2. Yemek Kitapları Üzerine
2.5. Yemek ve Kimlik İlişkisi: ‘You are What You Eat’
Na análise do espaço geográfico enquanto uma totalidade em curso, “[...] o ponto de partida é a sociedade humana em processo, isto é, realizando-se. Essa realização dá-se sobre uma base material: o espaço e seu uso; o tempo e seu uso; a materialidade e suas diversas formas; as ações e suas diversas feições” (SANTOS, 2012a, p.54). Em cada momento do processo há uma base material, uma situação geográfica, porém, essa não é estática, as situações estão em movimento, cada situação revela as formas de ser-no- espaço e de ser-do-espaço.
A delimitação de cada situação pode ser feita a partir da análise da técnica, pois,
“as técnicas, de um lado, dão-nos a possibilidade de empiricização do tempo, e de outro
lado, a possibilidade de uma qualificação precisa da materialidade sobre a qual as
sociedades humanas trabalham” (SANTOS, 2012a, p. 54).
As situações em movimento na APAJ estão diretamente relacionadas com as técnicas predominantes em cada período, no período da Pesca, as técnicas ligadas com a atividade de pesca com jangadas qualificam a materialidade do espaço naquela situação, já no período do Veraneio a inserção de um elemento exógeno ao território nas praias de Santa Rita e Jenipabu quebram a situação do período anterior a partir das novas possibilidades de uso do território.
O início dos anos 1990 marca transição processual do período do Veraneio em função da inserção de Natal na rota do turismo realizado no Nordeste brasileiro, no qual resultou na urbanização pelo circuito inferior do turismo nas praias que compõem atualmente a APAJ.
No período do Turismo, a organização espacial das praias de Santa Rita e Jenipabu assemelham-se a ideia de nomoespaço, contrapondo a noção de genoespaço, onde, não é mais a identidade histórica e cultural que une os indivíduos no espaço, mas sim a diversidade, a coexistência de diversos projetos existenciais no mesmo local. Dessa forma, no nomoespaço a
relação da sociedade com o espaço pressupõe a existência de indivíduos, ou seja, unidades autônomas, com variadas gamas e níveis de expectativas, interesses, propostas e práticas sociais. As diferenças entre esses indivíduos são, em principio, infinitas e os únicos fundamentos comuns são a consciência da diversidade e a crença de que a associação dessas diferenças pode ser a estratégia mais adequada para se ter êxito na realização de seus interesses, tanto aqueles que são gerais quanto os particulares de cada um (GOMES, 2010a, p.31).
A associação dos diferentes projetos existenciais coexistindo em comunidade é possível em virtude do contrato social, representado na forma das leis que normatizam a vida em sociedade em um dado espaço, garantindo a cada indivíduo seus direitos e
deveres, “assim, a instituição da lei diferencia espaços à medida que exclui àqueles que
não são por ela atingidos; então cria e formaliza territórios de inclusão e de exclusão
social” (GOMES, 2010a, p. 34), de tal forma que “este nomoespaço é assim construído
de maneira a exprimir relações formais de pertencimento, mas, sobretudo de
ordenamento” (ibidem, p.37).
O processo de ordenamento e normatização do território, iniciado no período do Veraneio, a partir do loteamento das praias de Santa Rita e Jenipabu, no qual transformou a terra em mercadoria, inseriu um território da comunidades de pescadores, que usavam o território para realizar as atividades de subsistência, no ciclo de reprodução do capital por meio da especulação imobiliária, modificando a forma de ser-no-espaço e de ser-do- espaço dessa comunidade. O período do Turismo intensifica essas relações, principalmente em função da urbanização dependente do fluxo turístico que emana do eixo da vitrine do turismo, resultando em uma configuração territorial em função das técnicas relacionadas com as novas atividades econômicas. Nesse atual cenário, as atividades tradicionais relacionadas com pesca são realizadas por alguns moradores mais antigos durante o período de baixa estação, quando diminui o fluxo do turista, pois, durante a alta estação a maioria dos moradores nativos estão realizando atividades relacionadas com o turismo.
No período do Turismo, intensifica-se o processo de normatização do território, principalmente a partir do decreto estadual 12.620/95 que cria a APAJ e a lei estadual 9.254/09 que institui o zoneamento ecológico econômico dessa área de proteção ambiental, normatizando o uso do solo em cada ponto da APAJ.
Os principais efeitos negativos dessa normatização recaíram sobre os moradores mais antigos, pois, ao venderem seus terrenos para os veranistas passaram a ocupar áreas que posteriormente viriam ser classificadas como non aedificandi, iniciando uma série de conflitos entre os moradores que estão nessas áreas e órgãos ambientais responsáveis pela fiscalização da APAJ.
Além desse ponto a normatização do território retirou do cotidiano dos moradores um lugar que sempre esteve presente na memória dos moradores mais antigos, segundo a fala dos entrevistados, a Lagoa de Jenipabu, que no passado era constantemente frequentada pelos moradores da comunidade e após a criação da APAJ o seu acesso ficou
restrito, principalmente a após a construção do ecoposto da APAJ e da base de operações da Companhia Independente de Proteção Ambiental (CIPAM), no ano de 2008.
O argumento ambiental diz respeito a capacidade de carga da lagoa de Jenipabu ser incompatível ao fluxo contínuo de pessoas, que se intensificou após Jenipabu se inserir na rota do turismo litorâneo potiguar. Atualmente a lagoa de Jenipabu está disponível para a realização de pesquisas ambientais e atividades socioeducativas agendadas previamente.
O período do turismo é marcado pela intensificação do processo de urbanização e o gradativo abandono das atividades tradicionais em função das atividades turísticas, segundo o relato de um dos moradores mais antigos de Jenipabu, um pescador de sessenta e sete anos, a maioria dos pescadores abandonaram a atividade da pesca passando a refuncionalizar suas jangadas utilizando-as para realizar passeios próximos a costa de Jenipabu.
As novas técnicas relacionadas com a atividade turística modificaram o espaço geográfico das praias de Santa Rita e Jenipabu, proporcionando ao lugar novos usos do território, concentrando nessa última praia a maioria das atividades comerciais ligadas ao turismo, possibilitando novas formas de ser-no-espaço e de ser-do-espaço.