O programa de comemorações definido pela Comissão de Homenagens à FEB não se limitou apenas à organização do desfile. Nele estavam previstas também cerimônias restritas ao alto comando do Exército brasileiro e norte-americano (ver tabela a seguir). A programação deixa clara a reprodução da hierarquia característica do universo militar que, em alguma medida, reproduzia a própria hierarquia social responsável pela separação de oficiais e praças em grupos distintos. O ponto alto do programa foi, sem dúvida, o desfile. Evento único de congraçamento nacional, reunindo o “povo da cidade” no qual, independentemente da posição socioeconômica, eram compartilhados os mesmos valores e o sentimento de pertencimento à Pátria, nesse momento, sem dúvida, com P maiúsculo. Foi nessa originalidade que residiu a excepcionalidade desse evento. E como era de se esperar, a propaganda estado- novista, voltada para a exaltação dos valores cívicos e patrióticos, utilizou o evento como força aglutinadora em torno de seu projeto de unificação nacional.
HORÁRIO PROGRAMAÇÃO OFICIAL54
9 h Atracação do navio General Meighs ao armazém 10, no porto do Rio de Janeiro 9 h e 15 min. Visita dos generais Clark e Critenberg a bordo do General Meighs, a fim de
cumprimentar os combatentes da FEB
9 h e 30 min. Visita do presidente Getúlio Vargas a bordo do General Meighs, acompanhado dos Ministros da Guerra e da Aeronáutica, generais e outras autoridades
10 h e 45 min.
Início do desembarque das tropas 12 h e 30 min Formação para o desfile
14 h Início do desfile
17 h Recepção no Palácio do Exército, oferecida pelo Ministro da Guerra e senhora Eurico Dutra, ao general Clark e esposa.
20 h e 30 min.
Banquete na embaixada dos EUA, oferecida pelos generais americanos ao mundo oficial.
No dia do desfile, a população amanheceu nas ruas, vinda de todos os cantos da cidade para ver de perto os combatentes. Amontoados nas janelas dos edifícios, agitavam bandeiras e atiravam serpentinas e confetes expressando todo o seu contentamento com o retorno vitorioso da FEB (Figuras 4 e 5). O número de pessoas que compareceu ao evento superou em muito a expectativa dos organizadores. Desde cedo a Avenida Rio Branco ficou intransitável e “não houve policiamento capaz de conter a vibração e o entusiasmo do povo à passagem dos heroicos patrícios.”55 Ao anunciarem, através dos altos falantes, a chegada do
presidente Getúlio Vargas uma grande massa se acumulou em frente à tribuna oficial e, “entre vivas e aplausos, ali permaneceu durante quase vinte minutos”,56 atrasando o início do desfile
(Figura 6). Durante as três horas em que desfilaram foram exaustivamente aplaudidos. Parte do público, não satisfeito em apenas aplaudir, se acotovelava para chegar o mais próximo possível dos combatentes. No tumulto, muitos tiveram seus emblemas arrancados dos uniformes para serem levados como souvenirs. Em um determinado momento, a população invadiu a Avenida Rio Branco obrigando a infantaria a desfilar em fila única. “Estabeleceu-se um verdadeiro delírio.”57
54
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 de julho de 1945. Seção1, p.1.
55
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 19 de julho de 1945. Seção1, p.1. (grifo meu)
56
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 19 de julho de 1945. Seção1, p.1. Alguns periódicos como O Jornal e Diário Carioca contestam essa versão dos fatos como será possível conferir mais adiante.
Nos dias subsequentes ao desembarque da FEB as homenagens continuaram ecoando entre a população. Na capital, a festa não terminou após o desfile. Em muitas vilas e ruas enfeitadas, vizinhos, amigos e parentes organizaram recepções de boas vindas para comemorar a chegada dos combatentes em suas casas. Apesar do inesquecível momento de glória que experimentaram no desfile pelas ruas do Rio de Janeiro – e que, a maioria deles, nunca mais voltaria a vivenciar –, a expectativa era voltar para casa. Para os que residiam em outros estados, não sem razão, a expectativa era ainda maior. As questões administrativas que precisavam resolver com o Exército antes de retornar para suas cidades de origem, os impediu de voltarem todos juntos de uma só vez. Por isso, foram chegando aos poucos, mas a despeito disso, seu retorno não deixou de ser comemorado com festa em suas várias localidades de origem. Fogos de artifício anunciavam a todo momento a chegada de mais um combatente em um dado lugar do Brasil. Em toda parte eles eram alvo de curiosidade e admiração. O assédio da população em geral e, em especial, das moças fazia-os se sentirem como artistas de fama internacional. Facilmente reconhecidos pelo uniforme da FEB eram, com frequência, cercados nas ruas por desconhecidos ansiosos em ouvir suas histórias de guerra. A farda, marca da identidade do combatente, era então usada como um troféu e um símbolo, o mais visível, da nova identidade heroica. Assim, embora o Exército tivesse proibido o uso dos uniformes da FEB logo após o licenciamento, muitos ignoraram, enquanto foi possível, essa determinação e continuaram circulando fardados pela cidade “para aparecer e aproveitar estes minutinhos de glória” (RIBEIRO,1999:182). A notícia divulgada no Jornal do Brasil, vinte e sete dias após o desembarque do primeiro escalão da FEB, revela que os trâmites burocráticos no licenciamento dos oficiais e praças representavam, muitas vezes, entraves – dos quais alguns combatentes se valiam para continuarem usando a farda – no cumprimento das determinações do alto comando do Exército.
As autoridades encarregadas do desembarque, alojamento e licenciamento dos oficias e praças da FEB determinam que o licenciamento se processe dentro de oito dias e que os comandantes das unidades e frações tomem todas as medidas necessárias comparecendo diariamente ao Estado Maior da FEB do Interior, a fim de esclarecerem quaisquer entraves que encontrem nesse serviço. Foi estabelecido ainda, que as praças licenciadas não poderão usar o uniforme da FEB e terão, oficiais e praças, dez dias, após a chegada ao Rio, para readaptar os seus uniformes, obedecendo na íntegra ao plano em vigor58.
Ao mesmo tempo signo de diferenciação – não só em relação aos civis, mas dentro do
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próprio universo militar, designando graus hierárquicos – e uniformidade, a farda anula a identidade civil e confere ao usuário, em tempos em que o “prestígio da farda” ainda estava em alta, inquestionável autoridade (CASTRO,1990). O corpo passa, então, a ser usado como suporte sígnico, com a intenção de assegurar o respeito e a admiração dos demais. Ao ser reconhecida como símbolo de poder, e no caso da grandeza típica dos heróis, a farda autoriza determinados comportamentos, transformando seus portadores em depositários de toda uma tradição militar. Nesse contexto, vestir a farda da FEB tem uma representação análoga, evidentemente guardadas as devidas proporções, ao uso dos uniformes pelos super-heróis. O que seria do Batman proibido de usar seu cinto de utilidades ou do Homem de Ferro impedido de vestir sua armadura? Reside nesse ponto, carregado de sentimentos de privação de características identitárias altamente positivas – a proibição do uso da farda –, a origem de parte dos ressentimentos combatentes da FEB com o Exército. Em ambos os casos, tanto os homens como os super-heróis dependem de seus uniformes para assegurar, de um lado, seus (super) poderes e de outro, uma situação de anonimato social. Para os super-heróis a identidade secreta, além de garantir a ocultação de sua existência como “civil” – necessária para se preservarem, visto que alguns mantêm relações ambíguas com o poder institucional, e, também, para protegerem seus amigos e familiares de possíveis inimigos –, afirma a continuidade entre uma existência mundana e uma existência heroica (NEVES, 1979). O uso do uniforme é, assim, uma prática que “esconde” a identidade civil, o que para os combatentes da FEB é uma maneira de reforçar sua identidade militar e, portanto, está longe de ser um problema ou representar risco de vida, como ocorre com os super-heróis.
A farda, no caso a da FEB, é a pele do herói; aquilo que carimba seu passaporte para sair do anonimato. Retirar isso dele significa, portanto, despi-lo, colocá-lo nu; humilhá-lo moralmente. Ao ficar proibido de usar a farda, o veterano é despido de seu referencial porque desvinculado dos símbolos que (in)formam sua identidade. O fenômeno é semelhante ao identificado por Erving Goffman (1988) ao analisar a experiência dos condenados à prisão. O processo de ingresso dos detentos em instituições disciplinares é descrito pelo autor como uma despedida da vida em sociedade e o começo de uma existência marginal despersonalizada. A transição entre esses dois momentos caracterizam um ritual de humilhação marcado pela nudez. Ao despir-se de suas roupas, objetos pessoais, documentos e vestir o uniforme penitenciário, o encarcerado perde sua identidade anterior e passa a sujeitar- se às normas estabelecidas pela instituição prisional. Podemos concluir, então, que a
desmobilização da FEB guarda, de certo modo, uma relação com o ritual descrito por Goffman na medida em que a proibição do uso da farda é vivida igualmente como um episódio humilhante que desestrutura física e psiquicamente o herói.
Sinônimo de notoriedade e motivo de orgulho, andar com a farda da FEB nos dias subsequentes ao desfile, garantia também algumas regalias. Por vezes foram surpreendidos pela camaradagem de comerciantes que deixavam as despesas por conta da casa como forma de gratidão. Mas o reconhecimento dos sacrifícios que praticaram em nome da pátria ia muito além disso. Suas realizações nos campos de batalha na Europa eram exaltadas publicamente por autoridades do Exército e do governo, contribuindo para consolidar a imagem do combatente como herói nacional. Carregadas de patriotismo, as declarações a seguir são emblemáticas nesse sentido.
Fomos à guerra. Fomos à guerra efetivamente. Não nos é preciso recordar o que foi a ação dos nossos valentes GIs e de seus ilustres comandantes. Todos eles fizeram-nos vibrar de satisfação ante os feitos que praticaram, heroicos e destemerosos, como veteranos que já fossem. (…) Eles merecem as glórias de que os devemos cercar, com a imorredoura gratidão por seus enormes sacrifícios pelo renome da nação nova e tão cheia de esperanças.59
General Mascarenhas de Moraes, comandante-chefe da FEB
Vossos filhos, mães brasileiras, souberam, com inexcedível bravura, honrar este solo cheio de tradições gloriosas.60
General Zenóbio da Costa, comandante da Infantaria
A pátria orgulha-se da vossa coragem consciente, da vossa dedicação.61
Presidente Getúlio Vargas
Partistes como uma esperança e regressais como esplêndidos heróis, confirmando o justo e elevado conceito da bravura do nosso povo, quando se bate pelas causas que empolgam a Humanidade, na defesa da dignidade humana e dos sadios postulados da civilização cristã.62
Eurico Gaspar Dutra, Ministro da Guerra
Sem dúvida, a ênfase na ousadia e ânimo do soldado brasileiro é um denominador comum nesses discursos. Mas, é possível perceber também, variações que merecem atenção.
59
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12 de julho de 1945. p.1. Declaração do general Mascarenhas de Moraes,
logo após seu desembarque no Rio da Janeiro. (grifo meu)
60
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 19 de julho de 1945. Seção1, p. 5. Declaração do general Zenóbio da Costa
antes do Desfile da Vitória. (grifo meu)
61 A Manhã, Rio de Janeiro, 19 de julho de 1945. p. 2. Getúlio Vargas em declaração à imprensa por ocasião do
regresso da FEB ao Brasil.
62 A Manhã, Rio de Janeiro, 19 de julho de 1945. p. 2. Eurico Dutra em declaração à imprensa por ocasião do
Muitas delas não se limitam apenas a uma questão de semântica, estando situadas no campo das disputas que se configuravam no cenário político naquele momento. Para começar, é notável nos jornais a profusão de declarações de militares do alto escalão do Exército em detrimento de outras autoridades políticas. Até aqui, nada demais, já que, em se tratando de um evento como uma guerra, isso era de se esperar. O que chama a atenção é o silêncio presidencial que parece se instaurar após o retorno da FEB. A frase, reproduzida anteriormente, foi a única declaração de Vargas publicada pelos jornais63 entre os dias 17 e 19
de julho de 1945, incluindo o dia do desfile. Isso, é evidente, não significa dizer que Vargas não tenha se manifestado publicamente nesses dias, mas que, nenhuma outra declaração sua mereceu destaque nas páginas dos jornais, em meio a tantas outras atribuídas a autoridades militares. Fato que, no mínimo, levanta algumas ponderações. Ele nos leva a remarcar que a maioria da imprensa, de há muito, fazia oposição a Vargas, não lhe interessando, portanto, jogar luz sobre sua figura, quando o evento tinha como sinal a derrota do nazifascismo e a vitória da democracia. Mas ele nos possibilita também relativizar a centralidade da figura do presidente naquelas comemorações da FEB e, assim, do que ele tinha para dizer. Levando em conta o reconhecido gosto de Vargas pela oratória, especialmente, em acontecimentos dessa natureza e magnitude podemos supor que o silêncio presidencial tenha sido uma escolha politicamente interessada, em se tratando de um momento de grande tensão dentro do Estado Novo. Os jornais dão conta de que Vargas foi a bordo do navio General Meighs e discursou para o 1º escalão antes de seu desembarque no porto do Rio de Janeiro, mas também não reproduzem essas palavras, mesmo aqueles periódicos que apoiam seu governo64. Vale
destacar ainda, que o curto pronunciamento foi divulgado em nota à imprensa, por solicitação da direção do jornal A Manhã na ocasião do retorno da FEB.
Se por um lado faltaram palavras, por outro, sobraram imagens. Pode-se supor que, talvez para compensar o silêncio presidencial, as matérias abusaram das fotos. É possível ver Vargas, especialmente nos jornais partidários do governo – nos de oposição a incidência de fotos do presidente é bem menor –, no Palácio do Catete, conversando com o general Mascarenhas de Moraes após seu desembarque no Rio de Janeiro; no palanque montado para as autoridades no desfile, recebendo as autoridades militares norte-americanas; e em outras
63
A declaração foi reproduzida pelos jornais A Noite e A Manhã no dia 19 de julho de 1945. Além desses periódicos, nesta pesquisa foram analisados também: Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Diário Carioca, O
Jornal, Gazeta de Notícias. Os periódicos cariocas foram priorizados pela ampla cobertura que efetuaram do
diversas situações que exigiam sua presença como chefe do Estado. Como não poderia deixar de ser, Vargas esteve presente em todas elas, cumprindo o protocolo. Porém, sem discursos característicos dos últimos quinze anos em que esteve na presidência da República. Nos periódicos que fazem oposição ao governo, com destaque para o Diário Carioca e O Jornal, o silêncio presidencial no evento é atribuído à crise política atravessada pela ditadura varguista, ainda mais ameaçada, segundo suas interpretações, pelo o regresso da FEB. O jornal Diário Carioca, ferrenho opositor do Estado Novo, situa Vargas como um coadjuvante no episódio do desfile. Segundo notícia publicada em suas páginas, sob o título “O ditador à
caça de aplausos”65, o presidente passaria desapercebido não fosse o grito dissonante de um
ou outro queremista a saudá-lo diante do palanque oficial. Ainda de acordo com esse relato, o presidente estava “visivelmente contrariado” e, por várias vezes, bocejava em função do atraso para o início do desfile, o que contrastava com a atitude dos generais norte-americanos e outras autoridades, que aguardavam pacientemente. Em determinados momentos até sorria, com seu “sorriso de Gioconda”, para em seguida voltar a ficar indiferente. Uma narrativa que, claramente, atribui ao presidente uma conduta desinteressada e, pior, desrespeitosa, sobretudo em contraste com os militares. Mas, a despeito de seu suposto silêncio, das versões que se construíram sobre a sua presença no evento – seja protagonizando ou coadjuvando – e dos usos políticos que dela se fizeram, não se pode negar que Vargas foi um dos importantes sujeitos históricos na encenação do mito dos “heróis da FEB” vivenciada nesse momento de transição em fins do Estado Novo.
Desde 1930 não se realizavam eleições diretas para presidente no Brasil. No ano de 1945, a redemocratização do país mobilizava a população e era, inevitavelmente, tema recorrente nos jornais. Três partidos políticos recém-criados66 foram responsáveis pela
definição das disputas eleitorais que se configuravam naquele período: a União Democrática Nacional (UDN), frente nacional apoiada pelos opositores políticos de Vargas que tinha como candidato o brigadeiro Eduardo Gomes; o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), formado pelo operariado urbano sindicalizado que, posteriormente, com o aval da Vargas, entraria na campanha apoiando o general Eurico Dutra, candidato do Partido Social Democrático (PSD), criado sob o comando dos interventores estaduais nomeados durante a ditadura varguista. Além desses, o Partido Comunista do Brasil (PCB), já mais antigo, voltou à legalidade em outubro de 1945 e também concorreu as eleições, representado por Iedo Fuíza. Embora não
65
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 19 de julho de 1945. p. 3.
seja minha intenção nesse ponto analisar a fundo essas disputas, acredito ser importante fazer algumas observações sobre seus desdobramentos nas comemorações da FEB.
Fundado, em convenção nacional realizada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, apenas um dia antes do desfile, o PSD lançou a candidatura do general Dutra à presidência da República na tentativa de fazer frente à UDN, que se organizara antes, praticamente desde o mês de fevereiro, quando se começara a falar da candidatura de Eduardo Gomes. O episódio, fartamente documentado nos jornais, deixava antever o clima de incertezas que culminaria, em dezembro de 1945, com o golpe que afastou Vargas da presidência. Assim, realizado em pleno momento de efervescência política, o desfile da FEB transformou-se em palco dessas lutas político eleitorais. A UDN, cuja campanha, até então, crescia impulsionada por alguns jornais, tentou também marcar presença no desfile, mas foi impedida por ação dos organizadores. Em matéria publicada no periódico O Jornal67, a direção da UDN protestou contra a retirada da faixa do partido que saudava a FEB. A notícia informa que apenas a faixa do PC foi mantida e suspeita que o uso abundante da palavra democracia nas legendas udenistas possa ter sido o principal motivo da censura. Os acontecimentos atestam que a democracia era, de fato, o ponto nevrálgico das disputas que se travavam no campo político. Vargas, mais uma vez, optou pelo silêncio durante a maior parte da campanha presidencial. Foi somente na semana anterior ao pleito, quando o presidente já tinha sido deposto, que ele, de São Borja, declarou seu apoio ao candidato do PSD, fator que foi decisivo para sua vitória.
O processo da redemocratização em curso durante o ano de 1945 delineava um momento favorável para o Exército. Com o regresso da FEB, a ditadura varguista, que já dava sinais de falência, foi definitivamente asfixiada, assegurando a presença dos militares no novo cenário político que se configurava. Os acontecimentos que se sucederam comprovam isso. Poucos meses depois do desfile, com o fim do Estado Novo, o general Eurico Gaspar Dutra foi eleito presidente numa disputa em que o outro principal candidato, é significativo lembrar, era também membro das Forças Armadas. Ao contrário de Vargas, que foi econômico nas declarações sobre a FEB, o alto escalão do Exército, em especial, os generais Eurico Dutra, Zenóbio da Costa e Mascarenhas de Moraes, em todas as oportunidades manifestaram-se de maneira bastante eufórica, exaltando a coragem e determinação de seus soldados. O reconhecimento do público, que aplaudiu a passagem dos combatentes podia também ser sentido nos discursos eloquentes proferidos pelas autoridades militares. Ambos, anônimos e
ilustres, através de suas ações e palavras, estavam engajados na tarefa de glorificar a memória da FEB. Isso é verdade tanto para aqueles que testemunharam o evento, quanto para aqueles que acompanharam, posteriormente, sua repercussão nas agências de notícias. Principais veículos de comunicação na década de 1940, os jornais, o rádio e o cinema, adquirem neste contexto extrema relevância. Usados a serviço da catequese cívica, incutiam na memória