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2. MATERYAL VE YÖNTEM

2.1. MATERYAL

2.2.1. Çoklu Yöntem (Triangulation)

2.2.1.1. İçerik İnceleme

Já nas décadas de 1970 e 1980, ao estudar as representações sociais do nervoso entre as populações trabalhadoras de classe baixa no Rio de Janeiro, Luiz Fernando D. Duarte (1986) constatou que os transtornos mentais e de comportamento eram divididos em três categorias distintas: melancolia, nervoso e psicológico. Sendo a separação entre eles determinada pela gravidade do distúrbio e, em especial, pelo distanciamento existente entre quem classificava e o sujeito da crise dos nervos. Quando o problema era vivido por si próprio, membros da família (parentes próximos, consanguíneos) ou pessoas do mesmo grupo social e relatado para alguém de fora, o caráter psicológico (a doença mental) era sempre negado. A partir de “Uma lógica que se poderia resumir na equação nós/nervosos X eles/malucos” (ALVES, 1982 apud DUARTE, 1986, p.197).

Joffe (2009) avalia a equação como uma estratégia de defesa de um grupo perante o outro – aquele mais distante da pessoa e da situação especificada. Caracterizar o outro negativamente e negar a mesma condição em seu grupo são vistos como meios de preservar sua identidade enquanto grupo social, como constatou Denise Jodelet (2005) ao estudar a Colônia Familiar francesa de Ainay-le-Château, também na década de 1970.

Star (1955), Yarrow et al. (1955), Freeman & Simmons (1963) sublinharam a resistência das famílias em caracterizar o comportamento perturbado de um dos seus membros nos termos propostos pela psiquiatria é uma tendência a considerar normais os sintomas de uma patologia mental. Muitas pesquisas

mostram a permanência em diversos países e através de diversas culturas dessa tendência a normalizar a doença mental, para não reconhecer e designar aos outros um dos membros da coletividade como doente, com o risco de dificultar o seu tratamento e a sua reabilitação (Lyketsos, 1983). (JODELET, 2005, p.97)

O manual para a imprensa da Associação Brasileira de Psiquiatria (2009) constata essa prática ao afirmar que há um grande número de portadores de esquizofrenia – doença mental com maior carga de preconceito - não diagnosticados por causa do estigma relacionado à doença. Muitos pacientes param o tratamento por não aceitarem que têm o distúrbio e/ou porque a família nega que há entre eles um portador de transtorno mental e, para não assumir o fato à sociedade, deixam-no reclusos e sem atendimento ou medicação.

Mas, quando negar ou esconder a crise torna-se inviável e a pessoa precisa assumir-se na categoria do psicológico, é possível que o faça por meio do uso do discurso médico, a partir de termos que lhe pareça mais “letrado” e “neutro” (DUARTE, 1986, p.197).

Duarte (1986) explica que na busca por classificar e diferenciar as manifestações do nervoso dentro de um grupo social organizou-se uma sequência cujas fronteiras estendiam-se do estar nervoso ao ser louco, “passando progressivamente pelo ser nervoso, estar doente dos nervos e ser maluco” (p.197).

A condição do estar nervoso representa o pólo menos grave de perturbação e não serve propriamente a uma qualificação diferencial dos sujeitos. A condição do ser louco representa o pólo mais grave – e não habilita na verdade tampouco a uma qualificação operacional, pois designa uma situação limite, quase mítica para meus observados, um estado de alteridade absoluta.

Após a Reforma Psiquiátrica e com o aumento das informações médicas sobre os transtornos mentais e de comportamento, os nomes dessa sequência sofreram algumas alterações, porém seu significado e classificações foram mantidos. Em 2004, Brito e Catrib estudaram as imagens da loucura compartilhadas por 52 portadores de transtornos do humor e constataram que “os sujeitos constroem representações sociais de loucura em torno dos seguintes núcleos de significado: fora de si, doença, mal-estar psíquico e distorção da realidade” (p.288).

Fora de si associa-se a comportamentos que divergem dos padrões estabelecidos pelo meio social e que, por isso, são considerados fora do normal e variam “desde andar sem roupa, comer excrementos, até praticar violências. (...) envolve ainda perda do controle consciente dos impulsos que leva o indivíduo a agir sem pensar” (BRITO; CATRIB, 2004,

p.288). Já em doença foram apresentados termos como distúrbio, transtorno, desequilíbrio emocional ou problema mental. “A loucura é percebida como doença, pode esta ser dos nervos, do cérebro, do sistema nervoso, sangue fraco, nervosismo ou até mesmo doença do outro mundo” (p.288). Mal-estar psíquico é percebido como algo muito ruim, horrível, “um estado de mal-estar no qual o indivíduo perde o prazer de viver” (p.289). Distorção da realidade refere-se tanto às alterações da realidade quanto à mudança de personalidade e tendência à fantasia.

Familiares de portadores de transtornos mentais e de comportamento também estabelecem categorias para representar a loucura. Em estudo realizado com cuidadores de 22 usuários do CAPs de Campinas Grande (Paraíba) constatou-se que eles a relacionam ao sistema nervoso, mas também a veem como doença, um problema da cabeça ou distúrbio mental (MORAES et al., 2010). No estudo, ela foi vista como sinônimo de ser nervoso, ter problemas, distúrbio mental, depressão muito forte, falta de juízo ou estresse (p.7). Outros familiares, porém, apropriaram-se do discurso médico para definir seus parentes como doentes ou até esquizofrênicos.

Ao definir a loucura como doença, familiares e portadores de transtornos mentais aproximam-se do discurso e diagnóstico médico, o que sugere a construção de uma representação “a partir de um saber já difundido amplamente pela medicina” (LIMA JÚNIOR; VELÔSO, 2007, p.166). Essa representação, por sua vez, é objetivada na imagem da loucura como desvio do cérebro, que assume protagonismo em função da adoção de uma visão organicista.

Ainda que o discurso médico seja um dos construtores das representações da loucura, Duarte (1986) defende desde as décadas de 70 e 80, que “a área das ‘perturbações’ da vida não era exclusivamente ‘médica’” (p.17), uma vez que se constitui como um misto de ciência, religião e outras crenças populares. De modo que todos são responsáveis por objetivar os transtornos mentais como algo místico, divino, cósmico ou ocasionado por “encosto” (PEREIRA, 2003; LIMA JÚNIOR; VELÔSO, 2007). Característica reiterada pela pesquisa realizada em 2011 pela Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (ABRE) em parceria com o Programa de Esquizofrenia da Unifesp (Proesq). No estudo com cuidadores de portadores de esquizofrenia, em pesquisa qualitativa, eles afirmaram que os primeiros surtos da doença confundem-se com a crise da adolescência e admitiram que a dificuldade de aceitação de seu familiar como psicótico adia a busca por opinião especializada e que antes disso ocorrer eles procuram por respostas não convencionais, em geral via religião – espiritismo, ocultismo e pentecostalismo.

Essa situação não é nova e já tinha sido constatada nos estudos de Duarte, em que a busca se dava nas religiões católica, protestante e Umbanda. Sendo que cada uma apresentava uma gama bastante ampla de recursos rituais para protegerem seus fieis do nervoso, fossem eles “constrangimentos do mundo ou à intervenção dos princípios ou entidades espirituais malignas (o pecado, o diabo, um encosto ou um trabalho)” (DUARTE, 1986, p.207). A Umbanda, por exemplo, afirmava nada ter a ver com os casos de loucura de origem física, entretanto a maioria deles, segundo Guedes (1974) e Birman (1980) (apud DUARTE, 1986, p.248), eram problemas espirituais. Pois “o encosto de um espírito na vítima. A mediunidade não desenvolvida ou paralisada provoca perturbações mentais.” E para D. Lia – uma Mãe de Santo da Umbanda – “‘o nervoso é aquele que não tem sossego, vive irritado’. Ficam assim por causa do ambiente, falta de compreensão, ambiente onde as pessoas não se entendem e brigam (...) Às vezes um bom chá de alpiste é melhor que muito calmante. Já o maluco é coisa mais de família, herdada” (DUARTE, 1986, p.260). Portanto, até religiões espíritas apresentam fronteiras entre “o tipo de perturbação compreensível enquanto experiência ‘espiritual’ e aquele outro que – nomeável então como loucura, doença mental, problemas no cérebro – supõe a intervenção dos saberes médicos ou médico-psiquiátricos” (p.263-264).

No processo de construção da imagem da loucura como misto de religião, medicina e crenças populares, os profissionais de saúde também estão suscetíveis às visões não científicas dos transtornos mentais e de comportamento, inclusive de seu estigma. O que foi constado em estudo realizado com 150 estudantes dos cursos de Psicologia, Serviço Social, Medicina, Enfermagem e técnicos de enfermagem, em universidades da Paraíba. A pesquisa mostrou que “visões estereotipadas de cunho negativo, assim como os sentimentos desfavoráveis em relação a ele [portador de transtorno mental], encontram-se presentes, ainda hoje, em representações como sem juízo, sem razão e agressivo, gerando atitudes de medo e exclusão” (BARROS et al., 2007, p.9). Ideias como “ninguém se recupera da esquizofrenia” ou “esquizofrênicos passam sua loucura para outras pessoas” são visões estereotipadas compartilhadas por profissionais de saúde (ABP, 2009, p.77).

Outra visão sobre os portadores de transtornos mentais é a irracionalidade, essa causada por uma falha ou defeito na cabeça e responsável por aproximá-lo da animalidade, como explicado por um dos familiares ouvidos na pesquisa realizada por Pereira, em Ribeirão Preto: “essa doença deixou ele animal irracional, um animal... uma cabeça irracional que criou mundo irracional” (PEREIRA, 2007, p.77). Essa imagem remete a Foucault, uma vez que a loucura na Idade Moderna representava o total afastamento e abandono razão (1978, p.195) e ao ser materializada na figura do desatino manifestava-se por meio da alienação,

irresponsabilidade e incapacidade do sujeito diante de seus atos e da noção da doença. Noções ainda vivas e que se manifestam quando um familiar define o doente mental como uma criança que precisa de cuidado e atenção constate, ressaltando sua dependência e incapacidade de viver só (MORAES et al., 2010). E nos discursos que os relacionam à agressividade (BARROS et al., 2007; MORAES et al., 2010), periculosidade e na irresponsabilidade diante de suas ações que os fazem ser considerados inimputáveis pelo próprio Sistema Penal Brasileiro.