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Com base nestas categorias foi realizada a análise de conteúdo quantitativa a fim de fornecer um panorama geral, a partir de estatísticas, da cobertura dos transtornos mentais e de comportamento na Folha de S.Paulo.

Psicose, esquizofrenia, transtorno maníaco-depressivo, autismo, psicopatia, neurose, transtorno de ansiedade, mania, estresse pós-traumático, síndrome do pânico, fobia, depressão e TOC, além dos termos gerais doença (doente, transtorno e distúrbio) mental, transtorno (distúrbio) psiquiátrico e loucura (louco) são citados em 366 notícias. Sendo que em 278 textos (76% dos casos) as notícias referem-se a um único transtorno, enquanto 88 textos (24%) citam dois ou mais transtornos ou os termos gerais.

As notícias são classificadas nas sete subcategorias de blocos temático, de modo que Ciência concentra 29,7% do corpus de pesquisa ou 107 notícias. Outras Mídias apresenta 70 textos, 19,1% do total. Personagem é composto por 16,4% do corpus, que corresponde a 60 matérias. Metáfora reúne 59 textos, 16,1% das notícias. Geral Opinião agrupa 32 matérias ou 8,7%. Com 23 textos, Geral representa 6,3% do corpus e Opinião do Leitor com 15 notícias, 4,1%.

Considerando que 88 textos mencionam dois ou mais transtornos, a categoria transtorno ou termo citado é dividida em 16 subcategorias assim dispostas: Depressão com 87 notícias corresponde a 17% do corpus. Esquizofrenia é citada em 79 notícias (15,5% do total), neurose em 48 textos (9,4%). Transtorno (doença, doente, distúrbio) mental são os termos mais utilizados, aparecem em 43 textos (8,4%) e são seguidos por loucura com 36 matérias (7%). Autismo corresponde a 6,8% do corpus, ou 35 notícias. Psicopatia tem 31 textos (6,1%), psicose e transtorno maníaco-depressivo, 29 (5,7%) cada, fobia aparece em 28 (5,5%) e ansiedade em 22 (4,3%). Treze textos (2,5%) falam sobre o estresse pós-traumático, dez (2%) sobre síndrome do pânico, nove (1,8%) sobre TOC e transtorno (distúrbio, transtorno) psiquiátrico e, por fim, duas notícias se referem à mania (0,4%).

Ainda que seja uma temática de saúde, portanto científica, os transtornos mentais e de comportamento são veiculados em 22 editorias ou seções do diário. Ilustrada com 110 notícias (30% do corpus), Saúde com 52 (14,2%), Cotidiano com 43 (11,7%), Opinião com 28 (7,6%), Equilíbrio com 19 (5,2%), Mais e New York Times com 15 (4,1%) e Mundo com 12 textos (3,3%) são os espaços que mais exploram o tema.3

3 Veja mais em tabelas no apêndice.

Na categoria notícia em relação ao transtorno mental, 248 textos ou 67,8% do corpus apenas citam os transtornos, enquanto 118 (32,2%) falam sobre eles. Em relação à conotação, 53,6% do corpus, ou seja, 196 notícias são dispostas na categoria Ciência. Outros 61 textos (16,7%) em Senso Comum e 55 (15%) em Metáforas. O restante das matérias é classificado em subcategorias mistas: 38 (10,4%) em Ciência/Senso Comum, 14 (3,8%) em Metáfora/Senso Comum e as duas notícias restantes enquadram-se em Ciência/Jurídico.

Em 200 notícias ou 54,6% do corpus o repórter ouve fontes, já nas outras 166 (45,4%) ninguém é procurado para falar sobre o assunto retratado. Em apenas 138 textos (37,7%) há personagens.

4.3.1 As notícias que temos

Grosso modo esses números dão algumas pistas iniciais sobre a cobertura dos transtornos mentais e de comportamento realizada pelo jornal Folha de S.Paulo.

Depressão e esquizofrenia foram os transtornos mais abordados pelo jornal, ou seja, aqueles que apresentaram maior valor-notícia. O primeiro talvez possa ser justificado por uma notícia do próprio diário, veiculada em 3 de setembro e cujo título é: “Depressão: Doença será a mais comum do mundo em 2030” (DEPRESSÃO DOENÇA..., 2009). A matéria traz estatísticas divulgadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), na 1ª Cúpula Global de Saúde Mental, realizada em Atenas, na Grécia e afirma que: “Nos próximos 20 anos, a depressão deve se tornar a doença mais comum do mundo, superando o câncer e doenças cardíacas.” O texto ainda diz que países em desenvolvimento, como o Brasil, são os que mais sofrerão com o problema, uma vez que já têm a maior parte dos casos registrados, o que justificaria o fato de o jornal atentar-se mais às informações sobre o tema. Prova disso é o fato de que das 87 notícias veiculadas sobre o transtorno, 49 (56,3%) enquadram-se no bloco temático Ciência.

Já em relação à esquizofrenia, uma psicose que afeta a 1,8 milhão de brasileiros, acredita-se que o motivo de ela chamar a atenção do diário não é nem tanto o número de afetados, mas sim o fato de a doença mental ter sido discutida pela novela “Caminho das

Índias.” Veiculada de janeiro a setembro de 2009, no horário das 21h, pela Rede Globo, a

telenovela tinha em seu núcleo principal o personagem Tarso (vivido por Bruno Gagliasso), que se descobre portador de esquizofrenia durante a trama. A obra mostrou a dificuldade da família em aceitar o transtorno, a recusa do próprio Tarso em aceitar-se psicótico e fazer o tratamento e discutiu a doença e os métodos de tratamento por meio do Centro de Saúde

Mental, um “hospital” liderado pelo psiquiatra Dr. Castanho (Stênio Garcia), que adota o método da Dra. Nise da Silveira. Prova de que a noticiabilidade da psicose foi pautada pela novela é o fato de que das 79 notícias que citam a esquizofrenia, 64 ou 81% do total são veiculadas no mesmo período da novela, enquanto apenas 15 (19%) foram escritas após seu final. Os textos são classificados principalmente em Metáfora (27 ou 35,4%) e Ciência (25 ou 31,7%). Outras dez matérias (12,6%) retratam Personagens e nove (11,4%) falam a respeito de filmes, peças de teatro e novela que citam a doença ou seus portadores enquadrando-se em Outras Mídias. Isso sugere que, de fato, a inserção da doença mental na obra de ficção fez com que o diário sensibilizasse-se para o tema e colocasse os termos esquizofrenia e esquizofrênico em moda de forma que eles passassem a ser mais usados para adjetivar outras situações, ou seja, como metáforas.

Ainda que a Ciência seja o bloco temático com maior número de notícias, isso não significa que a maioria dos textos explorem o viés científico dos transtornos. A conotação em que são empregados pode até ser a científica, porém são utilizados em matérias que falam sobre Outras Mídias, um ato de um portador (ou alguém que alegue sê-lo) ou ainda para dar uma Opinião ou se referir a algo Geral. Tanto é que apenas 29,2% do corpus discorre sobre aspecto clínicos, científicos, psicológicos e orgânicos dos distúrbios, enquanto 53,5% dos textos utilizam a conotação de Ciência. O que ajuda a compreender o porquê de as editorias consideradas “científicas” - Ciência, Saúde e Equilíbrio - serem responsáveis por apenas 21,1% do corpus, enquanto apenas Ilustrada veiculou 30% das notícias que focam os distúrbios e seus personagens.

Em relação às editorias, elas permitem outra observação: os transtornos mentais e de comportamento e seus personagens estão presentes em 22 editorias do jornal, ou seja, ocupou pautas do diário como um todo, não ficando restrito à apenas uma ou duas seções consideradas científicas. O que talvez sirva para explicar o motivo de 67,8% do corpus apenas citar os distúrbios sem aprofundá-los ou contextualizá-los.

Ainda que a análise quantitativa tenha fornecido algumas pistas e dado um panorama geral sobre “quais as notícias que temos sobre os transtornos mentais e de comportamento e seus personagens na Folha de S.Paulo”, ela não foi capaz de responder “por que essas notícias são como são”. Por isso, realizou-se, a partir dos blocos temáticos, a análise de conteúdo qualitativa, visando por meio do conteúdo das mensagens, identificar e compreender as notícias e, consequentemente, inferir porque elas são como são. Antes disso, porém, foca-se sobre as vozes que compõem e legitimam os textos e também sobre a construção social das notícias enquadradas como Jornalismo Científico.