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3. BULGULAR VE YORUM

3.2. Belediye Merkezleri Çalışanlarına İlişkin Bulgular

3.2.9. Yerel Hizmetin Avantajları Ve Dezavantajları

pânica, condenando os homens pelo terror e pelo encantamento” 310

Assim como Alfredo Ellis Jr., Cassiano Ricardo enfatizou a relação entre os aspectos geográficos peculiares ao planalto paulista e o desenvolvimento histórico de São Paulo. Além disso, destacou também a contribuição decisiva do sertão para a ruptura dos paulistas com os traços culturais trazidos pelo povoador europeu. Contudo, um dos pontos centrais, nos quais a análise presente em Marcha para Oeste contrasta a de Alfredo Ellis Jr., refere-se a tentativa de romper com a perspectiva regionalista.

A travessia do Caminho do Mar, ligação entre o litoral paulista e a vila Piratininga foi associada, em Marcha para Oeste, a um “nascer de novo”. Semelhante a um ritual de passagem, Cassiano Ricardo descreve que, por esse caminho, “subia o pessoal agarrando em raiz de árvore, machucando os joelhos em pedra e correndo risco de rolar pela ribanceira”.311 Ao chegar a São Vicente, era necessário ainda pagar um tributo à terra: aquele que tivesse conseguido chegar, “que deixasse os preconceitos de fidalguia, de côr e de origem na planície de Cubatão” [sic] e que não desejasse “saber do litoral”.312

De acordo com Cassiano Ricardo, a partir daí a história do “colonizador” seria ditada pelo sertão. Os laços de solidariedade forjados pela necessidade de defesa comum contra o índio e o pirata eram os primeiros reflexos da sua força determinante. Ao mesmo tempo em que despertava o medo, o sertão 309Ibidem, p. 345.

310RICARDO, Cassiano. Marcha para Oeste. A influência da “Bandeira” na formação social e

política brasileira. 4ª edição. v.1. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970, p. 264.

311Ibidem, p. 55. 312Ibidem, p. 56.

atraía o colonizado para o desconhecido, instigando a formação das bandeiras.313Nelas, segundo Cassiano Ricardo:

[...] promove [o sertão] um verdadeiro teste de qualidades raciais para a conquista, na seleção dos valores humanos que ele próprio desafia, seduz, tritura, classifica e exercita na escola áspera do bandeirismo que era a modelação de um tipo social até então desconhecido. Ensina a renuncia à vida, por um ideal ou por uma necessidade insólita; mas ensina também, o amor ao espírito de aventura que explica os heróis; ensina também a palavra dada aos compromissos assumidos em nome dêle [...]; e ensina ainda a democracia pelo sofrimento nivelador e independência pela ruptura de qualquer contato com os reis e poderosos [sic].314

Para Cassiano Ricardo, no entanto, se num primeiro momento prepondera a geografia, que “empurrou o homem para a conquista”, chamando-o de modo tão irresistível e tão sério que o bandeirante “não podia viver sem o sertão”, “depois é o homem quem domina a Geografia e a submete”.315Segundo o autor, era importante diferenciar estes dois momentos, pois enquanto o primeiro ainda era português, o segundo sinalizava já o nascimento do brasileiro, através do bandeirismo.316

Essa afirmação evidencia um contraste entre as análises de Alfredo Ellis Jr. e Cassiano Ricardo. A tese determinista geográfica, como será possível notar ao longo deste capítulo, aparece bem menos marcada em Marcha para

Oeste. Por outro lado, é interessante notar que, para Cassiano Ricardo, o

sertão não gerou no paulista apenas o arrojo e a iniciativa, como procurou assinalar Alfredo Ellis Jr., mas alimentou também a sua imaginação. Assim, de acordo com Cassiano Ricardo:

[...] a localização geográfica de Piratininga não só obedecerá no dizer de Anchieta, a idéia de mais “conveniente ao Padre in

Domino”. Êle próprio teria achado, aí, “bons e delicados ares e

mui sadios”. A terra fértil, não obstante o contínuo sobressalto em que andava, fôra outra razão não menos sadia. Os cursos de água que irrigavam a região não passaram despercebidos,

313Ibidem, p. 264. 314Ibidem, p. 264-265. 315Ibidem, p. 65. 316Ibidem, p. 65-66.

não. A diretriz do Tietê (o fato absurdo dêle nascer junto ao mar e não correr pra dentro do continente) impressionou Martin Afonso que não limitou a ver nêle um rio como os demais, mas um “rio grande que enveredava pelo sertão adentro”. Aquele sinal da natureza falava uma linguagem maravilhosa. Nascido junto ao mar, o rio dava as costas pro mar e lá se ia embora, rumo a oeste, como que determinando que o homem fizesse o mesmo [sic].317

Para Cassiano Ricardo, diferentemente de Alfredo Ellis Jr., a coragem e o espírito de aventura, tanto como a observação contemplativa da natureza caracterizaram os primeiros paulistas. Do mesmo modo, a intenção de Cassiano Ricardo, ao discutir os aspectos geográficos de São Paulo não foi, como em Ellis Jr., a de provar por bases científicas, a interferência do meio físico na “superiorização” do “tipo paulista”. Autores como Huntington, que vimos anteriormente citado em Os Primeiros Troncos Paulistas, não tiveram o mesmo destaque em Marcha para Oeste. Assim, Cassiano Ricardo, quando menciona as bruscas variações climáticas encontradas no planalto, “dias de sol claro transformando-se repentinamente em dias de garoa cinzenta”, diferentemente de Ellis Jr., parece querer destacar, principalmente, a “grave” impressão que tal cenário teria causado nos povoadores da vila paulista.318 Como exemplifica o trecho abaixo, Cassiano Ricardo transita entre a aparência da crença no determinismo, pois defende os determinismos que quer, e a ironização de tal pressuposto, desprezando desse modo, os determinismos que não lhe servem:

[...] o céu violento e tropical irmana os homens e os democratiza de pronto. Neste particular, nosso país teria que pôr em reserva alguns sabichões como Rousseau, para quem existe, nos países quentes, manifesta tendência para o despotismo. O céu nevoente conduz os homens à aventura: é aquêle céu “que parece querer contar à terra um violento segredo”. Há quem diga que as raças mais civilizadas vivem em regiões de fraca luminosidade. Seja como fôr, o certo era que as alternativas de horas de calor com horas de frio seriam chaves mágicas pra explicar o ímpeto mameluco e o espírito de renovação que ainda caracteriza a gente do planalto [sic].319

317RICARDO, 1970, p. 10. 318Ibidem, p. 10.

Outro exemplo desta contradição é a importância que a tese sobre a influência do isolamento da vila paulista no desenvolvimento de São Paulo, analisada a seguir, teve em Marcha para Oeste. Como em Os Primeiros

Troncos Paulistas, ela representou o eixo central do debate sobre os rumos

peculiares de São Paulo, anti-português e americano, para Ellis Jr. e, originalmente brasileiro, para Cassiano Ricardo.

4.1.3 O isolamento geográfico e a formação democrática de