1.1. KENTSEL PEYZAJ YAŞAM KALİTESİ İLİŞKİSİ
1.1.3. Kentsel Yaşam Kalitesi
1.1.3.2. Kentsel Yaşam Kalitesinin Bileşenleri
Inicialmente é importante reforçar que jornalismo científico é um gênero jornalístico e, portanto, uma forma de conhecimento que atua no campo do senso comum e é influenciado pelos mesmos fatores que regem a construção da notícia, os quais foram elencados no Capítulo 1.
Como gênero jornalístico, o jornalismo científico utiliza critérios de noticiabilidade ou valores-notícia para definir dentre uma infinidade de assuntos e acontecimentos quais serão selecionados, interpretados, contextualizados e transformados em narrativas noticiosas a fim de preencher os espaços cada vez mais enxutos dedicados à Ciência, Tecnologia e Saúde na mídia. Nos critérios utilizados nessa seleção e apontados por Burkett (1990) estão o impacto, o significado e o pioneirismo do fato; a proximidade do acontecimento em relação ao jornal e a seu público; a busca por noticiar o conflito; o interesse humano dos temas e o envolvimento de cientistas célebres. Outros valores são as necessidades de sobrevivência – alimentação, moradia, saúde, fertilidade, etc. -; culturais - como estilo de vida; e de conhecimento, no caso satisfazer a curiosidade.
Entretanto, a escolha não se pauta apenas em valores-notícia. Nela também estão inseridos a bagagem cultural e educacional do jornalista e de seu editor, suas crenças e preconceitos sociais (NELKIN, 1995, p.93), que são mantidos na escrita do texto noticioso.
A notícia científica costuma ser estruturada em pequenos parágrafos e tem como característica o uso de superlativo – o mais rápido, o mais lento, o maior, o mais frio e, em alguns casos, a mais nova coisa do mundo (NELKIN, 1995, p.1). Ela tende a privilegiar acontecimentos que causam espanto tornando difícil não haver sensacionalismos (TEIXEIRA, 2002, p.140).
De acordo com Nelkin (1995), no jornalismo científico, muitas vezes, a imagem – o senso comum, a crença sobre o tema – substitui o significado real, a informação factível e útil. Com isso, as matérias “vendem” a ideia de que a ciência criou ou está desenvolvendo “soluções mágicas” para a cura de doenças ou para acabar com a poluição, por exemplo. Soluções que acabam não se concretizando e geram grandes decepções, pois a mídia cria um entusiasmo prematuro e expectativas exageradas ao noticiar pesquisas que ainda não estão concluídas ou não foram provadas. Noticia a ciência como se fosse uma grande corrida em que distintos cientistas, empresas ou universidades disputam entre si para resolver primeiro os problemas da humanidade.
Outra característica apontada pela autora é a homogeneidade das matérias de ciência, visto que a maioria dos artigos sobre determinada temática recorrem às mesmas fontes, que interpretam diferentes informações de modo semelhante. Pois, baseados no ideal de objetividade como ritual estratégico para defender o jornalista de críticas e acusações, os jornalistas “tentam confirmar os fatos e interpretações de suas matérias com especialistas eruditos e de reputação. Esses cientistas incluem o pesquisador original e outros cientistas que trabalham no campo” (BURKETT, 1990, p.9). Porém, esses investigadores - que fazem parte de instituições renomadas e legitimadas ou já ganharam prêmios científicos – dignos de credibilidade suficiente para compor a agenda telefônica do comunicador, formam um círculo bastante limitado, o que impede a heterogeneidade de textos e opiniões.
Em muitos casos, esse círculo torna-se ainda mais limitado, uma vez que, ao retratar acontecimentos ligados a um pesquisador que é considerado autoridade no tema, o jornalista sequer ouve uma segunda opinião. Prática que contraria uma indicação básica do jornalismo - presente em manuais de redação com o da Folha de S.Paulo – que é o cruzamento de informação. Mecanismo que consiste em ouvir outra versão do mesmo fato por fontes independentes e permite ao jornalista não endossar “versões interessadas, que visem a manipulação da opinião pública” (FOLHA DE S.PAULO, 2006, p.27), mas costuma ser ignorado na divulgação de temas médicos.
Não há contraditório na cobertura de ciência. Dispensamos o jornalismo sobre ciência de cumprir o mandamento que interdita a matéria feita a partir de uma única fonte porque entendemos que não há versões da verdade quando se trata de ciência. Compartilhamos e cultivamos, ao longo da modernidade, a crença de que a verdade da ciência não comporta versões, dado ser a ciência justamente o método mais perfeito desenvolvido pelo homem para a apreensão da verdade sobretudo no mundo passível de ser tomado como objeto desse método. Não há contraditório na cobertura de ciência porque não há contraditório passível para a ciência, a não ser aquele que a própria ciência engendrará ao longo do tempo com a continuidade da aplicação de seu método. Os jornalistas que cobrem ciência curvam-se perante sua sabedoria indubitável; e a reverenciam ao encarná-la no cientista-fonte de uma determinada matéria. É a ciência quem fala por intermédio de seus cientistas; qualquer um deles é arauto de uma mesma e única verdade, a verdade científica, derivada do método – e, reza a lenda sobre o ‘método científico’, ser ele, como a ciência, um mesmo e único. (TEIXEIRA, 2002, p.134)
A crença inquestionável do jornalista na credibilidade e na neutralidade da ciência – uma visão fortemente arraigada no senso comum – limita seu trabalho a apenas reconhecer as informações e “traduzi-las” em versão simplificada (TEIXEIRA, 2002, p.135), sem
questioná-las ou ouvir distintas versões para que se construa o enunciado final. Com isso, o jornalista científico “compra” a opinião daquele pesquisador que considera como autoridade, o julgamento objetivo da “verdade”, sem ao menos atentar-se para o fato de que ele pode estar usando a mídia para divulgar seu trabalho e obter apoio da opinião pública e financiamentos públicos e privados para seus estudos. O jornalista torna-se um divulgador da “verdade” desse pesquisador e acaba por promover propagandas da ciência, ou seja, a “vende” para seu público. Além disso, ignora outra indicação básica do jornalismo que é perguntar a quem uma notícia vai interessar, a quem traz prejuízos e quem pode beneficiar-se dela, “perguntas que ajudam a esclarecer o jogo de interesses por detrás dos fatos” (FOLHA DE S.PAULO, 2006, p.27).
Ao crer cegamente na neutralidade da ciência, o jornalista ignora o fato de que ela não é independente das crenças, costumes e valores dominantes na sociedade (LUIZ, 2006, p.65). Nega que “a ciência não é apenas influenciada pelas características de seu objeto, mas constrói ativamente as características desse mundo, sendo determinada também pelas relações sociais, valores e crenças que a cercam” (p.77). Sendo assim, a verdade por ela produzida é “socialmente estabelecida a partir de convenções e critérios designados coletivamente” (p.77).
Ao negar a ciência e o cientista como seres culturais e sociais, o jornalismo científico reitera a crença que classifica o científico como verdadeiro, sem questionar as controvérsias existentes na própria ciência.
Daí as pessoas quererem saber o que a ciência diz, principalmente sobre sua vida cotidiana; e daí o sucesso de artigos e manuais que tratam, por exemplo, da criação de filhos e das relações afetivas, entre outros assuntos, exatamente porque extraem sua autoridade lançando mão do embasamento científico. (CITELLI apud LUIZ, 2006, p.55)
Com isso, a ciência na mídia formata-se como obras de autoajuda, fornecendo ao leitor prescrições sobre como agir para viver bem. E o jornalismo faz propaganda da ideia de que por meio da ciência “a humanidade alcançará o poder de dominar a natureza, colocando-a a seu serviço” (ALMEIDA, 2006, p.14).
A discussão de ciência na mídia combina extensivas reportagens dos resultados reais da ciência, promessas e previsões de que ela poderia curar qualquer problema social, e imagens dos cientistas como oniscientes, poderosos, bem-intencionados e heroicos, para ampliar o clima de
expectativa do que a ciência poderia fazer por e para a sociedade (NELKIN, 1995, p.66, tradução livre)4
Desse modo, a mídia reitera as representações sociais da ciência como neutra, positiva e capaz de salvar a humanidade e reforça o estereótipo idealizado do cientista. Cobre a ciência como propaganda, exalta seus feitos, ignora os fracassos e jamais questiona. Ela é vista como a solução de todos os problemas, a cura das doenças, o fim da fome, das pragas e misérias e isso tudo vem acompanhado de grande entusiasmo de quem escreve a notícia.
Para mudar esse cenário e seguir os rituais estratégicos de objetividade daquilo que se convencionou chamar de “bom jornalismo”, o jornalista deve ter em mente que
Divulgar ciência é acima de tudo ação política e estratégica, e o jornalista deve estar atento a isto. Não se pode divulgar ciência com a apatia do Almanaque do Biotônico Fontoura, que na nossa infância encontrávamos nos balcões das farmácias, com centenas de curiosidades científicas do tipo ‘você sabia que...’. Os interesses políticos e econômicos são imensos na área de C&T e, assim, a manipulação da informação é sempre um risco a ser considerado. (OLIVEIRA, 2002, p.50-51)
Ele deve estar ciente de que a “verdade” produzida pela ciência não é única, há controvérsias. Por isso, “o jornalismo científico deve questioná-la como o faz com as demais áreas, deve desconfiar do cientista como desconfia do político, pois ambos defendem interesses próprios” (LUIZ, 2006, p.77). Ele precisa buscar as versões distintas e a partir dela produzir a sua, “deixando claro qual é a fala de suas fontes e qual é a sua própria” (p.78). E ter em mente que para compreender a ciência, os leitores devem conhecer seu contexto: implicações sociais, políticas e econômicas da atividade científica, a natureza das provas que fundamentam as decisões, os limites – tão bem quanto o poder – da ciência aplicada aos assuntos humanos (NELKIN, 1995, p.171). Pois,
Uma das maneiras pela qual o senso comum se diz é então por meio dos jornalistas. Simultaneamente, esses narradores do contemporâneo participam de seu estabelecimento, constituindo-o. O senso comum também sustenta a ilusão de objetividade jornalística. O jornalista, constrangido pela objetividade, recorre à reiteração das crenças compartilhadas por todos para camuflar a tomada de posição que lhe possibilita narrar. Sua voz, assim, torna-se indiscernível para não elevar seu tom acima do burburinho
4 “Mass media discussion of science combined extensive reporting on the actual results of science, promises and predictions that science would cure any social problem, and images of scientists as omniscient, powerful, well-meaning, and heroic, to develop a climate of expectation of what science could do for and to society” (NELKIN, 1995, p.66).
produzido pela repetição monótona do senso comum. (TEIXEIRA, 2002, p.137-138)
Portanto, cabe ao jornalista ter consciência de que caso continue a propagar ciência sem questioná-la, estará reforçando a crença na ciência como “verdade” inquestionável. Não permitirá a seu público e a ele próprio participar ativa e racionalmente das decisões que podem influenciar suas vidas, mantendo-se sempre calado e inativo diante dos especialistas que são vistos pelas representações sociais como deuses e reiterados pelos jornalistas nessa função.