2. MATERYAL VE YÖNTEM
3.2. TARTIŞMA
Diante do processo de construção da representação social dos transtornos mentais que se estabelece como misto de ciência, religião e cultura popular (inclusive memória social), as explicações ou crenças sobre os fatores que os ocasionam são vistas pelo senso comum principalmente a partir de uma inter-relação entre causas orgânicas e psicossociais.
Nesse contexto, o trabalho assume um papel relevante, visto tanto como causador quanto meio de cura dos transtornos mentais, principalmente diante do preconceito e da dificuldade de aceitação do uso do medicamento para conter as crises ou curar os doentes (DUARTE, 1986; JODELET, 2005). Duarte (1986, p.24) ilustra a constatação ao relatar um diálogo entre trabalhadores analisados em seu estudo. “‘acho que é uma psicose’. Recomenda-se expressamente que não tome drogas; que ele próprio quando se sente com uma alteração ‘assim de vez em quando...’, trabalha intensamente, para cair na cama de cansado.”
‘Aquele que trabalha esquece, consegue esquecer mais facilmente. Mas aquele que pensa o dia inteiro, que não faz nada, esse não é curável. Aliás, aquele que não trabalha está doente mesmo. Aquele que trabalha consegue melhorar um pouco. Tudo isso vem do cérebro, o cérebro não manda. Tem alguma coisa que não deixa eles trabalharem, não sei. Aquele outro, ele tenta mas não consegue, eu vejo, ele ouve barulhos, isso atrapalha e ele vai embora, acabou’. (JODELET, 2005, p.237)
Essa visão do trabalho não é recente, data do século XVII, quando pela primeira vez a loucura foi “percebida através de uma condenação ética da ociosidade e numa imanência”
(FOUCAULT, 1978, p.83-84). Na sociedade brasileira, o ócio também era visto como causa, sendo que o trabalho exaustivo e estafante seria a cura para o nervosismo. “Uma senhora de Acari dizia que quando estava muito nervoso, bastava-lhe lavar um tanque cheio de roupas para se sentir melhor. Um senhor de Jurujuba (...) dizia que procurava ‘botar tudo pra fora’ numa tarefa doméstica bem estafante antes de dormir” (DUARTE, 1986, p.162).
Por outro lado, excesso e problemas no trabalho, assim como o estresse, são apontados como causas dos transtornos mentais (MORAES et al., 2010). “tudo o que constitui um estímulo excessivamente intenso para o cérebro se torna causa da doença, o ruído, a rapidez, o ritmo de vida urbana” (JODELET, 2005, p.269). O excesso de estudo, que endureceria o cérebro e tornaria incapaz de ligar ideias (FOUCAULT, 1978, p.404) e a genialidade também são vistas como fatores desencadeadores.
Acredita-se que todo gênio é um pouco maluco. Esta última não é inteiramente gratuita; de fato, uma boa quantidade de pessoas notáveis, talentos, gênios, sofreram algum distúrbio mental, pelos menos passageiro e sempre mostraram uma conduta bastante diferente do padrão dominante no ambiente cultural em que viveram. Entretanto, a imensa maioria das pessoas que sofrem de alguma síndrome mental, não se distingue por aptidões e talentos especiais; pelo contrário, uma vez que entre no círculo da psicose, se tinha algum talento, o perde. (ROMERO, 1996, p.115-116)
Duarte (1986) afirma que essas representações são compartilhadas devido ao fato de a sociedade apresentar aspectos similares em alguns pontos da cultura geral e também no imaginário social, que no caso do brasileiro foi influenciado pela colonização portuguesa. Ela trouxe a crença originada pelas medicinas de origens clássico-ocidentais e árabes de que a causa dos transtornos mentais (do nervoso) é humoral e defende, por exemplo, que a “‘loucura’ por ‘delírio’ [é] causada por humores ou vapores gerados na cabeça ou a ela comunicados por outras partes do corpo” (p.85). Conceito incorporado pelos brasileiros que creem em causas físicas e morais para as manifestações do nervoso.
Dentre as causas morais encontram-se a crença de que a loucura é ocasionada por defeitos do caráter e conflitos emocionais (DUARTE, 1986), problemas e separações conjugais (BRITO; CATRIB, 2004; MORAES et al., 2010), desgosto advindo de alguma desilusão amorosa ou ausência de membros familiares como o pai (LIMA JÚNIOR; VELÔSO, 2007), desarmonia familiar (PEREIRA, 2003), perdas afetivas e materiais, mudanças e rompimentos de vínculos afetivos (BRITO; CATRIB, 2004).
Os aborrecimentos, as amofinações, os problemas apresentam-se não só em si mesmos como ‘obstruções’ da vida, como se transpõem para a cabeça,
obstruindo as ideias e causando a alteração ou irritação dos nervos. Observada a mesma moeda pela outra face, poder-se-á dizer que a perturbação nervosa altera as ideias e faz com que a cabeça fique ‘cheia’ de aborrecimentos, amofinações e problemas, que poderiam, de outro modo, consistir em eventos regulares da luta quotidiana. (DUARTE, 1986, p.173) As causas físicas são exibidas principalmente pela relação entre força/fraqueza, doença dos nervos e cabeça e questões sexuais (inclusive traumas). No binômio força/fraqueza, o corpo (físico) é visto como determinante por originar disfunções no cérebro. Por isso, os nervos (representados pelos músculos e tendões), o coração e o fígado devem ser mantidos fortes e saudáveis para evitar perturbações. Por essa lógica, o sangue e a cabeça precisam ser preservados, uma vez que a loucura resultado da fraqueza dos nervos e da cabeça (Brito; CATRIB, 2004; LIMA JÚNIOR; VELÔSO, 2007).
O discurso da força se tece em boa parte em torno da ideia do sangue, como sede e sinal de uma qualidade vital positiva. (...) É creditável à intervenção desse espaço cultural o valor atribuído às vitaminas, normalmente encaradas como ‘fortificantes’ e de consumo bastante generalizado, mesmo sem recomendação ou prescrição médica (normalmente por indicações boca a boca, ou reiterando uma antiga receita para algum membro da família). Seu uso é concomitante ao dos tônicos ou fortificantes tradicionais, do tipo do ‘Biotônico Fontoura’. O rótulo deste remédio refere-se em letras de máxima visibilidade a sangue, músculos e nervos (nessa ordem), intercalando em letras menos distintas a referência ao ferro e ao fósforo; o primeiro elemento associado ao sangue e o segundo aos músculos e nervos. Ressalta nessa informação o valor razoavelmente reconhecido entre os informantes ao ferro como elemento de ‘fortalecimento’ do sangue e, portanto, do corpo. (DUARTE, 1986, p.147-148).
O sangue além de ser mantido “limpo”, precisa ser conservado, pois sua perda, principalmente na cabeça, é associada à loucura (MORAES et al., 2010). Além do sangue, músculos fortes e saudáveis são fundamentais para evitar doenças dos nervos (DUARTE, 1986), que podem ser ocasionadas pela fome e má alimentação (Moraes et al., 2010), que provocam o enfraquecimento corporal direto (DUARTE, 1986), sendo que “deixar de comer pode enfraquecer a mente a ponto de conduzir à loucura” (LIMA JÚNIOR; VELÔSO, 2007, p.166). A mente, por sua vez, está associada à cabeça e à capacidade intelectual, que inclui memória, inteligência e raciocínio (DUARTE, 1986).
Dentre as causas orgânicas e psicossociais para os transtornos mentais estão o sexo e a hereditariedade. Em relação ao sexo destacam-se a falta, as obstruções e os traumas. Como explica Duarte (1986): “As relações sexuais do trabalhador com sua mulher são reduzidas o máximo devido ao desencontro de horários e ao cansaço físico após uma jornada de trabalho”
(p.221). Além do mais, a impotência sexual é comum entre esses trabalhadores jovens e a prática generalizada do coito interrompido como método anticontraceptivo impede que a mulher satisfaça sua libido (p.221). No caso da ejaculação, “a continência prolongada é vista como perturbadora” (p.171) e muitas das piadas depreciativas sobre a imagem dos padres se arma sobre a obrigatoriedade do voto de castidade.
No caso da mulher, a obstrução dá-se por meio do uso de pílulas anticoncepcionais e o ligamento de trompas que inibem o engravidamento e têm implicações morais (DUARTE, 1986). Gestações interrompida, casos de abuso sexual (MORAES et al., 2010), além da quebra do período de resguardo (BRITO; CATRIB, 2004) habitam o imaginário popular como fatores que ocasionam doenças dos nervos ou da cabeça em pessoas do sexo feminino.
O sexo como causa da loucura não é uma representação social recente, pelo contrário, está presente desde o século XVI, quando libertinos passaram a ser enclausurados nos antigos leprosários (FOUCAULT, 1978). A instituição da Psiquiatria, no século XIX, a fortaleceu nas imagens do homossexualismo e da masturbação. O primeiro foi considerado como psicose e impunha ao sujeito as penalidades da lei de higiene mental e permitia que fosse “confinado contra a sua vontade, num hospital psiquiátrico” (SZASZ, 1984, p.279). Já a insanidade masturbatória começou a desenhar-se no século XVII, e na busca por uma causa para a loucura, ela foi atribuída a um “ato abominável – a masturbação” (p.215), que no século seguinte espalhou-se e foi transformada em dogma (hoje prontamente negado) da Psiquiatria e da Psicanálise.
A hereditariedade, por sua vez, é considerada decisiva na predisposição do indivíduo à alienação mental desde que Pinel destacou o fator hereditário em seu Tratado Médico- Filosófico sobre a Alienação Mental (PEREIRA, 2008; MORAES et al., 2010). A partir de então, a crença de que a doença mental é passada de pais para filhos foi corroborada pelo discurso científico e inserida no universo consensual, para o qual:
As capacidades ‘morais’ de cada um dos pais serão particularmente levadas em conta, havendo, como disse, uma verdadeira ‘expectativa de estigma’ a cercar os filhos de pais moralmente desqualificados. Os sinais de fraqueza física ou mental poderão ser atribuídos àquele sangue tornado fraco ou ruim na carreira dos genitores e assim transmitidos aos filhos. (DUARTE, 1986, p.204)
O dito popular “filho de peixe, peixinho é; filho de maluco, maluquinho é” (DUARTE, 1986) é crença presente no imaginário social do brasileiro. Tanto que os próprios familiares de portadores de transtornos mentais justificam o distúrbio por essa motivação, quando há na
família outras pessoas com histórico de internação ou tratamento psiquiátrico tradicional, como constatado nos estudos realizados em Ribeirão Preto e na Paraíba, respectivamente. “Assim, a referência ao ‘sangue fraco’ do tio, do pai, é lembrada, apesar da vergonha contida no discurso. ‘Eu tive um irmão esquizofrênico e foi difícil de aceitar’. ‘O meu marido tinha um irmão e um sobrinho loucos’” (PEREIRA, 2003, p.78). “muito esquisito, muito diferente dos outros, e tem caso na família, né? Tem meu pai... morreu muito doido, louco, louco de se atinar (...) É... é hereditário” (MORAES et al., 2010, p.5).
Portanto, na inter-relação entre os universos consensuais e reificados diversas foram as imagens e as causas atribuídas aos transtornos mentais e de comportamento. Porém todas, mesmo que indiretamente, remetem-se no processo de ancoragem à memória social e a história do gesto que exclui e desqualifica o outro, a ameaça. Desse modo, a objetivação materializa-se as atualizando, mas principalmente reiterando o sentido negativo e estigmatizado do louco e da loucura.
Resumindo: As imagens dos transtornos mentais e de suas causas no Brasil descritas neste capítulo
QUADRO 1 – As imagens dos transtornos e de suas causas no Brasil
Loucura Exclusão
Imbecilidade Irracionalidade
Animalidade Periculosidade Social
Agressividade Medo
Pecado/ Culpabilidade Tratamento Moral
Contaminação Hereditariedade
Fora de si Desadaptado
Distúrbio Mental (desvio do cérebro) Discurso Médico
Doença Problema de Cabeça
Nervos Força/Fraqueza
Falta de Juízo Fraqueza Moral
Nervoso Mal-Estar Psíquico
Distorção da Realidade Delírio/ Incapacidade
Encosto Místico/ Cósmico
4 OS TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO NAS PÁGINAS DA FOLHA DE S.PAULO
Este capítulo visa apresentar o corpus deste estudo, fornecer o panorama geral das notícias, realizado por meio da análise quantitativa, e identificar as múltiplas vozes que compõem a cobertura dos transtornos mentais e de comportamento e seus personagens realizada pela Folha de S.Paulo, no ano de 2009.
Inicialmente, explica-se como se deu a constituição e a delimitação do corpus. Na sequência, apresentam-se as categorias utilizadas na análise e identificação de quais notícias que temos sobre os transtornos e seus personagens. Por fim, foca-se sobre as vozes que compõem os textos e quais as estratégias utilizadas pelos jornalistas na escolha de fontes legitimadas socialmente para construir as matérias e os significados dos transtornos mentais e de comportamento e de seus personagens nas páginas da Folha.