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O que dizer do Sl 1? Tudo parece indicar que se trata de um dos textos mais tardios do saltério. O estilo do salmo, assim como a sua instrução sobre o julgamento e a ética social, harmoniza-se com as ideias expressas pelo Terceiro Isaias e, sobretudo,

42 Hans Joachim Kraus, Teología de los salmos, Salamanca, Sígueme, 1985, p.204. 43 Hermann Gunkel, Introducción a los salmos, Valencia, Edicep, 1983, p.19.

de Jeremias 17,5-8, como se tratasse de empréstimo. Mas, o meu interesse não é discutir os possíveis paralelos entre os textos proféticos e o Salmo, senão assinalar que o seu gênesis pode estar relacionado com o interesse de que uma “porta” forneça acesso aos demais salmos.

Conforme Matthias Granzer, o Sl 1 revela o conflito da sociedade judaica com a cultura helênica, a qual atinge Israel a partir do século III a.C.44 O fato evidencia que talvez é posterior aos próprios salmos nascidos no mesmo tempo pós-exílico.

A meu juízo, os modelos ético-sociais deste contexto (século III a.C.) não seriam totalmente antagônicos aos anteriores. O conteúdo do Sl 1 prepara à pessoa para ingressar, mediante o saltério, numa sociedade de conflitos. Ao mesmo tempo, seu propósito sugere uma transformação histórica a partir da mesma sociedade. Isto fica claro na oração principal que introduz a poesia:

vyaiªh'-yrEv.(a;î

“feliz o

ser humano” e as posteriores frases que põem os critérios para quem pretenda ser “feliz”.

A expressão “feliz o ser humano” (Sl 1,1) se apresenta como um estímulo para divulgar as relações éticas num ambiente fraternalmente quebrantado. A palavra ’xere “feliz” procede do verbo ’xr “declarar afortunado”.45 Trata-se de uma fórmula própria

dos salmos sapienciais (Sl 1; 32; 34; 106; 112; 127; 128). No Sl 1 ela se estende ao ’ix “ser humano”, “cada um”, “cada pessoa”.46 Interpreto que a porta do saltério inicia

elogiando o ser humano que seja capaz de conviver na sociedade sem violentar a ordem natural estabelecida.47 O Sl 1 tem uma intenção exortativa. Ele transmite o sonho da comunidade sapiencial. Com esta proposta os/as leitores/as do saltério vão percorrer a teologia dos salmos.

44 Conferir: Matthias Grenzer, Salmo 1: prazer com o ensino de Jahweh, São Paulo, Paulinas, 2004, p.41. 45 M. Saebo, ’xr “declarar dichoso”, em Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, vol.1,

p.385.

46 J. Kühlewein, ’ix “ser humano”, em Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, vol.1,

p.216.

47 M. Saebo, ’xr “declarar dichoso”, em Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, vol.1,

Além do mais, observo que o conteúdo do Sl 1, está em conexão com os Sl 19 e 119 mediante o assunto da lei. A lei é própria do mundo sapiencial, típica de textos tardios. Entende-se, nesse aspecto, que ainda no pós-exílio, se lembrava o exílio como uma experiência traumática, havia pavor de fatos semelhantes. Eis aqui que interviesse, como foi dito, a literatura sapiencial que Esdras e Neemias retomaram como fundamento para a organização do povo.48 Neste ambiente se propiciaram as reflexões de textos tardios que forneceram novas alternativas de vida. De fato, uma vez com a identidade nacional ameaçada, o interesse pela lei cresceu consideravelmente, tornando- se centro da devoção popular.

Em resumo, os editores finais do saltério tiveram sua pretensão com o Sl 1: fazer uso de um salmo tardio que funcionasse como prólogo para os leitores/as do saltério. Neste se encontra um projeto de vida. O texto fornece, de forma sintética, a dimensão profético/sapiencial do povo de Deus, expresso no livro dos salmos. Vejo assim que, a elaboração posterior do texto apresenta-se como um recurso, composto para construir a porta da coleção final de todos os salmos.49

O Sl 1 se mostra com nó, na sua forma e conteúdo. Ele é uma unidade literária com começo, meio e fim. Isto se justifica no próprio TM: o Salmo inicia com a primeira letra do alfabeto hebraico:

rEv.(a;î

“feliz” e se fecha com a última:

`dbe(aTo

“destrói”. O fato comunica a não continuidade com o Sl 2, nem na sua forma, nem no seu conteúdo.

O Sl 2 inicia uma unidade literária mediante 12 versículos coesos. Chama a atenção às vezes que esse Salmo é citado no Segundo Testamento, especialmente no episódio do batismo e da transfiguração do Senhor: Mt 3,17; 17,5; Mc 9,7; Lc 3,22; 9,35; 2Pe 1,17; At 4,25-26; 13,33; Heb 1,5; 5;5; 7,28; Ap 2,26-27; 6,15; 11, 15,18; 17,18; 19,19. O fato mostra que talvez o Sl 2 era bastante conhecido e utilizado nas comunidades cristãs primitivas, o que poderia reforçar a sua natureza tardia.

48 Milton Schwantes e Carlos Mesters, Profetas: saudade e esperança, p.31.

49 Confira: Luis Alonso Schökel e Cecília Carniti, Salmos: tradução, introdução e comentário, vol.1, São

O Sl 2 é um texto complexo. Por um lado, o poema pode ter sua origem no cerimonial de entronização, sendo, no caso, da época monárquica. E, por outro lado, pode pertencer à época pós-exílica. Segundo Milton Schwantes, esta última hipótese fundamenta-se em alguns termos de cunho aramaico existentes no texto, e, além do mais, no fato da importância que adquiriu a língua no pós-exílio.50

O Sl 2 segue apresentando outras complexidades: pode ser analisado como um texto nascido em função do rei entronizado e sediado em Jerusalém. A gramática do Salmo encaminha para relacionar poesia e presente. Mas, por outro lado, as promessas atribuídas a este rei são inadequadas ao contexto vital do texto. Elas vão além do possível. Na época monárquica, a que o Salmo pretende remeter, os governos de Israel e Judá não alcançavam uma dimensão universal como se expressa em Sl 2,8.51 E, além disso, nessa época monárquica nenhum dos reis seria capaz de pronunciar uma reivindicação universal.

Até o momento o problema de datação do Sl 2 não foi resolvido, e eu tampouco pretendo fazê-lo. Mas, priorizo alguns critérios que justifiquem situar o texto na época tardia, com o objetivo de funcionar como prólogo do saltério, conjuntamente com o S1.

Começo indicando o estudo de Konrad Schaefer. Para ele, o Sl 2 funciona como porta-livro. O biblista compara este Salmo, no seu conteúdo, ao Sl 89, que inicia o terceiro livro dos salmos (Sl 89-106).52Ambos textos (Sl 2 e Sl 89), de caráter messiânico, concentram, como “sanduíche”, a coleção dos Sl 51-72. Esta moldura faz que os Sl 2; 89 encadernem três, dos cinco livros do saltério, sob a dimensão messiânica/real. Contudo, o Sl 2 (como o Sl 1) não possui cabeçalho. A constatação faz pensar na sua inserção tardia na coleção (Sl 3-41).

50 Milton Schwantes, O rei-messias em Jerusalém: observações sobre o messianismo davídico nos Salmos

2 e 110, em Revista Caminhando, vol.13, n.21, São Bernardo do Campo, Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, 2008, p.49.50.

51 Milton Schwantes, O rei-messias em Jerusalém: observações sobre o messianismo davídico nos Salmos

2 e 110, em Revista Caminhando, p.53.54. No seu estudo, o autor não resolve a controvérsia, porque seu interesse recai no tema davídico do texto e não no assunto de datação.

Chama minha atenção o primeiro verbo da primeira frase do Sl 2:

~yI+Ag

Wvåg>r" hM'l'

“por que se amotinam as nações?”. Trata-se do verbo ragax

“estar em tumulto”.53 Encontro-o interessante. Ele nos direciona a contextos que

transmitem realidade de “inquietação social”, em paralelo de “conspirações tramadas”54

(Sl 64,3). O aspecto de “planejamento” encontra acolhida com a imagem de “avançar de injustos”.55 As observações me falam de confrontos “desproporcionais” entre povos

nacionais e nações estrangeiras.

A eleição de Sião (Sl 2,6), a perspectiva messiânica (Sl 2,2), a dimensões do reino universal (Sl 2,8-9) podem ser interpretadas, como fruto do desespero exílico e a necessidade pós-exílica de uma insurreição davídica para repor a derrota de Israel.56 O Monte Sião (Zc 3,2) e a esperança do messias (Zc 9, 9-10) foram requeridas para atrair as pequenas comunidades camponesas da diáspora judaica. Isto me da luz para sugerir que o Sl 2 incorpora, desde o lugar que ocupa, o tema da “esperança” e do “messianismo”, complementando o assunto do Salmo anterior, sapiencial (Sl 1). Ambos os assuntos, de fato, encontram-se esparzidos ao longo do saltério.

Em resumo, é possível que os Sl 1 e 2, tardios e, literariamente, autônomos, foram inseridos, no último momento editorial e canônico, como porta do saltério. Talvez com o propósito de fornecer ao livro um sentido sapiencial/messiânico. O lugar que ocupam ambos os textos é importante. Ser preâmbulo e introdução do saltério exige do/a exegeta ter em conta o assunto dos Sl 1 e 2 no momento de analisar outros textos do saltério.

Uma vez fornecida parte dos critérios para iniciar o objeto de estudo no Sl 3, e não a partir do Sl 1 ou Sl 2, continuo com o análise e as descobertas sobre as observações literárias dos Sl 3-14. Após esta tarefa considerarei os elementos que fundamentam a delimitação final do estudo no Sl 14.

53 Ludwig Koehler e Walter Baumgartner, Lexicon in Veteris Testamenti Libros: a Dictionary of the

Aramaic Parts of the Old Testament in English and German, Leiden, E. J. Brill, 1985, p.874.

54 Andrew Bowling, ragax “tramar conspiração”, em Dicionário internacional de teologia do Antigo

Testamento, p.1401.

55 David J. A. Clines, The Concise Dictionary of Classical Hebrew, Sheffield, Sheffield Academic Press,

2009, p.414.

56 Erhard S. Gerstenberger, Psalms. Part 1 with an Introduction to Cultic Poetry: The Forms of the Old