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Os preparativos para o desfile começaram antes mesmo do embarque da FEB em Nápoles. Autoridades do governo e do Exército trabalhavam juntas para garantir o sucesso do evento. Exemplo disso foi a criação da Comissão de Homenagens à FEB presidida pelo, então, general José Pessoa39 e encarregada não apenas da organização do Desfile da Vitória,

mas também da aprovação e operacionalização de diversas outras cerimônias, que ocorreriam para comemorar a FEB. Figura do alto escalão do Exército, com bom trânsito dentro do governo, a escolha do general, conhecido por sua atuação na preservação das tradições militares, revela a importância e o peso desses eventos naquele contexto. Mais de dez dias antes da chegada da FEB, os jornais começaram a divulgar informações do Ministério da Guerra sobre as providências que estavam sendo tomadas para o desfile.

39 José Pessoa era sobrinho de Epitácio Pessoa, presidente da República de 1919 a 1922, e irmão de João Pessoa,

cujo assassinato desencadeou a Revolução de 1930. Sobre sua contribuição na invenção das tradições do Exército e na oficialização do culto a Caxias, ver artigo de Celso Castro (1994). Para uma biografia de José

O Ministério da Guerra continua a fornecer diariamente à imprensa detalhes acerca das homenagens que serão prestadas aos nossos bravos expedicionários, no seu regresso do front italiano, onde tão alto levantaram o nome do Brasil desafrontando a honra nacional, que fora vilmente ultrajada pelo nazifascismo.

O pessoal da FEB, por ocasião do desembarque no cais do porto, não poderá tomar contato imediato com suas famílias e amigos, devido à organização do desfile em que tomarão parte. Uma vez realizada a parada, os nossos patrícios rumarão para a Vila Militar e Realengo, onde ficarão alojados, em quartéis especialmente construídos. Por ocasião do embarque para aqueles setores, na estação D. Pedro II, os expedicionários poderão receber suas famílias e amigos, que lhes apresentarão as boas-vindas.

A fim de proporcionar o maior conforto às famílias dos expedicionários, por ocasião do desfile, as autoridades militares mandaram reservar locais especiais e construir palanques de forma que possam dali assisti-lo satisfatoriamente.40

Os preparativos demonstram a intenção de transformar o acontecimento, único na história do país, num ritual cívico de grande apelo popular. A singularidade do evento levou o presidente Vargas a decretar o dia 18 de julho de 1945, data do desfile, feriado nacional. A iniciativa tinha como objetivo viabilizar a presença de um grande número de funcionários públicos, “bem como do povo em geral, para o maior brilhantismo dos festejos, em homenagem aos nossos bravos patrícios.”41 O texto do decreto-lei nº 19.220, de 18 de julho

de 1945, que instituiu o feriado, revela o projeto do governo de inscrever o desfile, na memória nacional, como um episódio raro de congraçamento popular.

O presidente da República,(...) considerando ser motivo de regozijo nacional o regresso do primeiro contingente da Força Expedicionária Brasileira; considerando a alta significação histórica desse acontecimento;

Decreta:

Art. 1º O dia 18 de julho de 1945, data do regresso do primeiro contingente da Força Expedicionária Brasileira, é declarado feriado em todo o território nacional.42

Garantir a audiência era fundamental para o sucesso do evento. Afinal, o público que tomaria parte nesse espetáculo não era mero coadjuvante. A população conclamada a assistir

40

Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 05 de julho de 1945. Seção1, p.9. (grifo meu)

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de julho de 1945. Seção1, p.7. (grifo meu)

42 Disponível em: http://www2.camara.gov.br/legin/fed/decret/1940-1949/decreto-19220-18-julho-1945-469602-

ao desfile, tinha um papel tão importante como o dos próprios combatentes que desfilariam. Sua presença legitimaria e consagraria aquele episódio na história da nação. Assim, logo pela manhã, as estações de rádio e os jornais começaram a divulgar a decretação do feriado. A notícia rapidamente se espalhou entre a população, o comércio fechou suas portas e o movimento nas ruas se intensificou bastante. A Prefeitura providenciou a ornamentação dos postes de iluminação das principais ruas da cidade com flâmulas que ostentavam um escudo representando a FEB, a Esquadrilha da FAB e o IV e V Exércitos Americanos. Em frente à Câmara e ao Teatro Municipal foi erguido um pórtico monumental, em forma de Arco do Triunfo, através do qual desfilaram “os heroicos expedicionários que constituem o 1º Escalão da FEB”43 (Figura 1).

Alunos representantes das Escolas Naval e de Aeronáutica e Militar, do Colégio Militar, do Corpo de Fuzileiros Navais e de todos os demais estabelecimentos de ensino do Exército, comandados por um oficial, prestaram suas homenagens, compondo uma guarda de honra formada em alas para saudar a passagem dos combatentes. As escolas municipais também marcaram presença no desfile, representadas pelos mais de dois mil alunos que formaram alas no trecho da Avenida Rio Branco, compreendido entre a Praça Mauá e a Rua Visconde de Inhaúma. A participação das escolas municipais no desfile era parte de um projeto mais amplo de engajamento das unidades escolares nas cerimônias de comemoração pelo retorno da FEB. Além disso, o Secretário Geral da Educação e Cultura deu orientações para que fossem realizadas atividades cívicas em homenagem aos combatentes, bem como determinou a organização de solenidades escolares nas quais os combatentes seriam convidados, juntamente com suas famílias, para contar suas experiências durante a guerra. Os alunos foram orientados, ainda, para que solicitassem aos pais a ornamentação das fachadas de suas casas com as cores da bandeira nacional, reafirmando o sentimento patriótico que tomava conta da população naqueles dias.

Tais medidas estavam perfeitamente articuladas a um conjunto de ações do Estado Novo, que pretendia integrar os estudantes brasileiros nas comemorações cívicas promovidas pelo Estado Novo. Caberia ao governo, através dessas ações, despertar ainda mais o sentimento nacionalista e fortalecer a identidade brasileira. Com apoio do Ministério da Saúde e Educação (MES) e do DIP, foi instituída, durante esse período, a comemoração de datas nacionais, como a Semana da Pátria, e a criação de novos feriados no calendário escolar

como, por exemplo, o Dia da Juventude, festejado no dia 5 de setembro (GOMES,1994). A dramatização encenada nessas comemorações era uma importante estratégia – que se somava a diversas outras, características do Estado Novo, como a propaganda oficial, a censura e o controle policial – , que tinha a tarefa de consolidar a unidade nacional e fomentar entre a população sentimentos de amor à pátria. O controle disciplinar sobre os jovens e sua integração ao corpo da nação promovidos nas comemorações cívicas, faziam da juventude peça-chave nessas dramatizações44. Nesse contexto, podemos afirmar que o desfile da FEB

era, portanto, um momento excepcional e pedagogicamente propício para a coroação entusiástica do ideal patriótico exaltado pela ditadura varguista. A participação maciça das escolas no evento não deixa dúvidas de que o governo soube aproveitar muito bem essa oportunidade.

Mas as iniciativas para a comemoração do retorno da FEB não partiram apenas do poder público: algumas organizações privadas de natureza diversa como clubes, agremiações desportivas e sindicatos também se manifestaram, evidenciando, assim, a diversidade de sujeitos históricos que contribuíram para a consagração dos “heróis da FEB”. O Sindicato dos Lojistas do Comércio do Rio de Janeiro foi um dos que se mobilizou com o intuito de “tomar parte nessas legítimas manifestações de gratidão do povo” endereçando ao comércio um apelo para que as fachadas dos estabelecimentos fossem embandeiradas e as vitrines enfeitadas na tentativa de “demonstrar a sua adesão a esse movimento de glorificação dos bravos expedicionários, inscritos com áureos caracteres no registro da gratidão nacional.”45

Outra iniciativa neste sentido partiu do Centro Cívico e Cultural da Vila Isabel, presidido pelo sr. Nestor Wanderley Curio. Em ofício à Comissão de Homenagens à FEB, o presidente do Centro Cívico e Cultural da Vila Isabel anunciou que tomaria as seguintes providências:

a) comparecer com sua Tropa de Escoteiros ao desembarque; b) solicitar ao comércio local, principalmente na Av. 28 de Setembro a iluminação e ornamentação de seus estabelecimentos; c) promover uma passagem tranquila pelas principais ruas do bairro à noite; d) inaugurar o Mastro da Vitória na praça Drumond; e) aderir e prestar todo apoio a outras iniciativas para homenagear a FEB. A inauguração do Mastro da Vitória terá caráter festivo, com desfile de escolares e agremiações desportivas, devendo falar no ato inaugural o Coronel Jonas Corrêa, secretário de Educação da Prefeitura.46

44 Sobre a importância da juventude na “cultura cívica varguista”, ver o trabalho de Maurício Parada (2003), no

qual o autor se dedica a investigar, especificamente, duas dessas comemorações: o Dia da Juventude e a Hora da

Independência.

45

Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 de julho de 1945. Seção1, p.1. (grifo meu)

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Outro importante sujeito histórico que participou ativamente da organização e das homenagens para a recepção da FEB foi a Legião Brasileira de Assistência (LBA), presidida pela então primeira-dama, Darcy Vargas47. Muito atuante também no período da guerra,

promovendo campanhas de apoio à FEB entre a população brasileira, a LBA não poderia ficar de fora dessas comemorações. A criação de cursos preparatórios para a formação de voluntárias que atuariam nas mais diferentes áreas – defesa passiva, alimentação, samaritanas socorristas, visitadoras e educadoras sociais –, a montagem de oficinas de costura para a produção de roupas e bandagens que serviriam como material para os hospitais de campanha na Itália e a arrecadação de livros que seriam doados aos combatentes, foram algumas das ações da LBA que atestam a dedicação e envolvimento das mulheres brasileiras no assistencialismo de guerra48. Entre as campanhas de maior repercussão estão: a da Horta da Vitória, que tinha como objetivo estimular o cultivo de alimentos nos quintais das casas; e a

das Madrinhas dos Combatentes. Esta última foi lançada em 5 de julho de 1944 e nasceu da necessidade de amparar moralmente os combatentes que partiram para o front. As madrinhas eram voluntárias que se dispunham a escrever cartas, com a intenção de oferecer palavras de apoio e esperança para aqueles que lutavam na Itália (Figura 2). Segundo notícia publicada no

Jornal do Brasil,49 por ocasião da comemoração de um ano da campanha, muitas foram as cartas de oficiais, sargentos, cabos e soldados solicitando apadrinhamento, e nenhuma ficou sem resposta. Aos feridos, evacuados do front, que se encontravam no Hospital Central do Exército (HCE), as madrinhas também dispensavam especial atenção, visitando-os e procurando atender, na medida do possível, suas necessidades materiais, através de doações, recebidas pela LBA. Após um ano de atividades, o balanço da campanha era bastante positivo.

(…) movimento que empolgou e comoveu as mulheres brasileiras e nossos bravos soldados, cujos objetivos – de enviar cartas e presentes aos nossos homens que lutaram além mar – foram coroados de pleno êxito, conforme 47 Criada logo após o presidente Getúlio Vargas ter declarado guerra à Alemanha com o objetivo de prestar

assistência aos combatentes da FEB e suas famílias, a LBA contava com apoio do empresariado, do governo e, principalmente, das senhoras da elite e da classe média do Rio de Janeiro, onde ficava a sede da instituição. Para uma análise mais detalhada da importância de Darcy Vargas na LBA, ver o trabalho de Ivana Guilherme Simili (2008).

48

Sobre a presença feminina no assistencialismo de guerra no Brasil, ver também da mesma autora: Educação e produção de moda na Segunda Guerra Mundial: as voluntárias da LBA. Cad. Pagu [online]. 2008, n.31, p. 439- 469.

atestam os próprios beneficiados.

O papel das madrinhas foi notável. Durante a refrega escreveram sempre aos seus 'afilhados', aplaudindo-os e os incentivando a lutar com bravura e denodo pela Pátria. E os expedicionários respondiam essas cartas, demonstrando uma gratidão imperecível pelo estímulo recebido das mulheres brasileiras.50

A “vocação” feminina em “cuidar” – seja da família, dos filhos ou, neste caso, dos soldados – foi a marca da participação das mulheres no esforço de guerra. As relações de gênero, dominantes socialmente na década de 1940, foram responsáveis pela definição clara do papel do voluntariado feminino nesse episódio. Tanto as voluntárias da LBA, quanto as enfermeiras enviadas para o front italiano, estavam, em maior ou menor grau, comprometidas com o mesmo propósito: zelar pela saúde e bem estar dos filhos da pátria. A atuação das mulheres nas questões assistencialistas durante esse período acabou trazendo para o universo público as funções maternas, que antes estavam restritas ao ambiente familiar. Esse fenômeno é reafirmado pela imagem, recorrente na propaganda estado-novista, da pátria mãe, empenhada na missão de cuidar de seus filhos. E foi mais uma vez atuando no campo filantrópico que as mulheres se fizeram presentes no Desfile da Vitória. Enquanto um grupo de voluntárias, designado para representar a LBA no desfile, se concentrava na esquina da avenida Rio Branco com a rua da Alfândega para aplaudir a passagem da FEB, outro grupo, chefiado diretamente por Alzira Vargas do Amaral Peixoto, filha do presidente Getúlio Vargas, se ocupava em providenciar a merenda que seria servida aos combatentes (Figura 3).

Intensa atividade foi desenvolvida pelas representantes da LBA, que não poupavam esforços trabalhando com o máximo de entusiasmo e patriotismo para que cada um dos soldados sentisse que a mulher brasileira soube compreender o sacrifício dos nossos valentes pracinhas.51

A imagem da mãe, associada à pátria, confere à mulher fundamental importância na recepção da FEB. Para além do trabalho realizado pelas voluntárias, a presença feminina é a representação simbólica da mãe-pátria acolhendo seus filhos/soldados na volta ao lar. A dedicação e o empenho das mulheres expressavam, naquele momento, o sentimento de gratidão da nação para com seus heróis. Sentimento compartilhado pela população – senão por

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 05 de julho de 1945. Seção1, p.9. (grifo meu)

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toda a nação, na medida em que tal afirmativa carrega em si o risco da imprecisão, apesar da repercussão e reprodução deste tipo de comemoração em outros estados do país –, que de alguma maneira tomava parte nas homenagens que consagravam os “heróis da FEB”.

Nesse sentido, além dos próprios combatentes que desfilaram, outros sujeitos históricos que estavam envolvidos, direta ou indiretamente, no desfile, – a saber: o governo, o Exército, a LBA, os estudantes e, de modo mais amplo, a população – constituíram elementos fundamentais na construção do mito dos heróis. Assegurar a audiência da plateia era, então, condição sine qua non para o sucesso dessa construção. Para isso, se fazia necessário que o público fosse informado sobre o trajeto e a programação do desfile. O Ministério da Guerra divulgava, frequentemente, nos jornais e no rádio, notícias sobre a organização do evento. A medida tinha, em certo sentido, caráter educativo uma vez que informava a população, não apenas o espaço físico que deveria ocupar – nos palanques construídos ao longo do percurso do desfile – mas, determinava também, sua função dramática no espetáculo. Consagrar e reconhecer, por meio de seus aplausos e homenagens, os feitos heroicos daqueles que desfilavam.

Assim como sua audiência, a escolha do local em que se realiza um evento, especialmente no caso das cerimônia cívicas, é motivo de grande preocupação para os organizadores52. Carregado de simbolismo, o palco dessas teatralizações é parte importante no

processo de heroicização, reafirmando o mito do herói que se quer construir. Em vista disso, o caminho percorrido no Desfile da Vitória foi cercado de cuidados e atenção. A polícia interditou o tráfego de veículos na Avenida Rio Branco e proximidades a partir das 12:00 horas e, das 13:30 em diante, a população foi orientada a deixar livre a parte central da avenida para a passagem das tropas.

O desfile teve início na Praça Mauá e seguiu pela Avenida Rio Branco, Praça Paris (contornando o Palácio Monroe), Avenida 13 de maio, Largo da Carioca, Rua Uruguaiana, Avenida Marechal Floriano, ruas Visconde da Gávea e Marcílio Dias até chegar na estação ferroviária D. Pedro II onde, finalmente, os combatentes puderam ter o primeiro contato com suas famílias. Os combatentes percorreram as principais ruas da capital onde se concentram edifícios públicos de grande valor arquitetônico, como o Teatro Municipal, o Museu Nacional

52

Os trabalhos de João Felipe Gonçalves (1999) e de Luigi Bonafé (2008) analisam essa simbologia no caso dos funerais cívicos de Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, cujos corpos foram velados, respectivamente, na Biblioteca Nacional e no Palácio Monroe. Tais escolhas foram feitas criteriosamente pelos promotores do evento, uma vez que era de grande importância que houvesse uma identidade entre o morto e o lugar onde seria realizado o

de Belas Artes e a Biblioteca Nacional que, já naquela época, tinham sido testemunhas de importantes acontecimentos na história do país. A centralidade geográfica e a carga simbólica do percurso foram fatores decisivos na sua definição, bem como as questões de ordem operacional e estratégica. Afinal, era necessário levar em conta não somente o grande número de pessoas que transitaria naquelas vias públicas no dia do evento, mas, também, o fato de que, ao término do desfile, os combatentes deveriam embarcar na estação ferroviária D. Pedro II. De lá, seguiriam até os quartéis em trens especiais e somente depois, retornariam para suas casas a fim de gozar a merecida dispensa de 24 horas do serviço militar. Os relatos dão conta de que não foram poucos os que, ansiosos pelo reencontro com a família, driblaram essa determinação e foram direto para casa após o desfile53. Apresentaram-se ao quartel militar só

na manhã seguinte sem sofrerem nenhuma punição, visto que em meio a tantas outras questões a serem resolvidas no dia do desembarque, tal fato pode ter passado convenientemente despercebido pelas instâncias superiores.