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O capítulo 1 constou de duas partes. Na primeira considerou temas vinculados às mais destacadas características dos Sl 3-14. Entre elas: os cabeçalhos davídicos. Poderia parecer que o ítem nada tem a ver com a proposta de trabalho. No entanto, como ignorar que o objeto de estudo forma parte da coleção davídica, sendo isto uma das primeiras coisas a constatar? O objetivo do ítem, por não ser prioritário nesta tese, conformou-se com iluminar mediante algumas propostas que relacionam cabeçalhos/esperança dos/as pobres. No entanto, o assunto está aberto a futuras melhoras.

Algumas das coisas constatadas/reafirmadas: a atribuição da autoria dos salmos a Davi não é mais sustentada pelos/as cientistas. Contudo, o assunto desses cabeçalhos (Sl 3-14) e as causas que os originaram não estão desconectadas com a teologia dos/as pobres concentrados/as no saltério. Realcei alguns elementos-chave como as principais razões que motivaram a davidação de salmos: a filtração da escola cronista, um grupo pro-davídico, compositores de uma história benéfica para Davi; a existência de fontes histórico-literárias como 1Sm 16 que descreve a unção de Davi, e de 2Sm 5, que narra sua coroação. Também realcei as próprias estratégias davídicas: astuto para seus

propósitos pessoais, embora fornecendo proveito ao povo de Israel; e, além do mais, considerei a participação do pensamento isaiano, escola que reciclou as ideologias nacionais para divulgar a esperança de um novo Davi transfigurado. Medida necessária no memento da edição final do livro dos salmos.

Indaguei sobre os/as possíveis compositores/as de tais poemas (Sl 3-14). Estes salmos provieram das pequenas comunidades camponesas de Judá e Israel. Depois, as composições foram aperfeiçoadas por grupos de cantores oficiais (escribas e levitas) no primeiro templo, e talvez no segundo, de Jerusalém. Não se descarta a possibilidade de que estes grupos tenham escrito alguns dos salmos inspirados nos/as pobres que freqüentavam ou estavam refugiados no santuário.

Quanto à datação considerei que os Sl 3-41, que concentram a subunidade (Sl 3- 14), num primeiro momento poderiam ser estudados a partir da época monárquica, onde existiam como textos isolados. No entanto, é fundamental ter em conta que dentro de coleções antigas existem textos tardios. Para tirar a dúvida é preciso indagar sobre a datação de cada texto na sua particularidade de unidade literária; pelo menos, dos que selecione para serem aprofundados.

Outra característica que distingue os Sl 3-14 é sua forma de expressão mediante súplicas e lamentações. O lamento pode ser abordado nos Sl 3-14 como um estado vital dos salmistas, originado pelos sistemas sócio-políticos que iremos identificando no transcurso da tese. Os gritos e as súplicas registradas nos Sl 3-14 devem ser estudados à luz da sua sociedade camponesa e os conflitos típicos de uma cultura agrária segundo o modo de produção da época. Essas manifestações lamentosas se encontram espalhadas não só no saltério, senão em todo o Primeiro Testamento.113 Gn 23,2; 50,10; Is 14,31; Jr 25,34; Sl 31,11; 38,10; Jr 45,3; Is 21,2; 35,10; Sl 80,6; Lm 2,11; Ex 22,28; Mq 2,13. Mas, no livro dos salmos, os/as pobres se expressam de forma diferente. Qual é esta particularidade? É uma das coisas a considerar nos próximos capítulos.

Na segunda parte do capítulo 1 trabalhei as observações literárias sobre os próprios textos. Concluí que os Sl 3-14 formam uma subunidade do primeiro livro do

113 Confira: Tércio Machado Siqueira, El lamento, em Revista de Interpretación Bíblica Latino-

saltério, Sl 3-41. Os Sl 3-14 são antecedidos pelos Sl 1-2, considerados como porta de entrada ao livro dos salmos. Trata-se de dois textos independentes e, ao mesmo tempo, complementares na sua forma e seu conteúdo. Se no Sl 1 se concentra o assunto sapiencial, no Sl 2 se trata da questão messiânica. Ambos os aspectos e suas vertentes teológicas se expandem no saltério todo.

Pelas observações literárias afirmo que os lugares que ocupam os Sl 3-14 no saltério foram pensados e planificados. Primeiramente, os Sl 3-7 destacam o assunto do horário da oração. Neste primeiro bloco (Sl 3-7) da subunidade (Sl 3-14) não se encontram palavras aplicadas aos/as pobres diretamente. No entanto, os textos se mostram atrativos para serem analisados sob este olhar, já que sua linguagem é marcada pelo lamento e a súplica. Posso interpretar que os Sl 3-7 preparam o caminho para aquilo que leitores/as vão se encontrar nos textos vindouros.

A sequência dos Sl 3-7 é interrumpida no Sl 8. Mas, não se trata de um ruptura brusca, já que a última parte do Sl 7 parece emendar o louvor com que inicia o Sl 8. A particularidade do Sl 8 é mostrar uma sociedade onde o “louvor” e a “violência” se disputam os espaços sociais. Neste salmo são importantes as crianças (v.3) que bem poderiam passar despercebidas, mas que jogam um papel central a ter em conta no aprofundamento exegético. Além do mais, o Sl 8 traz uma pergunta central com relação à identidade humana (v.5). Isto não seria um acidente se consideramos a questão situada no meio do lamento e as causas que o originam.

Os textos Sl 3-7 e Sl 8 preparam o caminho para os Sl 9; 10. Estes desenham, dão nomes, introduzem o rosto do/a pobre (Sl 9; 10). Talvez se trate da mesma comunidade que se vêm comunicando nos textos anteriores (Sl 3-7; 8). Os Sl 9; 10 são dos textos que melhor situam na realidade de opressão vivida os/as pobres do saltério. Neles se destacam a brutalidade e os gritos. Após as cenas conflituosas e violentas destes salmos, se apresenta o Sl 11, como uma pausa necessária para confiar (Sl 11). Nesse sentido, os salmos de confiança estão esparzidos em lugares estratégicos no livro dos salmos; como quem procura provocar nos destinatários/as incentivo à esperança e o consolo no caminho. Após o Sl 11, retorna o assunto dos conflitos sociais (Sl 12-14). As

palavras referente aos/as pobres e a linguagem de opressão, parecem dar continuidade ao assunto dos Sl 9; 10.

Delimitei a primeira subunidade de pensamento do primeiro livro dos salmos (Sl 3-41) nos Sl 3-14, porque o Sl 3,9 e Sl 14,7 se apresentam como um nó mediante uma moldura teológica que trata sobre Javé, seu povo a salvação. Além disso, o Sl 14 é semelhante ao Sl 53; ambos parecem funcionar como textos que “amarram” as duas coleções davídicas. Após os Sl 3-14, o Sl 15, faz retomada dos assuntos anteriores: enfatiza nos critérios éticos para quem pretenda participar das atividades no santuário. Os Sl 16-17 lembram estarmos no contexto agrícola, no mundo dos reclamos pelo direito, da súplica e da opressão. A sequência é interrumpida pelo Sl 18 que introduz, no saltério, os salmos reais.

A realidade vital destes salmos pode ser situada no templo de Jerusalém, seja no primeiro ou no segundo, pois mostram argumentos importantes para serem tratados como salmos de pessoas asiladas no santuário.

Embora o assunto dos/as pobres tenha continuidade nos seguintes salmos do saltério, esta tese tem limitação, (Sl 3-14). No próximo capítulo 2, apresento a abordagem exegética dos Sl 9; 10 na procura de aprofundar na pesquisa e seus objetivos.

CAPÍTULO 2

ABORDAGEM EXEGÉTICO-SOCIAL DOS SALMOS 9; 10

Introdução

Se o primeiro capítulo da pesquisa mostra a base da investigação, agora, a partir do segundo, intensificam-se estudando os aspectos concernentes aos/as pobres a partir da situação histórica refletida no objeto de estudo. Inicio trabalhando os conceitos bíblicos que falam de “pobres” nos Sl 9; 10 na procura de focalizar seu perfil social.

A pesquisa é norteada por uma pergunta chave: o que os Sl 9; 10, têm a nos dizer sobre os/as pobres? Pelo perfil da pesquisa é preciso identificar os mecanismos geradores de pobreza no texto.

No Sl 9 trato, de forma especial, conceitos e situações vividas pelos/as pobres desde uma perspectiva sociológica: ‘ani, ’ebyon, dak. No Sl 10, considero, em grande parte, as figuras e as realidades geradoras de pobreza. O foco se direciona para a análise

de frases que nos falam de: sorerim “agressores” (Sl 10,5), raxa‘im “injustos” (Sl 10,2.3.4.5), e, por outro lado, de naqi “inocente” (Sl 10,8), hellkah “pobre/infeliz” (Sl 10,9.10), yatom “órfão”.

Ao trabalhar o Sl 9 e 10 como uma poesia, desenvolvo a exegese em um só capítulo apesar do volume que gera, desproporcionado com os outros. Para facilitar o entendimento do processo, divido a pesquisa bíblica em duas partes. Primeiro, a exegese do Sl 9 e depois, a exegese do Sl 10, advertindo sua condição de mutua relação na sua forma e no seu conteúdo.

Inicio fornecendo, pois, a exegese do Sl 9, tendo, como ponto de partida, o texto e sua tradução a partir do hebraico.