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Conforme discutido anteriormente, o foco principal do estudo não é elaborar formalmente mudanças a serem implementadas pelo INSS para tentar mitigar o problema, mas somente indicar as possibilidades existentes sob a ótica da Teoria dos Jogos e do Market Design. Este último é de fundamental importância para a indicação, não só da elaboração de uma proposta, mas principalmente, na maneira de implementá-la.

Os dois primeiros problemas elencados – a falta de informação –, de uma maneira geral, é também citado na teoria de CPR como um ponto importante a ser trabalhado. Seria importante, portanto, que ao receber uma ligação para agendamento de perícia, o técnico do INSS responsável por esse primeiro contato informasse ao segurado sobre o benefício, qual sua finalidade e todo o processo envolvido na sua requisição. Desta maneira, o número de perícias com requerimento negado poderia diminuir, tanto pelo segurado estar ciente da sua função correta, como pelo conhecimento do processo e dos documentos necessários no ato da perícia.

Seriam necessárias também mudanças no processo pericial em si, de modo a prover ao perito um ambiente mais propício para a análise dos casos, de modo a maximizar seu acesso à informação correta acerca da capacidade laboral do segurado. Para isso, conforme citado anteriormente, poderiam ser utilizados peritos especialistas para tratar cada caso e também aumentar o tempo de análise de cada perícia.

O terceiro ponto – a falta de incentivo para barrar a tentativa de requerimento pelo segurado que conhece a função do benefício – tem como origem a probabilidade φ2. Para que a decisão do segurado não seja sempre requerer o

benefício é necessário elaborar alguma situação que resulte em um retorno negativo para o segurado, caso ele tenha seu pedido negado.

A primeira e mais intuitiva maneira de melhorar o processo seria criar algum tipo de penalidade financeira para os segurados que se enquadrassem neste caso. Por ser um serviço público e direcionado a uma parcela da população muitas vezes com baixo poder aquisitivo, tal proposta encontraria barreiras jurídicas de implementação. Uma outra maneira de mitigar o problema seria elaborar uma penalidade de cunho reputacional, conforme citado na teoria de CPR como um fator relevante nesses casos. Uma alternativa seria um aumento da burocracia em processos recorrentes de segurados, conforme estes são negados. Atualmente, o segurado pode realizar diversas perícias, sem que haja comunicação entre os diferentes postos do INSS.

Ao centralizar essa informação e provê-la a todos os postos do INSS seria possível aumentar a burocracia envolvida no processo de requerimento para segurados com pedidos negados.

Para o último ponto levantado – a falta de monitoramento das decisões dos peritos –, relacionando-o com a Teoria dos Jogos, a sugestão seria correlacionar o retorno esperado do perito às probabilidades φ2 e φ1. Da mesma

maneira como foi abordado o tema para o segurado, seria possível elaborar uma situação na qual o perito com maior frequência de concessões indevidas seja penalizado reputacionalmente. Este monitoramento poderia ser feito de maneira similar à citada no caso dos Estados Unidos (4), com um grupo de peritos externos avaliando um conjunto de casos e comparando suas avalições com as dos peritos responsáveis.

Também, conforme citado no terceiro ponto, a centralização de informações acerca dos processos perícias poderia ajudar a fazer esse monitoramento com os peritos. Sendo possível realizar estudos acerca do percentual de concessão de cada perito.

Cabe ressaltar que, apesar do presente estudo ter como foco a probabilidade φ2, conceder o benefício para o segurado que não apresenta a real

também. Uma vez que o benefício é um direito constitucional dos segurados que tem sua capacidade laboral diminuída.

Por fim, conforme citado anteriormente, essas são apenas algumas sugestões para tentar mitigar os pontos frágeis identificados ao longo do trabalho. O arcabouço teórico da Teoria dos Jogos foi apresentado e se mostrou útil para o caso. No entanto, sua utilidade, por si só, é limitada, conforme Roth (1999), sendo necessária uma formulação prática detalhada para cada caso. Tal abordagem, no entanto, não foi o foco do trabalho.

5 CONCLUSÕES

Com base na pesquisa elaborada foi possível enxergar o problema do processo de concessão de benefícios de auxílio-saúde sob a ótica da Teoria dos Jogos. Foi demonstrado, por meio de matrizes de incentivos, que a organização atual do processo faz com que tanto os segurados como os peritos se encontrem em uma situação na qual têm incentivos indesejados.

O segurado tem um incentivo a entrar com requerimento do benefício mesmo sem ter a real necessidade, inflando o número de requerimentos e perícias médicas, aumentando os custos relacionados ao processo e diminuindo a qualidade destas perícias. Ainda, quando o benefício é concedido para esse público, há um desembolso adicional de recursos.

O perito, por sua vez, dada a complexidade da análise e a estrutura do processo, com o pouco tempo disponível e por não ter seu retorno esperado correlacionado às probabilidades φ1 e φ2, pode ter um incentivo, em momentos de

incerteza, a conceder o benefício, mesmo que não haja real necessidade.

A análise dos dados estatísticos também evidenciou a importância do tema, uma vez que o dispêndio com a rubrica de benefícios de auxílio-saúde atinge mais de R$ 15 bilhões ao ano. Além disso, anualmente, são feitas mais de 7 milhões de perícias, das quais mais de 2 milhões têm decisão contrária por parte dos peritos.

Por fim, o estudo da literatura de mitigação de problemas de CPR e a de

Market Design apresentaram resultados positivos quando aplicadas em problemas

similares aos do processo de concessão de benefícios de auxílio-saúde. Uma sugestão para trabalhos futuros, portanto, é o desenho de uma estrutura de mercado feita especificamente para o processo estudado, de modo a mitigar os pontos frágeis identificados. E, por intermédio de testes em escala reduzida, identificar demais pontos frágeis e atuar em sua mitigação.

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