1.1. KENTSEL PEYZAJ YAŞAM KALİTESİ İLİŞKİSİ
1.1.4. Yaşam Kalitesi İle İlgili Yapılan Çalışmalar
Dorothy Nelkin (1995) afirma que o jornalista científico cobre assuntos de ciência, medicina, energia, meio ambiente e pesquisas. Burkett (1990), por sua vez, destaca dentre todas essas temáticas, a medicina, que absorve muito o uso dos meios de comunicação. Para Bueno (2001), a comunicação em saúde deve ser vista como a mais importante modalidade de divulgação científica, principalmente, em função do tempo e do espaço dedicados a ela pelos meios de comunicação de massa.
Jornais e revistas, sejam eles de grande ou pequeno porte, em termos de tiragem ou penetração; emissoras de rádio e de televisão, de âmbito nacional, regional ou local; e mesmo canais da televisão por assinatura, em sua maioria internacionais, encerram uma cobertura bastante generosa da área da saúde, certamente em função do interesse que ela desperta na audiência. Esse interesse foi comprovado por uma consulta popular realizada em 2010 pelo Ministério de Ciência e Tecnologia em parceria com a Fiocruz. A pesquisa revelou que dentre todas as temáticas – aqui se inclui política, economia, esportes e religião, por exemplo – aquelas que mais despertam o interesse do brasileiro são Meio Ambiente e Medicina e Saúde, respectivamente.
Segundo Melo (2006, p.11), essa preocupação deve-se ao fato de que “cidadãos sadios, nutridos e felizes podem desencadear mecanismos de desenvolvimento capazes de sustentação autônoma, tornando factíveis, estáveis e duradouras as sociedades onde vivem.” Sendo que “uma informação adequada, cognitiva e emocional reduz de maneira sensível os custos de prevenção e tratamento das enfermidades” (EPSTEIN, 2001, p.162). Desse modo, a divulgação de saúde “pode não ser uma panaceia para todos estes problemas que nos afligem,
mas certamente pode se constituir num valioso implemento auxiliar” (p.163) e contribuir, inclusive, para a prevenção e até mesmo a cura de algumas doenças. Isso tudo é possível, uma vez que, “muitas pessoas usam a mídia como fonte primária de aprendizagem sobre como manter-se saudável e em forma” (NELKIN, 1995, p.68, tradução livre)5. Os meios de comunicação de massa podem atuar"positivamente como auxiliares da educação em saúde, e são capazes de fortalecer ações preventivas neste campo” (ABP, 2009, p.16).
No caso dos transtornos mentais e de comportamento, a divulgação científica tem função e responsabilidade importantes, que é veicular informações que contribuem para a desconstrução de estereótipos e representações sociais que, por séculos e também com o aval da mídia, ligam os portadores dessas enfermidades à loucura, animalidade, insanidade, irresponsabilidade e a outros tantos sentidos negativos compartilhados coletivamente. “O estereótipo do doente mental como portador de níveis de agressividade crescente, tão repetido pela mídia, especialmente pela mídia de entretenimento, reflete um preconceito, não uma verdade científica” (PHILO apud KUCINSKI, 2002, p.184).
Este trabalho parte da hipótese de que o jornalismo atua no campo do senso comum e, por isso, é capaz de reiterá-lo, alterá-lo e negá-lo. As noções de saúde e doença, por sua vez, devem ser interpretadas no imaginário coletivo e servem de suporte à expressão de crenças e valores compartilhados por uma sociedade, sendo necessário interpretá-las apoiando-se “em conceitos, símbolos e estruturas de referências interiorizadas conforme os grupos sociais e culturais a que pertençam” (ADAM; HERZLICH, 2001, p.82). Estar doente ou saudável depende também das imagens e significados que eles possuem em determinado contexto, pois o discurso da enfermidade só tem sentido na medida em que é afirmado como real para os indivíduos.
É real porque justamente é originado e legitimado em primeira instância do mundo do senso comum. É preciso que compreendamos esse discurso como resultante de processos interativos e comunicativos através dos quais os indivíduos constroem uma rede de significados para as suas experiências aflitivas. Na construção de sentidos, fatores intersubjetivos e existenciais mesclam-se como formas culturalmente padronizadas de interpretação. (ALVES, 1994, p.98)
É também no senso comum - sobre o qual atua o jornalismo - que são construídos os significados dos transtornos mentais.
5 “many people, for example, use the media as their primary means of learning about ways to keep healthy and fit” (NELKIN, 1995, p.68).
os processos fundamentais de interpretar a enfermidade não ocorrem simplesmente por asserções lógicas ou por juízos teóricos estruturados em modelos cognitivos. É necessário levar em considerações que o senso comum contém inumeráveis interpretações pré-teóricas, admitidas como certas, sobre a realidade cotidiana (Schutz, 1962). O discurso é uma construção a posteriori de situações sociais concretas vivenciadas pelos atores sociais. (ALVES, 1994, p.98)
O senso comum atua no estabelecimento de teorias leigas sobre as enfermidades e os transtornos mentais. Postulados, que mesmo fundamentados em premissas consideradas cientificamente incorretas, têm consistência e lógica internas, ajudando as pessoas a “fazer sentido” do que aconteceu e por quê. “as teorias leigas fazem parte de um conjunto complexo de heranças populares, que é cada vez mais influenciado (especialmente nos países industrializados) por conceitos tomados de empréstimo aos meios de comunicação, à Internet e ao modelo médico” (HELMAN, 2003, p.124).
Portanto, a compreensão dos transtornos mentais também se dá no campo do saber popular e é influenciado por conceitos provenientes da mídia e se estrutura no senso comum – campo de atuação do jornalismo. E o qual pode, por meio da desconstrução das representações sociais existentes sobre a loucura e da veiculação de informações científicas, alterar a imagem dos transtornos e de seus personagens, facilitando o acesso aos tratamentos, a compreensão e aceitação do distúrbio e sua inclusão social.
2.3.4 A Saúde na Mídia
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como “estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doença” (EPSTEIN, 2001, p.163). A mídia, por sua vez, cobre o tema a partir do binômio saúde/doença e, por isso, a vê como ausência da enfermidade, que “é um estado que afeta o organismo de um indivíduo” (ADAM; HERZLICH, 2001, p.9), impedindo o bem-estar e, por consequência, causando sofrimento. Diante dessa constatação, Bueno (s/d) caracteriza a divulgação científica de saúde
As matérias de saúde concentram o foco na doença, tentando entendê-la sob todas as formas e assumem, quase sempre, um caráter fatalista (tal paciente deu um azar danado ao ‘pegar’ tal moléstia ou estava determinado geneticamente a contraí-la algum dia). Desviam, desta forma, a atenção da ausência de políticas de saúde, deixando de entender o processo pelo qual se criam condições para a emergência de epidemias ou para o retorno de velhas enfermidades. Elegem os micro-organismos como vilões (cada vez mais resistentes ao homem!), sem indicar que a causa maior das moléstias e patologias é a precária infraestrutura de atendimento, a ausência de um
programa de saneamento básico, o despreparo de profissionais, a mercantilização da Medicina, o analfabetismo e a miséria da população. Ao concentrar o foco exclusivamente na doença sem contextualizar os fatores – também sociais – que podem tê-la provocado, a mídia realiza coberturas fragmentadas que, quando analisadas serialmente, mostram-se contraditórias.
O leitor é bombardeado por um sem número de informações, diluídas ao longo das várias edições, que, se pudessem ser vistas conjuntamente, indicariam, de imediato, contradições insanáveis. O cidadão, que consome este material informativo, fica, invariavelmente preso num conjunto formidável de dilemas: afinal de contas, o vinho faz bem ou mal para o coração, tomar vitaminas ajuda a retardar o envelhecimento ou induz a doenças, o fumante passivo corre ou não risco de câncer, qual a verdadeira eficácia do coquetel de drogas para inibir a ação devastadora do HIV e assim por diante. (BUENO, s/d)
Isso se dá uma vez que a mídia baseia muitas de suas matérias em resultados preliminares ou que ainda não foram submetidos à avaliação por outros cientistas, mas têm como pesquisador responsável um cientista legitimado, autoridade em sua área ou que pertença a alguma instituição com credibilidade. Os jornalistas não se preocupam em questionar a qualidade e a validade das informações. Por confiarem tanto no nome do cientista ou na instituição não se atentam ao fato de que pode haver interesses da fonte “em divulgar seus conhecimentos, seus resultados de pesquisa, seus produtos, suas tecnologias ou a sua excelência na prestação de serviços” (BUENO, 2001), interesses econômicos que existem nessa cobertura, mas, muitas vezes, passam despercebidos pelos repórteres. O que se justifica na crença ou senso comum de a ciência é neutra e, mais do que isso, de que criará a “solução mágica” para o fim dos problemas da humanidade. Com isso, a cobertura de saúde viabiliza- se “na expressão maniqueísta da luta do bem (a indústria da saúde, o especialista, a tecnologia a serviço da ordem médica) contra o mal (o vírus, a bactéria, a deficiência do patrimônio genético de determinados indivíduos)” (BUENO, s/d).
Essa visão não é exclusiva da mídia, está presente na própria construção do sentido de saúde e doença na sociedade, uma vez que elas são também constituídas por mitos e ritos (LEFÈVRE, 1999, p.13). Ao reforçar a oposição entre saúde-doença, bem-estar e sofrimento, bem contra o mal, os meios de comunicação são hoje “a grande máquina de produção de histórias mitológicas sobre saúde e doença” (p.15). Histórias que atuarão ativamente na construção do saber popular sobre a doença e a saúde estabelecendo seus significados no
senso comum, que serve como base para as interpretações e contextualizações noticiosas sobre as informações médicas.
Teixeira (2002, p.138-139) afirma que a divulgação científica de saúde na mídia é pautada no senso comum e naquilo que é próprio do nosso tempo, que ela resume na imagem da hipocondria.
A hipocondria é própria do nosso tempo; somos mais hipocondríacos hoje do que éramos há vinte anos. (...) Investe-se hoje em remédios porque vivemos um tempo em que não sabemos representar o sofrimento – acolhê-lo – senão mediante a doença. Doença, aqui, entende-se – pois navegamos pelo lodo do senso comum – como aquilo para o que o médico sabe dar um remédio. Não há sofrimento para além da doença, e o médico tem um remédio para ela. Sobre isso, as narrações que enchem as páginas das revistas, dos jornais, da Internet, e tomam o tempo nas televisões, não levantarão dúvida nem deixarão que escape uma discrepância capaz de revirar o lodo. A reverência benevolente perante aquele que traz a boa nova do avanço da biomedicina encena nossa desejo de que, sim, a todo sofrimento a descoberta científica faça corresponder uma pílula, para toda dor se encontre um analgésico. (...) Só o que é narrado é o sucesso das novas técnicas da medicina. Raramente seus fracassos – talvez porque ouvi-los nos inquiete, sendo a queda do valor de certas ações nas bolsas uma representação desse mal-estar.
Ao narrar os feitos das novas técnicas médicas produzem-se matérias e manchetes espetaculosas, que prometem curas, desvendam os mistérios do corpo e da mente e propagam medicamentos e equipamentos que estão à disposição de médicos. “Em muitos casos, a informação se confunde com releases emitidos pela indústria da saúde, sem que o receptor (leitor, radiouvinte ou telespectador) seja avisado dos interesses do produtor da informação” (BUENO, s/d). Além do mais, muitas das histórias provenientes de releases podem ser plantadas.
Desse modo, as notícias sobre pesquisa em medicina expressam “a ideia de representação de todo e qualquer sofrimento na forma de doença, que por consequência deve ser passível de tratamento, tratamento este que é ou será ‘descoberto’ pela ciência” (LUIZ, 2006, p.61). A mídia elege o medicamento como símbolo da saúde, que “está concretamente naquele comprimido ou naquela gota. Ele ou ela são a saúde, representam a saúde” (LEFÈVRE, 1991, p.67).
a possibilidade mágica que a ciência, por intermédio da tecnologia, tornou acessível de materializar, representar, numa pílula ou em algumas gotas, este valor/desejo, sob a forma de prevenção, remissão, triunfo definitivo (na cura) e reproduzindo no dia a dia (no controle), sobre o cortejo de males do corpo e da alma que afetam o homem, e sobre as ‘carências’ ou ‘limitações’
inerentes à condição humana: medicamentos geriátricos contra a perda da memória, vitaminas contra a calvície etc... (p.23)
A saúde deixa de ser uma característica do ser bem formado biologicamente e passa a ser representada por meio de serviços ou mercadorias, “algo que se obtém ou reobtém-se, permanentemente e infinitamente, pelo consumo de substâncias (medicamentos, iogurtes etc.) ou ações (ginásticas, massagens etc.) investidas de saúde” (LEFÈVRE, 1991, p.22).
Baseada nessa imagem, a mídia ao falar sobre saúde opta por um discurso mais publicitário do que jornalístico. De acordo com Bueno (2001), consciente ou inconscientemente demonstram a intenção de antes “vender” o medicamento, o alimento indicado ou a atividade física noticiada do que de informar o leitor.
Os adjetivos são frequentes e o tom ufanista evidencia a adesão dos repórteres, ainda mais quando se percebe que as matérias não incorporam informações ou avaliações de especialistas com o objetivo de estabelecer limites ou alertar para possíveis restrições, na verdade comuns mesmo nas bulas dos remédios. São, em resumo, mensagens publicitárias, travestidas de matérias jornalísticas, ainda que não se possa levantar suspeita sobre a honestidade dos jornalistas que as redigiram, talvez envolvidos pelo teor do material com que tomaram contato ao produzirem as reportagens. O que é certo é que tentam seduzir o leitor, num esforço que tem mais de propagandístico do que informativo (BUENO, 2001).
Essas matérias têm características prescritivas e se baseiam em frases como: coma linhaça para prevenir as doenças do envelhecimento ou faça atividade física três vezes por semana. Bueno (s/d) afirma que ao promoverem a espetacularização da notícia fantasia-se a realidade e, ao mesmo tempo em que alimentam a esperança causam grande decepção. O que pode ser ilustrado no exemplo hipotético:
Descoberta a cura do câncer; Medicamento X, criado pelo laboratório Y, impede a duplicação de células cancerígenas. Frases que surgem como título e linha-fina da matéria,
que apenas no meio ou final citará, brevemente, que os estudos ainda são preliminares e só foram testados com ratos. Esse tipo de texto além de iludir o público, são matérias, muitas vezes, construídas acriticamente, sem que o jornalista questione a isenção da fonte ou os interesses econômicos envolvidos na divulgação de tal informação.
Araújo e Cardoso (2007, p.100) defendem que esse tipo de cobertura acrítica é capaz de ampliar imagens estereotipadas que serão usadas nos discursos que legitimam políticas públicas e particulares, afetam o setor de saúde e “são manejadas, com maior ou menor grau de consciência e intencionalidade, para atender os interesses em jogo.”
Diante desse quadro, Bueno (2001) afirma que é preciso chamar a atenção dos jornalistas para a importância em desempenhar um trabalho responsável e crítico. Ele não deve ser ingênuo a ponto de acreditar que existe almoço grátis (BUENO, 2009) ou que não há interesses envolvidos na divulgação de Ciência, Saúde e Tecnologia para a mídia, que não deve se comprometer com interesses particulares, mas com o bem-estar da população.
As informações que circulam nessa área não são isentas e estão atreladas a compromissos que precisam ser desvendados para que os comunicadores da saúde e a mídia em particular não funcionem, ingenuamente, como meros porta-vozes. Urge buscar a opinião dos especialistas, talvez constituindo equipes de consultores ou buscando parceria com as entidades da área, que podem ajudar na avaliação das informações, o que, afinal de contas, para eles, significa exercer plenamente a cidadania. (BUENO, 2001)
No dia em que a mídia adotar uma postura crítica e comprometida apenas com os interesses da população e aprender a questionar e duvidar das fontes, ouvindo várias versões para formar a sua, será possível alterar o senso comum existente e começar a perceber a saúde não como ausência de doença, “mas como resultado de um conjunto de fatores ou recursos que inclui a educação, as condições de moradia e de alimentação, o meio ambiente, a justiça social e inclusive a paz” (BUENO, 2006, p.8). Ou seja, enquanto cidadania.
3 TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO: DE CONCEITOS A