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2. MATERYAL VE YÖNTEM

2.1. MATERYAL

3.1.9. Yapısal Eşitlik Modeli Analizleri

Foi a representação clássica de loucura como desatino que atribuiu ao portador de transtorno mental a imagem do furor, da animalidade e a periculosidade social. Desde então, institui-se o padrão normativo de que quanto maior o grau de loucura do indivíduo, maior sua inocência, uma vez que ele estava tão afastado da razão (irracionalidade), que não era capaz de controlar seus atos (FOUCAULT, 1978). O louco não poderia responder por suas ações, mas por apresentar a tendência de cometê-las “sem querer” deveria ficar enclausurado. Uma vez que, ao internamento e ao asilo psiquiátrico caberia “garantir a segurança pessoal do louco e de suas famílias” (AMARANTE, 2007, p.35).

Já no século XIX, à loucura foram atribuídas noções de moralidade, as quais a separaram em moral e amoral. “de um lado, uma loucura abandonada à sua perversão, e que determinismo algum poderá desculpar, do outro, uma loucura projetada na direção de um heroísmo que forma a imagem invertida, mas complementar, dos valores burgueses” (FOUCAULT, 1978, p.499). No século XX, essa divisão formulou-se entre o doente e o mau caráter, o inocente – aquele que tem o cérebro atrofiado e sofre de um desarranjo mental - e o culpado – o louco mental, que em sua aparente normalidade, esconde uma inteligência transviada e maligna (JODELET, 2005). Em termos científicos, essa oposição dá-se entre o psicótico (doente mental) e o psicopata (pessoa cujos valores foram desviados ou são desconhecidos)10.

Portanto, não foi a Psiquiatria Positivista, desenvolvida no século XIX, que criou a imagem do louco como violento ou animal. Ela apenas consolidou uma visão já existente, inserindo-a no contexto médico, porém, ressaltando a relação entre crime e transtornos mentais.

10 Ver mais em Glossário, no apêndice.

o crime é uma perturbação da comunicação, e, por isso, uma forma de doença mental.’ Essa opinião – isto é, que o crime é um produto e um sistema de doença mental da mesma forma que, por exemplo, a icterícia o é da hepatite – hoje aceita pela maioria dos psiquiatras e por muitos advogados e juristas, não é tão nova quanto seus defensores nos desejam fazer crer. Por exemplo, Sir Matthew Hale (1610-1678), presidente do Supremo Tribunal de Justiça da Inglaterra e, curiosamente, um ardente crente em feitiçaria, declarava que ‘... indiscutivelmente, quase todos os criminosos estão (...) sob certo grau de insanidade parcial, ao cometer esses crimes’. (SZASZ, 1984, p.45-46)

Partindo desse pressuposto de que os criminosos são na verdade psicóticos, Esquirol (psiquiatra e seguidor de Pinel) “defendia a ideia de que os delinquentes deveriam ser tratados por internamento em hospitais psiquiátricos e não em prisões” (SZASZ, 1984, p.102). Parte dessa suposição foi adotada pelo sistema judiciário brasileiro, que a partir do Código Penal de 1940 (cujo artigo foi atualizado em 198411) estabelece leis específicas e tratamento diferenciado aos criminosos com distúrbios mentais e de comportamento. Pela legislação, eles são perigosos, porém inimputáveis, como explica o advogado José Fernando Rocha na apresentação de A Revolução dos Loucos (SOUZA, 1980).

Há séculos que foi colocada pá de cal sobre o problema jurídico-penal no que toca ao doente mental, que é considerado pela lei irresponsável e perigoso (...) O juiz penal interna o perigoso e acompanha a terapêutica até a cessação da periculosidade. Dessa forma é que regrou, nossa lei penal, o problema do insano. Louco moral ou louco mental não é criminoso por ser louco. Ele escapa à órbita do castigo penal e refugia-se na terapêutica compulsória, sob o crivo do Judiciário em razão da periculosidade real. O portador de transtornos mentais que comete um crime não pode ser considerado responsável por ele, pois, segundo o artigo 22, do Código Penal (versão de 1940), ele é “inteiramente incapaz de entender o caráter criminoso do fato ou determinar-se de acordo com esse entendimento” (SOUZA, 1980, p.43). Portanto, estabeleceu-se na justiça duas formas

11 A questão da inimputabilidade penal está presente no Artigo 26 do Código Penal. O qual afirma que “É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento” (Redação dada pela Lei 7209, de 11.7.1984). O texto também discorre acerca da redução de pena e explica que “A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, em virtude de perturbação de saúde mental ou por desenvolvimento mental incompleto ou retardado não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento” (Redação dada pela Lei 7209, de 11.7.1984). (BRASIL. Código Penal Brasileiro. Lei 7209, de 11 de julho de 1984. Disponível em <http:www.codigopenal.adv.br>. Acesso em: 31 mar 2011.)

distintas de julgar e punir os criminosos, a pena e a medida de segurança, como explica o ex- juiz-corregedor do Estado de São Paulo Renato Laércio Talli:

A pena está condicionada à culpa moral, enquanto que a medida de segurança à periculosidade. Este é o modelo em que se inspirou o atual Código Penal Brasileiro. A pena só é aplicável aos responsáveis, sejam ou não perigosos; a medida de segurança somente se impõe aos perigosos, sejam ou não responsáveis. No caso dos irresponsáveis (perigosos), a medida de segurança é um substitutivo da pena; no caso dos responsáveis (perigosos), é um complemento dela. O artigo 22 do Código Penal dispõe que o Manicômio Judiciário é o estabelecimento destinado a segregar o homem sujeito à medida de segurança, quando imputável. (apud SOUZA, 1980, p.46)

O manicômio-judiciário deve ser o lugar de segregação do portador de transtorno mental que cometeu um crime em relação ao restante da sociedade, a quem ele representa perigo e de quem deve ser isolado. É lá que se deve buscar “dar um tratamento adequado visando recolocar o indivíduo em condições normais de convivência em grupo” (SOUZA, 1980, p.300). Entretanto, essa medida só passou a ser respeitada com a criação do Manicômio Judiciário de Franco da Rocha (São Paulo) – inicialmente conhecido como Juqueri – em 13 de dezembro de 1927. Porém, o local destinado “a receber detentos que apresentassem ‘perturbações mentais, antes ou depois da condenação” (p.29) só foi concluído em dezembro de 1933, seis anos mais tarde. Como explica Souza (1980, p.27-28), ao transcrever parte do discurso do juiz Franco da Rocha, responsável pela criação do hospital-presídio.

-Nos hospícios esses pacientes são mal recebidos, pois exigem cuidados, vigilância e mesmo prisão que não são da índole dos hospitais modernos para alienados. Na Penitenciária são recebidos com desgosto, porque perturbam a disciplina e não podem ser corrigidos nem obedecem às normas indispensáveis aos estabelecimentos desse gênero.

-Ficam eles sem colocação conveniente e essa falta de colocação traz sérios embaraços aos juízes, aos tribunais, aos promotores e, quase sempre, aos diretores de hospícios. Estou hoje fora desse serviço, mas lembro-me dos dissabores e apuros em que me vi, muitas vez, por não poder manter, legalmente, no Hospício, um paciente criminoso de morte, cuja loucura, de origem alcoólica, desaparecia ao cabo de dez ou quinze dias depois de cessado o efeito do álcool. Aí vinha os ‘habeas-corpus’ e até requerimentos ao Supremo Tribunal Federal; ninguém sabia o que fazer, e tudo por falta de lugar especial para a colocação de tais pacientes. Nos anais judiciários de São Paulo, isto é, nas publicações feitas pelo ilustre advogado dr. Plinio Barreto, se encontram discussões interessantes a esse respeito, a propósito de um moço de boa família, que ficava louco, quando se embriagava, e cometia então horríveis tropelias e até assassínios. Assim, matara um pobre homem, na rua, sem que tivesse tido questão alguma com este.

Juqueri foi considerado hospital-presídio modelo na América Latina, mas logo a superlotação, a falta de profissionais qualificados e de estrutura o transformou em “uma ante- sala da morte” (SOUZA, 1980, p.53), local para onde nenhum preso queria ser mandado, pois sabia que jamais sairia. Após a implantação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (1977) e a ameaça de intervenção federal, a estrutura e o tratamento de saúde dos internos- presos melhorou, a partir da intitulada Revolução dos Loucos, realizada 36 depois que o manicômio começou a funcionar.

Ainda assim, Juqueri não foi capaz de dissolver o estigma sobre os portadores de transtornos mentais, pelo contrário, solidificou-o a partir de laudos como os descritos por Souza (1980): [Este paciente] “oferece periculosidade, devendo permanecer neste Manicômio para salvaguardar a sociedade” (p.84). Ou ainda, nesse parecer sobre um autista:

Obviamente, o autismo não oferece qualquer possibilidade de adaptação ao meio social: é uma forma de adaptação do paciente ao seu mundo psicótico. Se um paciente cometeu um crime em razão de doença mental, e continua doente – autista, totalmente voltado para o seu mundo psicótico – a expressão ‘sem qualquer possibilidade de adaptação ao meio social’ corresponde à periculosidade, à sociedade e a si próprio. (p.134)

Ao descrever essas pessoas caracterizando-as pela periculosidade e a impossibilidade de adaptação às normas sociais, os psiquiatras do manicômio judiciário não apenas reforçaram os estigmas e as imagens do “louco como violento” – representação arraigada em nossa sociedade – como também forneceram a jurisprudência para que advogados usassem os transtornos mentais para livrar criminosos cruéis e impiedosos de penas judiciárias. Com isso, a primeira “justificativa” que vem à cabeça da população e também dos advogados em caso de crimes de estupro em série, pedofilia, assassinato dos pais, etc., é de que aquela pessoa é maníaca, louca, enfim, doente mental, o que nem sempre é real, mas adquiriu esse caráter diante das múltiplas representações dos transtornos mentais na sociedade contemporânea.

A classificação dessas pessoas como irresponsáveis por seus atos, entretanto perigosas, as vinculou à violência e ampliou seu isolamento na sociedade. Fato confirmado por Garcia (2011) ao avaliar a cobertura da mídia televisiva nacional sobre o Massacre de Realengo12. A fim de explicar o ato que provocou grande comoção nacional, os jornais Nacional (Globo) e da Record, apropriaram-se das representações sociais da loucura e respaldaram-se na fala de psiquiatras, psicólogos e familiares a fim de traçar um perfil do

12 Assassinato de 12 estudantes ocorrido no dia 7 de abril de 2011 numa escola municipal em Realengo, Rio de Janeiro

assassino, diagnosticando-o como psicótico (mesmo que o laudo oficial garanta que não é possível precisar se ele era ou não doente mental) e assim compreender o porquê do crime.

Em artigo anterior ao de Garcia sobre Os Transtornos Mentais e a Justiça, Cohen (2011) explicou que o Código Penal brasileiro e as leis sobre inimputabilidade e periculosidade social dos portadores desses distúrbios são “vinculadas aos mitos, ao folclore ou aos tabus sociais e que, às vezes, não são compatíveis com a realidade da observação científica.” Sendo que ela é preconceituosa ao vincular e estigmatizar “a periculosidade social à doença mental”, devendo ser repensada pelos legisladores. Uma vez que, de acordo com o Código Penal, “apenas os infratores considerados inimputáveis são perigosos. Os traficantes, os chefes de quadrilhas, os sequestradores, os estupradores, os serial killers etc., não o são, pois somente os inimputáveis estão sujeitos à medida de segurança.”