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İnternetin Yarattığı Demokrasi Eleştirisi ve Toplumsal Cinsiyet

2.3. İnternet ve Toplumsal Cinsiyet İlişkileri

2.3.2. Yeni Bir Egemenlik Biçi mi Olarak İnternet ve Toplumsal Cinsiyet

2.3.2.1. İnternetin Yarattığı Demokrasi Eleştirisi ve Toplumsal Cinsiyet

A

partir de meados do século XIX, o avanço da ciência, a con-

formação do movimento higienista e as ideias eugênicas somaram-se ao questionamento e às proposições para o fim da assis- tência caritativa e filantrópica observada no Brasil desde os tempos do Império. A noção de eugenia, formulada por Francis Galton1, se voltava

para os efeitos físicos e culturais da miscigenação das raças, ensejando uma preocupação com a constituição étnica do povo brasileiro. A dege- nerescência, como entendida por Morel2, em face da preocupação com

a transmissão dos “desvios patológicos do tipo normal da humanidade”, resultou na preocupação médica com a família e com a “delinquência infantil” (Rizzini, 1993).

1 No ano de 1884, no University College, de Londres, Galton criou um laboratório de psicometria em que eram estudadas as diferenças individuais entre escolares, atra- vés da mensuração das faculdades mentais. Seus estudos, na medida que buscavam identificar “os mais capazes”, se encontravam a serviço do aprimoramento da espécie humana (Correia; Campos, 2000).

2 Bénédict-Augustin Morel acreditava que “ao lado do fato exclusivo da hereditarie- dade [...] há influências do clima, do solo e da higiene dos pais que [podem] criar nas crianças [...] um estado orgânico especial ou definitivamente transmissível até a expiração da raça” (Morel, 1997, p. 178-179).

Os postulados “científicos” da eugenia e da degenerescência facilmente se associaram à noção de puericultura – orientação para o cuidado das crianças – e à técnica do esquadrinhamento, de análise da população e dos espaços por ela ocupados, possibilitando aos médicos um maior controle e disciplina especialmente da infância. De acordo com Irma Rizzini (1993, p. 36), “A infância, objeto de estudo e de inter- venção privilegiada da filantropia ‘científica’, sofrerá antes de tudo, um processo detalhado de classificação, que implicará na sua subdivisão em categorias bem mais específicas, criando novos alvos para a assistência e novas necessidades sociais”.

Esse período da nossa história foi marcado por importantes acontecimentos políticos, econômicos e sociais, determinantes da feição que assumiria a sociedade brasileira no início do século XX. Já em 1888 a abolição dos escravos implicou a reforma da estrutura jurídica do Estado brasileiro, que passou a adotar o modelo burguês, o qual revolu- cionou as relações de trabalho e possibilitou grande transformação na estrutura urbana e na composição do tecido social. A Proclamação da República, no ano seguinte, e a promulgação da primeira Constituição republicana, em 1892, consolidaram a nova ordem. O fortalecimento do capitalismo resultou em supervalorização do trabalho, na esteira do que se disseminou a crença de que por meio dele se atingiria a disciplina e a moral – que as instituições em funcionamento eram acusadas de não observar (Campos; Alverga, 2001). Em decorrência, registrou-se a criação de internatos, institutos de formação profissional para “meno- res” etc., que travestidos de uma feição assistencial tanto serviram ao objetivo de disseminar a nova ideologia e efetuar o controle social dos jovens quanto atenderam aos interesses capitalistas de organização de um mercado de trabalho para a indústria em ascensão.

Os juristas, assim como os médicos, desenvolveram ferramen- tas para o controle do imenso exército de reserva que se formara, e que se aglomerava em favelas, em cortiços, no meio das ruas. Diziam-se preocupados com o significativo contingente de crianças e adolescen- tes abandonados, perambulando pelas ruas, esmolando, vivendo em

famílias em que imperava a promiscuidade, os maus-tratos, os vícios etc., ou simplesmente sem famílias, praticando as mais diversas trans- gressões sociais: “crianças em perigo e perigosas”. Em decorrência, propuseram uma legislação voltada para a “proteção ao menor”, para “proteger a criança abandonada” e atacar a problemática do “adoles- cente infrator”, que “começava a perturbar a sociedade”. Sob essa pers- pectiva, médicos e juristas se integravam ao projeto das elites do país, de normalização da sociedade (Marcilio, 2001; Rizzini, 1993).

Curiosamente, as leis ditas de “proteção” resultaram duplamente danosas para aqueles a quem se destinavam. Primeiro, consagraram um sistema dual de atendimento, imputando a condição de “menor” àque- las crianças cujas famílias eram ausentes ou não tinham condições de prover o essencial para a vida, e considerando “crianças” aquelas cujo proceder das famílias era social e legalmente aceito. E depois, se não bastasse o estereótipo de “menor”, o tratamento destinado a elas tinha caráter essencialmente punitivo e segregacionista, seja nos estabeleci- mentos ditos correcionais, seja nos institutos de formação profissio- nal. O Código Civil Brasileiro, criado em 1916 e ainda em vigor – com reformulações –, que legisla sobre os direitos individuais, de proprie- dade e da família, define como responsabilidades dos pais frente aos filhos até 21 anos alimentar, educar, emprestar seu nome etc., de modo que a presença do Estado só é requisitada se faltarem os cuidados da família, como alimento, educação etc. Nesse caso, a pessoa se designava “menor” e era regulada pelo Código de Menores, instituído pela pri- meira vez em 1927. A tutela desse Código recaiu, assim, sobre os órfãos, os abandonados e os de pais ausentes – cujo pátrio poder fora subtraído.

A definição da família como referência para a atenção do Estado, a institucionalização da figura do “menor”, distinta da figura da criança, e o Código de Menores, articulado ao Código Civil e ao Código Penal, repercutiram de forma significativa no meio jurídico. Primeiro, no sentido de consolidar uma nova especialidade das ciências jurídicas, e segundo, ao orientar o surgimento de instâncias como o Juízo Privativo de Menores (Lei n° 2.059/25), o Conselho de Assistência e Proteção

do Menor (Decreto 3.228/25), o Serviço Social de Menores (1938), o Serviço de Colocação Familiar (Lei n° 560/49), as figuras do Juiz de Menores e do Comissariado de Menores, o Serviço de Assistência ao Menor. O aparato legal que ensejou a criação de tantos órgãos da magis- tratura brasileira denominou-se Doutrina do Direito do Menor (Silva, 2000).

Naquele contexto, particularmente a partir de 1937, a polí- tica pública do setor era efetivada pelas entidades que compunham o “Sistema Nacional de Atendimento ao Menor”, coordenadas por órgãos como o Conselho Nacional de Serviço Social (CNSS), criado em 1938, o Departamento Nacional da Criança (DNCr), criado em 1940, o Serviço Nacional de Assistência a Menores (SAM), criado em 1941, e a Legião Brasileira de Assistência (LBA), criada em 1942. Cabia ao CNSS e à LBA a coordenação das ações assistenciais, inclusive de suporte financeiro às entidades privadas, e ao DNCr e ao SAM a atenção com as questões de ordem social. O primeiro, na ótica da preservação da raça, articulava serviços médicos e assistência privada, valendo-se da orientação higie- nista para “campanhas educativas, inquéritos médico-sociais, formação de puericultores, orientação sobre funcionamento de creches, organiza- ção do atendimento pré-escolar [...]” (Faleiros, 1995, p. 69-70). O SAM providenciava e fiscalizava os internatos para os “menores”, notada- mente os abandonados e os “delinquentes”, atuando junto com o juizado e com as delegacias via de regra por meio da repressão.

No país, os problemas econômicos observados até os anos 1960 e a desagregação social daí decorrente resultaram em significativo cres- cimento da demanda pelos serviços prestados nos internatos, fazendo também aumentar a atenção sobre tais instituições. Foi então que se revelou a sua baixa qualidade, patente na falta de higiene, de projeto pedagógico etc., bem como inadequações de toda ordem na sua rela- ção com as instituições privadas – atraso de repasses, desvio de verbas etc. As críticas ao SAM que se seguiram a tais constatações, oriundas de importantes setores da sociedade, levaram, em 20 de novembro de 1964, à aprovação no Congresso da criação da Fundação Nacional do

Bem Estar do Menor (FUNABEM), expressão da Política Nacional do Bem-Estar do Menor – PNaBEM –, que estava sendo implementada pelo governo militar (Silva, 2000).

Logo, é importante destacar que o Código de 1927 vigeu até 1964, quando o país passou a viver sob a Doutrina da Segurança Nacional, ainda que somente em 1979 tenha sido substituído por novo Código de Menores, oficializando a substituição da Doutrina do Direito do Menor pela da Situação Irregular. O novo Código integrou, sob a denominação de “situação irregular”, as diferentes condições em que a inserção da criança na família demandava intervenção do Estado – e por isso era destituída da condição de criança e acusada de ser “menor”3. A

PNaBEM, portanto, muito embora instituída em 1964, representou o que de essencial veio a ser consolidado com o Código de 1979.

Formulada sob a ótica da corrente “menorista” do judiciário brasileiro, que desconsiderava as orientações das diversas Declarações, Pactos etc. internacionais que pugnavam por direitos da criança e proteção à família, a Política recebeu influência direta do Instituto Interamericano Del Niño, da Organização dos Estados Americanos (OEA), cuja orientação era de que a criança não seria merecedora de atenção diferenciada, a não ser quando se encontrasse em “situação irre- gular” junto à família (Silva, 2000). Essencialmente, a Política tratava da internação das crianças carentes e abandonadas até 18 anos, bem como do encarceramento e tratamento policial daquelas consideradas delin- quentes. Foi a Doutrina da Situação Irregular e sua política discricioná- ria e repressora, portanto, que marcou presença no Brasil desde 1964 e se estendeu até a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente,

3 São consideradas em situação irregular, de acordo com o Código de Menores de 1979, “as crianças privadas das condições essenciais de sobrevivência, mesmo que even- tuais, as vítimas de maus tratos e castigos imoderados, as que se encontrassem em perigo moral, entendidas como as que viviam em ambientes contrários aos bons cos- tumes e as vítimas de exploração por parte de terceiros, as privadas de representação legal pela ausência dos pais, mesmo que eventual, as que apresentassem desvios de conduta e as autoras de atos infracionais” (Silva, 2000, p. 3-4).

em 1990, sob a ótica da Doutrina da Proteção Integral (Campos, Sousa; Sousa, 2004).