indígenas – Uma visão pedagógica,
traz como autora a mestre em educação Viviane Cristina Cândido. Aborda-
gem: Fenomenológica. A articulista inicia o texto relembrando um fato ocor-
rido em 1997, na cidade de Brasília (DF), quando cinco jovens de classe média alta atearam fogo no índio Pataxó, Galdino Jesus dos Santos. No texto se propõe a necessidade de uma prática pedagógica que retrate a
184
Ibid., p. 33.
185
XANNIA, S., Xamã, sacerdote e curador. In: Diálogo – Revista de Ensino Religioso, op. cit, p. 36-38.
186
Ibid., p. 38.
187
PREZIA, B., Nossas raízes indígenas. In: Diálogo – Revista de Ensino Religioso, n. 24, p. 39-42.
188
Ibid., p. 39.
189
CÂNDIDO, V. C., Povos indígenas – Uma visão pedagógica. In: Diálogo – Revista de Ensino Religioso, op. cit., p. 44-48.
verdadeira imagem dos índios em detrimento à visão estereotipada que, em geral, habita o imaginário popular das pessoas. Segundo a autora, “falamos de povos indígenas como conteúdo e não conseguimos estabelecer vínculos, não ajudamos nossos alunos a olhar para o diferente com uma atitude de reverência”190. Eixo temático: Ethos, por destacar a necessidade
de uma nova visão em relação aos indígenas.
Nos sete artigos da edição n. 24, podemos perceber que as abordagens mesclam elementos históricos e culturais da matriz indígena presente na cultura brasileira. Há uma preocupação de fundo que é o resgate e a valorização de nossa matriz nativa. Entre os articulistas, identificamos um de origem indígena, fato que dá visibilidade aos povos indígenas através de alguém que os represente por também ser nativo.
No que diz respeito aos eixos temáticos, classificamos dois artigos no eixo Ethos; quatro em Culturas e Tradições Religiosas; e um em Teologias. É interessante destacar que, embora um ou outro texto mencione algum rito ou mito indígenas, estes aparecem de forma muito tênue nas abordagens, o que poderia ser mais explicitado pelos articulistas, pois só refletir acerca da história acaba deixando de explorar a riqueza cultural e religiosa dos povos indígenas.