1.5. Ekonomik İstikrar Politikaları
1.5.3. Yapısal Değişim ve Uyum Politikaları
decisão de deportar Olga Benário para a Alemanha nazista foi um dos momentos mais obscuros da história da Justiça brasileira. Claro que a política foi definida pelo governo Vargas, embalado pelo estardalhaço da “linha dura” de plantão, fortalecida pelos humores sobressaltados pós-Levante de 1935 que imperavam no país. E, conforme acontece com a linha dura em qualquer época e em qualquer das alas do espectro político, as considerações humanitárias e os ditames da prudência dão lugar à crueldade banalizada e ao desenfreado desatino.
Olga era estrangeira, alemã de origem judaica e comunista, características que, no seu conjunto, poderiam facilmente causar um colapso nervoso num desatinado linha-dura de direita da época. Mas estava grávida de uma criança, fruto de sua ligação íntima com o capitão Luiz Carlos Prestes. E nenhuma pessoa, ainda que levemente informada, ignorava a política perversa e discriminatória aplicada pelo governo nacional-socialista germânico contra esquerdistas, judeus, ciganos, homossexuais e outros “indesejados sociais”. Hitler foi portador de infinitos defeitos, mas jamais dele se pode dizer ter sido um político que não tentou cumprir todas as suas promessas. Todas. E, cada uma delas, com detalhes, o líder nazista deu-se ao trabalho de arrolar em seu livro Meinkampf. A fidelidade às suas convicções e o empenho em realizar seus ideais constituíam-se nos elementos mais nefastos de seu caráter.
A política de extraditar Olga, grávida, foi do governo Vargas, mas a decisão final de autorizar tal ação coube ao Supremo Tribunal Federal. Após a sentença, o presidente Vargas, como era de se
esperar, negou conceder indulto. Olga foi embarcada num cargueiro alemão, que, sem escalas em outros portos europeus, para evitar manifestações de protestos organizadas pela campanha internacional pela libertação da prisioneira, aportou na Alemanha. No cais, um destacamento da Gestapo aguardava Olga. Esta foi levada para o presídio de mulheres de Barnimstrasse e lá deu à luz a menina que se chamaria Anita Leocádia.
Do presídio, Olga enviou uma carta escrita na língua francesa para Leocádia, que se encontrava em Paris ajudando a coordenar a campanha pela soltura dos presos políticos brasileiros. Na carta, revela o nascimento da menina. Leo cádia providencia para que uma cópia fosse enviada ao Brasil,
aos cuidados do advogado Sobral Pinto, para que este, com o denodo que lhe era peculiar, fizesse chegar a missiva ao capitão Prestes:
Berlim, 31/1/1937 Querida mãe:
Acabo de receber suas cartas de 1º e 9 de janeiro. Você pode imaginar a alegria que me deram. Antes de mais nada, quero informá-la de que você é avó. No dia 27 de novembro, dei à luz a pequena Anita Leocádia. É uma menina saudável e nasceu pesando 3.800 gramas. Ela tem cabelos negros e grandes olhos azuis. Ela se desenvolve bem e seu sorriso torna menos triste a minha situação. Faço o possível para que nada lhe falte. Eu a amamento e tenciono fazê-lo enquanto me seja possível.
Atualmente, estou em “detenção de proteção” (Schutzhaft) e, mais preciosamente, na enfermaria de uma prisão feminina. Por ocasião do parto, houve complicações e estive doente. Mas agora superei tudo isso.
Você me pergunta quantas vezes por mês pode me escrever. Segundo o regulamento da prisão, tenho o direito de receber uma carta a cada 10 dias. Fico feliz de poder mantê-la ao corrente do desenvolvimento de minha filha. Peço-lhe que, por sua vez, me escreva tudo o que saiba sobre a situação do Carlos. Desde 23 de setembro, isto é, desde o dia em que fui expulsa do Brasil, estou sem notícias dele. Quando eu estava lá, podíamos nos corresponder de tempos em tempos. Depois do nascimento da menina, eu mandei uma carta para ele, mas até agora não tive resposta. Eu
gostaria que você me enviasse, em uma de suas próximas cartas, uma fotografia de Carlos, pois não tenho nenhuma aqui.
Querida mãe, esperarei com impaciência a sua resposta. Com meus melhores votos de boa saúde...
Beijos de sua filha Olga.72
Além da carta de Olga, foi enviada uma missiva escrita por Leocádia, com um breve complemento de autoria da irmã de Prestes, Lygia, cabendo ao doutor Sobral fazer com que chegassem ao destinatário. Claro que nada foi fácil. Sobral teve de se desdobrar, pois os agentes da Polícia Especial – nessa época, Prestes ainda estava preso no quartel dessa corporação – tudo fizeram para impedir que o advogado cumprisse sua tarefa. Viu-se, mais uma vez, obrigado a enviar requerimento ao juiz Raul Machado, para que este lavrasse uma autorização especial para que o prisioneiro recebesse a correspondência. Sobral, após algum esforço, teve êxito. Certa feita, conseguiu até fazer chegar ao capitão Prestes uma madeixa de cabelos de sua filhinha Anita Leocádia.
Mas vejamos as situações dos presos Olga e Prestes. Olga Benário estava inapelavelmente condenada. Os nazistas, porém, diferentemente das autoridades brasileiras, seguiam o regulamento. De acordo com as regras da prisão germânica, que valiam para todos os presos, ela tinha o direito de receber cartas a cada dez dias e rigorosamente as recebia. Tinha direito de enviar correspondência, e os funcionários do III Reich providenciavam com presteza o envio. No Brasil, a despeito das leis, das regras e da razoabilidade, o capitão Prestes passou longos períodos incomunicável. Dependia dos esforços do advogado Sobral Pinto, de sua incansável faina em visitar juízes, ministros, de escrever requerimentos, memorandos, protestos, de atracar-se com tenentes de cavalaria, para que seus direitos – a lei, ora, a lei! – de vez em quando fossem respeitados. Mas os nazistas seguiam o regulamento. Ciosamente obedeceram as Leis de Nuremberg e, depois, com minúcia fordista, colocaram em prática a “Solução Final”. Por causa disso, Olga Benário, com a colaboração do governo brasileiro, para gáudio da linha dura e com a anuência do Supremo Tribunal Federal, foi morta numa câmara de gás em Bernburg, no dia 1º de fevereiro de 1942.
Restava o destino da criança Anita Leocádia. Nesse ponto, é bom lembrar mais uma vez de um indispensável aspecto: os nazistas seguiam o regulamento. Leocádia, a avó, não queria medir esforços para tirar a neta da Alemanha. Anita era filha de um brasileiro; tinha, portanto, parentes que poderiam cuidar dela fora do território do Reich. Não era uma criança que teria de viver em orfanato porque a mãe estava presa e não tinha pai. Valia a pena tentar. A própria resgatada, a professora Anita Leocádia Prestes, conta esta história:
E um fato que contribuiu muito para aproximá-los foi o Dr. Sobral ter sido muito importante para salvar a minha vida. Ou seja, minha avó foi várias vezes à Alemanha, junto com advogados. Mas a Gestapo, na Alemanha, não reconhecia a família paterna como família. Não existia um documento de casamento. Meus pais não eram casados. Estavam na clandestinidade. E comunistas, naquela época, não casavam de papel passado.
Eles estavam clandestinos, com nomes falsos. Não havia papel que provasse que eles eram casados. Este era um pretexto para a Gestapo não reconhecer minha avó como parente.
Este era um grande problema para me resgatar da prisão. Mais uma vez, minha avó se dirigiu ao Dr. Sobral, explicou o que estava acontecendo. O Dr. Sobral foi incansável, meu pai reconhecia. Ele quebrou lanças para conseguir levar um tabelião dentro da cela, na prisão para ele fazer o reconhecimento de paternidade. Foi muito difícil. O Dr. Sobral era muito persistente, quebrava lanças!73
A Gestapo brandia o regulamento. Não havia qualquer documento oficial que comprovasse que Anita Leocádia era filha de um cidadão brasileiro. Se existia uma união entre Prestes e a prisioneira Benário, onde estava a certidão de casamento? Era indispensável algum documento oficial escrito que comprovasse qualquer destas alegações. A burocracia germânica de todas as épocas e de todos os credos políticos cultivava uma veneração religiosa por documentos. Uma prova disso: após a queda da Alemanha, os aliados capturaram um verdadeiro mar de documentos comprovadores de diferentes crimes cometidos pelo Estado nazista. Todos eles em várias vias e cuidadosamente classificados. As montanhas de documentos apreendidos pelos Aliados facilitaram sobremaneira os trabalhos dos promotores nos julgamentos de Nuremberg. Era tanto papel que o tamanho da
fogueira necessária para destruí-los, evitando que os Aliados se apossassem deles, escapava às condições do humanamente possível.
Assim, a Gestapo exigia um papel; nada faria sem um documento. Não porque fizessem questão de reter a criança na Alemanha, pois, poucos anos mais tarde, com a “Solução Final”, meninas de origem similar à de Anita Leocádia seriam, aos milhares, condenadas a um triste destino. Queriam um papel pelo simples fato de “esse ser o procedimento”. Os sisudos oficiais da Gestapo, do alto de sua arrogância, vestida em uniformes impecáveis, olhando através do monóculo com irrefreável desdém, poderiam ter pensado que tal exigência causaria paralisia naquela gente brasileira, latinamente desorganizada, lusitanamente confusa e tropicalmente ineficiente. Ledo engano. Desconheciam que no Brasil, de modo muito parecido aos usos germânicos, havia um sentimento ímpar na valorização do papel, do carimbo e da firma reconhecida. Certidões também podiam ser tratadas como se fossem objetos sagrados, dignos de culto. A burocracia era uma herança dos tempos coloniais, alvo de devotada idolatria.
Leocádia encarregou o doutor Sobral de levar a cabo o desafio. Devia lavrar uma certidão de paternidade, em que o capitão Prestes reconhecia Anita como sua filha. Mover céus e terras em face à eterna má vontade das autoridades brasileiras e obter autorização para levar um tabelião até a prisão para que tudo fosse oficial. Tinha ainda que conseguir a tradução do documento para a língua alemã, autenticar tudo e depois providenciar seu envio para as autoridades nazistas. Anita Leocádia conta:
Voltando ao caso do Dr. Sobral, ele quebrou lanças. Conseguiu levar o tabelião dentro da prisão. Meu pai assinou o atestado de paternidade, o reconhecimento de paternidade.
E isto num prazo limite, em final de setembro de 37, 1º de outubro, foi decretado estado de guerra. Aí, fecharam-se todas as portas. Ele não teria conseguido.
O Dr. Sobral fez todo o esforço. Teve que reconhecer mil firmas, mil carimbos. Tradução juramentada para o alemão. E mandou direto para a Alemanha, para a Gestapo. Isso foi muito importante para que a Gestapo fosse obrigada a reconhecer minha avó como parente.74
Anita comenta que seu caso começava a causar comoção internacional. O governo nazista se sentia incomodado com a questão:
Sem este documento não teriam conseguido. Claro, teve muito apoio da campanha internacional, a pressão. A Gestapo já estava louca para se ver livre de mim. Havia muito barulho em torno disso.
Era uma criança que corria risco de ser entregue a um orfanato nazista. Isso comovia a opinião pública mundial. Eles já estavam querendo se livrar desta criança que estava atrapalhando a propaganda nazista.75
Em carta remetida à Leocádia Prestes, datada de 25 de setembro de 1937, doutor Sobral relata que já havia resolvido toda a questão da documentação relativa à Anita.
[...] Nesta data envio, diretamente, à Gestapo uma certidão com a respectiva versão alemã, da escritura de reconhecimento da menor Anita Leocádia, cujo traslado seguiu com a carta que dirigi, em 22 do corrente, a V.Exa.
Julgo que, com estas providências, não me mostrei infiel aos compromissos que assumi para com V.Exa., no sentido de regularizar, à sombra dos recursos que o direito nos faculta, a situação, ainda tão penosa, da nora e da neta de V.Exa. [...]76
Estando em posse do “papel oficial” e com o intuito de fazer cessar a campanha internacional por causa da criança, a Gestapo e o governo nazista transferiram a guarda de Anita Leocádia para a avó. Anos depois, ainda menina, quando finalmente, após a soltura de seu pai, pôde pisar em solo brasileiro, a primeira providência que Luiz Carlos Prestes desejou tomar foi levar sua filha à residência de Sobral Pinto. Queria que o advogado conhecesse pessoalmente a criança que ajudara a salvar. Queria que a filha agradecesse pessoalmente os préstimos, o “quebrar de lanças” do doutor Sobral:
Neste caso, parece que ele ficou muito sensibilizado. Ele tinha uma filha da minha idade, a Gilda. Ele ficou muito sensibilizado com esta questão. Tanto que depois ele se considerava meu segundo pai. Sempre que ele se encontrava comigo, ele dizia que se considerava meu segundo pai. Realmente, ele teve um papel fundamental em salvar minha vida. Isto é indiscutível!77
O capitão Luiz Carlos Prestes, líder comunista, sempre reconheceu publicamente sua gratidão ao liberal-conservador e católico Sobral Pinto pelos seus préstimos como advogado. Mas, na arena das conjecturas, nada se compara com o seu sentimento pelo serviço que o advogado prestou no resgate de sua filha Anita. Por sua vez, o liberal-conservador e católico Sobral Pinto atuou como advogado do líder comunista com toda a boa vontade e sem hesitação; e dentre todas as providências que se desdobrou em favor de seu patrocinado, nada se compara com a sensação de satisfação que sentiu, graças ao papel que desempenhou no resgate de Anita. Prestes passou o restante da sua vida muito ligado ao advogado que, a despeito de todas as dificuldades aparentemente intransponíveis para qualquer profissional competente, conseguiu tirar Anita Leocádia do jugo nazista. Prestes era apaixonado por aquela criança que conheceria perto de nove anos, em 1945.
72. Tradução da carta de Olga Benário para Leocádia Prestes, 31/1/1937, in: PINTO, Sobral. Por que defendo os comunistas, p. 63.
73. PRESTES, Anita Leocádia. Depoimento, 2013.
74. PRESTES, Anita Leocádia. Depoimento, 2013.
75. Idem.
76. Idem.